Postagem 17. Entrevista com o Vampiro?

(Interview with the vampire, 1994, EUA)

O tempo voou em companhia de Hélène!

Ela me contou um monte de histórias suas com Álex.

Na real, ela tava tentando me mostrar que tudo ficaria bem comigo... que a Coisa não me pegaria... que agora eu tava segura...

A velhinha me contou cada história... causos de quando os dois tavam ainda em plena Segunda Guerra Mundial...

Os lugares que Álex a levava consigo, protegendo-a, enquanto ele fazia seus "esportes radicais"... porém Hélène não me contou quais esportes eram esses: disse-me que quando a hora chegasse, eu saberia...

Apenas afirmou que eram muito importantes, e que esses "esportes" salvavam a vida não só de muitas e muitas pessoas, mas da Harmonia da Teia da Vida...

Puxa! Que coisa grandiosa!

Que raios de "esportes" eram esses, então?!

Álex levava a pequena Hélène na garupa de uma imensa Harley-Davidson®, que ele "pegou emprestada" do exército aliado!

E no meio daquele caos todo da Guerra, ela me disse que nunca passou frio, fome e nunca foi machucada por ninguém... e sempre que se sentia triste, Álex lhe fazia algum "truque de mágica" que lhe instigava a curiosidade...

E mais! Sempre que Hélène encontrava algum brinquedo que quisesse muito – e fosse facilmente portável naquela vida sobre duas rodas – quando ela acordava pela manhã, lá tava o brinquedo ao lado do travesseiro dela, perto da Harley...

Eles viveram assim até 1942... e ela me disse que nunca teve medo de nada ao lado dele... sempre se sentiu muito protegida, mesmo os dois estando nos horrores da Segunda Grande Guerra...

Realmente: Hélène queria me convencer de que tudo ficaria bem comigo... e acho que pelo jeito funcionou...

Comecei a ficar cada vez mais calma!

Pelo que ela me contava, acho que não houve país ou região do mundo em que Álex não havia pisado, antes de conhecer Hélène!

Isso explicava porque aquele Solar tava repleto de relíquias, artefatos antigos e obras de arte! Certamente Álex devia comprar e colecionar aqueles objetos de arte e artefatos há mais de cem anos!

Ele devia ser o colecionador vivo mais antigo que existia!

E foram tantas as histórias – agora sim, verdadeiras, e não aquelas meras historinhas de lareira, inventadas por Álex a partir dos retratos de Saraí e An-het pra distrair uma criança órfã, nas noites frias de inverno dos anos 1940! – que a velhinha me contou naquela tarde...

Conclusão lógica: era fato que Hélène tinha um incrível dom de me deixar calma, de verdade!

Até que algo aconteceu!

Ouvi o som do tilintar de um molho de chaves, na soleira da porta da rua... um tilintar agitado... e logo em seguida um abrir de porta: agressivo... eu já havia ouvido exatamente esses sons antes...

Foi então que ouvi alguém resmungar baixinho, com aquele estranho sotaque carregado:

- Esse cheiro... já senti antes...

Em instantes, tava entrando na sala onde Hélène e eu távamos, adivinhe quem?

Leilene, óbvio!

Quando ela pôs os olhos em mim, fez imediatamente uma careta... e foi amável como sempre, falando com aquele seu sotaque carregado, lembrando talvez um pouco o nórdico:

- Ah, é só você...

Eu? Dessa vez não deixei barato:

- Sim, sou só eu... pois a Rainha da Inglaterra tava com problemas de agenda pra vir ter com vossa excelência hoje... e aí enviou apenas a mim...

Hélène? Se segurou pra não rir!

Leilene?

Sua reação foi um enigma pra mim!

Seus olhos faiscaram de raiva por um instante... porém, em seguida, ela soltou um quase imperceptível sorriso de canto de lábio – como se tivesse gostado da minha resposta?! – e resmungou:

- Sim, é só ela...

Dito isso, ela ia subir pro seu quarto, pisando firme como da outra vez, até que Hélène interviu:

- Leilene! Houve um ataque da Devoradora de Homens... e contra Selene!

"Devoradora de Homens"! Essa foi a primeira vez que Hélène falou assim da Coisa!

Fiquei horrorizada com aquela expressão que ouvi!

Madame Sou Grossa e Daí parou imediatamente quando Hélène disse isso!

Voltou-se pra nós.

Fitou-nos, com os olhos assustados por alguns instantes... até que olhou pra velhinha:

- O que ela sabe sobre isso, vó?

- Alguma coisa, querida...

A loira fez uma cara de preocupada... e continuou:

- Sobre o tio Álex?

- Ela tem umas teorias... baseadas em Hollywood e best sellers excêntricos... mas teorias bem interessantes!

Hélène tava zoando de mim?

Lógico que tava!

Até que, finalmente, Leilene soltou uma expressão de muita angústia:

- Sobre mim? O que ela sabe?

- Calma, querida. Tudo está bem, ok?

Nisso, Leilene soltou uma expressão imensa de... alívio!?

O que tava acontecendo ali, afinal?

Leilene parecia querer me esconder algo a todo custo!

O que ela queria me esconder, heim?

O que será que Leilene tava escondendo? O que a deixava tão preocupada de eu descobrir?

- Sente-se conosco, querida! Precisamos conversar nós três sobre o que houve nessa madrugada... sobre o ataque... é muito importante você estar a par!

Leilene era muito respeitosa com sua vó: sentou-se naquela sala. Quieta. E ouviu tudo o que Hélène lhe contou sobre minha narração da madrugada anterior.

Leilene permanecia muda. Quieta.

Foi só então que eu desviei meus olhos um instante pra janela: o crepúsculo tava se iniciando!

Hélène percebeu minha preocupação:

- Fique tranquila, querida, você está segura aqui!

Mal disse isso, ouvi um outro barulho de chaves na porta... era um som calmo, vindo da rua que ainda tava ensolarada.

Em seguida, a velhinha se levantou calmamente.

E foi em direção a porta do Solar.

Ela ficou ali, paradinha, e nesse instante, ele finalmente apareceu:

Álex!

Álex vinha da rua? Com o Sol brilhando lá fora?!

Como, se ele era um vampiro?! Um vampiro andando no Sol sem virar cinzas?

Seria ele uma espécie de "Edward"?!

Quando Hélène o viu, abriu um lindo sorriso, imerso numa ternura sem igual:

- Boa tarde, meu querido!

Álex? Respondeu pra ela com idêntica ternura... e com aquela sua voz sedosa, melodiosa, que me hipnotizava sem esforço algum, sabe?

- Boa tarde, minha linda menina, minha princesa!

Em seguida, emendou:

- Vejo que temos visita hoje, não é?

Ele disse isso... olhando pra mim!

Que vergonha! Eu nem sabia onde me enfiar de tanta vergonha que me assaltou de súbito!

Eu tava sendo fitada por... o último herói vivo da Segunda Guerra Mundial!

Por um herói, que salvou, educou e protegeu Hélène!

E pelo cara que salvou a minha vida por duas vezes!

E por alguém que nem ao menos um herói humano era... um super-herói? Não saindo das páginas da Marvel ou da DC comics, mas da vida real?!

Wow!

Efeito lógico: eu comecei a corar como se fosse um pimentão maduro!

Ele?

Continuou a falar amenidades com Hélène, enquanto lhe deu um beijo na testa, carinhosamente, como se fosse um pai perguntando pra filha:

- Como foi seu dia, minha gotinha de orvalho?

Gotinha de orvalho?!

A cena era engraçadíssima! Ele, um "garoto de 17 anos", tratando aquela velhinha, sua "vó", como se fosse uma menina!

- Ah, Álex, foi um dia ótimo! Não imagina o quanto é adorável a companhia de Selene! Embora a visita dela seja também igualmente preocupante, pelas coisas que aconteceram com ela nesta madrugada...

Quando a velhinha disse isso, Álex voltou seus enormes e expressivos olhos verdes pra mim.

Ele tava vestido diferente: não tava usando aquelas roupas dark ou seus coturnos negros. Ele vestia um moletom cinza, calças jeans claras e tênis. Porém ele tava usando aquele sobretudo negro, de couro, como sempre. Cheguei até a pensar que aquele sobretudo talvez devesse datar mesmo de 1803, como Hélène havia me dito em suas histórias!

Ele começou a caminhar em minha direção.

Eu tava vermelha como um pimentão!

E quando ele parou na minha frente – aquela muralha enorme e ao mesmo tempo linda, como uma escultura em mármore vivo de Michelangelo – eu gaguejei, nervosa, sem sequer cumprimentá-lo antes:

- Obrigada... por... ter salvo a minha vida hoje... de madrugada...

Ele?

Só sorriu!

Não respondeu verbalmente ao meu agradecimento. E, após alguns instantes de silêncio, apenas me fez a seguinte pergunta:

- Você já sabe, então, o que eu sou?

Eu?

Disse:

- Numa hora dessas, é melhor eu dizer que não sei mais nada... tudo o que eu falar, certamente, vai ser pura besteira... prefiro o benefício da dúvida...

Ele, Leilene e Hélène riram!

Eu?

Acabei sorrindo... de leve!

Afinal, tem horas que a decisão mais sábia é assumir a sua própria absoluta ignorância... tive o meu "momento Sócrates":

"Tudo que sei é que nada sei"...

Ele?

Disse:

- E mesmo assim, não sabendo o que eu sou, apenas sabendo que eu não sou "normal", você não teve medo de vir de novo na minha casa?

Eu balancei os ombros, toda sem jeito, sorri igualmente desajeitada, e disse:

- Acho que não tenho medo porque... eu sempre fui uma nerd, uma esquisita e uma doida, sabe?... Uma ícone freak: a própria anormalidade respirando sobre o mundo...

Álex correspondeu ao meu sorriso:

- Que coincidência... então realmente temos muito em comum mesmo!

Ele fez um sinal pra mim, apontando pras poltronas da sala de estar.

Nós nos sentamos, um de frente pro outro.

Eu nem percebi que Hélène e Leilene, discretamente, haviam saído e nos deixado a sós na sala!

Eu tava mega nervosa. Nervosa mesmo! Por vários motivos: putz, primeiro o carinha me salvou do Moses... depois me salvou duma criatura que parecia saída do livro de Bram Stoker... ele era um herói de guerra também... salvou Hélène e sabe-se lá quantas outras pessoas mais!

Mas acho que agora eu tava mais nervosa era porque... Álex tava era me olhando sem parar!

Pareceu que tinham insetos voando dentro da minha barriga...

Putz... acho que pela primeira vez eu entendi a expressão que eu ouvia tanto de Ayaan, cada vez que ela arrumava um rabo novo de cachorrinho:

"Ai, Sê, quantas borboletas voando na minha barriga"...

Ele, sentado na minha frente, pegou as suas pernas e colocou sobre a mesinha antiga que tava entre nós. E ficou com os pés em cima dela, da mesma forma como ele gostava de fazer com a sua classe na sala de aula.

Eu? Exclamei:

- Você vai estragar esse móvel antigo assim...

Ele riu discretamente. E respondeu:

- Os móveis foram feitos para servir a gente e não a gente para servir aos móveis... De que adianta se ter uma mobília se não se pode usá-la do modo que nos traga satisfação?

Eu retruquei:

- Mas é tão antiga e valiosa esta mesinha!

Ele deu um leve sorriso, muito discreto, e me respondeu:

- Eu também sou antigo e valioso... e muito mais valioso que uma mesinha. Nenhum objeto vale mais do que nós perante nós mesmos, Selene...

Quando ele disse que era antigo, eu não resisti:

- Álex?

- Sim...

- Quantos anos você tem?

- Dezessete.

- Tá bom, mas você tem dezessete há quanto tempo?

Tá bom, confesso: eu ainda insistia no meu momento "Bella Swan"... Afinal: que garota resistiria fazer uma pergunta dessas ou recusaria esse papel naquele momento, heim?! Eu não queria abrir mão desse papel tão facilmente, puxa!

Mas ele? Sorriu discretamente, e me disse apenas isso:

- Nem queira saber...

Hélène tava certa... Eu nunca conseguiria arrancar dele a sua verdadeira idade!

E milhões de outras perguntas pululavam na minha cabeça! Puxa, eu tava sentada de frente pra uma pessoa especial de verdade!

Alguém que era tipo um super-herói mesmo... tipo um Wolverine, que nunca envelhecia e lutava contra as Forças das Trevas!

E o que é pior... eu tava sentada na frente da criatura mais linda que eu havia visto em toda a minha vida! Acho que era toda aquela beleza, da cabeça aos pés, ali, olhando pra mim, bem na minha frente, que me desconfortava... talvez por isso eu sentisse as tais "borboletas na barriga"... Você acha que eu ainda me lembrava da Coisa, na madrugada anterior, quando aquela perfeição ali tava me encarando?

Esqueci a Coisa completamente naquela hora!

E eu fiquei irrequieta na poltrona, me remexendo. Álex sorriu:

- Quem sabe você me faz algumas perguntas, pra se sentir mais confortável...

Safado! Como você soube que eu tava mega "desconfortável", heim?!

Mas tá valendo...

- Posso te perguntar qualquer coisa, Álex?

- Lógico que sim! E as respostas serão de duas categorias: as em que eu te respondo... e as em que eu te enrolo!

Nós dois sorrimos com aquele comentário dele!

Perguntas... tá bom... let's go!

- Como você derreteu o canivete de Moses?

- Mas você, heim?! Como sabe que eu derreti o canivete?

- Ora, ele repicou no chão, quando você balançou o ombro, e caiu bem aos meus pés... e eu o peguei e o analisei... e a lâmina tava quente e derretida, sem nenhum sangue seu!

Álex sorriu, como se tivesse orgulhoso de mim:

- Você é terrível, menina! Gostei disso... Tá bom... lá vai...

Esperei ansiosa a sua resposta:

- Selene... você já ouviu falar nos Antigos Deuses e Deusas da África? Os Senhores da Cabeça de Seus Filhos: os Orixás?

- Claro! Minha vó era Filha de Xapanã e tinha uma terreira!

Álex sorriu... e muito satisfeito!

E prosseguiu, me fitando com aqueles olhos verdes:

- E você já ouviu falar que existem várias hierarquias de Orixás? Uma hierarquia longa e complexa... que vai dos Orixás Pessoais – que são aqueles que orientam diretamente as pessoas, como o Xapanã que guiava sua vó – passando pelos Orixás Intermediários, até os Orixás que governam o Planeta Terra, os Orixás Planetários... e acima deles, a hierarquia prossegue: há os Orixás que governam o Sistema Solar... os que governam a Via Láctea... os que governam várias Galáxias... os que governam o Universo... os que governam os Multiversos? Já ouviu falar nisso?

Hã?! Que papo era esse? Eu nunca havia ouvido nada disso na minha vida antes!

- Você quer dizer que há uma hierarquia de Deuses e Deusas, governando uma parte cada vez maior do Kosmos?

- Exatamente!

Ah, tá... então eu tava entendendo... Rachel tinha me falado uma vez, quando eu era muito criança ainda, em Orixás Menores e Maiores... mas que a gente só via incorporar nos médiuns da terreira os Menores...

- Mas o que isso tem a ver com você, Álex?

Álex suspirou...

Ficou em silêncio... como se não soubesse se me contava algo ou não contava...

Desembucha Álex!

Ele pareceu ouvir minha silenciosa prece mental:

- Eu derreti o canivete... Selene, o que se necessita para se derreter aço?

Respondi rápida, como um raio:

- Fogo... o fogo duma fornalha duma siderúrgica!

- Certo... E quem é o Senhor do Fogo?

Lembrei de Rachel novamente... memórias muito, mas muito antigas brotavam em mim, naquela simples conversa com Álex...

Memórias de coisas que eu já acreditava ter esquecido completamente... antigas lembranças de tempos ainda relativamente felizes... os momentos de uma pequena menina com sua vó, momentos tão felizes de quando eu frequentava a terreira dela, deliciando-me enquanto ouvia, no colo dela, as histórias dos Senhores do Kosmos... uma época anterior às alucinações que destruíram a minha vida...

Foi então que me lembrei como um trovão:

- Xangô!

Álex sorriu satisfeito novamente... e perguntou:

- Agora você sabe o que eu sou?

O quê!?

Pelos Deuses e Deusas Antigos! Eu tava na frente dum Xangô?!

Eu tava na frente dum Orixá Xangô, de carne e osso?! Sentando na minha frente?!

Foi então que tudo veio na minha mente como um raio...

O canivete derretido, como se o ombro de Álex fosse uma fornalha... a primeira vez que o vi no cemitério de New Bethlehen... a Oferenda de Xangô Aganju! Ele tava usando as guias que tavam na Oferenda? Foi ele quem incinerou a Oferenda?

- Minha Deusa!... Álex... naquele dia, no Cemitério... foi você quem incendiou a Oferenda e pegou as guias?

Ele sorriu:

- Não as incendiei, não... apenas absorvi as suas energias para usar em benefício das pessoas que a fizeram, em conformidade com seu karma e merecimento... e peguei a guia que me oferendaram como presente...

- Absorveu as energias? Como assim?

Ele? Deu um sorriso maroto:

- Uma hora te mostro... é o popular "dar comida pro Orixá" só que é uma ciência mais complexa do que o povo geralmente imagina... mas é muita coisa para um dia só... não quero dar mais nós na sua cabeça!

Tava me enrolando, como disse que ia fazer, safado!

Continuei o bombardeio:

- O fogo na Assys Brazil Avenue, quando você enfrentou a Coisa! As línguas de Fogo! Foi você quem as fez!

- Sim...

- Então você é um Orixá Xangô! De carne e osso! Aqui, na minha frente! Nossa, nossa, nossa!

Eu tava eufórica! Tava dando pulinhos idiotas no sofá, parecia que tava com uma mola na poltrona!

Ele? Fez uma careta meio assustada com minha reação:

- Calma aí... Na real, sou apenas um Orixá Pessoal... eu não sou grande coisa não na hierarquia de Xangô, vamos com calma!

- Para com isso! Você derrete um canivete! Você pula muros como se fosse uma divindade olímpica! Você pega traficantes e os bate contra a parede fazendo até o reboco cair! Você saltou em cima duma moto a mais de 120 km por hora e me salva como um paraquedas! Você é demais, Álex! Deve ser um dos grandes! Tem que ser!

- Calminha aí, calminha aí! Você tem que entender que eu sou apenas um originalmente Filho de Xangô que acabou, por muitos serviços prestados aos demais Orixás, recebendo fortes passagens para com Eles e Seus Dons... e tendo por isso uma vida muito longa... só por isso eu faço essas coisas "especiais"...

- "Especiais"? Cara, você é um verdadeiro super-herói! E eu que jurava, ajoelhada de pés juntos, que você fosse uma outra coisa!

- Outra coisa? Que outra coisa?

Foi aí que eu disse:

- Eu só via você depois do crepúsculo... você é mega branquinho, parece que nunca viu o Sol na vida: nem noruegueses são mais brancos que você... e você tem a pele fria... você só podia ser um vampiro, oras!

Ele?

Começou a gargalhar!

Até eu ri junto desta vez, hahaha!

Foi aí que ele emendou, ainda rindo:

- Ora, eu sou apenas um Orixá Pessoal, só que, tipo assim: um "Orixá Pessoal com vitiligo e hipotermia"... Mas, afinal de contas, porque toda criatura branca e fria tem que ser um vampiro, heim?!

Perguntei, de cara:

- Vitiligo e hipotermia? Como assim?

Ele? Suspirou longamente... ficou em silêncio alguns instantes, mega sério. Até que disse:

- Eu era de uma etnia negra... e de pele quente, por fora, como você, Selene... mas acabei perdendo minha cor e meu calor externo há muito tempo...

Não segurei a minha língua:

- Como isso aconteceu?

Ele?

Um suave sorriso denunciou o que seria sua resposta:

- Hum... acho que isso aconteceu porque eu tinha o hábito de dormir dentro da geladeira quando eu era criança... e lavar demais a minha pele com sabonetes antiacne quando era adolescente... e daí deu nisso, sabe?

Tá, seu safado!

Você disse que ia me enrolar quando não quisesse me responder, mas você não tinha um jeito menos debochado de fazer isso não, heim?!

Tá, a conversa ia indo numa boa... mas tanta coisa não fazia sentido...

O que Álex fazia num coleginho público bem porcaria do ensino médio noturno de Happy Harbor?

O que um Orixá – tá bom, apenas um "Orixá Pessoal", mas ainda assim um Orixá! Uma Divindade! E um super-herói! – taria fazendo lá, como um aluninho de merda numa escolinha de merda?

E porque ele tava em cima do túmulo daquela guria, no Cemitério de New Bethlehen, que morreu dum jeito tão horrível? Como se tivesse... sei lá... procurando por algo...

E por que ele disse pra mim, no Becker, que eu era "tocável", que eu precisaria, tipo, de alguma proteção?

Tantas perguntas agitando a minha cabeça – sempre tão calma e serena quanto a dum monge budista em profundo transe zen...

Adorável sarcasmo... mas naquela hora minha cabeça dava mais voltas do que de costume...

Até que, de repente, me lembrei daquela inscrição vermelha, no tanque negro da linda moto de Álex, aquela divina Harley-Davidson©... aquela inscrição, em baixo relevo, esculpida em letras sanguíneas... e quase gritei:

- Oxossi!

- Sim, Selene, o que tem Ele?

- Oxossi! O Deus-Rei do Reino de Ketu! O Supremo Caçador! Rachel me contava sobre ele! Foi tipo assim... Tinha uma ave monstruosa, de enormes asas negras, que transformava o dia em noite... ela foi enviada pelas feiticeiras, pra atormentar o reino! Mandaram tipo uns caras pra destruir o monstro... os dois melhores caçadores do mundo... o primeiro era o Caçador das Vinte Flechas... ele atacou o monstro: errou todos os vinte disparos, e fracassou vergonhosamente! O segundo era o Caçador das Quarenta Flechas... ele atacou a fera, e fracassou incrivelmente errando os quarenta disparos! Até que Oxossi, com uma única flecha, dispara contra o monstro! O coração da besta monstruosa é atravessado e as asas que tornaram o dia em noite se fecharam pra sempre! Oxossi! O Supremo Caçador! Você pôs esse nome na sua Harley!

Álex?

Apenas me ouvia... muito atento!

Eu finalmente disse:

- Você é um Caçador! Um Caçador de criaturas das Trevas! Esse é o seu "esporte radical"!

Ele ficou em profundo silêncio... a expressão de seu rosto ficou bem séria... mas seus olhos silenciosos, me fitando, tavam incrivelmente eloquentes! Ele tava satisfeito com o que eu descobri!

Nesse momento, quando eu falei em criaturas das Trevas, a expressão horrenda da Coisa saltando em direção à minha garganta me fez tremer... comecei a sentir medo... muito medo!

Mas ainda assim, mesmo com a voz embargada pelo medo, ainda assim eu consegui perguntar baixinho:

- A Coisa... ela só pode ser vista por você e eu? Pras outras pessoas seria uma alucinação?

Álex suspirou muito profundamente...

Ficou num silêncio bem longo...

O tique e taque do relógio vitoriano de pêndulo respirava... o único som que se ouvia... até que a voz de Álex dançou em harmonia com o pendular do tempo:

- Selene... hoje as pessoas normais podem ver naquela criatura apenas uma jovem e linda morena... mas, por enquanto, o formato de "Coisa" só pode ser visto por algumas pessoas, diferentes das demais... pessoas como você, eu, Hélène, Leilene e muito poucas outras que um dia eu te apresentarei... isso, por enquanto...

Não sei se fiquei mais assustada ou mais aliviada...

Assustada por saber mesmo que a Coisa era real...

Aliviada porque não era mais uma daquelas alucinações que... destruíram a minha vida...

O cenho de Álex, entretanto, se enrugou... Porcaria... mal sinal... o que ele tinha ainda mais a falar?

O silêncio permanecia... só aquele som da Era Vitoriana palestrava...

Vamos, Álex, desembucha! Não me deixa nessa agonia!

Graças aos Deuses Antigos, você ouviu minha súplica interior:

- A "Coisa" controla um número muito grande de outras criaturas... todas AINDA invisíveis para a maioria das pessoas normais... da mesma forma que os Guias, Mentores e Guardiões da Teia da Vida e espíritos são invisíveis para a maioria das pessoas normais... AINDA...

Ainda?

Como assim, essa ênfase toda no "ainda"?

- O que você quer dizer com "ainda"?

- É muita coisa para um dia só, Selene... mas só posso dizer uma coisa: a civilização na Terra nem sempre foi assim... e a Terra sempre tem seus períodos de grandes mudanças: Eras, que afetam completamente a forma como a pessoas vivem nesse período... sempre uma Era substituiu uma outra Era... e agora eu só posso dizer que as coisas estão começando a mudar e que muito do mundo que você hoje conhece vai mudar completamente em breve...

- Como assim?

Minha cabeça tava cheia de dúvidas! Que mudanças haveriam no mundo? Que papo é esse de Eras? O que tava pra acontecer?!

- Que mudanças vão acontecer, Álex? Vai, me conta!

Ele?

Esboçou um sorriso muito discreto, que eu devia já prever qual seria a categoria da resposta:

- Algo muito terrível, Selene... Tão terrível que só você poderá saber... Prepare-se... é terrivelmente chocante... Lá vai: a seleção de futebol de Bangladesh vai vencer a Copa do Mundo de Futebol, e a seleção do Haiti será a vice campeã... E Brasil, França, Argentina, Alemanha e Inglaterra sequer passarão pelas eliminatórias da Copa...

Deu vontade de rosnar pra ele ao ouvir aquilo!

Seu debochado safado! Grrr!

- Fala sério, Álex, o que é?

Novo suave sorriso:

- Tá bom, tá bom, confesso... o mundo vai mudar muito mesmo... muitas mudanças... eis algumas: Barak Obama será eleito o presidente de honra da Ku-klux-klan e esta organização construirá um altar e memorial a Martin Luther King em Washington... e o Dalai Lama tomará posse, por aclamação dos políticos chineses, como o novo presidente do Partido Comunista da China...

Álex: mode enrolation on on on...

Hélène tinha razão... muita, mas muita razão... eu é que não ia insistir em perguntar mais nada que ele não quisesse me responder!

De repente, o rosto horripilante da Coisa invadiu a minha mente! Eu tremi de medo!

Álex percebeu! Eu falei tremendo:

- A Coisa... o que ela é?

Um enorme semblante de tristeza desabou sobre ele... havia tanta tristeza em seus olhos que eu podia até vê-los úmidos...

Longo suspiro... como se ele buscasse no alento do ar um alívio pra sua tristeza:

- A "Coisa", Selene, é como eu... uma Intermediária... uma Divindade...

Não exclamei! Praticamente gritei:

- Uma Intermediária?! Uma Divindade?! Aquilo?!

- Sim... uma ligação... uma depositária de coisas muito importantes... só que enquanto eu sou um Intermediário da Natureza, ela tornou-se uma Intermediária da Antinatureza... Enquanto eu estou em Harmonia, ela perdeu completamente a dela...

Não resisti:

- Perdeu a Harmonia?

- Sim... só se cai nas Trevas quando se sai do Fluxo da Harmonia da Natureza... Trevas nada mais são do que uma suprema ignorância do Kosmos, da Natureza, Selene...

- E o que fez ela perder a Harmonia dela?

- Um dia você vai estar pronta pra saber isso...

Droga, me conta, Álex!

Eu insisti tanto com meus olhos que ele, lendo-os, disse sério:

- Isso não pode ser falado, Selene... só pode ser sentido... o Monstro que transformou a "Coisa" na "Coisa" não é um reles objeto mental, que pode ser abarcado com as palavras... ele é tão imenso que domina todas as palavras... por isso, para encontrá-lo, um dia você terá que viajar ao Reino Onde Não Há Palavras... só lá você poderá senti-lo... e ao senti-lo, você verá que, ao mesmo tempo em que o Monstro que gerou a Devoradora de Homens parece imenso, ele também é incrivelmente frágil...

Não entendi nada!

Fiz aquela cara de aluna de primeiro semestre da Faculdade de Letras metida numa aula de Equações Diferenciais e Cálculo Infinitesimal da Faculdade de Física, sabe?

Álex sorriu:

- Tudo a seu tempo, Selene... tudo a seu tempo... quando se sabe o que procurar, a prova aparece por toda a parte... porque quando o discípulo está pronto, sempre o mestre aparece, naturalmente... por isso nunca se preocupe em apressar as coisas...

Hei!

Que papo é esse?

"Quando se sabe o que procurar, a prova aparece por toda a parte... quando o discípulo está pronto, o mestre aparece"?

Eu já ouvi isso antes... mas onde?...

De quem?...

Droga de memória... eu tava tão estressada nos últimos tempos que minha memória, antes tão aguçada – uma obra prima do meu cérebro, eu tinha uma memória de historiadora! – tava ficando uma droga...

Onde eu ouvi exatamente essa frase...

Não pode ser!

Pai Joaquim de Angola, o preto-velho de Rachel!

Vó Rachel, uma baita médium, tinha ouvido isso dele pra mim, enquanto ele pitava seu cachimbo ao lado de vovó, no dia que eu entrei pro coven de Ayaan:

"Quando se sabe o que procurar, a prova tá por toda a parte... porque sempre que o discípulo tá pronto, o mestre aparece, ô se aparece!

Será que Pai Joaquim tava adivinhando o que ia acontecer?

Será que ele previu que eu ia achar Álex?

Será que ele previu que eu ia encontrar um Orixá em carne e osso?

Minha cabeça voltou a girar... se eu não tivesse sentada, certamente que eu ia tontear e talvez até cair...

Tentei disfarçar minha confusão mental na frente de Álex, do jeito mais fácil: fazendo mais perguntas!

- Por que você me disse que eu era tocável?

- Você atraiu a atenção da "Coisa" quando veio pela primeira vez aqui no Casarão... Leilene a sentiu aqui por perto, por isso ficou de olho em você enquanto você chorava na beira do Guayhba River...

Putz... que vergonha! Eu achei que eu tava sozinha naquela hora! Justo Leilene me viu chorar?!

Que constrangedor! Preciso mudar o rumo dessa prosa! Mais perguntas, mais perguntas, rápido, Selene!

- Por isso você disse que eu tinha que ficar longe de você... que você lidava com seus "barra pesada"!

Ele? Não perdeu tempo pra se "vingar" de mim:

- E você achou que meus "barra pesada" eram os traficantes que me vendiam drogas, não é? Justamente um Xangô, o Orixá da Justiça, viciado em drogas, sustentando traficantes...

Dito isso, ele começou a rir!

Confesso... até eu ri com ele, hahaha!

Foi uma vingança bem doce, admito!

Mas novas dúvidas – eram milhões!

- E como você me salvou da explosão da Luna? De onde você veio?

- Fácil... eu estava lá...

- Você tava lá? Você me viu correr?

- Sim...

- Sério?! Desde que hora você me viu correr?

- Deste antes que a gurizada começasse a te achar gostosa e querer te namorar... afinal, você estava mesmo muito atraente naquela noite...

Eu, atraente?

Só não gargalhei na cara de Álex pra não ser grossa! Mas respondi na hora:

- Não seja gentil comigo só por boa educação... eu tenho espelho em casa e conheço bem "isto aqui" que eu sou!

Disse isso apontando pra tudo aquilo que eu fazia questão de tapar com meu sobretudo de couro negro!

Álex não deixou barato:

- Esse é justamente o seu maior problema Selene...

Eu olhei pra ele e perguntei:

- Meu maior problema? Qual?

- Você não reconhece nada do seu valor... você se nega tanto, se põe tão pra baixo, não se valoriza em nada, tem a pior autoestima que eu já vi!

Eu repliquei:

- Pra você dizer algo assim é fácil! Autoestima! Olhe pra você! Você é incrível... é mega inteligente, é um gênio, é super forte, e ainda por cima é um Orixá, uma Divindade! – e eu pensei em dizer que além disso, ele era super bonito, o gato mais lindo que já vi, mas morri de vergonha de dizer isso! – mas olhe pra mim!

- Sim, eu estou olhando... – ele disse isso e soltou um gostoso sorriso!

Eu? Continuei, mas já meio irritada:

- Sério, Álex, olha pra mim! Eu sou feia, esquisita, magricela, uma nerd, uma coisa ridícula!

Álex ergueu a sobrancelha esquerda e ficou em silêncio.

Eu continuei:

- Olha mesmo pra mim... nem meu pai me quis quando eu nasci! Eu sei lá quem é meu pai... Minha mãe também não me quis, mais do que isso, me odiava! Foi minha vó quem me salvou... eu sou tão feia, inadequada, esquisita, que só minha vó gostava de mim... na minha vida inteira eu tive só uma amiga, a Ayaan... e também nunca um garoto me quis e...

Álex me interrompeu:

- É aí que você se engana... Se você não fosse tão cega para ver a si mesma, veria que muitos, mas muitos garotos olham com desejo pra você...

- Conversa fiada!

- É? E Richard, o cara da Suzuki importada? Não percebeu como ele desejava você?

Eu fiquei completamente sem jeito com essa última fala de Álex!

Eu?

Virei uma atriz coadjuvante de cinema mudo: daquelas que nem a boca abria!

Eu não tinha como retrucar aquele argumento... Inferno!

Ele, então, quebrou o silêncio que se fez:

- Viu? Este é o seu problema, Selene. Você se desvaloriza tanto que nem consegue perceber como as pessoas te olham... Por exemplo, lá no racha, enquanto você corria de moto, com suas roupas balançando ao vento, gritando em cima da sua moto como uma antiga guerreira, vestindo as suas botas sensuais e suas roupas negras excitantes, não imagina quantos garotos estavam lá interessados, literalmente, em fazer sexo com você...

Nossa, foi aí que eu corei de vez mesmo!

Eu não sabia aonde me enfiar!

Queria me esconder debaixo da mesinha na minha frente!

Álex falava de sexualidade com uma naturalidade tal, que me constrangia demais! Eu tentei mudar o rumo da conversa, tentando rebater o que ele dizia:

- Mas como você sabe disso?

- Uma garota normal não percebe o olhar das outras garotas?

- Sim...

- O que dirá então a percepção do Filho dum Orixá que teve três esposas ao mesmo tempo: Oxum, Obá e Yansã? Tenho faro muito refinado para isso, pode apostar!

Eu?

Não sabia mais nem o que fazer nem o que dizer!

Mesinha, por favor: me esconda!

Eu olhei pro chão, pro carpete grosso e macio da sala. Talvez ele pudesse me esconder...

Mas de repente me veio a imagem do rosto da Coisa!

Tremi de novo!

- A Coisa... porque eu atraí a atenção dela e ela resolveu me comer na Assys Brasil Avenue?

- Não, Selene... ela não queria te comer... se quisesse, não teria feito aquele show todo... teria sido discreta e certeira... aquilo era só um teste pra mim... a "Coisa", na verdade, estava era me testando...

- Testando você?

- Sim...

Aquilo me deixou confusa:

- Mas que tipo de teste?

Álex disse num tom sério:

- Ela queria saber se eu estaria por perto, vigiando e protegendo você...

Eu fiquei em silêncio.

Não entendi o que ele queria dizer com isso, não entendi o teste da Coisa. Mas só sei que toda vez que eu pensava nela, um arrepio horrível percorria todo meu corpo!

Eu pensei na minha casa, no meu quartinho nos fundos... de repente eu me dei conta que contra uma coisa como aquela, não adiantava eu ficar nem todas as noites do mundo debaixo do chuveiro!

Ela iria me pegar!

- Álex, eu tô com medo! Tô com medo de voltar pra casa essa noite...

Álex silenciou. E fez uma expressão absolutamente indecifrável pra mim...