Postagem 28. Cafundó

(Cafundó, 1992, BRA)

Que segunda-feira de cão...

Cansativa... arrastada... o dia não acabava nunca!

Tudo se arrastava... nada do que eu fazia parecia render!

Hélène e eu havíamos carregado uma obras de Arte em metal – esculturas e peças de armaduras – até a Sala de Restauração do Casarão, pra remover oxidações, limpá-las e poli-las...

A velhinha?

Parecia um ferrinho, como se feita do metal das próprias armaduras que carregava, de tão forte!

De onde ela tirava aquela força, vitalidade e disposição toda – tendo tanta idade! – pra carregar aquelas obras e peças que pra mim tavam dando uma canseira só?

Putz grila... eu tava perdendo em energia e disposição, no esplendor dos meus dezenove anos, pra uma velhinha que tinha mais anos que o... o... sei lá... o Dr. Chapatim?!

Arf...

Mas o fato é que o cansaço que me tomava hoje, carregando aquelas coisas e trabalhando na sua restauração, não foi um caso isolado...

Já faziam alguns dias, já desde a semana passada, que eu me sentia mega acabada...

Nos meus estudos noturnos, pro Teste de Proficiência na National University, pareciam que meus olhos dançavam punk rock entre os parágrafos: tava ficando tudo embaralhado... eu lia e lia e... blá-blá-blá... as palavras pareciam língua de cachorro, gato ou canário pra mim: eu não conseguia entender o que lia!

Mas não era só nos meus estudos pro Teste de Proficiência... nas minhas horas de folga o mesmo tava acontecendo quando eu queria ler aqueles livros que eu agora tanto amava: seja Mitologia e Antropologia dos Orixás e Deuses Indígenas, escritos por Doutores de Grandes Universidades de todo o mundo... seja Magia, Teologia, ritos, oferendas e tudo o mais que envolvia a Magia da Mãe África e Mãe América!

Eu amava aqueles livros... mas sempre que eu os lia, acontecia de novo... os parágrafos e linhas dançantes... ali não era lugar nem hora pra punk rock, pô!

Isso já tava era me dando nos nervos!

Mas não era só isso... desde a semana passada, tinha mais coisa...

Tava incrivelmente cansada... toda dolorida...

Tava me sentindo mega velha e acabada, sabe?

Tava sentindo dores nas costas...

Tava sentindo dores nas panturrilhas... as barriguinhas das pernas, sabe?

Tava sentindo dores nos ombros...

E o pior... era de manhã cedo...

Quando chegava a hora de acordar e levantar da cama, pra começar o expediente do dia, junto com Hélène...

Que sofrimento era aquela hora... me levantar da cama...

Acho que se eu dormisse direto, toda noite, umas doze ou até vinte horas por dia, ainda assim ia acordar e levantar mega cansada...

O que será que tava acontecendo, heim?

Será que eu não era uma dark lamb, uma coruja, uma corvo ou morcego como eu achava que eu era, mas sim... uma ursa?

Uma ursa que tava sentindo a hora de entrar pra sua caverna, no inverno, hibernar por meses a fio, pra depois sair de lá renovada na primavera?

Será que era falta de vitaminas?

Mas Hélène tinha uma alimentação tão equilibrada – daquelas de fazer babar os nutrólogos, sabe? – e nós sempre fazíamos juntinhas nossas refeições... de onde faltariam vitaminas?

Putz grila... eu andava dormindo bem, andava me alimentando bem! De onde aquela fraqueza toda?

Tava me acabando, sabe?

Hoje eu não tinha acompanhado Hélène no seu pontual chá das dezessete horas...

Eu? Pedi licença pra ela e fui direto pro meu quarto...

Eu tava exausta...

Olhei pra cama... ela olhou pra mim...

E a cama começou a cantar, toda sedutora:

"Venha para mim, venha para meus deliciosos braços!"

Que canto sensual irresistível!

Fui seduzida, lógico:

Desabei em cima da cama, de bruços, com sobretudo, botas e tudo!

Ah... que delícia! Nham... nham... ahhh...

Ficar daquele jeitinho, na horizontal... me fingindo de desmaiada por alguns minutinhos...

Que gostosura era sentir meu corpo pesado sobre aquele delicioso colchão macio, enfeitado por aqueles lençóis limpinhos e perfumados!

Como eu precisava daqueles minutinhos!

Fechei levemente meus olhos... os deixei entreabertos, tipo uma morta-viva...

Entreabertos, exatamente como tava a porta do meu quarto...

Tava olhando, meio morta, pra parede do corredor lá fora...

Meus olhos começaram finalmente a se fechar...

Foi aí que aconteceu!

No lado oposto do meu quarto, tive uma sensação muito, mas muito estranha!

Parecia que tinha gente me espiando, sabe?

Mas como, se os quartos ficavam no segundo andar daquele Casarão? Eram mega altos!

Não podia ter ninguém me espiando pelas janelas, oras!

Mas que eu senti que tinha alguém ali por perto, eu senti!

Porcaria... que sensação estranha... eu queria era dormir uns minutos, porra!

Mas aquela droga de sensação não me largava... vai embora, pô!

Será que eu tava virando meio paranóica? Mais uma CID pra minha imensa coleção?

E não era uma sensação qualquer não!

Era exata e precisamente uma que eu sempre sentia quando eu fazia meus cultos de Bruxaria pra Deusa Hécate!

Mas... que coisa... eu não tava fazendo culto algum agora, pô... no máximo eu tava fazendo o "culto da cama, babando no travesseiro"...

Por que então aquele sensação, heim?!

A sensação ficou tão forte mas tão forte que não me aguentei... meio que babando sobre meu travesseiro, virei a cabeça pro lado da janela...

Foi aí que aconteceu mesmo!

Dentro do meu quarto, exatamente ao lado da minha cama, tavam um carinha e uma mulher!

Ali, bem ali!

Um tava perto dos meus pés e o outro perto das minhas costas, com as mãos estendidas sobre mim!

Gritei desesperada de pavor, lógico!

Ah!

Meu grito deve ter ecoado pelo Casarão inteiro: nem a mulher pelada no chuveiro, em Psicose de Alfred Hitchcock, teria gritado melhor!

Enquanto eu gritava, saltava assustada da cama como uma gata que dormia mas acordou nos braços dum pitt-bull!

O carinha e a mulher ficaram ali, ao lado da minha cama, e eu ia sair correndo se o cara não dissesse:

- Calma aí, guria!

E a mulher, quase ao mesmo tempo, falou:

- Nossa, você está tão tensa... Relax!

Foi só aí que eu comecei a reparar que aqueles dois eram diferentes de qualquer "pessoa" que eu já tinha visto!

O carinha tava usando um terno preto, incrivelmente elegante... E por sobre ele, uma longa capa, vermelha por dentro e preta por fora... Seus cabelos eram ocultados por um chapéu de feltro preto... e seu sorriso alegre era enfeitado por um cavanhaque...

A mulher tava usando um vestido de armação larga, no estilo do século XIX, típico da belle époque! Um vestido lindo: todo vermelho, com uma série incríveis de detalhes artísticos em preto, e com um insinuante decote! E seus cabelos eram regiamente adornados por uma delicada coroa dourada, lindamente cravejada por pedras preciosas brancas e vermelhas!

Quando eu reparei na mulher, foi que eu entendi!

Eu tava perante a Deusa Hécate, só podia!

A própria, em pessoa, bem ali na minha frente!

Ao alcance dos meus dedinhos?!

A própria, Hécate em pessoa?

Aquela que os gregos trouxeram seu culto – da Ásia Menor, da região de Caria – até Atenas... A Senhora da Noite e de tudo de mais power e punk que acontecia após o crepúsculo, que viajava pela Noite! Aquela que os gregos deram o epíteto "Antaia": traduzindo esse epíteto, seria tipo assim "aquela que te encontra, não adianta se esconder".

Hécate! Aquela que andava à noite, carregando uma tocha, sendo servida por cães uivantes! Era mega temida e ao mesmo tempo mega popular na capital cultural da Grécia antiga! Não tinha casa em Atenas que, bem na frente da casa, não houvesse um altar pequeno – mas bem na frente da casa mesmo, voltado pra rua! – dedicado à Hécate! Por isso os atenienses também a chamavam de "A Deusa das Encruzilhadas"! E quando Hécate agia nas encruzilhadas, os antigos gregos lhe davam outro epíteto: "Trioditis"! Tri: três! Assim, nas encruzilhadas, ela era representada tendo três cabeças ou três corpos!

Não resisti! Acabei perguntando, assustada, mas mega respeitosa:

- Ó, minha Senhora! Você é minha Deusa Hécate?

A Deusa? O que Ela fez?

Soltou imediatamente uma gargalhada quando eu lhe fiz aquela pergunta!

E assim respondeu, olhando com um olho pro carinha e outro pra mim:

- Olha só, Seu Encruzilhada! Sou uma deusa grega, muito fina e muito chique, viu? Sendo assim, será que agora eu cobro desta mocinha que ela me pague a construção dum lindo templo na encruzilhada, só para mim, com arquitetura grega? Algo lindo, com aquelas colunas chiques de um Parthenon, e recoberto por mármore fino?

O carinha sorriu pra Deusa e falou, quase cantarolando:

- Não abusa e benze, Dona Rosa... benze...

E os dois caíram na risada!

Foi nesse exato momento que Álex surgiu do corredor e ficou na porta do meu quarto.

Álex olhou pros dois e sorriu... uniu suas mãos, com os dedos entrelaçados e as palmas voltas pra baixo... e finalmente disse essas exatas palavras:

- Exuê, Seu Encruzilhada! Alupandê, Dona Rosa!

Eles? Responderam:

- Pandê!

Eu nem tive tempo de pensar em nada, porque o carinha falou direto pra Álex:

- A moça aí estava num carrego só... horrível, horrível! Que cabeça mais suja a dela! Para fazer esse carrego todo, eu heim?!... Horrível, horrível! Mas agora ela vai se sentir melhor! Feito o trabalho! Vamos embora, Dona Rosa?

Ela? Deu o braço pra ele, como se fossem um casal, e simplesmente... sumiram!

Desapareceram! Assim, no ar!

Evaporaram!

Eu?

Só consegui balbuciar... toda perdida...

- Não era a Deusa Hécate...

Álex, ao ouvir minha exclamação, dita naquele meu tom toda abobalhada, sorriu e disse:

- É e não é... depende do seu ponto vista...

Como é que é?

Meus olhos pareciam tá recheados de pontos de interrogações!

Ou será que esses pontinhos tavam bem em cima da minha cabeça, igual desenho animado, sabe?

Foi então que Álex olhou de relance pra meus instrumentos de Bruxaria, encaixotados com carinho numa linda caixa decorada que eu comprei...

Álex deve ter visto não apenas aqueles instrumentos encaixotados: também deve ter visto mega facilmente aqueles pontos de interrogação dançando sobre minha cabeça... por isso ele começou a afugentá-los:

- Já ouviu falar nos Guardiões... Exus e Pombagiras, não é?

Balancei afirmativamente a cabeça...

- Pois, é Selene... dentro dos seus específicos Dons, de Exu e Pombagira, eles estavam ajudando você...

Hei! Que papo é esse?

Tá, eu sabia que na Terreira do Pai Xapanã, os Exus e Pombagiras – que lá também se chamava de "O Povo da Rua"! – faziam a guarda do templo de Rachel e muito mais coisas... mas nunca, nunquinha que eu tinha ouvido falar nesse papo de invadir o quarto duma dama sem ser convidado, chamado ou evocado e "ajudar"...

Eu não os evoquei, pô! Por que isso então?!

Meu olhar começou a implorar por respostas... Álex o captou, como uma antena de satélite da NASA, mas acho que me enrolou:

- Pois então, Selene, Você ainda está chocada com seu primeiro contato com o seu Exu e a sua Pombagira... Seu peito ainda arfa, do grito que você deu! Então, tudo a seu tempo... Mas ainda posso te dizer isso, Selene: cada um dos Exus e Pombagiras, dentro dos seus Dons, realizam os seus trabalhos!

Exu e Pombagira estavam, assim, fazendo o seu trabalho por você, Selene... por isso Seu Encruzilhada disse:

"Benze, Dona Rosa, benze"...

Eu?

Não sabia como reagir!

Ver aqueles dois ali, tão nitidamente, e a naturalidade com que Álex se comportava com eles – como se fossem velhos conhecidos de uma vida inteira! – ainda tavam me deixando meio zonza, sabe?

Mas nem zonza eu me aquieto!

Milhões de perguntas tavam rodando na minha CPU!

E soltei uma delas, que agora coçava demais na minha língua:

- Mas Álex, como é que quando eu fazia o culto à Deusa Hécate ela me respondia tantas e tantas vezes? Porque eu sentia ela, presente, exatamente como hoje! Seria a Pombagira? Mas como é que uma Pombagira poderia me responder, se eu fazia o culto era pra outra Deusa? Isso não faz sentido, Álex!

Eu tava incrivelmente... confusa!

Nada daquilo fazia sentido, droga!

Foi então que Álex sentou-se na minha cama... e me convidou pra eu fazer o mesmo, ao seu lado...

Algo tipo assim:

"Senta que lá vem história!"

Eu?

Sentei, lógico! Ansiava por respostas!

Respostas que assim se materializaram aos meus ouvidos, nascidas da boca de Álex:

As Divindades Universais, que comandam o Planeta Terra, se personificaram para a raça humana, pela primeira vez, na África, há quase 200 mil anos, no alvorecer do Homosapiens.

Porém, cerca de 70 mil anos atrás, aquele punhado de Homosapiens saiu da África, levando consigo sua Espiritualidade! Só que quando aquelas pessoas de lá saíram, elas não imaginavam o que lhes reservava o Destino: povoar todo o globo!

Toda a Ásia, a Oceania, as Américas e a Europa!

Geneticamente, hoje, cada pessoa destes continentes inteiros descendem, exclusivamente, daquele punhado de pessoas que partiram da Minha Mãe África, rumo ao mundo!

Estas pessoas, Selene, em sua épica jornada de povoamento do planeta inteiro, sempre levavam consigo algo preciosíssimo: o Culto dos Orixás, o mais antigo culto às Divindades da História da Terra.

Todavia, Selene, nesta épica jornada de povoamento do mundo, esta Espiritualidade foi se modificando.

Eis, Selene, porque claramente o Meu Pai, o Glorioso Orixá Xangô (com seu machado de duas pontas), Zeus, o Senhor dos Deuses Gregos (com seu raio), Thor, o Deus Nórdico do Trovão (com seu martelo com duas pontas), e Tupã, o Deus do Trovão dos tupis-guaranis, estão relacionados!

Da mesma forma, a sua Hécate...

Álex silenciou. Deu uma nova olhada pra minha linda caixa, onde eu havia guardado meus instrumentos de Bruxaria...

Foi quando ele finalmente disse:

- Viu só por que você nunca precisava deixar de realizar os seus rituais de Bruxaria? Viu só por que você nunca precisaria ter encaixotado seus instrumentos? Hécate e os demais continuariam te respondendo... Afinal, ela estava aqui hoje, amparando você, não é?

Que coisa...

Eu?

Ainda tava meio "desencaixada" pelo próprio grito que eu havia dado... tinha muita coisa para pensar depois que me encaixasse de novo... mas até lá...

Melhor encerrar este post por aqui...

PS: Ah, um detalhe mega importante, que só agora me lembrei de contar pra você nesta postagem: depois daquele dia, nunca mais eu me senti esgotada fisicamente daquele jeito!

Carregava o que fosse, junto de Hélène, de igual pra igual!

Também estudava e lia o que quisesse, como a traça e besoura de livros que eu sempre fui: acabaram-se os parágrafos dançantes de punk rock!

Por que será, heim?

Nem imagino...