Postagem 24. O Médico e o Monstro
(Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1941, EUA)
Foi uma noite horrível aquela...
Chorar tanto, ainda pela manhã, abraçada em Hélène, me exauriu... eu tava acabada...
Assim, eu consegui dormir fácil... pra meu azar!
Eu nunca contei isso... pra ninguém...
Mas sabe, aqueles pesadelos que eu narrei aqui, bem no início desta postagem? Lá no capítulo 2, "A Hora do Pesadelo"?
Pois é... aqueles eram apenas os meus pesadelos mais suaves...
Mas eles não eram os únicos...
Haviam os pesadelos pesados...
Fazia um bom tempo que eu não tinha um deles... desde o dia em que eu vi, na mídia, uma certa notícia sobre cadeira de rodas, eu tinha me livrado deles...
Mas hoje... na exata noite de hoje... algo aconteceu...
Eles voltaram!
"Eu tava num lugar muito escuro... o cheiro era muito ruim, nauseante... haviam tantos corredores naquele lugar que ele, na verdade, era um labirinto!
Eu tava procurando a saída... mas não encontrava!
Como eu desejava o Sol! Que ele brilhasse e me tirasse dali!
Mas o Sol eu só podia ver numa certa hora – que uns caras horríveis, deformados, completamente trajados de branco, podiam dizer que eu podia ver – a chamada hora do "Banho de Sol"...
Naquela hora, que não chegava nunca, eu sabia que eu ia rezar ao Sol... eu ia rezar, implorando pro Sol me tirar dali!
Mas o Sol nunca me ouviu!
Sempre ficava paradão lá em cima, tão livre, e completamente indiferente à mim...
Eu aqui, presa, neste labirinto escuro, e ele lá: livre!
Livre, e gozando da minha cara: nunca me ouviu!
Eu odeio você, sua Estrela do Dia desgraçada! Tomara que você nunca mais brilhe, seu desgraçado egoísta!
Procurava minha Mãe Lua... Ela sempre me ouvia! Mas o Sol a encobria... Ele não deixava Ela vir me salvar!
Sol desgraçado!
Aquele labirinto me dava uma imensa falta de ar... eu sentia tremores no meu corpo... sentia suadores... perdia os movimentos do meu corpo... meu coração, haviam horas que batia tão rápido, sem motivo algum, que parecia que meu peito ia explodir!
O labirinto também sugava as minhas forças... eu não conseguia mais ficar de pé sozinha... andava apenas me escorando por suas paredes...
De repente, vez ou outra, eu via um dos caras horríveis, monstruosos, todo trajados de branco, andando por um dos corredores, como se fossem Quasimodo, corcundas claudicantes... vez ou outra eu os via arrastando uma pessoa, pelos cabelos, como trogloditas, levando-as pra buracos horríveis – sem fundo! – enquanto falavam, gargalhando, com vozes guturais:
"Hora do seu remédio"!
Quando eu via um dos monstruosos homens de branco andando pelos corredores do labirinto, eu fazia de tudo pra me esconder! Eu não queria ser levada pro buraco sem fundo!
Não, não!
Eu, naquele labirinto, e aqueles caras de branco querendo me pegar... pra mim aquilo parecia um dos primeiros games da história dos jogos eletrônicos... Pac-man: fuja dos fantasmas de branco, no labirinto, senão eles acabarão com você!
Eu odeio branco! Odeio!
A cor do sofrimento! A cor do abuso de poder! Branco! Branco!
Quando eu sair daqui, eu nunca mais vou vestir nada branco na minha vida! Vou me vestir com a cor da Noite, pra ficar pra sempre invisível dos monstros de branco!
Eu fazia de tudo pra me esconder... até que, de repente, todas as portas do labirinto, que tavam trancadas, se abriram!
Ouvi uma música horrível, e de todas as portas saíram monstros de branco! Eles se colocaram na frente das portas e, com as mãos no peito, cantavam um hino:
"O Chefe vem chegando,
o Chefe é nosso Deus!
Ninguém recusa os papéis do Chefe,
pois todos sabem que tudo
o que o Chefe diz é a Verdade!"
Eu entrei em pânico! Eu sabia o que acontecia quando eles começavam a cantar aquele hino!
Todos os monstros de branco me pegaram pelos braços, pelas pernas e pelos cabelos, cantando aquele hino sem parar! E me levaram pra um quarto horrível!
E, entoando o hino, me amarraram numa cama!
Amarraram meus pulsos e meus pés!
"O Chefe vem chegando"!
De repente, a porta do quarto explode!
"O Chefe chegou! Vida longa ao Chefe!"
Uma imensa serpente, totalmente branca, de dezenas de metros de comprimento, entrou, sibilando!
Naquela hora eu comecei a gritar!
A serpente ignorou meus gritos! Chegou na veia do meu braço esquerdo e injetou o veneno das suas presas em mim!
Comecei a sentir uma dor horrível no meu braço! E foi nesse momento que a Serpente de Branco foi em direção aos meus pés!
Lá ela abriu sua bocarra gigantesca e começou a me comer, devagar! Me engolir inteira! Me engolir viva!
Eu gritava no mais profundo desespero!
Me debatia, com todas as minhas forças!
Gritava!
E a Serpente de Branco continuava a me comer, a me engolir viva!"
- Selene, Selene, pelo amor de Deus, o Múltiplo! Acorde, acorde!
Era Hélène, dentro do meu quarto, ao lado da minha cama, dando tapinhas no meu rosto!
Eu?
Saltei da cama!
Não respirava... arfava!
Meu coração não batia... saltava!
- Foi um pesadelo, querida! Está tudo bem!
Eu nem ouvi o que ela me falava!
Saltei direto pro banheiro!
Enfie minha cara na pia, abrindo a torneira com tudo!
Eu só ia ter certeza que eu acordei se eu sentisse a água me acalmando... escorrendo no meu rosto...
Enfiei meu rosto na pia... foi quando senti a água tratada de Happy Harbor, repleta de cloro, arder nas minhas narinas e olhos!
Arf... Graças!
Abençoada Mãezinha Oxum, Senhora da Água Doce!
Eu tinha acordado de verdade!
Ouvi alguém batendo na porta do banheiro:
- Selene, você está bem?
Eu gritei, toda descoordenada:
- Tô!
Ai, que droga...
Eu devo ter gritado de verdade... e gritado tanto, e tão alto, que acordei Hélène, que dormia lá do outro lado do Casarão!
Que vergonha...
A velhinha ficou mega preocupa:
- Querida, se você quiser, eu posso fazer companhia para você esta noite, está bem?
Ai... que vergonha!
Com que cara agora eu ia encarar aquela velhinha?!
Que fiasco que eu fiz!
Eu tentei consertar as coisas:
- Eu tô bem! Eu só jantei demais hoje, por isso eu tive um sono agitado! Pode ir dormir, Hélène, tá tudo bem!
"Sono agitado"?
"Tá tudo bem"?
Sei...
Mas o fato é que eu fiquei com tanta vergonha que fiquei ali, trancada no banheiro... com as mãos dentro da pia... deixando a água escorrer... ia ficar ali até Hélène ir embora!
Fiquei ali um bom tempo...
Até que, no imenso silêncio da noite – ou madrugada, eu não sabia a que horas o relógio andava! – eu não ouvi mais nenhum som...
Será que, finalmente, Hélène foi se deitar?
Fechei a torneira, pra poder ouvir melhor...
Nenhum barulho lá fora!
Abri bem devagar, e silenciosamente, a porta do banheiro... espiei... espiei... não tinha ninguém ali fora!
Beleza! Agora eu posso sair do banheiro tranquila!
Sai...
Mas não fui pra minha cama...
Hélène havia deixado uma série de lâmpadas acesas pelo Casarão!
Tadinha da velhinha! Devia tá achando que, se deixasse luzes acesas, eu ia me sentir melhor e não ter mais pesadelos aquela noite!
Se ela soubesse que era a escuridão da Noite me envolvendo que me acalmava...
Eu não ia voltar pra cama...
Meu senso de dever falou mais alto...
Coloquei meu sobretudo negro de couro e fui cumprir com meu dever!
Eu era paga – e muito bem paga! – pra zelar por aquele Casarão... e isso incluía não deixar as luzes acesas quando estas não tavam sendo utilizadas por ninguém...
Fui apagando aquelas luzes... putz, Hélène deixou tantas acesas que pareciam até uma estradinha de pão, num parquinho, feita pra atrair pombas!
A última das luzes acesas ficava na nova garagem, quase no subsolo do Casarão! Pois o Casarão possuía duas garagens: a nova e a antiga, em que eu nunca entrei...
Quando eu fui apagar a iluminação da garagem nova... vi que a linda Harley de Álex não tava lá...
- Dando uma volta como sempre, não é, mocinho?
Que inveja!
Se eu ainda tivesse a minha Luna... eu tinha montado nela e saído na rua agora mesmo, pra espairecer... pra me recuperar... pra sentir o vento da madrugada me tocar com carinho... exatamente o oposto da maldita Serpente Branca!
A Harley de Álex: ausente!
Mas quem tava ali, presente, mega imponente: a pick-up vermelha e prata metálica de Leilene!
Eu gostava era de motos... mas convenhamos... Madame Sou Grossa e Daí tinha um excelente gosto!
Aquilo não era um veículo: era uma obra de Arte!
Pela primeira vez resolvi espiar ela bem de perto...
Rodas possantes, de grosso calibre! Quando toquei nos seus pneus, vi que tinha umas inscrições... fui ler:
"Pneus blindados"
Putz, eu sabia que mulher tinha horror de um pneu furar e ter que trocar – convenhamos, trocar pneu furado é um saco! – mas também não era pra tanto! Como Leilene era exagerada, hahaha!
Passei meus dedinhos, sensualmente, pela lataria daquela máquina!
E que máquina! Até que meus dedinhos curiosos casualmente tocaram na maçaneta da porta...
Será que Leilene a deixava trancada?
Não custa experimentar, né? Se tivesse aberta, eu dava uma inocente espiadinha dentro daquela cabine dupla...
Putz, tava aberta!
Ah, lógico que eu abri!
Mas foi algo estranho... como aquela porta era... pesada! Parecia que tinha concreto dentro, putz! Ou será que eu é que tava muito fraca, depois daquele pesadelo horrível?
Putz grila, aquela máquina era linda por dentro! Divina!
Olha, nem vou tentar descrever... porque não dá!
E acho que até Hélène deve ter vindo hoje dar uma olhada na pick-up, cuidando dela pra Leilene enquanto ela tava viajando... pois eu encontrei, sobre o banco do carona, o jornal que a velhinha tinha me mostrado pela manhã... com a reportagem "Alucinações em massa geram pânico" voltada pra cima...
Tadinha da velhinha! Já tava com aquele hábito que as pessoas de muita idade tem: quando vão fazer alguma coisa, esquecem de soltar o que tão carregando; depois, quando vão fazer outra coisa, esquecem o que carregavam num lugar tão estranho que não encontram depois...
Mas eu tava empolgada demais – cultuando aquela máquina divina! – pra me preocupar com Hélène agora!
Tava babando por aquela jóia em quatro rodas!
E tava olhando pra aquele painel, mega lindo, quando vi, no canto inferior esquerdo do para-brisas, um registro... um decalque... fui ler:
"Veículo blindado. Peso original: X quilogramas. Peso da blindagem: Y quilogramas. Peso total: X + Y"
Putz grila!
Por isso aquela porta era tão pesada!
Leilene tinha uma... pick-up blindada!
Blindada!
Igual aos carros que os ricaços de Happy Harbor tinham, pra evitarem a crescente espiral de sequestros do crime organizado!
Putz grila! Por isso ela adorava tanto aquela pick-up!
Era o xodó dela!
Eu também ia adorar sair por aí, me aventurando, navegando nos oceanos do mundo com meu próprio couraçado!
Acho que Leilene e eu éramos mais parecidas, em alguns gostos, do que sequer eu poderia imaginar!
Putz... devia ser mesmo algo maravilhoso dirigir aquele possante!
Que sensação maravilhosa devia ser!
Foi então que eu vi algo...
As chaves! Tavam na ignição!
Mas que lugar pra se deixar as chaves, heim?!
Ah... que tentação...
Essa pick-up tão linda e tão abandonada aqui, implorando por um pouco de carinho... implorando por fazer amor com o vento da madrugada, queimando o asfalto da estrada...
Como eu poderia ser tão má e ser surda aos apelos daquela máquina tão linda:
"Me leva pra passear, me leva pra passear, please!"
Não! Eu tinha um bom coração!
- Vamos então dar um passeio, tá bom, neném? Tia Selene vai cuidar bem de você, te prometo! Leilene foi má com você, abandonou você, mas eu vou te dar muito carinho, tá bem?!
Abri a porta da garagem... bem de mansinho... abri os portões eletrônicos da calçada... espiando pra todos os lados...
O portão eletrônico até que fez um barulhinho, mas eu o repreendi:
- Psiu! Nada de barulho algum, viu?... Esse seu barulho pode atrapalhar a minha boa ação: levar essa linda órfã pra passear com Tia Selene! Nada de barulho!
Dei a partida!
Que música o som daquele motor!
Roommm!
E quando eu vi, lá tava eu e aquele neném carente fazendo carinho no asfalto da imensa avenida que unia o Sul e o Norte de Happy Harbor!
Que delícia era dirigir aquela obra de Arte, com a pureza da prata e a fúria do rubro sangue!
Era um puro sangue, selvagem, cavalgando veloz nas pradarias do Sul de Happy Harbor!
Abri totalmente as janelas!
Eu queria aquele vento maravilhoso da madrugada, inteirinho, acariciando meus cabelos, beijando meus lábios, fazendo amor comigo!
Ah... cara... que prazer!
Eu nunca mais tinha sentido isso, desde que Luna se foi!
Cara... que prazer! Que delícia!
Eu sentia uma onda de relaxamento tão intensa, percorrendo meu corpo todinho, que enfiei a cabeça pra fora da cabine e dei meu velho grito de guerra!
Uma antiga indígena, cavalgando o seu mustang selvagem nas imensas e verdejantes pradarias!
Que liberdade!
Tudo seria perfeito... até que...
Eu nem tinha me dado conta... mas eu já tava trafegando naquele pedaço proibido da John Baptiste Road!
O monstro surgiu bem na minha frente... o monstro que eu evitei por todos esses anos!
Hospital Saint Peter!
Eu desacelerei a pick-up, conforme me aproximava... como se tivesse com pavor que aquele prédio, completamente abandonado, ouvisse o som do motor e me encontrasse!
Meus olhos, por um instante, olharam pra aquela manchete repousando sobre o banco do carona da pick-up: "Alucinações em massa geram pânico"...
Ao ler aquela manchete... um calor começou a subir pelo meu rosto... aquele calor perigoso, sabe?
Mas foi quando eu tava bem em frente aos portões do monstro, que eu evitei por todos esses anos, que subitamente meus olhos se encontraram com aquele decalque no para-brisas:
"Veículo blindado. Peso original: X quilogramas. Peso da blindagem: Y quilogramas. Peso total: X + Y"
Eu tava dentro dum tanque de guerra! Por que então ter medo?!
E como um raio, me lembrei duma coisa!
A Polícia!
A greve dos policiais já tinha acabado, fazia muito tempo... mas como eles receberam um aumento salarial ridículo dos políticos, e a opinião pública caiu de pau em cima deles por causa da greve, eles haviam mudado de estratégia...
Faziam agora as chamadas "Operação Padrão".
Você sabe, né? Tá ali o policial, com o presunto bem aos seus pés, e ele diz bem assim: "Assassinato? Aonde, que eu não tô vendo?"
Eu tô dentro dum tanque de guerra... bem no meio duma Operação Padrão da Polícia!
Um sorriso tomou conta do meu rosto quando eu uni esses dois fatores ao último fator da equação: aqueles portões velhos do Saint Peter... caindo aos pedaços...
Como que entoando uma apelo:
"Por favor, nos derrubem! Estamos tão cansados de ficar de pé!"
Hoje era a minha noite de ser Madre Selene de Calcutá! Não havia nenhum pobre de Deus que me implorasse algo e eu não lhe concedesse!
Quanta benevolência numa noite só!
Eu seria canonizada em breve:
Santa Selene de Calcutá, rogai por nós!
E foi com a minha auréola santificada – em chamas sobre minha cabeça! – que eu manobrei a pick-up!
Meus olhos faiscaram quando aqueles portões se viram refletidos nas minhas pupilas!
Joguei aquele tanque de guerra com tudo pra cima das muralhas do maldito castelo do Dr. Jekyll e Mr. Hyde! Um covil muito mais cruel que o castelo do Dr. Victor Frankenstein!
A forma como aqueles portões carcomidos desabaram foi... poética! Lírica!
Jamais esquecerei aquele som musical deles sendo exterminados pelos para-choques blindado do meu tanque de guerra!
Eu? Tava uma fera!
Mega doidona!
Desci da cabine, segurando aquele jornal, enrolado como uma espada, e fui direto pra soleira do castelo do Dr. Jekyll!
Com minha espada de celulose na mão, comecei a golpear as portas daquele castelo, muito pior do que o do Conde, narrado por Bram Stoker!
Conforme batia a notícia "Alucinações em massa geram pânico" contra aquelas portas amaldiçoadas, eu gritava, com toda a força dos meus pulmões:
- Seus filhos da puta! Eu nunca tive louca! Vocês que eram muito burros, seus animais estúpidos e cegos! Vocês é que eram os cegos deformados e diziam que eu, por ter olhos e ver, é que era considerada a deformidade?! Tomem, seus desgraçados! Seus filhos da puta! Enfiem no cu de vocês seus malditos haloperidol, imipramina e toda essa sua merda farmacêutica! Tomem, tomem!
Eu batia aquele jornal com fúria contra aquelas portas!
Mas não tava sendo o bastante!
Eles continuavam surdos lá dentro!
Eu precisava, duma vez por todas, fazer com que eles me escutassem!
De uma vez por todas!
Caminhei até os portões destruídos, peguei a melhor barra de ferro que eu encontrei naquelas ferragens e fui direto pras vidraças arrogantes daquelas portas amaldiçoadas!
Vidros orgulhosos! Se mantinham ainda de pé, mantendo o mundo de fora sem saber dos horrores que vocês escondiam aí dentro!
Pois eu vou destroçar o seu orgulho e arrogância!
Num golpe furioso, enquanto eu virava meu rosto pra me proteger, milhões de cacos de vidro desabavam, vencidos, por sobre a couraça do meu sobretudo negro de couro!
A amazona e sua armadura, atacando o monstro com sua espada!
As gotas de sangue da horrível besta-fera – transmutadas como cacos de vidro – salpicavam por sobre minha armadura!
Eu arrebentei cada átomo da arrogância dos vidros que mantinham toda aquela opressão aprisionada e abafada no interior do castelo do Dr. Jekyll e Mr. Hyde!
E berrei, com toda a força que os pulmões em fúria de uma garota de 50 kg e 1,55m poderiam ter:
- Eu sou uma médium, uma hipersensível, seus imbecis! Sempre fui! Cambada de canalhas cegos, que só queriam defender seu gordo salário e o status que seus malditos diplomas de "doutor" lhes dava! Porque entender de verdade os mistérios do psiquismo humano, quando a Natureza foge daquilo que vocês dizem que TEM QUE ser a verdade, vocês não aceitam! Vocês, com seus diplomas de merda e suas certezas estúpidas, sempre TEM QUE saber mais do que a própria Natureza e o Kosmos, né?! E a partir daí só fodem com seus pacientes! Malditos materialistas desgraçados! Eu sempre fui uma médium! Mé-di-um, ouviram bem, seus analfabetos desgraçados!?
Mas ainda eu não tava satisfeita!
Ainda haviam muitos gritos de oprimidos, presos lá dentro!
Só aquele pequeno vão aberto na porta não seria o suficiente pra deixar que todos eles fossem libertados! Eles precisavam de mais espaço pra poder fugir e serem livres de uma vez por todas!
Pequei a barra de ferro e destronei a imponência orgulhosa dos vidros das janelas, berrando:
- Dr. John! Você e seu maldito pênis, seu gigolô desgraçado, chefe deste puteiro! Me ouça aqui! Justiça foi feita: abençoada seja a cadeira de rodas que te deixou brocha pro resto da sua vida! Você nunca mais vai cometer abuso de poder contra ninguém, protegido por seu amaldiçoado jaleco branco e pelo seu diploma de merda, que sustentavam aquela sua pose de semideus sobre a Terra! Você e seus grandes "doutores" são um nada! Um nada! Hoje você não passa dum velho brocha, que mal pode se mexer naquela cadeira! Um nada!
Foi exatamente nessa hora que eu chorei... e eu chorei do mais puro e intenso ódio!
E com aquela barra de ferro nas mãos, continuei a destroçar as janelas!
Quando depus a arrogância dos vidros, chegou a hora de derrubar os seus tronos: arranquei toda a armação enferrujada dos caixilhos com a barra, como se fosse um pé de cabra!
Foi então que o meu exército invadiu a Sede do Poder daquela fortaleza infernal, tomando a Bastilha!
Foi o marco histórico da Revolução de Selene Stern, que deveria ser lembrada até com um calendário novo: brumário e por aí vai!
E, naquele momento histórico, eu deixei pra todo o sempre minhas palavras, de meu Discurso da Vitória, cravadas a ferro e fogo nos alicerces da Bastilha, quando enfiei minha cabeça e metade do meu corpo lá pra dentro, por entre o vão, e proclamei com toda a força:
- Ouça bem, Dr. John C. Watson, ó "poderoso chefe" diretor deste hospital! Você é um nada! Um saco de merda! Eu venci você! Porque eu sobrevivi a você! Eu tô aqui inteira, e você agora mostra pra todo mundo o saco de merda que você sempre foi, porque os Orixás nos justiçaram, pondo-te na sua prisão sobre rodas, onde você agora só mexe os olhos! Seu velho brocha desgraçado! Eu venci você! Eu tô agora aqui inteira, você não conseguiu me tirar nada! Eu derrotei você! Eu venci você, seu perdedor de merda!
O meu Discurso da Vitória... realizado em pleno Centro do Poder do inimigo vencido, foi o auge da minha carreira de guerreira!
Como os aliados, julgando e enforcando os criminosos nazistas em 1945, justamente em Nuremberg: a capital cultural do Nazismo!
Foi o meu auge!
Me senti incrivelmente leve naquele momento!
Como se pesadíssimos grilhões de aço, que prendiam completamente as minhas pernas e me impediram de caminhar a vida inteira, tivessem sido desintegrados em milhões de pedaços!
Pela primeira vez, na minha vida, eu não me senti o que eles diziam que eu era: uma doente mental, uma perturbada, uma anormalidade da natureza, uma aberração!
Foi um momento mágico!
Eu me senti gente, de verdade, pela primeira vez!
Um ser humano! Com o Direito de Existir!
Agora sim eu tava satisfeita!
Plenamente satisfeita!
Mas, pouco antes de entrar na cabine dupla da pick-up e voltar pro Casarão, imersa numa leveza como nunca senti, como se fosse capaz de flutuar entre as nuvens, fiz uma última coisa...
Peguei meu celular novinho... e tirei algumas fotos da caminhonete em cima dos portões... e da barra de ferro enfiada nas janelas: instrumento litúrgico que eu utilizei pra exorcizar os meus demônios e incinerar pra sempre os esqueletos que tavam antes escondidos no fundo do meu armário!
Mais do que isso!
Aquelas fotos eram o meu troféu de caça!
Selene, montada em sua Van Helsing: a Caçadora de Monstros!
Eu precisava de um troféu de caça! Pra exibir, junto aos meus pares, da Sociedade Real de Caça de Sua Majestade, a Rainha Vitória! Pra provar a todo o Império Britânico do século XIX que Selene Stern abateu um monstro com apenas um único disparo de winchester: bem no meio do branco dos olhos dele!
Aquelas fotos?
Eram sagradas demais pra serem vistas por mais alguém! Ficariam pra sempre protegidas no receptáculo sagrado do meu novo celular! Seria o meu troféu particular, rememorando a maior caçada que eu realizei!
Na caçada, fudi um pouquinho com a blindagem de proteção da frente da pick-up de Leilene... ela ficou com alguns amassões...
Mas amanhã mesmo eu levo num chapeador pra consertar e pintar...
Afinal, em toda grandiosa caçada, tem-se que obrigatoriamente gastar preciosa munição, né?!
Ah! Um mero detalhe... talvez importante, sei lá: nunca mais tive aqueles pesadelos!
Qual será o motivo?!
Eu sequer poderia imaginar... e você?
