Postagem 23. O Sexto Sentido
(The Sixth Sense, 1999, EUA)
Haviam se passado várias semanas, desde que Álex abateu aquela monstruosidade...
Mas a gente quase não se via mais no Casarão...
Será que ele tava me evitando?
Mas isso não me importava muito agora...
Porque eu tava muito triste naquela manhã... abatida...
Tava fazendo, exatamente naquele dia, um ano que Rachel havia partido...
Que saudade dolorosa!
Hélène logo percebeu que eu não tava nada legal...
Vínhamos da feira de hortifrutigranjeiros...
Quando entramos na cozinha e eu coloquei as sacolas sobre a mesa, ela disse:
- Já conheço essa carinha... o que será que anda machucando essa mocinha, heim?
Ela disse com aquele jeitinho, todo dela... mega especial, sabe?
Eu? Não ia contar nada... ia ficar apenas mega quieta na minha... mas o danado daquele jeitinho...
Não deu pra resistir:
- É que hoje... quando for exatamente dezenove horas e dois minutos... tá fazendo uma ano que Rachel se foi... saudade dói, sabe?
Saudade dói?
Que nada!
Saudade MATA!
Quer coisa pior que saudade?! Quer coisa que mais fere você, bem lá no fundo?
Mas o que me surpreendeu foi a resposta, imediata e espontânea, de Hélène:
- Ah, não se preocupe, Selene! Eu a visitei esta noite! E tenho novidades dela para você! Ela está muito bem, até está corada! Ela se recupera bem rapidamente de todas as impressões da matéria! Ms. Stern é uma dama incrivelmente agradável! Adorei conhecê-la!
Como é que é?!
Heim!?
- Você?! Viu Rachel?! Foi visitar Rachel?!
Ela? Fez uma cara incrivelmente muito natural:
- Sim. Por quê?
Eu não pude acreditar! Não mesmo!
Hélène já devia tá meio senil... tadinha da velhinha! Tava tendo alucinações... Ela era tão legal, não merecia ficar esclerosada!
Mas o fato é que... eu não era boa em Matemática, era péssima... calcular a idade dela? Eu ia me perder nas contas... mas uma coisa eu sabia: Hélène tinha tantos anos que, se num bolo de aniversário, pra iluminar e enfeitar, a gente resolvesse colocar uma velinha pra cada ano, não ia caber... a menos que fosse um bolão, bem grandão!
Ou que se colocasse pra enfeitar, ao invés de velinhas, uma lâmpada de duzentos watts...
Fiquei com pena dela... Como ela era legal... Não merecia ficar com Mal de Alzheimer!
Isso não era justo!
Eu tentei, então, ser a mais delicada que pude... apenas dei um sorriso amável pra ela...
Hélène ficou me olhando... foi a vez dela sorrir, mas de um jeito sacana:
- Hum... acho que alguém está pensando que tive uma alucinação...
Hei! Como ela adivinhou, heim?!
Ela nem me deu tempo de continuar cismando comigo mesma:
- Ah, que sonho bonito eu tive hoje, Selene... Talvez seja por causa da minha idade... ou talvez seja pelo excesso de drogas... LSD e outras coisinhas elegantes que eu tomei, fumei e injetei na minha juventude, lá nos anos 1960!
Ela disse aquelas frases sarcásticas, mas num tom tão doce, que eu comecei a sorrir!
Que velhinha terrível!
Hélène: você não presta, mesmo! Eu adoro você!
Ela prosseguiu:
- Ah, Selene... foi tão lindo! Essa noite fiz uma Viagem Astral...
Eu? Tentei ser educada e polida, juro:
- Pois é...
Ela continuou, mega bem-humorada:
- Saí do meu Corpo Físico... estava apenas com o meu Corpo Astral Sutil... e então eu subi... estava tão leve...
- Pois é...
- Fui para uma cidade espiritual tão linda... ela paira exatamente sobre o Guayhba River... paira bem no alto... ela ali situa-se porque as águas do Rio criam uma região de magnetismo toda especial, mais limpa para essa cidade do Além, do que se ela ficasse exatamente sobre a Happy Harbor do Plano Físico...
- Pois é...
- Ah, Selene, lá tinha um lindo jardim, imenso! Era tão bonito, com todo o tipo de flores, e imensamente perfumado! Não há nada assim no Plano Físico... era tão lindo que nem parecia ser o jardim de uma importante Hospital Espiritual...
- Pois é...
- Naquele jardim, Selene, eu soube que os internos, que estavam com melhores condições de saúde, já melhor recuperados de seu desenlace do Corpo Físico, passavam suas horas de repouso... recuperando suas forças em meio à toda aquela beleza...
- Pois é...
- Lá, os administradores do local, muito gentis, me disseram que aquele Hospital, tão diferente e incrível, era administrado por Pai Xapanã...
Como é que é?
Pai Xapanã, você disse?
O Pai Ancestral de Rachel? Ela era Mãe de Santo, filha de Xapanã!
Isso tá começando a ficar muito interessante... por favor Hélène, continua!
Ela? Acho que acabou ouvindo meu desejo íntimo:
- Caminhei até um banco naquele jardim, guiada por um cavalheiro tão educado... ele me disse que havia alguém, sentado naquele banco, bem em frente ao chafariz – muito belamente talhado, que emanava uma água adocicada e perfumada! – que queria muito conversar comigo...
- E? O que houve?
- Bem, eu cheguei lá... e encontrei uma senhora... ela devia ter seus sessenta e cinco anos... cabelos pintados de castanho escuro, ocultando os fiozinhos brancos... olhos verdes... e tinha, ao lado do pescoço, à direita, um sinalzinho escuro na pele, uma pintinha... estava de óculos, de armação delicada, prateada e dourada... usava um casaquinho de um fino tom de roxo, e um sweater de lã, muito bem tricotado, com linhas artísticas brancas e pretas... perante ela, eu me apresentei: "Muito prazer, senhora! Meu nome é Hélène Marie Berr." Ela me respondeu assim: "Que prazer digo eu, senhora Hélène! Meu nome é Rachel Sarah Doytchler Stern!"
Quase que dei um grito quando ouvi isso!
O quê!?
Hélène nunca viu uma única foto de Rachel! Como ela pode descrever seu rosto com tamanha perfeição?
E mesmo se visse as fotos... Rachel nunca se deixava fotografar sem colocar "roupas adequadas para tirar retrato"... Ela nunca foi fotografada com aquela roupa!
Mas aquela roupa era, justamente, a que Rachel mais usava em casa! Ela simplesmente a adorava! Exatamente aquele casaquinho sobre seu sweater tricotado, que ela mesmo fez!
E como Hélène sabia o nome – absolutamente completo! – de Rachel, se ela nunca viu um único documento dela?!
Não... não podia ser!
Como Hélène podia saber dessas coisas, numa alucinação?!
Não podia ser, não podia ser!
Me ensinaram, de todos os meios possíveis – eu disse TODOS! – que tudo aquilo que eu via, sentia e ouvia, desde meus seis anos, era uma perturbação mental! Eram alucinações!
Me ensinaram por TODOS os meios imagináveis que mediunidade, hipersensibilidade, nada disso existia: era só um nome elegante que os religiosos deram pra encobrir uma terrível enfermidade!
E eu fui tão bem ensinada que, depois de tantas receitas médicas, acabei ficando especialista nas CIDs psiquiátricas! Foram tantas as que me deram, que eu tinha uma coleção destes códigos em minhas receitas!
Talvez eu fosse a única guria de Happy Harbor que, ao invés de ter uma coleção de receitas culinárias, tinha uma coleção de receitas psiquiátricas e suas CIDs...
Minha garganta tava começando a ficar engasgada... ainda assim, pude balbuciar:
- Você tem essas alucinações... como eu tinha...
Hélène sorriu. Foi até uma mesinha da sala.
Sobre ela repousava um jornal. Quando ela o trouxe, eu reconheci o timbre... aquela logomarca era famosa: The Happy Harbor Daily.
Ela abriu o jornal... era um jornal de algum tempinho atrás... não sei porque ela o tinha guardado... e inteiro!
Ela o abriu, ao meu lado... colocou-o sobre a mesa da cozinha...
Folheou-o, muito calmamente, até encontrar uma reportagem pequena, que tinha sido circulada por uma caneta vermelha:
- Dê uma olhada nisto, Selene...
Eu li o título da notícia:
"Alucinações em massa geram pânico"
Comecei a ler a reportagem...
Quando terminei... fiquei sem reação...
Tava com o olhar perdido... até que Hélène assim falou:
- Hum... vejamos... "alucinações em massa"... seria este o motivo? Ou talvez seria porque as coisas na Terra estão começando a mudar? A tal ponto que pessoas, como você e eu, Selene, que temos tais "alucinações", de uma atual minoria da população, nos tornemos em breve a ampla maioria?
Eu não sabia o que falar...
Eu não sabia como reagir...
Eu sequer sabia o que pensar!
Hélène prosseguia, enquanto minhas certezas tavam completamente em crise, entrando em curto-circuito:
- A alucinação desta madrugada me deu momentos tão agradáveis, Selene! Rachel me contou tantas histórias tão lindas de vocês!
Eu? Emudecida... mudez de alguém em crise... chispas de meu curto-circuito...
- Rachel me contou que, por volta dos seus nove anos, Selene, todo domingo, antes de vocês duas ficarem na varanda saboreando a tardinha, você andava de bike... naquela ladeira que ficava bem em frente à casa de vocês...
Eu? Emudecida... mudez de alguém em crise...
- Me contou que você euforicamente a chamava para ir ver, no portão, as coisas que você havia aprendido a fazer em cima de sua bike... você adorava aquela bicicleta de Cross... muito forte e resistente... você mesma pintou nela, na barra principal, que unia o guidão à caixa de pedais, em letras vermelhas, o nome que você lhe deu: "Van Helsing"...
Mudez... mudez de crise...
- Você descia aquela ladeira em altas velocidades, guinando sua bike abruptamente... descia aquela ladeira sem colocar as mãos no guidão... descia e subia, dando saltos... se deslocava ora apenas com a roda dianteira, ora apenas com a roda traseira de sua bike... uma acrobata nata, sobre rodas! Mas Rachel me confessou que ficava muito aflita quando via você fazer aquelas coisas todas, temendo muito que você quebrasse um braço, uma perna, ou coisa muito pior...
Mudez... mudez de crise...
- Ela já estava pronta para proibir você de fazer aquilo, quando Pai Joaquim de Angola apareceu para ela, sentado no degrau da varanda... e pitando o seu inconfundível cachimbo, assim lhe disse: "O que a fia prefere? Que a gafanhotinha quebre um braço, que é danado de fácil de consertar, ou que ela quebre o Espírito, que é danado de difícil de consertar dispois que quebra?" Quando ela entendeu aquelas sábias palavras, em toda a sua profundidade, Rachel me confessou que nunca mais pensou em impedir você de ser você mesma, montada em sua "bike furiosa"!
Mudez... mudez de crise...
- Ela disse que, fizesse Sol ou Chuva, todo domingo, antes que vocês duas se sentassem na varanda, à tardinha, ela tinha que ir no portão ver o que você havia aprendido de novo naquela semana... Você se emburrava tanto se ela não visse você! Assim, quando era Sol, você se embrenhava na poeira daquela ladeira, e Rachel ficava sob a sombra de um imenso e antigo pé de goiabeira... e quando era chuva, você se embrenhava na lama, barro por todo o lado, naquele "riachinho" de água que descia pela ladeira da rua, e Rachel ficava sob a proteção do seu velho guarda-chuva estampado...
Mudez... mudez de uma imensa e cada vez maior crise...
- Depois, Selene, você tomava um banho, e as duas ficavam na varanda... e lá ela te ensinava a tecer e tramar aquelas bandejas, de fibras e folhas, que flutuavam nas Águas...
Mudez... mudez de uma imensa e cada vez maior crise...
- Finalmente ela me disse isso... um recado para você: "Diga para Sê que eu estou bem... que minha recuperação, nesta nova vida, está nas boas mãos do Meu Pai Xapanã! Diga a ela isso: tudo está certo! Diga a ela que eu sei que ela está em boas mãos! Diga para Sê que tenho muito carinho por você, Hélène, e pela tempestuosa Leilene... e que tenho um carinho todo especial por Álex! Gostei mesmo dele, ele é um ótimo rapaz! Diga para Sê que eu continuo sempre a amando, e muito, mesmo estando morando numa nova pátria agora... peça-lhe que perdoe Salet, porque ela apenas fazia tudo o que sabia fazer, nem uma gota a mais, nem uma gota a menos... peça-lhe que perdoe Salet pois a mágoa é péssima companheira de viagem... e finalmente lhe diga isso: que ela nunca se esqueça da Sua Mãezinha Ancestral! Sinta-A no meio do seu peito e no alto de sua cabeça! Aconteça o que acontecer, com Oxum Pandá ela nunca estará sozinha!"
Não houve mais mudez alguma... a crise de minhas certezas havia agora tomado proporções imensas e imprevisíveis...
Me agarrei em Hélène, completamente tomada por lágrimas!
Ela me abraçou com muita ternura... fez carinho nos meus cabelos... enquanto eu comecei a falar sem parar, sem conseguir concatenar frases organizadas:
- Ela tá bem... ela tá bem... é ela... é ela!
Chorava tanto que soluçava, falando frases desorganizadas... mal podia pensar:
- Disseram que eu era perturbada, doente mental... Salet, depois da minha pedrada na cabeça, agora tinha as provas de que eu era louca mesmo... quando eu tinha dez anos, ela me internou em Saint Peter... fiquei lá até meus doze anos... dois anos, presa lá... enquanto isso Rachel entrou na Justiça de Happy Harbor: ficou indignada, queria me tirar de lá a todo custo, e por isso entrou com uma ação contra Salet... reuniu provas, testemunhas, declarando que Salet era incapaz de cuidar de uma criança, e pleiteava a minha guarda total... mas essa Justiça desgraçada só é rápida pros ricos... demorou dois anos pra ação judicial ser julgada... só quando Rachel conseguiu minha guarda eu saí de lá... mas eu nunca mais fui a mesma!
Minhas lágrimas eram tantas, e tão grossas, doídas, que chegavam a pingar no piso da cozinha... minhas mangas já tavam tão molhadas por elas que não davam mais conta de enxugá-las, por mais que eu as esfregasse nos olhos:
- Disseram que eu era de tudo... deprimida... maníaca... ansiosa... bipolar... psicótica... oligofrênica... esquizofrênica... um CID diferente atrás do outro... e, embalada com cada CID, um monte de venenos, que me davam reações horríveis... venenos que me davam um suador horrível... cloxazolan, diazepan, alprazolan, clonazepan... venenos que me davam tremedeiras por todo o corpo, que me faziam perder a coordenação motora... citalopran, fluoxetina, amitriptilina, paroxetina, nortriptilina, imipramina, lamotrigina, carbamazepina... venenos que me faziam ficar sempre abobalhada, cansada, com sono... carbonato de lítio, divalproato de sódio, ácido valpróico... venenos que faziam meu coração bater tão rápido que parecia que ele ia explodir... sertralina, risperidona, sulpirida, trifluoperazina, haloperidol, tioridazina... malditos venenos... maldito sejam... lembro perfeitamente o nome de cada um deles... e se isso não fosse o bastante, ainda houve o Mestre dos Venenos... Dr. John Watson... acabou se engraçando por mim... aos onze anos, naquela prisão, perdi minha virgindade...
Hélène me abraçava com carinho...
Era tão imenso aquele carinho e compreensão que eu sentia naquele abraço...
Sua voz tava tão meiga... quase como que me embalando:
- Está tudo bem, minha querida... está tudo bem agora... eu estou aqui na sua vida, Álex também está... ninguém mais vai machucar você... está tudo bem agora...
Quer saber?
Mas você quer saber, mesmo!?
Eu fiz de tudo pra não postar isso aqui, no meu blog!
Eu fiz de tudo pra enrolar você, e não lhe contar nada disso!
Eu fiz de tudo pra não precisar escrever esse capítulo!
Foi um dos últimos que eu postei... eu queria evitá-lo, com todas as minhas forças! Quer saber, mas quer saber mesmo?
Foi a coisa mais difícil que eu contei pra alguém...
Mas eu tinha feito uma promessa pra você... promessa de dedinho juradinho... e se prometi assim, tinha que cumprir!
Chega!
Não quero mais falar sobre isso!
Ninguém tá aqui, dentro de mim, pra saber como eu sei o quanto isso me dói, o quanto isso parece me despedaçar por dentro!
Finish! Cumpri minha promessa com você! Nunca mais eu quero falar sobre isso, pelo resto da minha vida inteira!
Dói demais!
