Postagem 25. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

(Le Fabuleaux Destin D'Amelie Poulain, 2001, FRA)

Detesto perder...

Perder... sei lá... fede!

Mas uma hora eu teria que fazer, não só aquele pão, como também o tal bolo de cenoura...

Perdi a aposta do sobretudo de Álex... velhinha sacana!

Eu queria me livrar duma vez do compromisso...

Mas Hélène disse que eu ainda não tava pronta pra fazer as suas receitas, porque cada uma tinha um tempo certo pra ser feita...

Quanta frescura!

Um pão é um pão... um bolo é um bolo... que tempo certo o quê? Tem ingrediente, tem forno, mistura tudo, faz e acabou, pô!

Mas não...

Hélène e seus misteriosos dotes da cozinha...

A forma como ela fazia as coisas... parecia até mesmo ritualística, sabe?

Como a tal "Cerimônia do Chá", mega famosa na China e Japão: aquela cerimônia dos orientais, na real, era só um pretexto pra se realizar uma meditação profunda e atingir uma transcendência...

Tudo a ver com beber aquele café – que mais parecia água suja! – daquelas lancherias pulguentas próximas aos terminais de ônibus do centro de Happy Harbor, onde o pessoal não bebia o café – engolia aquilo duma vez só, e com um pastel todo gordurento de carne, que nojo! – e saía correndo todo esbaforido pro serviço, bater cartão...

Cerimônia do Café de Happy Harbor: ah, a nossa milenar sabedoria! Inveja à todas as nações do globo!

Hélène e seus mistérios... o que será que tinha por trás daquele pão e daquele bolo de cenoura, heim?

A velhinha?

Não dava ponto sem nó! Que tinha alguma coisa, isso tinha!

Hélène: que mulher incrível... e como tinha uma paciência enorme!

E eu, finalmente, acho que descobri porque ela parecia ter a paciência de uma boa professora: ela era pedagoga aposentada, foi uma alfabetizadora de crianças! Ensinou gerações de crianças a ler, a escrever e a calcular! Gerações!

Nossa, como aquela velhinha ela legal!

Ela explicava qualquer coisa, se precisasse, um milhão de vezes!

Diferente de Rachel – que apesar de ter um coração lindo, tinha uma tristeza e pesar no olhar – Hélène era incrivelmente alegre, bem humorada, tão... cheia de vida!

Era tão estranho: eu, quando tinha os meus treze anos, passei a cultuar a Morte e, depois que Rachel se foi, passei a desejar a Morte mais do que nunca...

Eu tava com dezenove anos quando conheci Hélène.

E justamente uma velhinha que nasceu lá em 1930... que viveu os horrores da Segunda Guerra Mundial... a última sobrevivente de uma família inteira... vivia com um olhar repleto de Paz!

Parecia que... sei lá... como se a Paz Interior exalasse por todos os poros de seu Ser!

Porra, como ela conseguia isso, tendo a vida desgraçada que teve?

Passando o que passou?!

Nossa... aquilo me fez pensar, com certa vergonha, se eu não tava fazendo a escolha errada... optar pela Morte...

Hélène nunca me disse nada... mas os seus atos tão pequenos no dia a dia eram tão eloquentes!

Sua gentileza e a delicadeza com que ela tratava até as caixas do supermercado, mesmo quando estas eram grossas com ela ou antipáticas... ela era firme em tais situações, mas nunca perdia a elegância!

A forma como ela abria as janelas do Casarão quando o Sol nascia: como se saudasse o novo dia como uma dádiva da Vida, como se fosse um... milagre... uma benção...

O jeitinho como ela preparava até uma simples xícara de chá: com disposição, dedicação, atenção e alegria...

Que atos tão pequenos do dia a dia: mudos e tão eloquentes!

Ela nunca deixava nada a incomodar, a perturbar!

Parecia que ela tava sempre num oceano de Paz...

Bem nela, sabe?

Bem encaixada nela mesma, sabe?

Acho que o mundo poderia desabar, e ela sempre taria tão calma, tão... confiante...

Putz grila, como ela confiava na Vida, como ela amava a Vida, era algo tão incrível...

Putz... aquela velhinha, sem me dizer uma única palavra, sem me dar um único sermão, sem nunca chamar a minha atenção – tipo: me xingar, me chamar de burra, desastrada, tapada, inútil, anormal, feia, esquisita, como Pink Pig sempre fez! – aquela velhinha sem dizer uma única palavra, tava derrubando todas as minhas certezas sobre desejar tanto a Morte...

Aquela velhinha tava me fazendo pensar se realmente optar pela Vida não seria a escolha realmente sensata...

Parecia me mostrar num discurso tão rico, vazio de palavras:

"A Vida é para os Fortes e os Sábios... a Morte – antes da hora – é o refúgio dos covardes e tolos: apenas uma fuga com o rabo entre as pernas!"

Como se dissesse:

"A Vida não tem oposto nem oposição! Morte é serva da Vida! A oposição da Morte é o Nascimento: jamais a Vida. A Vida? É Senhora de Todas as Coisas: tudo está contido Nela! Nada pode se opor a Ela!"

Naquela madrugada, eu tava pensando justamente nisso...

Eu não conseguia dormir...

Já começava a me arrepender da raiva que eu tinha da Vida...

Eu começava a me cansar de ter ficado brigando tanto com a Vida... porque Hélène simplesmente parecia que tava imersa num Oceano de Vida, em que todo e qualquer vento que soprasse, em que toda e qualquer corrente marítima que a levasse, a levaria pra um lugar gostoso, pra um lugar que ela mesma transformaria no seu Paraíso...

Hélène era incrível!

Acho que não importava aonde ela tivesse, aonde os ventos a levassem: ela sempre levaria o Paraíso dentro de Si mesma!

Ela conhecia o segredo do Paraíso Portátil!

Paraíso pen drive, tablet, celular 15 G: você o leva no seu bolso aonde você quiser ir!

Eu precisava ir numa loja comprar um desses pra mim!

Ia ficar de olho bem vivo em Hélène: vai que uma hora eu via ela saindo pela cidade, entrando numa loja, comprando seu Paraíso Portátil?

Aí eu ia saber o endereço dessa loja! E ia comprar o meu!

Eu me levantei da minha cama.

Em cima daquela cômoda antiga com aquele espelho enorme, mega linda, eu tinha colocado uma imagem de Oxum Pandá, Oxum Guerreira!

E subitamente me deu uma vontade danada de acender uma vela ali e agradecer não só à Ela, como também à Vida!

Puxa, pela primeira vez, eu ia agradecer... à Vida!

De todo o coração! Que... inacreditável!

Eu acendi a vela e fiz minha prece espontânea de gratidão. E eu senti uma coisa tão gostosa bem no meio do meu peito!

Como se meu peito se dilatasse...

Como se houvesse muito espaço lá dentro, sem mais aperto algum, sabe?

Seria aquilo o que Hélène sentia?!

Seria por ela sentir aquilo, todo o tempo, que a fazia ser tão alegre e... feliz?

Eu tinha ficado radiante!

E o sono realmente havia desaparecido. Resolvi sair do quarto e ir até a sala de estar, espiar pela janela a noite... talvez até mesmo abrir a porta e dar uma caminhada naquele imenso jardim, à luz do luar...

Eu amava a Lua!

Lógico... nem precisa explicar o porquê, né?!

Quando eu saí do meu quarto e desci as escadas... adivinha só quem eu encontrei, pertinho das escadas?

Álex... arrumando cuidadosamente os vasinhos de flores que enfeitavam os pés daqueles dois quadros: de An-het e Saraí!

Era impressionante ver Álex, tão grande, tão forte, arrumar aquelas flores com tanto carinho e com tanta delicadeza e precisão: como se ele fosse um ourives trabalhando delicadamente numa jóia muito fina!

Certamente eu não o surpreendi... duvido que ele não tivesse sentido meu cheiro assim que eu abri a porta do meu quarto: o olfato dele era incrível!

Tanto que ele nem olhou pra mim – enquanto arrumava as flores com a precisão de um relojoeiro! – quando me cumprimentou:

- Boa noite, mademoiselle Selene... Perdeu o sono?

Eu sorri, um pouco sem jeito:

- Sei lá... acho que tô com bicho-carpinteiro ou tem pulga no meu colchão... que vontade de andar por aí!

Ele sorriu discretamente – aquele sorriso... aquele, sabe? – sem desgrudar os olhos dos vasinhos... até que ele terminou de arrumá-los.

Se afastou uns passos... e ficou admirando aquele altar incomum por alguns instantes...

Eu, usando meu sobretudo negro de couro como roupão, me coloquei ao lado dele... e passei a admirar também aquelas pinturas tão antigas... putz, como aquelas flores pareciam trazer mesmo amor e vida pra aquelas pinturas!

Mas, lógico, me bateu aquela dúvida cruel:

Seriam mesmo verdadeiras as histórias que Álex contava pra pequena Hélène sobre as mulheres daquelas pinturas?

Seus nomes, suas histórias, seus amores? As vidas delas?

Ou seria tudo só uma invenção pra alegrar uma menininha órfã, entristecida após o assassinato de seus pais, naquelas noites de inverno?

Eu precisava muito saber a verdade!

Afinal... as histórias daquelas duas pinturas mexeram tanto comigo que, quando Hélène me mostrou-as pela primeira vez – a ponto de eu fazer aquele fiasco de desmaiar e depois me derreter chorando na praia – eu... sei lá... Aquelas histórias pareciam tão... intensas!

Sim, eu precisava saber a verdade!

Mas se eu fizesse uma pergunta direta, certamente Álex iria me enrolar... e eu nunca ia saber de nadinha!

Eu precisava ser astuta... indireta... até que me veio um plano! Yes!

Enquanto olhávamos pra aquele altar, arrumado com tanto carinho por Álex, eu lhe perguntei bem assim, mega "inocente", tentando ver se pegava ele num ato-falho, daqueles que nem Freud explica:

- Você as amava muito, não?

Álex deu um suspiro longo...

Mas ele não me deu resposta alguma... droga!

Então eu fiquei olhando pra ele algum tempo, nos seus olhos.

Ele viu que eu o fitava e perguntou:

- O que foi?

- Bom... você não me respondeu...

Ele tentou desconversar:

- Eu não respondi o quê?

- Ora, a pergunta que eu fiz!

Ele sorriu levemente, como se tivesse debochando de mim:

- Você fez alguma pergunta, é?

Hei, ele era um Orixá! Uma Divindade!

Tá bom, "só um Orixá Pessoal"... "só uma Divindade Menor"...

Mas nunca ouvi falar em Orixá surdo ou com falta de memória!

Então pra que aquilo? Será que ele desconfiou do meu golpe?!

Eu repeti a pergunta.

Ele?

Continuou mega quieto.

E eu ficava insistindo, olhando firme pros olhos dele, escondidos atrás dos óculos escuros dele...

Passou mais um tempinho... e eu disse:

- E?

- E o quê?

- Não vai me responder?

- Responder o quê?

Hei, ele tava me gozando, tirando uma com a minha cara, é?

Eu fiquei encarando ele mega séria, nos olhos... Ele deu um outro sorriso discreto... e me disse:

- Você não vai desistir até obter uma resposta, não é?

- Ah, finalmente acho que você acertou!

Ele retirou os óculos e os colocou no bolso interno do seu estiloso sobretudo negro.

Moveu a cabeça de encontro ao ombro direito e depois esquerdo.

Como se tivesse, num suposto movimento pra encaixar um pescoço com torcicolo no lugar... mas disfarçando... nervosismo, sabe?!

Então ele ficou olhando as pinturas... e me disse com uma voz baixa, mega seca:

- Selene... eu sou apenas um sobrevivente de um tempo que morreu, em que nada sobreviveu... apenas um pedaço de algo maior que se despedaçou... eu não amaria ninguém!

- Sério?

- Sim...

Aquilo que ele me disse não fazia sentido...

Como alguém sem Amor no coração faria o que ele fez... e fazia?

Adotado uma menininha órfã no meio duma Guerra horrível?

Me salvo de ser trucidada por Moses e pela Coisa?

Arriscar-se caçando aquelas coisas horríveis, com arrepiantes garras de dezessete centímetros, pra sempre proteger as pessoas?

Isso não fazia sentido!

Se ele não tivesse Amor, jamais faria tudo o que ele fazia!

Não!

Definitivamente não fazia sentido!

Ele só podia tá mentindo, descaradamente!

- Você tá mentindo...

Ele olhou pra mim, com seus olhos verdes emanando um olhar tão profundo e triste, e perguntou:

- Por que diz que eu estou mentindo?

Eu falei ardilosa, rápida e mortal como uma AK 47, tentando mais uma vez forçar ele a revelar algo de verdade sobre aqueles retratos:

- Bom, olha só o jeito que você mantém essas pinturas: num altar! E olha só o jeito com que você as mantém perfumadas e enfeitadas com flores! Se você não sentisse nada por essas mulheres jamais faria isso! Já tinha jogado isso até no lixo!

- Eu não disse que não sentia nada por elas...

Hei! Agora isso tá ficando mega interessante! Ele falou agora como se aquelas mulheres das pinturas tivessem existido de verdade!? E falou sobre "sentir algo por elas"!? Hum... tamos chegando a algum lugar!

Preciso dar só mais uma empurradinha... pra ver até onde os trilhos da Maria Fumaça vão chegar:

- Então?

Ele me respondeu... com a voz mega seca:

- Eu apenas disse que eu sou só um sobrevivente e que nunca amei ninguém.

- Conversa, Álex!

- Conversa?

- Claro! É lógico que você as amava!

Ele deu um sorriso muito tênue... e me disse:

- Se é tão lógico, então porque você me perguntou?

- Sei lá! Eu perguntei porque... sei lá!

- Você perguntou porque está querendo me sondar, não é? Se intrometer onde não foi chamada, não é? Saber o que eu guardo debaixo do meu sobretudo, não é?

E me disse isso apontando pro próprio peito!

Eu reagi:

- Hei, não! Eu perguntei só por perguntar...

Ele continuava sorrindo... acho que tava debochando de mim:

- Passam-se os séculos, passam-se as eras... e as damas sempre permanecem iguais...

- Como assim?

- Você pode ficar a noite toda aqui, Selene, discutindo isso comigo... porque você só vai descansar quando eu lhe der a resposta que lhe agradar...

- O que você quer dizer com isso?

Álex deu um suspiro que chegou a abrir as narinas dele...

Acho que ele tava começando a perder a paciência:

- Escute, Selene, você está disposta a ficar discutindo comigo a noite inteira sobre isso e eu sei o porquê... então não tente me enrolar...

- Enrolar? O que você tá insinuando?

- Nada...

- Não! Não é "nada", você tá insinuando alguma coisa! O que é?

Ele resmungou algo em voz baixa e eu ouvi.

Ele resmungou exatamente isso:

"Por que eu ainda estou dando trela pra essa pirralhinha?"

Eu não gostei nadinha de ouvir aquilo! Nadinha mesmo!

Fui eu agora que falei mega irritada:

- Tá! Você não tá a fim de falar comigo, né?

- Não esse assunto...

- Tá! Não sei porque esse assunto te deixa tão inseguro...

- Inseguro?

- É, pensei que você fosse mais corajoso, sei lá...

Putz... que mancada...

Eu fui longe demais, sabe? Longe demais mesmo!

Cutuquei a onça com vara curta... e que vara pequena pra onça tão grande!

Putz grila, agora eu realmente irritei ele:

- Escute aqui, guria! Você não passa de uma pirralha de dezenove anos! Você não sabe nada de nada! Se julga tão esperta, acha que pode decifrar alguém que viu a própria História nascer, que teve a felicidade perdida de ver e conviveu com Seres que os olhos humanos sempre invejariam?! Você é incapaz de entender o que eu sinto! Você nem vai querer saber a resposta que tanto quer!

Eu fiquei mega espantada com a reação dele: mega agressiva duma hora pra outra!

Não sei como eu consegui fazer isso, mas eu fiz:

Eu cruzei meus braços, ergui minha cabeça e encarei aquele carinha com quase meio metro a mais de altura do que eu!

E gritei firme pra ele, fingindo tá equilibrada e senhora de mim, escondendo a minha vontade de chorar ao ouvir ele tão agressivo:

- Quero! Quero saber a resposta!

Quando eu disse isso... Putz!

Álex cerrou o punho esquerdo – que começou a pegar Fogo e dele sair umas chispas como se tivesse segurando uma tomada elétrica dando curto-circuito! – e numa velocidade enorme ele subiu aquele punho e desceu com tudo sobre uma estante!

A força do golpe foi tal que esfacelou o móvel, fazendo um barulhão igual ao dum Trovão furioso!

O móvel ficou em pedaços!

Quase virou... pó!

E ele mostrou os dentes caninos pra mim, com os olhos deixando de ser verdes – ficando vermelhos como brasas crepitando! – e gritou:

- Merde, essa é a sua resposta! Eu sou só um pedaço do que eu fui! E o pedaço que sobrou ficou enfurecido! Eu sou incapaz de amar! Eu não amo nada nem ninguém, fica bem longe de mim!

Eu não acredito que eu ainda permaneci firme, bem ali!

Eu não cedi um centímetro... como pode?!

Mais do que isso: eu duelei com ele!

Duelei!

Eu, aquela anãzinha, disparei com tudo como uma xerife num western:

- Ok! Ok! Então joga um Trovão em cima de mim e acaba comigo se você quer se livrar de mim! Vai! É muito fácil acabar com uma chata como eu, essa pirralha aqui, magrinha e baixinha! Vai! Vai duma vez!

Eu tava encarando ele sem mover um único músculo do meu corpo todo!

Não sei de onde eu tirei aquela frieza e coragem toda!

Eu... não parecia eu!

E sei lá o que houve... pois como Álex viu que eu não tive nenhum medo dele, ele simplesmente fez uma cara de espanto!

Seus olhos, quase imediatamente, começaram a ficar verdes de novo!

Álex começou a respirar profundamente.

Tava mega ofegante!

Ele colocou as duas mãos na cabeça, sobre os cabelos, como que assustado consigo mesmo, e me disse:

- Me perdoe... me perdoe, Selene... ser um Orixá Pessoal que perdeu a Grande Conexão que já teve me fez instável emocionalmente...

Ele mal terminou de dizer isso e eu nem pude acompanhar ele com os olhos direito, pois já tava na porta de saída do Casarão!

Quase que instantaneamente bateu a porta e sumiu na escuridão da madrugada...

Em alguns instantes Hélène havia descido as escadas, de roupão, com cara de sono e susto ao mesmo tempo:

- Oh, Selene, o que aconteceu? Eu ouvi um estrondo, o que houve?

Nesse momento eu perdi completamente a minha pose de "senhora de mim"... porque as minhas pernas tremiam mais que cachorro no inverno: cusco longe da lareira!

Elas tavam tremendo tanto que, se eu ficasse de pé, ia parecer mais uma vara verde balançando na ventania do que outra coisa!

Putz, tem horas que o Sistema Nervoso Simpático e tão antipático... a gente simplesmente não consegue controlar ele!

Então, pra disfarçar meu tremor pra Hélène, eu sentei no sofá.

Hélène olhou pra estante virada em pó e exclamou:

- Senhor Deus, o Múltiplo! Foi Álex quem fez isso?! Por quê?

Eu tentei sorrir, pra disfarçar meu nervosismo, mas acho que fiz foi uma careta horrorosa:

- Acho que ele se irritou com algo, não sei com o quê... acho que alguns Orixás são meio instáveis emocionalmente, sabe?

Eu é que não ia dizer pra Hélène que eu chamei Álex de covarde! Capaz! Tirei o meu da reta, rapidinha!

Mas... no final das contas...

Que droga!

Álex era a "pessoa" mais perfeita que eu já havia conhecido!

Ele era inteligente, era corajoso, era lindo, era culto, era forte, era nobre, era uma Divindade! – tá, eu sei, "só uma Divindade Menor", mas era uma Divindade!

Mas ao mesmo tempo... Álex era tão complicado!

Ele era muito, mas muito complicado mesmo!

Eu não conseguia entender ele!

Tá... tá certo, eu até assumo que eu também era um pouquinho complicadinha... mas não tão complicada assim, viu! Ou será que eu era?

Mas, putz... será que no meio dessa complicação toda: ele complicado, eu complicada... será que...

Arfff... deixa pra lá!

Afinal, você já entendeu mesmo aonde eu queria chegar...

Hélène me viu tremendo... fomos pra cozinha e nós duas tomamos um dos seus chás especiais...

Tava tudo calmo agora...

Fomos, finalmente, ir dormir...

Eu? Demorei muito pra pegar no sono!

Não sabia o que tava me consumindo mais: se o espanto de ver Álex torrar aquela estante inteira na minha frente... ou se o remorso pelas coisas que eu lhe disse...

Putz grila: eu chamei aquela Divindade, aquele Herói de Guerra, aquele cara que caçava criaturas horríveis das Trevas, como a Coisa, Mr. Caputo e tudo o mais – pra proteger a todos nós! – de covarde!

Amanheceu.

E quando levantamos, uma surpresa:

A estante, destruída em pedaços e pó, tava perfeitamente consertada!

Como se nada nunca tivesse acontecido!

Consertada, exatamente como o retrovisor da Harley – que uma certa donzela à beira dum ataque de nervos havia quebrado...

Consertada, como o sobretudo de couro dele, que foi todo lenhado no confronto com Mr. Caputo!

E não era só isso...

Tinha um pedacinho de papel em cima da estante!

Nele tava escrito – com uma caligrafia linda, daquelas mega desenhadas que só os antigos tabeliães de cartório eram capazes de fazer, sabe? – a seguinte mensagem:

"Selene,

me perdoe pelas trovoadas desta madrugada

Álex"

Mal acreditei...

Ele se arrependeu mesmo!

Pediu desculpas humildemente, com total sinceridade!

Eu? Também me arrependi, e muito...

Nunca devia ter dito aquelas palavras horríveis pra ele... nem ter forçado ele a falar sobre coisas que ele não queria... mas você acha que eu ia dar o braço a torcer e pedir desculpas?

Vai sonhando...

Tava olhando aquele papelzinho...

Mal acreditei que eu, aquela mulherzinha, aquela coisinha minúscula, insignificante, tinha "vencido" aquele tenso duelo?!

Sei lá o porquê... mas justo nessa hora foi que me lembrei duma história que Rachel me contava, quando eu era muito pequena... como é que eu ainda lembrava disso?

Putz, que memória de elefante!

Tá: elefante anoréxico, reconheço... com seus 50 kg... mas ainda assim com uma memória!

O Mito era mais ou menos assim, lá vai:

"Há muito tempo, uma moça dizia que era mega humilde e se orgulhava de sua humildade na frente dos outros, mas na real ela queria é se dar bem. E mega bem!

O nome dessa moça? Oxum!

Um dia disseram pra ela que se fizesse uma específica Oferenda e levasse na Casa de Oxalá, ela finalmente ia se dar bem!

Que show! Era a grande chance dela pedir todos os favores que queria, pro próprio Oxalá em pessoa, na Casa Dele, e tirar o pé da sarjeta!

Só que ela foi lá, entregou a Oferenda, mas não conseguiu entrar na Casa de Oxalá...

Ela ficou mega indignada!

Ficou então bem na frente do portão da Casa de Oxalá e começou a falar mal do velho pra todo o mundo que passava na rua!

Dizia, a todos que passavam, que o velho Oxalá era um egoísta, era mau, era sovina, pão-duro, e que a prova viva disso é que ele nunca iria dar nada pra ela!

Dizia que ele vivia na fartura e ela, na miséria!

E a língua de Oxum não parava de soltar veneno contra Oxalá!

A sua língua escandalizou a cidade inteira!

Falava tanto, tanto, e tão mal de Oxalá, e dum jeito tão convincente, que todos começaram a acreditar no que ela falava do velho!

Então, amigos de Oxalá chegaram de cantinho pra ele e lhe disseram:

- Olha, Oxalá, é melhor você dar àquela moça tudo o que ela quer, antes que ela te desmoralize dum jeito tal, perante a opinião pública, que depois não vai ter mais volta...

Era o único jeito de fazer Oxum parar com sua campanha difamatória!

Tanto seus companheiros lhe avisaram que Oxalá viu mesmo que não tinha jeito... mandou chamar Oxum e deu pra ela tudo o que ela queria!

Foi assim que a moça Oxum deixou de ser moça pobre e, com os presentes de Oxalá, se tornou moça rica, como nenhuma outra moça nunca sonhou!"

Será que qualquer semelhança entre a língua dessa moça Oxum, neste profundo Mito – profundo porque, ao olhar dos Iniciados, ensina a manipular energias magísticas de específicas Oferendas propiciatórias milenares... mas que também ensina que se deve ter muita garra e firmeza pra se obter o que você deseja na Casa de Oxalá! – e a minha língua, tinham alguma semelhança?

Capaz...

Qualquer semelhança tem que – e eu digo que TEM QUE, oras! – tem que ser apenas uma mera coincidência...

Tudo meramente acaso...

Conclusão: você pode ser grande... você pode ser incrivelmente forte... você pode ser uma Divindade, um lindo Orixá incrivelmente respeitado... mas mesmo assim, nunca, nunca mesmo duvide da força de uma mulherzinha!