Postagem 19. Adeus, minha Concubina

(Farewell to my Concubine, 1993, CHI/HON)

Já era o início da tarde quando Hélène telefonou pro ponto de táxi mais próximo e chamou um pra mim. "O que tivesse o maior porta-malas", enfatizou ela ao telefone.

Quando ela soube – eu e minha boca grande, droga! – que Pink Pig dormia até tarde, ela não queria que eu fosse indelicada chegando lá pela manhã, acordando-a, pode?!

Mas ela queria que eu buscasse as minhas coisas o quanto antes:

- Pensei em Leilene ir buscar as suas coisas com você, na pick-up dela... é um carro muito grande e forte... Leilene adora coisas espaçosas e possantes... mas sinto que ela precisa de mais alguns dias para se acostumar a ter uma nova companhia neste Casarão. Só por isso optei pela rudeza de um táxi para você, está bem?

Putz... a velhinha era um doce!

Tá, ela era muito firme – Álex quem o diga, no início daquela manhã! – mas também era um docinho! Tudo bem: nada do tipo "chocolate que se desmancha na boca"... seria algo mais do tipo "rapadura quebra-queixo": durinha... mas mega docinha!

Que coisa!

Graças àquela velhinha eu teria um novo lugar pra colocar a minha escova de dentes!

Yes, Yes, Yes!

Mas...

Que coisa...

Acho que eu não tava mesmo acostumada com a Roda da Fortuna – o Arcano do Tarot que parecia sempre girar pra me jogar pro subsolo do fundo do poço! – finalmente girando pra me colocar pra cima...

Aquilo tudo tava tão... estranho pra mim!

Era tanta essa minha nova maré de sorte que... sei lá... ainda tava meio difícil de acreditar!

Seria um sonho?

Não, eu não vou me beliscar pra me certificar!

Vai que eu acordo desse sonho... pois se for um sonho, eu não quero acordar é de jeito nenhum!

E eu tava bem ali... dentro daquele táxi, rubro-negro...

A paisagem mudava perante meus olhos: verdejante Sul de Happy Harbor, gradualmente morrendo, pra tornar-se o aço e o concreto repleto de fuligem do Norte da cidade... mas eu nem enxergava nada daquilo...

Eu? Tava era completamente imersa nas profundezas da minha cabeça... Hélène me tratava tão bem... parecia até Rachel...

Puxa... de repente, eu tava recebendo um carinho de mãe que eu nunca tive, um carinho que eu havia perdido quando Rachel se foi...

De repente, eu podia abrir uma conta bancária de novo... eu, que tava racionando minha comida, agora podia não só ir pro supermercado na hora que eu quisesse, mas podia voltar a frequentar livrarias!

Podia até fazer uma biblioteca completamente nova pra mim!

Vender meus livros foi o meu último ato de desespero... mas agora eu iria comprar um monte de livros, e eu já sabia exatamente por qual assunto começar:

Ia caçar nas estantes das livrarias de Happy Harbor inteirinha tudo o que falava dos Orixás, colocar num carrinho enorme de compras e levar pra minha "casa nova"!

Lógico!

Afinal, eu agora ia trabalhar e morar na mesma casa em que vivia e respirava... um Orixá de carne e osso!

Uma Divindade – tá, eu sei que ele sempre dizia que era uma Divindade Menor ou Pessoal, mas que ele era uma Divindade, isso ele era! – que transformava o aço duro dum canivete numa meleca! Que pegava um traficante filho da puta e o erguia contra a parede, como palha seca! Que saltava em cima duma moto que tava há uns 300 mil km por hora e protegia quem ia explodir com ela, como um colchão de bombeiros! Que enfrentava uma criatura das Trevas – a Coisa! – lançando labaredas de Fogo!

Putz, eu ia trabalhar e morar com o Portador da Justiça e das Leis de Olodumare!?

Cara, eu ia conviver com um Filho do Senhor do Fogo, do Trovão e da Pedreira!?

Uma Divindade... ao alcance do toque dos meus dedos... dos meus próprios dedinhos curiosos... todos os dias!?

Dá pra acreditar?!

Cara, que loucura!

Aquilo era tão estranho... mas ao mesmo tempo, era... era muito gostoso!

Gostoso?

Não, delicioso!

Delicioso? Só delicioso? Capaz!

Cara, aquilo era simplesmente o máximo!

Amazing!

Eu?

Comecei a rir sozinha dentro do táxi quando percebi o quanto minha situação era incrivelmente... especial!

Acho que o taxista pensou que eu era meio louca, sabe?

Ah! Quer saber? Foda-se, viu? Ele não pagava as minhas contas, hahaha!

Afinal, eu nunca fui bem certa da cabeça mesmo, tudo em minha vida sempre foi tão anormal!

Acho que eu era "a" guria certa pra tá vivendo aquilo:

A freak master, a própria anormalidade respirando sobre o mundo... como Álex mesmo disse: talvez tivéssemos mesmo muito em comum!

Nós dois éramos maravilhosamente anormais, hahaha!

Mas, ah, como eu queria ser anormal como ele...

Já pensou?

Você um dia acordar pela manhã e descobrir que você é uma Orixá, só que Ela dormia dentro de você o tempo todo?

Tipo assim: o pinheiro, dormindo dentro da pinha, ou a águia, dormindo dentro do ovo? Necessitando e aguardando apenas as condições adequadas pra Se manifestar? E quando você menos espera, eis que aquele imponente pinheiro, com sua frondosa copa rumando aos céus onde desliza aquela altiva águia, finalmente são visíveis, embelezando o mundo?!

Já pensou que mega, se isso fosse verdade?

Se um dia você acordasse e descobrisse que o único Orixá que ainda respirava entre nós tava escondido no lugar mais secreto de todos, tão escondido que ninguém nunca jamais pensou em procurá-lo lá?... exatamente dentro de você, na sua Cabeça, no seu Ori Ancestral... e que, numa certa manhã, depois do Sol, o Solo e a Água fazerem o pinheiro brotar e crescer, e depois do ovo romper e fazer crescer a águia, você descobrisse que você finalmente era um Orixá?

Já pensou: o som lindo e poderoso, que nasceria da garganta daquela águia, voando sobre as copas imensas daquele pinheiro, ecoando livre ao infinito?

Nossa, eu tava era mesmo viajando legal nos meus pensamentos, hahaha!

De repente, quando me dei conta, eu não tava segurando nem minha cruz Ankh e nem meu Pentagrama no meu pescoço... eu tava segurando, pela primeira vez, sob meu sweater e minha camiseta negra, o último presente de Rachel pra mim!

E aquela frase dela ressoou com perfeição, na minha memória, naquele mesmo instante:

- Sei que você não compartilha a minha fé... mas aconteça o que acontecer, lembre-se de olhar para este colar e chame a sua Mãe: Oxum Pandá! Sinta-a no meio do seu peito e no alto de sua cabeça! Aconteça o que acontecer, com Oxum Pandá você nunca estará sozinha!

Lembrei daquilo enquanto tava agarrada no delicado colar dourado, com o cristal em formato de coração, que Rachel consagrou à Oxum Pandá antes de dar pra mim!

Eu nunca dei bola antes pra Ela... Mãe Oxum...

Acho que até... sei lá... desde que eu saí de Saint Peter, eu tava sempre tão revoltada com qualquer manifestação religiosa que... sei lá... envolvesse "ser ocupada", "ser tomada" por algo que não fosse os meus próprios pensamentos: eu mesma...

Acho que... desde que eu saí daquele troço – que um dia alguém teve a coragem ou a cara de pau de chamar de "Hospital Psiquiátrico" – daquela fábrica de moer carne, daquele açougue, eu... sei lá... eu nunca mais fui a mesma...

Eu tava tão... fragilizada...

Acho que mais do que isso... eu tava tão... despedaçada...

Fragilizada... Despedaçada... Como, despedaçada assim, eu poderia compartilhar a fé de Rachel, uma fé que exigia tanta integridade, tanta coragem?

Sim, coragem!

Porque, em Happy Harbor, ou você era convertida ao Deus Único e o abraçava, ou você abraçava algo que era branco como o Deus Único: alguma coisa vinda dos Celtas, dos Vikings, dos Gregos... ou abraçava uma coisa ou abraçava outra, senão...

Você só tinha duas opções: ou abraçar o Deus Único da Mãe Europa... ou os deuses da Mãe Europa... ai de você se abraçasse algo vindo de outra Mãe!

Se soubessem que você abraçava as Divindades da Mãe África e da Mãe América, como Rachel fazia – aberta e escancaradamente, em sua imensa coragem! – as pessoas já te olhavam como se você fosse um pacotão de lixo, uma pessoa de segunda classe... e fechavam-se muitas portas sociais pra você!

Você era:

Pros materialistas: uma pobre atrasada, tão inculta... devemos dar pra você os postos de trabalho mais baixos, com os salários menores, já que você é uma incapaz... ou na escola e nas universidades, você simplesmente não será aprovada nas matérias que lecionamos: como nós, os Doutores e Mestres, seja da Universidade ou fora dela, podemos deixar alguém que acredita nessas bobagens infantis – contrárias aos nossos dogmas do establischment – avançar e se tornar uma igual a nós?

Pros religiosos do Deus Único: uma Serva do diabo, pra baixo... se pudermos, colocaremos sal bem na frente da sua casa, pra afastar o diabo que mora com você... se a vermos fazendo um ritual, recitaremos perante você o Livro Sagrado contendo a Palavra do Deus Único – sabe, aquele Livro de Capa Preta com um Sinal de "Mais" bem no meio da capa?... e se mesmo assim você prosseguir, não hesitaremos: bateremos em você com o Livro Sagrado, pra expulsar o demônio do corpo dessa Serva do diabo... ou simplesmente, ensinaremos nosso filhos a puxar essa Serva do Mal pelos cabelos – até eles quase serem arrancados da cabeça dela – para lhe darem uma pedrada na cabeça... assim, com certeza, o demônio sairá do corpo dela e nós fizemos o trabalho de Deus! Agora sim: poderemos dormir o sono dos justos!

E tudo isso sob o lindo manto que Happy Harbor exportava pro exterior:

"Happy Harbor: a Terra da Liberdade! A terra que acolhe a todos com os braços abertos! A terra da tolerância religiosa e racial!

A Democracia Racial que é exemplo para todas as nações do mundo!

Pois se Deus existe, Deus é Happy Harboreiro!

Venha para Happy Harbor você também, ficar bem happy com a gente!"

Ah, o poder do marketing: sempre mostrar a verdade, apenas a verdade, nada mais do que a verdade sobre o que ele tá te vendendo...

Marketing: tudo sempre tão cristalino e tão límpido!

Sei...

E agora... pela primeira vez... eu sentia aquilo: um brilho nos meus olhos, como se a coragem que Rachel me ensinou conseguisse se manifestar em mim pela primeira vez!

Um primeiro brilho, ainda sutil, de algo que eu nunca havia tido a firmeza pra um dia poder sentir:

Orgulho das minhas origens!

Orgulho de ser neta de uma Mãe de Santo!

Orgulho de ser quem eu era!

Orgulho de ter sido originalmente criada dentro da Terreira do Pai Xapanã, no colo de Rachel, ouvindo seus ensinamentos... vendo as sessões e os rituais!

Pela primeira vez... um raio fulgurante de orgulho sobrepujando – ao menos por um momento, que seja! – aquela enorme massa fétida de medo e vergonha que jogaram sobre mim! Aquele catarro todo!

Tava segurando o coração consagrado à Oxum, sob minha camiseta negra, roçando diretamente em minha pele, entre meus seios...

Mãe Oxum Pandá!

Será que foi a Sagrada Deusa Oxum Pandá que... sei lá... montou tudo aquilo?

Montou meu encontro com Álex?

Que me fez encontrar, de verdade, um Orixá? Um Xangô de carne e osso?

Que me fez reencontrar, de verdade, a melhor parte que houve do meu passado: estar no colo de Rachel, antes e após as sessões dela, aprendendo com ela?

Eu tava absolutamente imersa nesses pensamentos, e assim ficaria indefinidamente, se o taxista, quando chegou em White Wing pela Assys Brazil Avenue, não me perguntasse aonde ficava a casa onde ele deveria estacionar...

Eu apontei o lugar.

Quando chegamos, ele estacionou.

Ele ficaria me esperando, mas com o taxímetro desligado, afinal, a corrida que Hélène pagou pra ele valia uma baita grana! Naqueles tempos difíceis de crise, ele já podia ir embora pra casa depois, porque com aquela grana o dia dele já tava mais que ganho!

E eu demoraria só alguns minutos pra arrumar as minhas coisas. Eu tinha mesmo muita pouca coisa...

Afinal: quando a geladeira tá vazia, e a barriga ronca, você vai vendendo a preço de banana tudo o que você tem...

Quando desci do táxi, Pink Pig tava dentro da casa dela, recostada no parapeito da janela da frente – sabe, aquelas típicas fofoqueiras de novela das sete, que ficavam nas janelas de suas casas cuidando da vida de todo mundo?

Esta é uma obra de ficção: qualquer semelhança com fatos e pessoas da vida real não é mera coincidência...

Quando ela me viu saindo do táxi, enquanto eu mal tava abrindo o portão pra entrar no pátio, ela nem me cumprimentou... foi direto ao ponto:

- O que é isso? De onde você arranjou dinheiro para andar de táxi?

Eu respondi...

Mas sei lá se foi com palavras ou se foi grunhindo, mega seca:

- A vó dum amigo meu pagou pra mim.

Não sei o porquê, de justamente hoje, Sua Excelência Madame Salet resolver dar uma de "maternal": ela nunca dava bola pra mim, por que resolveu se meter agora?

Começou, direto, um interrogatório:

- Onde é que você passou a noite?

Ai, ai, que saco! Quem ela queria enganar?

Pra um desavisado, até parecia que ela se importava...

Eu?

Grunhi de novo:

- Na casa dum amigo.

Ela?

Deu um sorriso sarcástico... e falou, quase cantarolando, mexendo nos cabelos:

- Amigo, hein? Até que enfim... desencalhou, guria?

Eu?

Não respondi nada!

Ela tava querendo briga, como sempre, e juro que isso eu não ia dar pra ela hoje!

Não mesmo!

Fui pro meu quartinho nos fundos.

Abri a porta. Entrei e imediatamente me chaveei lá dentro.

Lógico: Sua Excelência Madame Salet tava muito saliente naquele dia... era capaz de ela entrar lá dentro pra me encher o saco, fazer um monte de perguntas, e tudo isso pra quê?

Só pra matar a sua curiosidade sobre "meu macho" e criar mais uma briga...

"Desencalhou"?

Isso lá é coisa que... ah, deixa pra lá...

Não vou perder tempo pensando nas coisas doces que ela sempre me dizia... já era rotina mesmo ouvir aquelas gentilezas...

Peguei meu sobretudo negro de couro.

Ele ainda não tava bem seco... tava bem úmido ainda, mas resolvi vestir ele.

Ah, que falta eu senti de você!

Minha armadura, minha couraça!

Lhe dei um beijo no ombro esquerdo! Meus lábios, roçando-se carinhosamente, na beleza da noite em couro negro!

Peguei a antiga bolsa de viagem de Rachel e fui colocando todas as minhas roupas lá dentro...

Todas as minhas roupas? Até parece que eram muitas, hahaha!

Não tinha sobrado quase nada... vendi quase tudo quando demorava muito pra surgir uma boa corrida clandestina...

Catei minhas botas – ainda tavam encharcadas pelo banho de chuveiro! – e as envolvi numa sacola plástica.

Só que uma das coisas mais importantes, eu acabei esquecendo: minha carteira de documentos!

Antes da corrida clandestina, eu tinha ido pegar, ligeira, algo na cozinha de Pink Pig – porque eu já não suportava mais a fome e não ia conseguir me concentrar na corrida daquele jeito – e a boboca aqui, com a carteira de documentos na mão, ao abrir a geladeira e pegar as coisas pro sanduíche, pra poder livrar as mãos, largou a carteira automaticamente em cima da geladeira, bem no meio dum grande vaso de flores de plástico que enfeitava a geladeira...

Esquecer meus documentos ali iria me trazer complicações em breve... mas isso eu conto depois!

Peguei no roupeiro o resto do dinheiro que eu ganhei na corrida...

A corrida... a última cavalgada da minha falecida Luna...

Aquele era todo o dinheiro que eu tinha em casa, e coloquei no fundo falso da bolsa, bem escondido!

Não era nada, se comparado ao bolinho de notas que Álex me deu como "adiantamento", mas era MEU dinheiro, e eu não iria deixar ele pra trás, não mesmo! Pra que? Pra pagar whiskey, motel e cocaína de uma certa pessoa?

Não mesmo!

Fui no banheiro: peguei minha toalha, xampu, sabonete – essas coisas de higiene pessoal – e, principalmente: a minha escova de dentes.

Ah... quando eu peguei a minha escova de dentes...

Comecei a rir sozinha!

Eu tava com o símbolo da mudança de vida bem nas minhas mãos!

Aquele ditado "trocar a escova de dentes de lugar" tava realmente acontecendo comigo!

Só que eu ia sair daquele inferninho, made in Pink Pig City, pra voltar justamente pro lugar que eu amava: Lamy Village! E com o emprego mais incrível do mundo!

Cara... isso era demais!

Eu parecia uma rica: rindo à toa!

Do meu roupeiro ainda peguei e guardei na bolsa meu estojo de maquiagem: meu instrumental dark pra gothic art na tela do meu rostinho!

Como eu já havia enchido a antiga bolsa de viagem de Rachel, eu peguei uma caixa de papelão que eu tinha.

Nela eu coloquei tudo do meu altar de Bruxaria, com todo o cuidado, e os meus poucos livros de Bruxaria e de várias ciências – de Arqueologia à Astronomia – que me sobraram.

Eu tinha o maior carinho, respeito e devoção por meus instrumentos de Bruxaria, mas...

Tinha algo diferente agora...

Quando eu os colocava naquela caixa... tinha algo diferente no ar...

Sei lá... não era mais a mesma coisa...

Era como... sei lá... se eles tivessem sido uma companhia muito preciosa, mas que agora iria partir, pra que algo completamente novo, diferente, ocupasse o seu lugar...

Sei lá... era carinho que eu sentia pelos meus instrumentos e por tudo que eu trouxe do meu antigo coven, mas... quando eu os colocava naquela caixa de papelão... parecia... sei lá... uma despedida, eu acho...

Um estranha sensação de despedida!

Num lado da caixa, coloquei meus instrumentos do altar... no outro lado, os livros que me sobraram... tudo com muito carinho...

Acho que não faltava mais nada, né? Deixa ver...

Você acha que tá faltando alguma coisa?

Tipo: sapatos, roupas, perfumes, bijuterias, enfim?

Eu realmente não ligava pra essas coisas que as gurias normais tanto gostam... mas meus livros eram a coisa mais preciosa que eu tinha, junto com minha Luna!

Ai, minha falecida Luna... onde será que as ferragens dela tavam?

Quem a recolheu? Será que um dos donos dos ferros-velhos rebocou ela, já que a polícia tava de greve, pra vender a carcaça dela?

Arfff... Que saudade da minha Luna!

Como seria bom poder começar minha vida nova com ela do meu lado...

Paciência, fazer o que!

Eu disse Vida Nova?...

Putz... eu tava rumando pra uma Vida Nova!

E tudo que eu precisava pra começar minha Vida Nova tava naquela bolsa de viagem, na sacola plástica – minhas botas, é claro! – e naquela caixa de papelão!

Hahaha, e Hélène queria um táxi com um "porta-malas bem espaçoso"... "aquilo tudo" quase que cabia no meu colo!

Tudo pronto!

Peguei as minhas coisas e coloquei pra fora do meu quarto.

Pink Pig tava de pé, recostada na porta dos fundos da casa dela...

Me encarou com uma imensa curiosidade:

- Ué? Para onde você vai?

Encostei a porta do meu antigo bunker, peguei a chave e aproximei-me dela.

Coloquei a chave na mão dela e lhe disse, porém sem olhar pro seu rosto:

- Eu arranjei um emprego de tempo integral com a vó do meu amigo. Vou cuidar da velhinha, dia e noite.

Ela?

Ficou estática na minha frente!

Nisso, olhei de soslaio pro seu rosto: ela tava como que em "estado de choque" ou sei lá o que...

Ela simplesmente não disse... nada!

Não me xingou, não ironizou... nada!

Ficou estática, como uma estátua, como meio que... sei lá... perdida?

Enquanto eu carregava as coisas em direção ao táxi, Sua Excelência Madame Salet foi pra frente da casa...

Parada... com o rosto meio abobalhado... com a chave do meu antigo bunker perdida entre seus dedos...

Sei lá porque ela ficou assim!

Eu achei que ela ia tá gargalhando, dado pulos de alegria:

"Finalmente me livrei de quem roubou a minha juventude e destruiu a minha vida!"

Vai entender...

Quando eu abri a porta do táxi, pra entrar – e ir embora, pra sempre! – Madame Salet resolveu "dar uma de maternal" de novo:

- Hei, não vai engravidar deste teu "amigo"! Eu não quero de jeito nenhum um bebê para me azucrinar por aqui!

Que saco, heim!

O que ela tava insinuando, heim?

Por que ela não calava aquela boca?

Tava tão bom quando ela tinha virado aquela estátua...

Eu?

Grunhi alto, sem olhar pra ela:

- Nada a ver, Madame Salet! – eu sempre a chamava assim pra ser sarcástica! Melhor do que chamá-la de Pink Pig na cara dela, né?

E completei rapidamente:

- É um emprego: em-pre-go, ok?

Eu?

Nem olhei pra ela.

Entrei no táxi, no banco de trás, e bati a porta.

Quando o táxi começou a manobrar, se virou e foi em direção à Assys Brazil Avenue, quando eu senti o terreno de Pink Pig se afastando de mim – porque eu sequer olhei pra trás! – que sensação indescritível!

Que sensação gostosa!

Eu tava me livrando daquele inferninho dela!

Me deu uma coisa mega boa, mega leve, bem no meio do meu peito!

Parecia, sei lá... um alívio... uma sensação de imenso alívio...

Puxa... sim... eu acho que eu sentia um inenarrável alívio, ali, bem no meio do meu peito!

Aquilo era tão... gostoso!

Supremamente delicioso!

Sequer olhei pra trás pra dizer:

- Adeus, minha concubina, e seu reino de machos tarados, hahaha!