Postagem 27. Lamberto, o Leão Cordeiro

(Lambert, the Sheepish Lion, 1951, EUA)

Hoje eu tava viajando legal em pensamentos...

Por quê?

Álex me veio na cabeça... mais do que de costume...

Não dava pra entendê-lo, não dava!

Haviam dias em que ele passava por mim e mal me cumprimentava...

Haviam dias em que sequer passava perto de mim: me evitava mais que sonegador aos técnicos da Receita Federal...

Mas haviam dias em que ele se sentava do meu ladinho, em frente àquela lareira, e ele falava tanto comigo!

Aquilo me deixava muito doida... tão confusa!

Eu não sabia o que tava acontecendo, droga!

Mas ao mesmo tempo... quando nós conversávamos daquele jeito... nham... nham...

Ai, que delícia!

Sabe aquela química, de você virar uma noite inteirinha conversando com alguém, até depois do Sol raiar, e nunca faltar assunto? E tá sempre um papo indescritivelmente... delicioso?!

Que droga Álex! Você me fazia ficar viciada daquele jeito...

O problema é que eu nunca sabia quando eu teria a próxima dose... ou SE a teria!

Tava tão confusa...

Mas sei lá por que mas... no meio dessa confusão toda...

Comecei a pensar em Amor...

Amor entre os diferentes...

Por que será, heim?

Tá... faz de conta que eu não sei... e que você também não sabe, né?!

Me veio na cabeça tudo que é amor entre os distantes da história do cinema...

"Romeu e Julieta"...

Pessoas de países distantes... "Cartas para Julieta"...

E até o amor entre uma guria e um cara "sobrenatural"...

Lógico que daí pra viajar mentalmente pra vampiros foi um passo só, putz...

Pois alguém já tinha dito, de forma poética, que se houvesse o amor entre um "vampiro" e uma guria, esse amor seria tipo um leão e uma cordeiro se enamorando...

Tá, admito, droga! Pensar isso tava me fazendo entrar de novo num momento "Bella Swan"...

Se Álex soubesse disso que eu tava pensando... Ah, ele me esganava, hahaha!

Ele odiava esse papo de romantizar vampiros: ficava uma fera!

Mas era tentador pensar isso, droga...

Solução: comecei a desenvolver um "tema com variacione" dessa partitura de leão e ovelha, dentro da minha mente.

Eu? De ovelha, nunca tive nada!

Ovelhas são fofinhas... são branquinhas... e andam juntas de outras ovelhas de fofinhos pelos cor de neve... elas pastam tranquilamente, olhando pro chão... de noite, dormem; de dia, fazem as coisas de ovelhas...

Eu? Fofinha?

O dia que sarcástica for "fofinha", parem o mundo que eu quero descer!

Eu? Branquinha? Argh, que nojo! Que cor horrível!

Só minha pele... mas acho que meu longo sobretudo negro já mostrava que branco não tinha nada a ver comigo... eu era dark por dentro, e meu sobretudo corrigia o engano da minha pele, mostrando por fora como por dentro eu era...

Eu? Andando junta de outras ovelhas?

A maior doutora expert na disciplina científica chamada "Solidão?" Esquece!

Eu? Pastar tranquilamente, olhando pro chão?

Logo eu, que tava desde que nasci com meus olhos voltados pras Estrelas? Que olhava pro firmamento, e me perguntava:

"O que será que tem lá? O que será que podemos descobrir, desvendar, entre esses pontos lindos que iluminam a madrugada, pontos que, naquela líquida vastidão azul, guiaram Colombo até a América, e que orientaram os tuaregues e suas caravanas na imensidão do marítimo oceano das areias do Deserto da Líbia?

Eu, olhando pro chão, pastando? Você tá me zoando, né?!

Eu? Dormindo de noite e fazendo de dia as coisas de ovelha?

Era muito mais fácil dizer que eu, isso sim, batia asas de morcego à noite, ou que piava como uma coruja na madrugada e de dia dormia – ou se não dormia no alvorecer, fazia, isso sim, alguma coisa de corvo!

Ovelha eu? Só tinha um jeito: só se fosse a ovelha negra!

The Dark Lamb!

Hei! Agora sim! Eureka!

Já sabia o que Álex e eu éramos! Compus uma valsa bem diferente da dançada por Bella Swan e Edward Cullen!

Agora sim, eu entrava no meu legítimo momento "Selene Stern"!

Lá vai:

Álex era sim um Leão Alado de Fogo, com olhos faiscantes, a juba em chamas, iluminando a madrugada conforme suas patas queimavam a relva por onde passavam, em pegadas crepitantes!

E eu? Ah! Eu era The Dark Lamb, oculta nas trevas da madrugada pela minha pelagem perfeitamente sombria!

E foi pensando nisso, no Leão Alado de Fogo e sua Dark Lamb, juntinhos na escuridão da madrugada, que me lembrei de algo...

Algo que, pra mim, descrevia Álex mega bem!

Uma vez, há muito tempo, quando tava me protegendo dentro da Biblioteca da escola, encontrei algo...

Lógico: deveria ser a hora do recreio... ou será que era a hora da Educação Física? Putz, agora não me lembro... Afinal, "aula de humilhação física" era sempre tão mal dada pelas minhas professoras gordas e preguiçosas que lembrava, mesmo, era um recreio mega mal feito...

E na Biblioteca, acessando a rede, vi num daqueles sites de vídeos mega antigos – que eu amava de paixão! – um desenho lá dos meados do século XX: 1951!

Era da Walt Disney Company.

Eu nunca me esqueci daquele desenho!

Ele era bem assim, lá vai:

Numa fazenda, ano após ano, uma ovelha esperava a cegonha lhe trazer um filhote.. ela queria muito ser mãe! Mas nunca tinha um filhotinho...

Chegavam as cegonhas, com as ovelhinhas amarradas em seus bicos. Era uma festa! Todas as ovelhas ganhavam seus filhotes... menos ela... Que tristeza a dela!

Até que certa vez, quando as cegonhas vieram novamente em conjunto, cada uma trazendo em seu bico um filhote enrolado em panos, uma delas trazia um volume bem mais pesado... mas como na etiqueta tava escrito que seu nome era "Lamberto Cordeiro", a cegonha não desconfiou de nada...

Quando ela entregou pra ovelha, que muito queria ser mãe, aquele "pacote" foi então que descobriu, ao abri-lo que "Lamberto Cordeiro" era um filhote de... de... leão!

Mas foi amor à primeira ronronada e balida!

A ovelha amou aquele filhote desde que pôs seus olhos nele, e o leãozinho amou a sua "mãe"!

A cegonha bem que tentou desfazer o engano, mas foi embora a convite das cabeçadas da mamãe ovelha!

Aquela nova mamãe acolheu Lamberto Cordeiro como seu filho com todo o amor que uma ovelha poderia dar!

E, lógico: lhe ensinou tudo o que uma ovelha poderia ensinar!

Mas o tempo foi passando, e o filhotinho foi crescendo, crescendo e crescendo, no meio das ovelhas!

Ele se comportava como as ovelhas em tudo: era mega manso, não fazia mal a uma mosca, mas a única coisa que ele não conseguia fazer era o "bée" das ovelhas: balir... ele tentava e tentava, mas não saía!

E ele cresceu, se tornou adulto, e vivia junto com sua mãe adotiva e as demais ovelhas, naquela fazenda.

Sua juba cresceu, ficou linda! E ele era umas dez vezes maior que uma ovelha!

Porém, uma noite, um lobo faminto invadiu a fazenda!

Ele babava de fome e tinha dentes enormes!

O lobo invadiu onde tavam as ovelhas: houve pânico!

As ovelhas correram desesperadas enquanto o lobo tentava apanhá-las à dentadas!

Mas as ovelhas mais jovens e velozes, conseguiram escapar.

E enquanto o lobo corria atrás das ovelhas, o leão se comportava como uma ovelha também: assustado como elas, fugindo como elas!

Até que o lobo conseguiu deixar encurralada uma velha ovelha, na beira de um abismo...

Era justamente a mãe adotiva do leão Lamberto!

O lobo dava um passo, babando de fome, com os dentes à mostra, e a velha ovelha não podia mais recuar – pois o abismo tava atrás dela!

E o leão Lamberto, vendo que sua mãe tava pra ser devorada pelo lobo, tava paralisado de medo, agindo como ovelha!

Mas quando o lobo se preparou pra saltar no pescoço da ovelha, subitamente um som nunca ouvido na história daquela fazenda foi ouvido: um poderoso e ensurdecedor rugido!

O lobo tremeu e olhou pra trás! Nesse momento o leão Lamberto saltava em cima dele, com uma força gigantesca!

O leão e o lobo rolaram pelo chão, até que o lobo, completamente branco de medo, fugiu em disparada!

Ele só ouvia atrás de si o poderoso rugido de um verdadeiro leão africano!

E o lobo nunca mais voltou a perturbar aquelas ovelhas, protegidas por um... leão!

Era assim aquele desenho, pelo que me lembro...

Putz, faz tanto tempo!

Quando olho pra Álex... eu me delicio pensando como ele é igual àquele leão...

Um leão, o mais poderoso predador da África, vivendo entre as ovelhas... tentando, a todo custo, protegê-las dos lobos famintos das Trevas... sem que ninguém sequer suspeitasse disso... sem que ninguém soubesse que uma Alma, que um dia foi despedaçada e perdeu a sua Conexão, mesmo machucada, havia ainda assim escolhido não a desarmonia e a antinatureza: mas a Harmonia, a Natureza e a Vida!

Era exatamente por isso que Álex lutava: pela Harmonia... pela Natureza... pela Justiça... pela Vida!

Ele saía às vezes do nosso Casarão, naquelas noites e madrugadas, montado em sua Harley, com suas espadas e sua pistola, como se fosse um Hellboy Terminator... e sempre voltava com manchas de sangue e ectoplasma das criaturas das Trevas e seus servos encarnados que ele abatia... e tudo por quê?

Lembro da forma como ele falava pra mim das conquistas humanas, ao redor daquela lareira: históricas, científicas, tecnológicas, artísticas, enfim, em nossas conversas... enquanto as chamas dançavam sobre a lenha e o carvão...

A forma como ele as contava pra mim... quando presenciou cada uma delas...

Como, por exemplo, a primeira vez que ele assistiu um filme num cinematographo, projetado pelos irmãos Lumière, em 1895...

O que ele sentiu quando viu o primeiro veículo mais pesado que o ar, o 14 bis de Santos Dumont, decolar com motor próprio e voar, na Paris de 1904...

O voto feminino, nas democracias européias e americanas, nos anos 1910 e 1920...

O primeiro impeachment de um líder de Estado, deposto sem derramamento de sangue, sem canhões, sem espadas ou metralhadoras, mas apenas com as armas da Opinião Pública...

A Libertação da Índia do Império Colonial Britânico, em 1947, sem realizar uma guerra, liderada por um homem magrinho, vegetariano e pacífico: Mohandas Gandhi...

Álex poderia falar pra mim, amargamente, de uma lista sem fim de pessoas canalhas, organizações, grupos e suas atrocidades... mas não...

Não!

Álex parecia não ver a parte "vazia do copo"... ele parecia se concentrar e ficar feliz contemplando a parte "cheia do copo": a parte que continha a água da Justiça e Vida em nós, Homo sapiens!

Os olhos de Álex me diziam que... ele tinha tanta, mas tanta fé em nós!

Que ele acreditava muito no Homo sapiens! E que dele nasceria algo novo... o Homo cosmicus...

Que ele acreditava, muito, mas muito mesmo que, em nossa Humanidade, a Divindade se manifestaria!

Os olhos de Álex me diziam que... que ele tinha muito orgulho de nós!

Embora ele nunca dissesse isso em palavras... mas não era necessário: seus olhos já me diziam tudo!

Eu era humana... eu era uma Homo sapiens, e não tinha nenhuma fé nas pessoas...

Eu achava o ser humano estúpido e destrutivo... eu sempre só vi as Trevas em nós...

Homo sapiens: o único animal que era capaz de matar um outro membro da sua própria espécie, ou torturá-lo, oprimi-lo e humilhá-lo, só pra se divertir!

Eu tinha tanta vergonha, vergonha mesmo, de ser humana...

Mas foi aquele Orixá, aquele Xangô Aganju, tão temido por tantos por ser o Justiceiro – mas na real o Leão que protegia as Ovelhas! – quem me ensinou, sem dizer uma única palavra a respeito, mas apenas com seu olhar, a acreditar nas pessoas...

Foi com ele que eu passei a acreditar que as pessoas, que cada Ser Vivo, tinha uma importância única no Kosmos...

Foi justamente com aquele Orixá Justiceiro, que também respondia na Calunga Pequena, na Lomba, no local mais temido pelas pessoas – o Cemitério! – que eu aprendi a amar a Vida e a desejar também lutar por ela: proteger a Vida!

E tudo isso ele me ensinou apenas com o seu olhar...

Apenas com seu olhar incrivelmente vivo... apenas com aquele olhar de orgulho e imensa fé que ele tinha... em nós!

Álex era... era... maravilhoso pra mim!

Tá... ele era indecifrável...

Tá... eu nunca sabia o que ele pensava...

Tá... ele me deixava confusa...

Mas ele era maravilhoso pra mim!

Realmente... aos meus olhos, Álex havia sobrepujado absolutamente, derrotado supremamente, qualquer vampiro Edward que antes havia apaixonado completamente o meu imaginário ou coisa parecida... Tá, droga, confesso: antes de conhecer Álex eu era mesmo mega apaixonadinha por aquele personagem de "Twilight", droga!

Mas agora... Álex vivia em minha vida... um Orixá, uma Divindade, ao alcance dos meus dedinhos, em carne, ossos e sangue!

E admito... eu só tinha olhos pra ele...

Confesso mesmo, na boa!

Só que... claro... ele nunca ia saber disso!

Afinal, ver ele com todo aquele ciúmes do personagem de "Twilight" – quando eu mal mencionava aquele nome que começava com "E" – era delicioso pra mim, hahaha!

Ou você acha que eu ia perder aquela chance única de perturbar ele? Capaz, né!?

Será que eu sou uma menina sapeca e terrível?

Imagina...