Postagem 18. A Mulher do Açougueiro
(TheButcher's Wife, 1991, EUA)
Hélène havia me emprestado um de seus pijamas.
Nós tínhamos a mesma altura, eu acho, porque o antigo pijama azul clarinho dela, de botões, caiu perfeitamente bem em mim. Ela também improvisou uma cama no quarto dela, e fomos dormir.
Aquela última expressão indecifrável de Álex agora já tava desvendada... eu coube no pijama de Hélène, hahaha!
Eu, é lógico, não consegui dormir.
Fiquei na cama, com os olhos abertos, olhando pro forro.
Minha cabeça tava cheia demais de pensamentos... muitos e muitos...
Minha vida já havia mudado muito desde que Rachel partiu... mas agora havia mudado completamente desde que conheci Álex... um mundo completamente novo havia se aberto pra mim...
Um mundo que eu adorava:
O mundo das Divindades da Natureza!
Mas... as Divindades eram Espíritos da Natureza, eram intangíveis... eu nunca poderia imaginar que houvessem mesmo Divindades em carne e osso... tangíveis... sólidas como eu... mega reais!
Eu podia tocar Álex!
Será que foi por isso que eu senti aquele "choque elétrico" naquela noite no Becker?
Hélène bem que disse que, naquele celeiro, parecia que havia Eletricidade ao redor dele...
Seria essa a razão?
Lógico... um Orixá Xangô, Senhor do Fogo: a Eletricidade é uma espécie de Fogo também! Pois o Fogo é uma reação mega violenta de oxi-redução, repleta de elétrons... e onde tem elétrons: tem Eletricidade!
Yes: eu nunca fui má aluna de Química na escola!
Mas, quando eu tomei aquele choque elétrico... só eu devia tomar ele... então por que Álex ficou tão, sei lá, assustado, quando a gente se tocou? Será que ele tomou um choque também?
Mas seja lá o que for... que incrível!
Que coisa! Eles eram reais!
As Divindades que Rachel me contava... eram reais, não eram só um mito... não era só questão de fé ou crença...
Eram reais! Como são reais as Forças da Natureza: uma Chuva, um Lago, uma Montanha, um Raio, um Vento, o Ferro, o Barro!
Reais... e incríveis!
Álex era incrivelmente inteligente, incrivelmente forte... sem falar que era incrivelmente bonito! Putz!
E quantos anos ele devia ter? Quantas coisas ele não devia já ter visto e vivido? Eu já havia descoberto que ele tinha tado lá na Segunda Guerra Mundial, bem na França ocupada pelos nazistas!
E as histórias das viagens dele, que Hélène me contou?
Até no Ártico e na Antártida Álex já havia viajado!
Eu pensei em mim mesma... nunca havia viajado...
Eu só conhecia duas cidades: Happy Harbor e Little Waterfall...
Como será que era viajar tanto, e o mais incrível: viver tanto?
Como seria ter vivido na própria carne os fatos históricos, a História, como a Segunda Guerra Mundial? Sem envelhecer?
Álex era uma Divindade! Um Orixá! Respirando entre nós!
Andando na rua, como um de nós!
Como você queria que eu conseguisse dormir, com tudo isso que eu tava vivendo, heim?
Meus olhos fitavam o forro, mas minha mente fitava pensamentos sem fim...
E Hélène?
Roncava... a sono solto...
Aquilo tudo devia ser mera rotina pra ela!
Será que eu um dia iria me acostumar com aquilo tudo, como ela?
Não, capaz!
Eu não queria me acostumar com coisas tão incrivelmente maravilhosas... queria sentir essa emoção que eu tava sentindo, pra sempre!
Tava dando comichões no meu corpo, sobre o colchão:
Que vontade infantil de sair da cama, pular, gritar: "Eu conheço um Orixá de carne e osso e sei onde ele mora!"
Ficar na cama tava sendo um tormento...
Eu tinha deixado a minha mochila do lado da minha cama.
A luz do luar entrava pelas venezianas do quarto de Hélène... assim eu conseguia enxergar o suficiente pra fuçar na minha mochila, sem fazer barulho pra velhinha, que... como roncava, hahaha!
Sagrados Orixás! Eu não quero roncar nunca assim: achando todo aquele mundo maravilhoso como se fosse uma mera rotina...
"Sagrados Orixás"?
Eu disse isso?
Eu exclamei isso?
Ao invés de exclamar "Minha Deusa"?
Será que, finalmente, eu tava aceitando as minhas raízes?
Minhas raízes de infância, no colo de Rachel?
Pensava nisso, enquanto fuçava na minha mochila, e achei o que eu procurava: a dark rose.
A tomei entre meus dedos... a cheirei: o perfume era muito, mas muito bom!
Eu nunca havia cheirado uma rosa tão deliciosamente perfumada como aquela! Eu adorava dark roses, mas nunca havia tomado nas mãos uma tão bonita e tão cheirosa!
Aquele perfume parecia relaxar minha mente... aquela vontade de saltar da cama e a coceira começava a se acalmar...
Hahaha, e eu que a havia tomado do jardim pra eventualmente, por via da dúvidas, me defender de um "vampiro", na falta de alho...
E minha cabeça foi se acalmando, enquanto eu tava com a rosa entre meus dedos...
O tempo foi passando. Até que notei que a alvorada devia tá se aproximando, pois surgiu aquele escurinho mais intenso, típico de quando a noite tá chegando ao fim, sabe?
Nisso, notei que Hélène despertou e se levantou.
Eu?
Fiquei mega quietinha. Fingi tá dormindo.
A velhinha então colocou um casaco sobre sua camisola e saiu do quarto.
Lógico que não me aguentei e me levantei devagar...
Deixei a rosa em cima do travesseiro.
Fiquei alguns momentos indecisa sobre o que fazer.
Acho que fiquei de pé uns bons minutos em frente à porta do quarto, com a mão na maçaneta.
Até que tive coragem: abri a porta.
Caminhei devagar pelo corredor e vi que, lá embaixo, ao pé da escada, Hélène conversava com Álex.
Eu tava completamente silenciosa, sem fazer barulho algum – nem mesmo o ruído da minha respiração podia ser ouvido, eu acho – tentando escutar o que eles falavam.
Ouvi Álex perguntar baixinho pra velhinha:
- Tem certeza mesmo de que acha isso uma boa idéia, Hélène? Ainda prefiro fazer patrulhas e rondas perto da casa dela e magias de proteção... utilizar a boa estratégia padrão...
- Claro que minha idéia é boa, querido! Ela é uma ótima menina! E precisa muito estar perto de nós agora...
Nesse momento, Álex levantou a cabeça e olhou exatamente... na minha direção!
Eu me assustei ao ser percebida!
Ele sorriu, suavemente, e me disse:
- Você está bem perfumada com a flagrância das rosas!
Que coisa! Que olfato! Eu devia tá há mais de dez metros dele, como ele conseguiu sentir o cheiro da rosa?
Que nariz, heim?! Álex me parecia cada vez mais com o Wolverine dos X-men! Será que ele tinha, além da força e olfato dele, um "fator de cura" e "garras de adamantium" também?
Os dois tavam de pé, no sopé da escada.
Ele então me disse:
- Hélène tem uma proposta para te fazer...
- Proposta?
A velhinha olhou pra mim e disse:
- Aproxime-se, Selene, venha ouvir o que quero lhe oferecer...
Opa! Tá bom... já desci e já tô aqui... sou todinha ouvidos.
Pode falar, Hélène:
- Pelo que pude perceber, Selene, parece que você está desempregada, não é mesmo?
Eu confirmei com a cabeça.
Hélène prosseguiu:
- Bem, eu já tenho uma certa idade... pensei então em contratar você para me ajudar nas tarefas simples do meu dia-a-dia, que o acúmulo dos anos estão tornando cada vez mais complexas para mim, tais como me acompanhar ao mercado... ou me auxiliar em algumas tarefas nesta linda casa, pois mantê-la conservada, cuidando das antiguidades ou das novidades, é algo que tem sido cada vez mais difícil para mim fazer sozinha... É um emprego de tempo integral e podemos te pagar bem!
Eu nem soube o que responder!
Juro que por aquilo eu não esperava!
Álex olhou sério pra nós duas e disse, visivelmente de muito mau-humor:
- É um proposta bem menos idiota do que ganhar dinheiro em corridas clandestinas e se matar a qualquer momento em cima duma moto!
Eu senti aquela indireta tão direta dele como se fosse um soco no meu estômago!
Ufff!
Por que ele tava tão zangado naquela manhã, heim?
Hélène interviu:
- Álex! A menina só estava desorientada! Ela precisa só de uma oportunidade! Não a julgue assim!
Ele retrucou, meio irritado:
- Sou um Xangô Aganju: julgar e executar é minha especialidade!
Acho que ele realmente tava furioso ao ter me visto correndo nas carreiras clandestinas, e ainda por cima sem capacete...
Hélène se voltou pra mim:
- O que acha, querida? É um emprego bem tranquilo nestes dias em que a Economia Mundial está tão ruim. Aceita?
Eu balbuciei, sem pensar:
- Mas... eu... não vou incomodar? Eu não sou uma boa companhia...
Hélène?
Riu gostosamente:
- Que bobagem, menina! Você é uma menina adorável! É gentil, é educada, é culta! É um prazer ter você como companhia! O que me diz? Quer alegrar os dias finais desta velhinha sobre a Terra? A gente se sente meio solitária e frágil na velhice, sabia?
Isso soou dramático... puxa... ela também era boa nisso?!
Eu não sabia o que dizer!
Fiquei muda.
Não era só um emprego – o que por si só já era incrivelmente maravilhoso! – mas também o apelo de uma velhinha tão legal nos seus últimos anos de vida...
Era de partir o coração, sabe?
Eu?
Acabei instintivamente acenando um "sim" com a cabeça.
A velhinha sorriu:
- Ótimo, querida! Começamos hoje! Você pode ir até sua casa buscar seus pertences pessoais e trazer para cá. Eu vou instalar você no quarto de hóspedes! Terá um quarto só seu!
Foi aí que Álex resmungou, seco:
- Isso eu já não acho uma boa idéia, Hélène. Acho melhor ela continuar pousando com você, no seu quarto!
- Bobagem, Álex! Olhe para ela, é uma moça feita e muito culta, ela precisa ter a independência dela, um quarto só para ela!
Ele relampeou aqueles seus olhos verdes pra velhinha e suas narinas chegaram a se abrir como ventas numa forja, quase rosnando:
- Não é disso que estou falando...
Ela respondeu, mega firme:
- Você precisa superar seus traumas do passado, Álex! Aquilo nunca mais vai acontecer, tudo ficará bem! São outros tempos!
- Você não sabe de nada, Hélène! Você não estava lá: eu estava! Você não sentiu nada do que ela sentiu ou do que eu senti, mas eu vivi tudo aquilo na minha carne e no meu sangue!
- E meus pais, quando morrerem na minha frente, eu não senti na minha carne e no meu sangue?
- Foi diferente, Hélène! Aquilo não foi culpa sua!
Nesse momento, Álex e Hélène começaram a discutir... mas em francês!
Os dois tavam tendo uma conversa mega tensa, bem na minha frente, obviamente falando de mim, e eu não entendia nada!
Tá, eu era mega boa em francês, mas eles falavam numa velocidade incrível!
Eu não conseguia acompanhar nada! Jamais, naquela velocidade toda! Nem narrador esportivo falava tão rápido quanto aqueles dois discutindo!
E eu jamais entenderia aquela conversa, ainda mais com aquelas variações dialetais todas e tantas gírias, que eu sequer saberia traduzir nem se tivesse com um dicionário de francês nas minhas mãos!
A discussão ficou acirrada por alguns instantes!
Tava ficando mega tensa a coisa, bem ali, na minha frente!
Mega irado o bagulho!
Até que Álex levantou os braços, resmungando mega irritado, desta vez na minha língua:
- Tá bem, tá bem! Acabei criando uma espécie de Psicóloga de Vidas Passadas que agora se virou contra mim, não é?!
Hélène nada disse enquanto ele esbravejava, como uma Trovoada ecoando numa Pedreira:
- Eis "A Mulher do Açougueiro", que quer resolver os problemas emocionais de todos da face da Terra, com seus conselhos e intuições! Pois bem, faça o que você quiser então! E faça como você quiser, Hélène Marie Berr! Mas não diga que eu não lhe avisei! Por que depois você será a responsável pelas porcarias que acontecerem, ouviu bem?
Desta vez Hélène respondeu, mas com uma calma, delicadeza e tranquilidade que só a Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e Gales, no chá das cinco, seria capaz:
- E eu alguma vez fugi das minhas responsabilidades com você ou este lar, desde que você me acolheu aqui, em 1942?
Essa frase, dita com tanta calma e num inesperado carinho, emudeceu Álex completamente!
Fim da discussão...
Game over!
Placar:
Hélène 2, Álex 0...
A velhinha então olhou pra mim, amável como sempre. Só após acolher-me com seu olhar sorridente, ela se voltou pra Álex:
- Acho que ela deve estar sem dinheiro... que tal lhe dar um adiantamento agora, Álex?
Aquela cena era mega engraçada!
Hilária!
Uma velhinha, magrinha e indefesa – ela até lembrava fisicamente a Tia May, a tia do Peter Parker, o Homem Aranha, sabe? – tava praticamente "mandando" no cara mais alto, forte e corajoso que eu já havia conhecido! Uma frágil velhinha "mandando" num enorme Orixá que caçava criaturas das Trevas?!
Dá pra acreditar?!
Ele olhou pra mim com uma cara... parecia que tinha chupado limão azedo...
Ufff!
Gelei por uns instantes!
Foi então que ele me perguntou, mega seco:
- O que você prefere: euro, dólar, libra ou yuan?
Aquilo me pegou de surpresa!
- O que for melhor pra você... – eu gaguejei, completamente sem jeito!
Álex enfiou a mão dentro do bolso interno do seu sobretudo e retirou dali um grosso maço de notas.
Ele pegou o maço inteirinho e colocou nas minhas mãos!
Inteirinho!
Eu olhei: era um bolo grosso e só de notas mega altas!
Eita!
Eu nunca havia segurado tanto dinheiro na minha vida inteirinha!
Eu reagi, na hora:
- Não! Não! É dinheiro demais!
Álex me fitou com seus olhos verdes incrivelmente vivos – e lindos! – e me disse, agora num tom de voz bem diferente... não era mais aquela irritação de instantes atrás... parecia um tom de voz meio... sei lá... protetor, eu acho:
- Isso é só um adiantamento... no fim do mês te dou o resto... Dinheiro nunca foi problema para mim... sou filho de um Rei: nenhuma dificuldade humana foi problema para mim!
Hélène sorriu pra mim e completou:
- Pode acreditar nele, Selene! Dinheiro nunca foi problema para nós! Aliás, dinheiro nunca é problema: a falta dele é que é!
E a velhinha deu uma gostosa risada!
Eu?
Tava bem tonta! Sorri junto, mas de nervosa!
Aquela era a minha chance de eu escapar de Pink Pig e dos machos dela, pra sempre!
Aquela era a minha chance de voltar a trabalhar! Era bom demais!
Mas, de repente, o rosto da Coisa apareceu impresso na minha mente!
Ah! Que arrepio horrível!
Cada fibra do meu corpo tremeu todinha! E, tremendo, eu perguntei, sem pensar:
- Neste emprego... eu posso pousar sempre aqui?
Eu tava morrendo de medo de voltar a dormir sozinha no quintal de Pink Pig e dar de cara com a Coisa!
Hélène sorriu e me disse:
- Claro, menina! Como eu lhe havia dito, seu emprego será de tempo integral! E com um quarto só seu! Traga para cá tudo o que você quiser!
Álex fez um careta pra Hélène, mas não disse nada...
Mas se Álex tava fazendo aquela careta, que máscara de horror faria Madame Sou Grossa e Daí? Foi então que perguntei:
- E Leilene? Não vai se importar de eu pousar aqui?
Hélène disse:
- Eu praticamente "troquei as fraldas" dela, Selene... Fui eu quem a criou, desde que Álex trouxe aquela pequena menininha assustada para cá! Pode deixar que com Leilene eu me entendo e muito bem!
Eu?
Tava tudo a meu favor, naquele momento!
Wow!
Lógico que eu ia aproveitar essa maré de sorte, por isso prossegui:
- E a namorada de Álex, não vai se importar de eu pousar aqui?
Nesse momento Álex deu uma gargalhada!
Em seguida, me fitou firme e, com um sorriso sarcástico no canto da boca, me disse:
- Jogando verde para colher maduro, Selene? Vai ter que fazer melhor do que isso...
Droga: como ele sacou a minha estratégia!?
Eu me senti mega envergonhada e comecei a sentir aquele calorão no rosto, sabe?
Hélène logo percebeu isso, pegou minha mão – como suas mãos eram quentinhas e amáveis! – e me disse:
- Venha até a cozinha comigo, Selene! Farei um chá para nós. Álex tem que se recolher, porque ele trabalhou demais essa noite!
Ela mal havia dito isso e Álex já tava no segundo pavimento.
Como ele subiu lá? Ele sequer passou por mim na escada! Saltando? Como fez no muro do Cemitério de New Bethlehen?
Olhei novamente e ele havia sumido!
Eu só ouvi o barulho de uma porta se fechando, no fim do corredor: lá devia ser o quarto de Álex!
Hélène me levou até a cozinha, segurando a minha mão.
Quando chegamos lá, ela olhou pra trás – acho que certificando-se de que Álex já tinha mesmo "saído de cena" – inclinou a cabeça até o meu ouvido e sussurrou mega baixinho:
- Álex está sem namorada... que tristeza, pois sinto que o carinho feminino de alguém especial faria tão bem para ele, sabe? Ele trabalha demais, nunca relaxa, nunca tira férias... sinto que ele não tem curtido as delícias que a companhia de uma moça especial poderia tanto lhe oferecer... que desperdício, não é, Selene?
E piscou matreiramente pra mim!
Eu nunca que ia esperar que Hélène me dissesse esse tipo de coisa!
Assim, do nada!
Me entregou todo o ouro que a bandida aqui queria, e ainda numa bandeja de prata!
Eu gaguejei, mega sem jeito:
- Obrigada... pela informação...
- O que é isso! Não foi nada! Afinal, uma dama dá uma mãozinha à outra, não?
Eu queria sorrir... mas acho que saiu foi é uma careta, pois os músculos da minha cara tavam completamente sem jeito!
Eu?
Já tava completamente vermelha como um pimentão maduro, enquanto Hélène se organizava pra fazer o chá!
Comecei, então, a ajudá-la, pra disfarçar o vermelhão e dissipar aquele calorão do meu rosto...
