Postagem 16. A Lista de Schindler
(Schindler's List, 1993, EUA)
"Selene, eu tinha dez anos... no distante ano de 1940...
A França, meu país, havia sido derrotada pelas tropas nazistas. Hitler havia pessoalmente passeado em Paris, como quem passeia no próprio quintal...
Meus pais e eu éramos judeus...
Conforme as leis raciais de Hitler iam sendo promulgadas, meu pai, que era médico, prevendo aonde as coisas iriam chegar, arrumou uma forma de levar nossa família – ele, eu e minha mãe – para a Suíça. Ele havia pagado muito dinheiro para um 'atravessador' nos cruzar a fronteira em segurança.
Havíamos deixado nossa cidade quase que só com a roupa do corpo, e todo o dinheiro e jóias da família que podíamos carregar escondidos.
Viajamos muito...
Mas perto da fronteira com a Suíça tivemos sérios problemas. A Milícia de Vichy perseguia não só os membros da Resistência Francesa: também aos judeus. E a Milícia havia nos encontrado, há poucos quilômetros da fronteira, numa pequena estradinha! O atravessador, ao ver a Milícia, correu para o mato, que conhecia muito bem, e fugiu, nos abandonando!
Eles vinham de carro e, como nos assustamos e começamos a correr, eles atiraram. Vi quando meu pai foi baleado e caiu na estrada empoeirada!
Minha mãe me jogou para o mato e gritou:
- Corra, Hélène, corra! Não olhe para trás! Corra!
Eu corri o mais que pude mato adentro, enquanto ouvia minha mãe gritando... ouvi mais tiros... e minha mãe silenciou."
Nesse momento, os olhos de Hélène se encheram de delicadas lágrimas.
Eu não sabia o que fazer, nem o que dizer pra acalentá-la...
Ela?
Sorriu suavemente pra mim, enxugando as lágrimas, desculpando-se:
- Perdoe minha momentânea falta de compostura, Selene... mas... que coisa... isso já faz tanto tempo que já deveria ter se transformado em pó... como a morte dos pais de alguém, perante esta pessoa, a marca profundamente... ela emocionalmente nunca esquece os detalhes, embora tenha aprendido a lidar eficazmente com isso, munida de verdadeira Sabedoria...
Ela sorriu, tentando tornar o clima ameno...
E enquanto enxugava as sutis lágrimas, sua voz calma, tranquila, continuou a me narrar o que aconteceu em seguida:
"Corri, corri tudo o que as pernas de uma criança de dez anos poderiam correr... até que cruzei um campo e, nesse campo, havia um celeiro. Eu não aguentava mais de tanto correr... e exausta e sem ar, entrei no celeiro...
Alguns instantes depois eu ouvia, ao longe, homens da Milícia gritando... eu me escondi num canto muito escuro dentro do celeiro, atrás de umas caixas.
De repente, uma mão muito fria, extremamente gelada, segurou forte a minha boca, para mim não gritar. E eu ouvi, na escuridão:
- Psiu... quietinha... não precisa ter medo... não vou machucar você...
Ele saiu da escuridão completa e apareceu na penumbra... soltou-me...
Era um rapaz, um jovem muito bonito, com cabelos bem negros, muito abundantes, revoltos no alto da cabeça, parecendo até a juba imponente de um leão! Sua pele era incrivelmente branca, contrastando com aqueles cabelos tão negros. E ele era enorme! Parecia a Torre Eifell para mim, de tão alto! E seus olhos eram incrivelmente verdes, de uma beleza e expressividade que eu nunca havia visto antes, e tinham uma indescritível profundidade... O jovem estava todo vestido de branco, trajando um longo sobretudo antigo igualmente branco...
Ele se ajoelhou perante mim e me disse:
- Eu ouvi tudo... a Milícia está atrás de você... não se preocupe, eu vou protegê-la...
- Você é da Resistência? – eu perguntei, entre assustada e deslumbrada!
Ele sorriu, amável, e me disse:
- Mais ou menos... bem, pode-se dizer que eu sou membro de um tipo de Resistência sim...
O rapaz então me escondeu dentro de uma grande caixa velha de madeira, repleta de frestas:
- Não saia daí até que eu mesmo a retire, ok? Tape bem seus ouvidos e não se preocupe, tudo isso vai terminar logo... não se assuste... isso tudo é apenas um game que os adultos gostam de jogar, ok? Tudo vai terminar bem e logo!
Porém, dentro da caixa, eu estava tão assustada que não lembrei de tapar meus ouvidos e tentei espiar tudo o que podia pelas frestas...
Alguns minutos depois, dois agentes da Milícia entraram no celeiro.
E eu ouvi tiros, muitos tiros!
Em seguida ouvi essa frase, dita num tom de puro êxtase, vinda como que de bem alto do celeiro:
- Você... você já excedeu seu Karma... hora de conversarmos bem de perto!
Foi então que, espiando pelas frestas da caixa, vi que um dos agentes foi pego por trás e carregado para o teto do celeiro, para um canto muito escuro! O miliciano berrava apavorado, mas em instantes ele se calou. Um líquido escuro começou a gotejar, abundante, daquele canto do teto!
O outro agente começou a atirar sem parar para todos os lados escuros do teto do celeiro!
De repente, atrás dele, saindo da parte mais sombria do celeiro, o rapaz de branco apareceu silenciosamente. Suas mangas brancas estavam manchadas de vermelho! Ele fitou a caixa onde eu estava, sorriu amável pra mim, piscando...
Ele havia visto meus olhos pela fresta, espiando tudo!
Foi então que ele disse – em inglês e num tom bem alto, como que em êxtase – tocando suavemente com seu dedo indicador no ombro do agente:
- Surprise!
O agente se virou, afastou-se apavorado, e atirou nele várias vezes! Mas o rapaz continuou caminhando firme em sua direção! Caminhou até a parte luminosa do celeiro, onde o Sol parecia refletir-se e manifestar-se em suas roupas incrivelmente brancas. E disse, enquanto caminhava:
- Menino sortudo... teu Karma ainda te protege... que pena, não podemos conversar de pertinho... então, apenas vamos brincar!
Foi então que ele torceu e quebrou o braço do agente, como um graveto seco, arrancando-lhe a arma!
O rapaz de branco segurou a metralhadora e, com uma única mão, a entortou de tal forma que ela se tornou uma bola de aço! Ele amassou aquela arma como se ela fosse uma folha de papel! O agente estava desesperado, em pânico!
Foi então que o rapaz deu um sorriso que, de longe, parecia enfeitado por dentes caninos enormes, como os de um leão! Olhou bem firme nos olhos do agente e lhe disse isso, com um sorriso muito malicioso e sarcástico:
- Veja: estou todo de branco, sou pálido, tenho dentões, as balas me atravessam, adivinhe o que sou? A ghost, a poltergeist! Bu!
O agente caiu! Desmaiado!
O rapaz de branco ficou ali parado alguns instantes, sob os raios do Sol, como se estivesse mergulhado em puro êxtase... parecia lamber os próprios dentes com sua língua, como se tivesse se deliciado com algo que há muito não experimentava!
E naquele exato momento, uma faísca elétrica muito azul, intensa, pareceu envolver o rapaz, e uma pequena pedra, em formato de um machado de duas lâminas, caiu bem ao lado do miliciano desmaiado... e eu ouvi lá fora o som de um trovão!
O rapaz estava em intenso êxtase!
Foi então que percebi que ele se esforçou muito para não sair daquele estado... mas não conseguiu... logo retesou os músculos do seu corpo... Adquiriu gradualmente a compostura de um verdadeiro Lord, súdito do Rei George VI... Seu sorriso matreiro foi rapidamente sumindo... e um olhar tristonho, sério, como o de um menino abandonado, passou a tomar seu rosto...
Finalmente ele deu um longo e doído suspiro...
Foi só então que ele me retirou da caixa. Eu estava incrivelmente impressionada:
- Você é um fantasma mesmo?
Ele sorriu para mim, gentil e amabilíssimo:
- Não, não sou um fantasma... sou só um excelente mágico!
Eu continuei:
- Os tiros, não te pegaram! Como? Como você destruiu a arma dele?
Com um sorriso lindo, acolhedor, ele finalmente me disse a sua frase inesquecível:
- Pois eu não te disse que eu sou um excelente mágico? Pois é apenas isso: é tudo uma espécie de mágica especial que eu aprendi... você gosta de mágica?
Eu balancei a cabeça, afirmando que sim!
Ele, então, se agachou perante mim e perguntou:
- Qual o seu nome, pequenina?
E eu lhe respondi:
- Hélène... Hélène Marie Berr.
Ele sorriu amável para mim. Me olhou com aqueles seus enormes e expressivos olhos verdes e me disse, com aquele jeitinho todo especial que apenas alguns adultos tem com as crianças:
- Meu nome verdadeiro é bem complicado de se pronunciar na sua língua... é um nome de mágico, sabe? Mas pode me chamar simplesmente de Álex!
Ele, então, tocou no meu ombro e me perguntou:
- Onde estão os seus pais, pequena Hélène?
Eu não consegui dizer nada! Eu estava muito perturbada, muito assustada!
Ele então virou a cabeça para o lado, levemente, como se estivesse ouvindo alguém que lhe sussurrava algo!
Ele fez uma expressão de compaixão, voltou seus olhos meigos para mim e me disse:
- Lamento pelos seus pais... Você tem algum outro parente para mim te levar até eles?
E eu lhe disse:
- Não senhor... todo mundo morreu na guerra... restaram só meu pai, minha mãe e eu...
Eu me lembro que ele se levantou.
Caminhou de um lado para o outro...
Ficou um tempo assim, caminhando, pensativo, resmungando consigo... pude ouvir alguns resmungos, como se ele conversasse com outras pessoas:
- Já senti que ela é uma antiga iniciada... na adolescência vai manifestar seus dons... mas isso ainda não me convenceu! Por que você acha que resolveu descansar justo neste celeiro, e justo hoje? Mas vocês acham que eu tenho condições de cuidar justo de uma criança? Ela vai é pirar comigo... nem residência fixa mais eu tenho! Vocês se enganaram: uma criança especial precisa de cuidados especiais... E você acha que um orfanato fétido daria a ela esses "cuidados especiais"?
Quando eu ouvi ele resmungando tanto, lembrei de minha falecida avó: ela sempre pensava em voz alta, falando sozinha! Aquele hábito de vovó sempre me fazia rir!
Só que desta vez eu não ri... não ri porque vi que, no canto escuro do celeiro, havia um senhor muito elegante, com uma bela capa – vermelha por dentro e preta por fora – usando uma cartola... e ele piscou para mim!
Foi então que eu disse ao rapaz de branco:
- É com aquele cavalheiro, de capa e cartola, que o senhor está conversando?
Quando eu disse isso, Álex parou de caminhar... ergueu sua sobrancelha esquerda e me indagou:
- Você está vendo ele?
- Claro que sim! Ele está no escuro, mas ainda assim dá pra ver bem direitinho!
Quando eu disse isso, Álex se ajoelhou perante mim, ficando quase da minha altura, e me disse sorrindo, fitando meus olhos:
- Olha... Eu não tenho uma casa há muito tempo... vivo viajando pelo mundo, fazendo uns esportes radicais... isso não é vida para uma criança... e até a Guerra entrar em equilíbrio no leste, eu não posso mudar o ritmo da minha vida... mas as coisas poderão mudar em breve, e eu conheço muitos lugares nesse mundo onde não tem Guerra, e você estará segura... eu poderia finalmente construir uma casa num desses lugares... gostaria de ir pra lá, morar comigo?
Eu estava muito assustada, confusa... mas algo naquele rapaz me acalmava... algo que ele emanava me fazia confiar muito nele!
E eu aceitei!
Saímos do celeiro. Quando Álex trancou a porta e caminhávamos pelo campo, em direção a uma antiga Harley-Davidson utilizada na Guerra, eu perguntei:
- E o cavalheiro de capa e cartola? Vai ficar lá preso no celeiro?
Álex sorriu pra mim, piscou e disse:
- Você vai ver ele mais algumas vezes no futuro... por enquanto deixe ele lá no celeiro, até a Guerra acabar, ok?
Eu permanecia curiosa:
- E qual o nome dele?
Álex começou a rir! E me disse, ainda rindo:
- Por enquanto, já que você só conhece o judaísmo, chame-o apenas de "O Anjo da Guarda da pequenina Hélène" ou de "O Guardião de Hélène"!
E foi assim que Álex me encontrou...
E desde aquele dia, no distante ano de 1940, Álex me criou, me educou e me protegeu como um verdadeiro pai para mim! Onde quer que ele viajasse, lá estava eu com ele. Até que no inverno de 1941-1942, quando o histórico inverno russo mudou completamente os rumos da Guerra, ele cumpriu sua promessa: construiu em Happy Harbor, longe dos sangrentos campos de batalha da Guerra, esta casa. Uma casa que se tornou um verdadeiro lar... e a última sobrevivente da família Berr teve novamente uma família...
E foi assim, Selene, que Álex me salvou... e muito mais do que isso: me levou ao caminho da Sabedoria, me deu Amor, me deu Carinho e Proteção!
Meu super-herói, meu leão amigo!"
Quando Hélène terminou sua história, seus olhos brilhavam: tavam tão vivos! Que amor e orgulho ela tinha de Álex!
Eu? Tava completamente impressionada com o que ouvi!
E imensamente impressionada com Álex!
Ele poderia simplesmente ter ignorado aquela menina órfã...
Poderia simplesmente não ter feito nada: poderia ter ficado quieto naquele celeiro e deixado os colaboradores dos nazistas levarem aquela menina pra um campo de concentração!
Mas não! Ele teve... compaixão!
Compaixão!
Talvez ele tivesse exatamente os mesmos poderes da Coisa que me atacou mas...
Ele era completamente diferente daquela Coisa!
Eu sabia que não havia maldade em Álex quando eu olhava pra seus olhos!
Eu sabia!
Eu podia sentir!
Eu sempre soube!
Tá... ele não era um vampiro e a Coisa também não... mas ele era algo muito especial!
Mas o que ele seria de tão incomum? A tal ponto de Hélène não querer me dizer diretamente o que ele era?
Enquanto eu tava pensando isso, me veio uma curiosidade danada de besta, e eu acabei perguntando pra Hélène, sem conseguir controlar aquela coceira na minha língua:
- Hélène, você sabe quando Álex nasceu? Quantos anos ele tem, de verdade?
A velhinha?
Riu! E riu muito:
- Selene, eu também tinha essa mesma curiosidade quando eu tinha a sua idade! Nós, mulheres, sempre somos as mesmas! Passam-se os anos, passam-se as gerações, e continuamos sendo criaturinhas tão persistentes nas mesmas indagações!
Eu sorri mega sem jeito... mas persisti na pergunta, com meus olhos suplicantes. Então Hélène me respondeu:
- Bem, Selene... toda vez que eu lhe perguntava a sua idade, Álex sempre me dava um sorriso maroto e dizia sempre a mesma coisa: "Eu tenho dezessete anos"! Hahaha! O danado nunca me disse quando e nem onde nasceu!
Bem, pelo menos de uma coisa eu tinha certeza: ele tinha uns cem anos, pois se tinha dezessete anos lá na época da Segunda Guerra Mundial, então... fazendo as contas... que droga a minha matemática, mas vou tentar: mais ou menos uns sei lá somados a dezessete... dá...
Putz grila, mesmo! Mais de cem anos!
Álex era a pessoa mais antiga que eu já conheci pessoalmente!
E eu que achava que a pessoa mais antiga que eu já havia conhecido pessoalmente era Hélène... que coisa!
Agora eu entendia porque Álex parecia tá sempre de saco cheio nas aulas do Becker, hahaha!
Pra ele, a decadente educação pública noturna, em tempos de Depressão Econômica Global – leia-se: Estado Mínimo pra população, o andar de baixo, e Estado Máximo pra Wall Street, o andar de cima – aquele legítimo lixo oferecido pros adolescentes de Happy Harbor deveria ser uma piada mega de mau gosto!
Lógico: pra aguentar essa palhaçada que diziam ser "educação para todos", só mesmo colocando os coturnos sobre uma classe e tirar a maior onda dum sistema medíocre que colocava como bucha de canhão os tantos Mr. Caputo que grassavam por aí... "Educação para todos": mera formalidade pútrida da antiga sociedade pós-moderna que tava desabando junto com o Caos Climático...
Álex odiava escola tanto quanto eu, hahaha!
Mas... hei... espera aí... o que ele tava fazendo numa escola, se jamais precisaria de uma, afinal?
Isso não fazia o menor sentido!
Aliás, nada fazia sentido pra mim agora...
Putz, eu nem ao menos sabia o que ele era!
Como então imaginar o que ele fazia lá no Becker?!
