Postagem 22. O Leão no Inverno

(The Lion in Winter, 1968, ING)

Quando as nuvens daquele dia chuvoso realmente desabaram, deixando poucas tarefas pra se fazer, eu tava sentada na beira da escada: de tocaia, esperando Álex sair do seu quarto!

Aquele dia inteiro eu fiquei calada... pensativa...

Ver aquela garra... saber de onde ela veio... ver o estado em que Álex chegou em casa... aquilo tudo me atordoou...

Passei o dia inteiro tentando digerir aquilo...

Putz grila... não é a toa que ele enfrentava a Coisa de igual pra igual, sem medo algum, como fez naquela madrugada que me salvou dela na Assys Brazil Avenue... ele caçava coisas enormes, com aquelas garras monstruosas, que vinham do Além!

Eu tava ali, na beira da escada, esperando pra ver meu super-herói sair do quarto dele!

Um Orixá Justiceiro!

Despachando de volta pras Trevas quem delas ousasse sair!

Finalmente: ouvi o som da porta do quarto dele!

E quando ele saiu e eu pus os olhos nele e no sobretudo negro de couro dele: tava perfeitamente alinhado, limpo, como se não houvesse havido nada na noite anterior!

Aquele sobretudo negro tava... perfeito!

Não acredito: eu perdi a aposta que fiz com Hélène!

Não acredito! Não acredito!

Quando ele desceu as escadas, eu tava olhando certamente pra ele com uma cara de boboca: com a boca aberta.

Queixo caído, sabe?

Droga, como ele arrumou aqueles farrapos?

Ele?

Me viu e fez uma saudação à francesa pra mim, daquelas dos filmes que retratavam a nobreza do século XVIII... sorriu pra mim e me disse:

- Boa noite, mademoiselle Selene!

Eu retribui, meio mega sem jeito:

- Boa... noite... Álex...

E fiquei encarando o sobretudo negro dele.

Não aguentei:

- Cara, ele tá novinho em folha!

Ele deu um novo sorriso pra mim – e que sorriso encantador ele tinha, droga! – e me respondeu:

- Claro! Eu tenho esse sobretudo desde 1803... Você acha que eu ia deixar um peludo pulguento, se manifestando num mediunzinho e magozinho de merde, servidor das Trevas, estragá-lo?

- Mas como você consertou ele... de forma tão perfeita? Era impossível costurar ele, ele tava em farrapos! Como você arrumou ele?

Álex deu um leve sorriso com o cantinho de sua boca – putz, como aquele sorriso dele era sexy!

Eu não podia olhar muito pra aquele sorriso, porque me dava... um sei lá...

Putz, parecia até que um calor diferente subia pelo meu corpo!

Esqueça isso! Deleta, deleta, eu não disse isso! Nunca disse isso!

Álex?

Assim me respondeu:

- Oras, eu o consertei da mesma forma como consertei o retrovisor da Oxossi, que ALGUÉM quebrou...

Naquele momento... putz...

Que calorão de vergonha no meu rosto e nas minhas orelhas!

Como ele soube que fui eu quem quebrou o retrovisor da Harley dele?

Me deu uma vergonha... uma vergonha!

Eu queria sumir dali!

Mas eu tava paralisada... aquele sorriso me... me atraía dum jeito tal que eu não consegui sair dali...

Eu apenas consegui gaguejar:

- Me desculpa... por aquilo... eu tava muito doidona naqueles dias... eu nunca quebrei nada de ninguém, nunca... eu não sei o que deu em mim... me desculpa mesmo...

Meu pedido de desculpas era mega sincero!

Eu realmente não sei o que aconteceu comigo naquela noite no Becker... nunca entendi porque eu tive aquela crise incontrolável de raiva, de fúria até... Puxa, ter feito aquilo me envergonhou tanto!

Foi a cerimônia do Bode Expiatório mais vergonhosa da história da humanidade!

Álex então me olhou... seus olhos mostravam algo tão bonito... sei lá... seria um carinho?!

Ele pegou sua mão enorme, fria, com dedos finos e tão bonitos – pareciam com os dedos de um pianista! – e tocou de leve nos meus cabelos.

Putz! Quando ele fez aquilo... aquela sensação mega estranha, mega difícil de eu descrever... aquela sensação como se um choque elétrico passasse por todo o meu corpo, como se fosse uma onda... uma onda de... prazer... a mesma sensação que eu senti naquela primeira noite de aula, quando nossas mãos se tocaram por acidente...

Aquela onda percorreu todo o meu corpo... como aquilo era... gostoso... era incrível! Não dá pra descrever: sem jeito, nem vou tentar!

Amazing!

E enquanto ele tocava meus cabelos, daquele jeito... com um toque incrivelmente delicado... muito suave... ele disse pra mim, com aquele olhar que seu sei lá do que era:

- Deixa pra lá... aquilo não tem importância... nunca teve, ok?

Ele retirou rápido a mão de meus cabelos.

Como se tivesse... sei lá... feito algo muito, mas muito... errado!?

Por um instante, eu tive a impressão de que ele se arrependeu de ter me tocado!

Parecia, em uma fração de segundo, que seus olhos tavam recriminando a si mesmo por ter feito algo horrível!

Ele então procurou disfarçar, eu acho:

- Eu estou de folga essa noite... está chovendo... eu vou ficar sentado perto da lareira na sala de estar... quer me acompanhar?

Eu disse rápida, sem pensar:

- Claro! Eu ia adorar!

Que droga, quando ele tava perto de mim, parecia que eu perdia o controle! Eu nunca fui assim: folgada... falante...

Mas... quando ele tava perto de mim, parecia que eu virava outra pessoa...

Parecia que aquela guria mega retraída, tímida, quieta, calada, que eu sempre fui, sumia!

Que coisa mais estranha!

Eu nem conseguia mais entender a mim mesma!

A única coisa que eu conseguia saber naquele momento é... que eu simplesmente adorava a companhia de Álex!

Eu adorava tá perto dele! Eu adorava falar com ele!

E se eu não falasse, não importava: eu adorava ficar apenas olhando pra ele!

Que coisa mais louca...

Sinistro!

Álex ergueu as poltronas da sala de estar como se fossem de isopor! E as colocou junto da lareira.

Nós nos sentamos.

Foi aí que ele disse:

- Ah... adoro ver o crepitar do Fogo... admirar como as chamas dançam tão livres ao redor da Madeira, como elas desfilam por entre o Ar... eu adoro sentir a Força e a Liberdade que as chamas me mostram...

Nossa! Que poético!

Que sensível!

Álex era muito bom com as palavras... e ele as podia dizer com uma suavidade e uma melodia lindas com sua voz sedosa.

Isso era covardia, golpe baixo tá? Saber justamente o que falar e com aquela voz... assim não dá!

Puxa, eu tava mais uma vez sentada completamente a sós ao lado duma Divindade da Mãe África – a criatura mais incrível que eu jamais poderia ter sonhado um dia encontrar! – e aquilo não me assustava, de jeito nenhum!

Pois as pessoas, quando algo muito especial lhes acontece, tem tanto medo de largar seus velhos padrões – se livrar das amarras das suas certezas e das sua verdades – que ficariam assustadas se tivessem no meu lugar...

Cara, eu tava morando com um Orixá!

Você tem noção de quantas certezas, verdades, idéias antigas, hábitos tidos como certos e verdadeiros, você tem que abrir mão porque a convivência com um Orixá simplesmente te mostra que tudo aquilo era mera ilusão?

Mas eu?

Eu devia ser doida mesmo!

Porque tá a sós com ele, como naquela noite chuvosa, vendo aquele carinha tão especial bem ao meu lado, era algo... incrivelmente gostoso!

Eu não tinha medo nenhum de abrir mão de tudo que eu tinha como certo na vida desgraçada que eu tinha antes...

Que medo o que... em tá ali? Era, sim... puro prazer...

Ainda mais com ele tão pertinho...

Putz...

Melhor trocar de assunto, viu?!

Álex?

Olhou pra mim e me perguntou:

- Você já jantou?

- Não... eu tô sem fome...

Como eu poderia sentir fome, tando do lado daquela escultura viva tão... perfeita!

Nem mesmo Fídias, o maior escultor da Grécia Antiga, do tempo do governante Péricles, seria capaz de produzir algo tão... divino!

E era Divino mesmo, droga!

Era um Orixá, de verdade, em carne e osso!

Tá, tá... já sei... "só um Orixá Pessoal"... mas ainda assim era um Orixá!

Eu puxei assunto:

- E você, já jantou?

Ele sorriu suavemente pra mim:

- Não... eu não tenho nenhum trabalho para realizar agora... por isso não precisei de nenhuma energia extra...

Eu tava curiosa:

- Você janta... o que Hélène, Leilene e eu jantamos?

Álex riu:

- Só o que tem sintonia com a minha vibração... o que entra em harmonia com a minha frequência dentro da Co-criação de Deus, o Múltiplo...

Tava tão curiosa que nem me dei conta que ele sempre chamava Deus de "O Múltiplo". Por que ele falava assim?

Sei lá, mas na hora eu não me dei conta disso... eu tava era curiosa pra saber coisas bem práticas:

- Você não consegue comer todas as coisas como a Hélène, Leilene e eu comemos?

Ele me disse bem tranquilo:

- Não...

- E se você comesse?

- Não ia prestar...

Eu exclamei, absolutamente sem pensar:

- Que estranho... Edward consegue comer como as pessoas normais se quiser...

Quando eu disse isso, Álex ergueu a sua sobrancelha esquerda:

- Edward?

Eu respondi prontamente:

- Sim, o vampiro do filme "Twilight"! Ele é demais!

Quando eu disse isso...

Pra quê!

Álex fez uma careta:

- Selene, isso é um personagem de um filme!

Eu retruquei, também sem pensar:

- Ah, para, Álex! Ele é o vampiro mais legal que teve no cinema!

Ele continuou com a sobrancelha erguida, com cara de descrédito:

- Como assim?

Opa! O que é isso?

Será que eu achei um ponto fraco nele?

Hum... vamos olhar isso mais de perto...

Falei justamente pra incomodar. Ver a reação dele.

Pura maldade:

- Convenhamos, Álex! Edward é o "sonho de consumo" de qualquer garota! Ele é inteligente, mega forte, romântico e mega lindo!

Quando eu disse isso... Álex me respondeu seco:

- Ele não passa de um personagem de cinema, inventado... aquilo é o maior absurdo!

- Absurdo? Por quê?

Eu? Tava era botando lenha na fogueira, oras! Pra ver até onde a Maria Fumaça ia chegar!

Álex me falou, mega irritado:

- Bah, que lixo de fadinhas, de gente que não tem a menor idéia do que é um vampiro... onde já se viu um vampiro bonito? E ainda mais, quando no Sol, "brilhar como se fosse feito de diamantes"... que palhaçada! Vampiros Astrais são uma desgraça! Sugam a Energia Vital dos encarnados, causando um monte de doenças, intoxicando as pessoas roubando-lhes seu Prana, seu Ki, seu Axé! "Feito de diamantes", pois sim! Dizer que uma imundície que adoece, rouba, é limpa e bonita é o auge do desprezo à Natureza! Eu cuspo na cara de vampiros! Eu os caço quando vagam entre os encarnados e os mando de volta para as regiões de Trevas do Além, de onde nunca deveriam ter saído! Edward é nocivo! Deseduca!

Me controlei pra... não rir!

Hahaha!

Que coisa!

Álex falava de um jeito tal, que... parecia que tava com um baita ciúmes de Edward!

Aquilo era muito, mas muito engraçado!

Álex... com ciúmes?

Uma Divindade de verdade, em carne e osso, talvez cultuada por milhões de pessoas, que se manifestava realizando verdadeiros milagres por todo o mundo... Um Orixá Justiceiro enorme, mega forte, incrivelmente inteligente, que caçava criaturas das Trevas horrendas como a Coisa e voltava sem um arranhão pra casa... com ciúmes de um personagem de cinema!?

Hahaha!

Ah, essa eu nunca mais ia deixar escapar!

Finalmente!

Finalmente, aquela obra de Arte perfeita na minha frente havia me mostrado um ponto fraco: ciúmes!

Ah, eu não ia mesmo deixar aquilo escapar! Não mesmo!

Dali em diante eu ia usar aquilo a meu favor, só pra ter o prazer de ver ele ficar mega engraçado daquele jeito, bem na minha frente!

Mas, sei lá... subitamente eu tive um surto de benevolência...

Vou mudar de assunto e deixar ele descansar:

- Você sempre usa as suas armas pra caçar criaturas das Trevas? E se você tá desarmado e uma delas aparece, como é que é?

Álex sorriu discretamente. Se sentiu agora mega valorizado!

Fitou o Fogo crepitando na lareira. E me disse, com muito orgulho:

- Há muito tempo, por eu ter prestado muitos serviços ao Orixá Xangô, o Grande, Ele, pessoalmente, me deu "espadas naturais" pra executar ainda melhor a Sua Justiça.

- "Espadas naturais"?

- Sim: as presas do Leão de Xangô...

Dito isso, ele pegou seu dedo indicador e apontou pra sua boca... a abriu e eu pude ver seus quatro caninos lentamente crescerem!

Eles eram enormes, exatamente como eu os tinha visto quando ele deu aquela surra em Moses!

- Como você pode notar, Meu Pai Xangô, o Senhor da Justiça, me deu "espadas naturais" muito eficientes para justiçar...

Eu?

Deveria ter morrido de medo ao ver ele me mostrar seus dentes caninos enormes! Assim, abertamente, sem frescuras, no jogo limpo!

Mas não! Eu fiquei incrivelmente... maravilhada com aquilo!

Eu devia ser louca mesmo!

Não senti medo nenhum e sim... fiquei mega fascinada, como se na minha frente tivesse uma obra única da Criação, uma beleza rara e única da Natureza!

Eu não consegui tirar os meus olhos dos caninos dele: que dentes lindos!

Mega branquinhos e mega bem desenhados, delineados!

Pareciam esculpidos por um ourives, pareciam jóias brancas!

Não é à toa que ele não tinha medo de enfrentar aquelas coisas horríveis com garras enormes!

Eu só consegui exclamar, toda deslumbrada:

- Que show, cara! Tipo garras de adamantium naturais!

Álex?

Fez uma carranca:

- Merde...

- Por quê?

Ele suspirou... e disse:

- Você é doida, Selene! Doida! Eu tento te assustar mas não consigo! Qualquer outra mulher já teria saído correndo de algo tão anormal... porque você não tem medo de mim, droga!?

Eu?

Disse tudo, duma vez só, que nem dava tempo de eu respirar:

- Álex, você é único, é uma maravilha da Natureza! Você é uma beleza da Criação, uma beleza de Deus! Por que eu teria medo de uma jóia rara?! Eu é que queria ser tão anormal quanto você!

Quando eu disse isso, seus olhos demonstraram um enorme espanto!

Ele ficou me olhando assim por alguns instantes.

Até que ele desviou o olhar de mim e passou a fitar o Fogo crepitando... e balbuciou bem baixinho pra si mesmo:

- Ela... nunca ninguém me fala algo assim... só ela... sempre ela...

Eu não entendi:

- Como assim, "sempre eu"?

Álex se levantou bruscamente:

- Eu não disse isso... você ouviu errado!

- Não, eu não ouvi nada errado! O que você quis dizer com "sempre eu"?

- Selene, você se enganou...

Eu?

Lógico que ia retrucar de novo, mas... quando vi, Álex tava pegando seus óculos escuros e já tava saindo pela porta do Solar, no meio daquela chuvarada!

- Álex, aonde você vai?

Ele falou, seco, sem vontade de responder:

- Vou dar uma volta... vou voltar tarde... ando de cabeça muito quente ultimamente... chuva de inverno na juba do leão refresca o Fogo!

Dito isso, ele sumiu na escuridão daquela noite chuvosa.

O que deu nele?!

Hélène tava muito errada... os homens – e os Deuses, principalmente! – não eram mesmo nada fáceis de entender! Cadê a simplicidade que a velhinha havia me dito sobre eles?

Álex era uma incógnita pra mim, um mistério... ele tinha reações que eu realmente não conseguia entender! E aquilo deixava a minha cabeça fervilhando num oceano de dúvidas...

Essa certamente seria mais uma noite em que eu iria demorar pra pegar no sono...