Postagem 26. Excalibur
(Excalibur, 1981, ING/EUA)
Deviam ser umas dezessete horas, quando ouvi a campainha tocar.
Mas eu tava tão distante da porta, Casarão adentro, que custei a chegar lá pra atender.
Campainha tocando... normal... devia ser umas daquelas pessoas procurando por Hélène: desde antigos alunos seus até pessoas que ela mal conhecia mas que se encantavam com aquele seu jeitinho único... a velhinha era mega cativante mesmo!
Morar junto com uma velhinha pop star é ter sempre que atender uma campainha muito insistente...
Quando eu cheguei perto da porta, ela já tava aberta... Hélène já devia tá lá no caminho de basaltos do jardim...
Fui então fazer minhas coisas na cozinha, ali perto da entrada...
Quando Hélène entrou na sala do Casarão, e eu a ouvi dizendo "Por favor, aguarde apenas alguns instantes que eu lhe anunciarei para Álex, está bem?", foi que me espantei!
Ué?! Que estranho mesmo!
Afinal, não era um costume tradicional ver-se alguma comitiva diplomática, oriunda das nações vassalas por todo o globo do poderoso Império Britânico de Sua Majestade a Rainha Vitória vir até ali, oferecer ouro, mirra ou incenso aos pés de Sir Aleximander!
Sarcasmo... nham, nham, que gostinho bom!
Mas, afinal, quem diabos viria visitar Álex, justo no seu Casarão?
Foi então que vi Álex passar pelo corredor.
Ah, eu não aguentei!
Fui até a porta da cozinha... me esgueirei um pouco pelo corredor, até ver a sala...
Afinal, era só uma espiadinha inocente!
Foi quando eu vi um carinha alto: devia ter uns 1,85 m de altura... vestia um longo sobretudo vermelho... por baixo: um terno muito elegante, que devia ser mega caro!
O carinha era negro, com olhos pretos mega expressivos, tão vivos! Seu cabelo era cortado curto. Seus ombros eram largos e ele parecia tá bem saradão...
Tá bom, tá bom, droga! O carinha era mega atraente, confesso!
E quer saber mais?
Ele adornava seu pescoço, por sobre seu terno, com uma... guia!
Mas uma guia que eu nunca tinha visto antes na minha vida, nem quando era criança – na terreira de Rachel – nem agora, naquela montanha de livros que eu devorava sobre os Deuses e Deusas da Mãe África e da Mãe América!
Quando ele e Álex se viram... ambos, simultaneamente, fizeram um pro outro uma espécie de... antiga saudação militar?!
Hei, hei! O que tava rolando ali? Porque aquele tipo de saudação? Eu nunca vi Álex saudar ninguém daquele jeito!
Vi que o carinha carregava nas mãos um pacote... era um pacote estreito e muito longo... talvez tivesse um metro de comprimento...
Enquanto eu espiava tudinho – dum jeito inocente, tá?! – bem de cantinho no corredor, vi que o carinha baixou um pouco sua cabeça, inclinando levemente o corpo pra frente.
Ergueu os braços à sua frente e entregou a Álex aquele pacote misterioso, enquanto dizia exatamente essas palavras:
Vitalizada através de Mim Ela está
chamando por ela, Ela está,
embora ela ainda ouça Ela muito pouco,
eu a trouxe de volta à Sua Casa!
Pois, perdida de Sua Casa, um dia ela foi!
E Agora, clamando para trazer de volta Antigos Dons, Ela está!
Por isso, finalmente, Ela Agora deseja retornar à Sua Casa!
Putz, que palavras... misteriosas! E ditas daquela forma como o carinha fez, parecia até uma... reza?! Um mantra?!
Álex?
Fez o mesmo movimento que o carinha: recebeu com a cabeça inclinada, em reverência, e com seus braços à frente, aquele embrulho!
Quando Álex segurou o embrulho, percebi que ambos sorriam mega satisfeitos... foi aí que ambos, muito discretamente... voltaram seu olhar exatamente pro cantinho do corredor em que eu tava!
Ai que vergonha!
Será que me viram?
Eu nem tive tempo de me mexer, pois o carinha fez aquela incomum saudação militar a Álex e se virou em direção à porta de saída.
Mas quando ele se virou...
O seu rápido movimento fez com que a parte inferior de seu longo sobretudo vermelho mostrasse algo que antes tava oculto...
Havia, em sua cintura, um cinturão de metal e à sua esquerda, preso ao cinturão, uma bainha enorme... onde repousava uma... espada!
Putz grila!
Quem andaria com uma espada por aí, na cintura, por Happy Harbor?
Será que o carinha já tava meio bêbado pra fazer uma coisa dessas?
Mas recém eram dezessete horas!
Ainda faltava muito pro clássico whiskey das dezoito horas!
Tá, a Operação Padrão da Polícia bem que tentava qualquer cidadão honesto a andar com uma espada na cintura... mas porte de arma ainda era proibido em Happy Harbor, quer fosse arma de fogo ou arma branca, de lâmina...
Que genial o Estatuto de Desarmamento de Happy Harbor: o tráfico de armas podia trabalhar agora tão à vontade, sem mais nenhuma concorrência legalizada, dando atendimento VIP aos seus ilustres clientes: os Moses, os Julian, e os Andrew por todo o país...
Eles desfilavam pelas ruas, com suas jóias na cintura, sorridentes como numa passarela fashion...
Mas ai de você, pagador de impostos, se tivesse uma arma em casa pra se proteger: seu violento! Seu desalmado! Seu bruto! Prenderemos você pra tornar Happy Harbor um lugar seguro de verdade!
Ah, o estilo de vida pacifista de Happy Harbor: que exemplo eterno e invejável de justiça e bem-estar à todas as nações do mundo!
Mas eu nem tive tempo de pensar mais nada, pois em instantes o carinha já tinha ido embora!
Ele se foi, como se fosse um mensageiro, um intermediário: levava e trazia coisas importantes, e logo ia embora!
Quando ele se foi... eu apareci imediatamente na sala.
Lógico que eu crivei Álex de perguntas! Ou você acha que eu faria alguma outra coisa, heim?!
E, de cara, sem nem mesmo cumprimentar Álex, comecei:
- Quem é esse carinha?
Ele?
Segurava aquele embrulho nas mãos... e me disse, quase rindo:
- Espere sete minutos... sente-se no sofá da sala, ao lado da lareira... eu já retornarei.
Vi que ele foi em direção à Biblioteca – justo à Biblioteca: minha zona proibida! – e entrou, carregando aquele pacote.
Fiquei esperando ele na sala.
Quando ele retornou, veio sem o embrulho.
Droga, droga, droga! Agora eu não poderia de madrugada, ir pé por pé, ver o que tinha dentro daquele pacote!
Por que você não o deixou na sala, heim? Que porcaria mesmo...
Álex sentou-se perto da lareira. Mas não sem antes fazer nela um belo fogo!
Ele sentou-se.
Seus olhos sequer olhavam pra mim: pareciam hipnotizados pelo bailar das chamas... como se o Fogo da lareira o tomasse e o levasse ao encontro de um passado imortal... um passado tão oculto que parecia estar preso nas milenares rochas de carvão, esperando apenas que o Fogo libertasse suas memórias e contassem suas histórias ancestrais, escritas em suas páginas...
Álex parecia quase hipnotizado pelas chamas... ele parecia tá quase entrando num estado de... sei lá... êxtase?!
E foi naquele estado que ele começou a falar... lentamente... como se lesse as memórias presas nas páginas milenares do carvão, agora libertadas pelo Poder do Fogo:
Num tempo tão antigo,
tão antigo que eu era um pequeno menino,
haviam as duas mais antigas formas de Magia.
As duas Teurgias Divinas mas antigas deste planeta.
A Magia Divina da Luz e a Magia Divina da Sombra!
Ambas compunham a Verdadeira Unidade Ancestral,
enquanto ainda as bandeiras do Poderoso Reino do Norte
e do Glorioso Reino do Sul, aquele em que nasci,
tremulavam, austeras e nobres,
por toda a imensidão do Gigantesco Vale do Sagrado Rio!
Um tempo de glória, onde não existiam separados
nem religiosos, nem cientistas, nem filósofos, nem artistas:
haviam os Conectados!
Pois o Espírito em nós era Uno!
Conexão!
A Sagrada Biblioteca Viva estava completamente inteira!
Os Conectados conheciam, compreendiam, sentíamos e se fundiam sem perder-se ao Movimento da Luz, ao Movimento da Sombra e à Estabilidade da Fonte, o Ser!
Era um tempo de glória!
Um tempo em que os próprios Orixás andavam sobre o mundo!
Eu fui um dos três últimos Conectados a nascer,
justamente no Glorioso Reino do Sul,
para que a Biblioteca Viva fosse protegida,
para que a fragmentação jamais a maculasse
porque o Tempo da Separação se aproximava!
Cada um de nós recebeu um título
muito difícil de traduzir na língua de Happy Harbor
mas, de uma forma aproximada,
seriam assim hoje chamados:
"The Librarian", "O Bibliotecário".
"The Poetry", "A Poesia".
"The Building", "O Edifício".
Compúnhamos a Biblioteca Viva!
Mas ela, A Poesia da Biblioteca Viva,
acabou seduzida pelo Poderoso Frágil Pequeno Grande Monstro...
E, dominada por esta criatura, numa madrugada imemorial,
mas marcada a Ferro e Fogo em minhas lembranças,
ela profanou uma imensa parte da Biblioteca Viva!
E todo o mundo, como o conhecíamos,
mudou para sempre depois disso...
Foi então que, para proteger a todos nós,
os Orixás Andantes retiraram-Se para sempre,
levando consigo a Verdadeira Unidade Ancestral,
e a Magia Divina das Sombras
desaparecia da face da Terra
desmembrada pelo mundo inteiro
restando apenas alguns de seus fragmentos...
Muito tempo depois,
quando mais ninguém, exceto os Iniciados muito sábios,
lembravam que um dia existiu o Poderoso Reino do Norte,
o Glorioso Reino do Sul
e a Verdadeira Unidade Ancestral,
nem A Magia Divina da Luz e a Magia Divina da Sombra,
novo cataclismo aconteceu...
Neste cataclismo, que chegou aos ouvidos de Platão, o ateniense,
como a Queda de Atlantis,
os Orixás, para proteger a todos nós,
recolheram junto de Si
a parte mais preciosa e poderosa da Magia Divina da Luz.
Agora também, da Magia Divina da Luz,
sobravam apenas partículas
do que um dia foi a imensa Varinha Mágica...
Mas, finalmente, o Terceiro Milênio chegou!
A Era do Espírito!
E os Orixás declaram que é chegada a hora
da Terra passar por uma nova Grande Mudança...
No século XXI, gradualmente, estão sendo resgatadas
a Ancestral Magia Divina da Luz,
e a Ancestral Magia Divina da Sombra,
neste período de transição planetária,
de resgate da Harmonia da Imensa Teia da Vida!
Gradualmente... eu disse... gradualmente...
Mas, dia glorioso chegará
em que a Terra estará pronta novamente
para que os Conectados
retornem a conhecer, sentir e fundir-se sem perder-se
ao Movimento da Luz, ao Movimento da Sombra e à Estabilidade da Fonte, o Ser,
e novamente voltem a caminhar sobre a Terra!
E neste dia, Selene... eu não serei mais
o último e o único a lembrar-se dos Conectados
sobre a face deste berço azul que dança ao redor da Estrela do Dia!
Mas, neste resgate, no século XXI,
da Ancestral Magia Divina da Luz,
e da Ancestral Magia Divina da Sombra,
para que o Poderoso Frágil Pequeno Grande Monstro,
que dorme na cama e come à mesa junto à cada pessoa,
não deturpe novamente essas duas jóias Ancestrais,
Ogum, o Grande, está agindo!
Ogum, para proteger este Renascimento,
colocou as Ancestrais Magia Divina da Sombra e da Luz
sob a guarda e manifestação
de um poderoso Grupo de reencarnados...
os Z-médiuns!
Assim eles devem ser chamados:
Porqu última letra do alfabeto,
a derradeira geração do abecedário
antes das Lições Maiores.
Porque médium é aquele que intermedia,
é o fio de fibra-ótica
por onde correm os bytes
do Conhecer e Sentir Sagrados
para a Transição deste Mundo!
E tudo isto está acontecendo
sob a égide de Ogum, o Grande,
e sob amparo dos Orixás
de Exu a Ifá-Orumilaia.
Existe respirando sobre a Terra
aquele que, cavalgando
uma selvagem Harley-Davidson,
procura e detecta.
Existe respirando sobre a Terra
aquele que, trajando um antigo sobretudo negro,
bate à porta, convida e reúne,
ajudando os Z-médiuns a lembrarem-se
de suas antigas Iniciações que,
antes desligadas,
foram acordadas pelas forças de todos os Grandes Orixás,
que, em Sua Sabedoria,
despertaram neles, harmoniosamente,
as suas antigas Iniciações!
Pois são os Grandes Orixás que sabem
evitar o despertar dos antigos Dons de Seus filhos
de forma desarmoniosa,
que desequilibrariam o Iniciado,
realizando assim, com perfeição,
um dos maiores Dons dos Orixás:
a Harmonia!
Assim, Selene,
a resposta à sua pergunta
"quem é o carinha", é esta:
o "carinha" é um Z-médium!
Eu?
Silencie completamente!
Nada mais consegui pensar!
Nada mais consegui falar!
Acho que não consigo encontrar mais palavras pra expressar a minha reação, ao saber de tudo aquilo... exceto estas:
Fiquei imersa na eloquência do meu Silêncio...
