Postagem 30. Perfume de Mulher

(Scent of a Woman, 1992, EUA)

Aquele ar nos meus cabelos tava simplesmente perfeito!

Minha Luna tava incrível! Mega silenciosa, incrivelmente suave, e muito, mas muito mais potente: Álex era realmente um gênio da mecânica: transformou aquele monte de ferro retorcido não apenas numa máquina mas em "a máquina"!

Naquele domingo o trânsito tava vazio: perfeito pra testar o potencial da Nova Luna!

Luna: renascida dos mortos, minha verdadeira Fênix Negra!

Mas, lógico, dessa vez eu tava de capacete e ia obedecer toda a sinalização de trânsito... nenhuma semelhança com a última vez que eu havia cavalgado na Luna...

Nossa, eu tava mesmo muito pirada naqueles dias: nem acredito que "eu" era eu!

Agora eu tomaria todo o cuidado do mundo pra mim não me acidentar... afinal, se eu fizesse mais besteiras e não me matasse dum jeito estúpido em cima da minha Luna, dessa vez tenho certeza de que seria Álex quem me mataria! Hahaha!

Saí cedinho de Lamy Village, quando o Sol – meu agora querido e admirável amigo! – tava já quase firme no céu.

Leilene? Tinha chegado na madrugada, com seu possante.

Hélène? Nem tinha levantado ainda, quando saí do meu quarto.

Pois eu saí sequinha do meu quarto – direta pra garagem, doidinha pra cavalgar na Luna! – e não vi um recadinho que tava mal afixado na minha porta, com uma fita adesiva...

Tava escrito num pedacinho de papel, todo amassado, meio engordurado como se alguém tivesse lanchado um x-burguer bem em cima dele, escrito com uns garranchos horrorosos:

"Ô Cabeçuda, lembra aí que hj tem akele raro eclipse e o tio Álex vai tá viajando e disse pra você n sair de casa hj, vê se n dá uma de tonta e lembra disso!"

"Cabeçuda"? "Hj"? "Akele"? "Tonta"?

Era óbvio quem escreveu aquele recadinho amistoso, gentil e com esplêndido cuidado estético...

Leilene deveria tentar uma carreira diplomática, no Ministério das Relações Exteriores... ela sempre fazia seus interlocutores se sentirem tão valorizados como seres humanos...

Mas eu tava tão empolgada com a minha Luna novinha em folha, e toda envenenada, me esperando na garagem – o mais incrível presente de niver que eu ganhei na minha vida! – que acho que quando abri a porta do meu quarto o fiz tão rapidamente que aquele papelzinho desprendeu-se sem eu sequer vê-lo... e caiu, planando, bem pra baixo daquele armarinho no corredor, que ficava ao lado da minha porta...

Putz! Azar assim é pouco?!

E saí, bem faceira, pilotando minha Luna estrada afora, rumo ao centro de Happy Harbor, naquela nascente manhã de domingo...

Nem vi direito os moradores de rua – que se aglomeravam próximo aos albergues e centros religiosos, em busca das sobras de agasalhos, cobertores e restos da sopa, à beira da rodovia... eram tantos que já haviam se tornado uma simplória rotina em Happy Harbor: parte da paisagem de um mundo decadente em Crise Climática e Caos Econômico...

Nem via as gangues, que saíam àquela hora das boates e casas noturnas, tomando as ruas em direção às suas casas, partindo de uma noitada em que tentavam afogar no sexo, na bebida e nas drogas – cada vez mais pesadas, mais baratas e mais acessíveis – as dores de seu desemprego, da incerteza do futuro e do absoluto vazio em suas vidas...

Nada disso eu vi ou ouvi!

Via era o design da minha fiel montaria dominando o asfalto, cavalgando pelas pradarias pós-modernas da Nova Idade Média que parecia se instalar cada vez mais...

Ouvia era o ronco sanguíneo, selvagem e viçoso do novo motor que Álex havia instalado em Luna: ela tava estreando seu coração novo, recém transplantado!

Álex? Meu verdadeiro Dr. Eurípedes Zerbini da cardiologia de motocicletas!

Eu tava toda faceira, já circulando na região central de Happy Harbor, no Centro Histórico da cidade, há quilômetros do Casarão, quando notei algo...

Tava começando a escurecer...

Ué?! Como?

Não havia nenhuma nuvem no céu na minha viagem inteira e...

Ai! Que horror!

Olhei pro céu, na direção da Estrela do Dia, e havia aquela mancha negra da minha adorada Lua bloqueando os raios do Sol!

Um Eclipse Solar! O aviso de Álex!

Minha Sagrada Lua: você me traiu!

Entrei em pânico!

Droga, droga, droga!

Parei a moto e procurei desesperadamente meu celular pra chamar Álex... perguntar o que eu devia fazer!

Vasculhei meus bolsos, todos!

Inferno, eu tinha me desacostumado a usar celular: procurei ele até no bolso secreto interno do meu sobretudo e ele não tava lá! Esqueci ele embaixo do meu travesseiro, na minha cama!

Ai, droga, droga, droga!

Minhas pernas começaram a afrouxar!

Virei a Luna com tudo, em direção a Lamy Village!

Eu nunca chegaria lá antes do ápice do Eclipse, mas você acha que numa hora dessas o cérebro funciona?

Desespero total!

E foi quando eu virava a Luna pra pista que levava ao Sul de Happy Harbor, que aconteceu!

Era um antigo poste de iluminação pública, do século XIX, daqueles de metal desenhados em estilo neoclássico, típicos do Centro Histórico da cidade: alguém tava sensualmente recostado nele!

Olhei de soslaio pra ali, pois tava tudo deserto naquele domingo:

Havia alguém embaixo de uma longa capa vermelha com capuz, que se movia elegantemente e bem devagar ao redor daquele poste, como numa dança sensual...

Era uma mulher jovem... de repente ela parou de se mover ao redor do poste... se voltou pra mim, e suas mãos bem branquinhas e delicadas desceram eroticamente o capuz daquela capa incrivelmente bela. Foi aí que eu vi aquilo!

O capuz desvelou aqueles longos e perfeitos cabelos lisos negros e aqueles olhos verdes emoldurando seu rosto pálido como a neve:

A Coisa!

Eu?

Não pensei em absolutamente nada! Acelerei a Luna com tudo!

E qual não foi a minha surpresa quando eu a vi, do ladinho esquerdo da minha Luna, acompanhando a corrida da minha moto!

Ela, com as mãos pra trás, o corpo delicadamente inclinado pra frente, e aquela sua capa vermelha tremulando à ventania, como se fosse uma estrela cadente feita de rubi!

Olhei aquilo apenas com o rabo dos olhos, numa fração de segundo, enquanto acelerava minha Luna com tudo!

Eu já devia tá há mais de 120 km por hora!

E ela continuava correndo ao meu lado, aterrorizando a minha esquerda!

Foi quando ela soltou uma piscada de olhos pra mim!

Ela... a Coisa... piscou pra mim?!

Eu tava numa rua estreita, entre dois paredões de prédios do Centro Histórico da cidade, e de repente senti algo gelado e úmido na minha bochecha esquerda!

Smack!

Um beijo? A coisa me deu um beijo na minha bochecha?!

Nisso eu percebi que ela dava um salto sobre mim e minha Luna, e quando olhei ela tava correndo inclinada sobre as paredes dos prédios, numa altura acima da minha cabeça, à minha direita!

Minha Sagrada Oxum, o que aquela coisa era?

Uma criatura das Trevas super-ninja? Uma criatura das Trevas Jedi?! Uma Sith?! O próprio the dark side da Força?!

De repente eu senti que minha Luna perdia velocidade!

Acelerava com tudo e ela tava ficando cada vez mais lenta!

E parecia que uma forte maresia tava atrás de mim, porque eu podia sentir aquele odor salgado de Mar entrando nas minhas narinas!

Foi então que eu olhei pra trás e vi aquilo. Aquilo!

A Coisa tava há uns duzentos metros atrás de mim. Havia um hidrante estourado ao lado dela: a água jorrava por ele, e era algo incrível!

Envolvido por uma neblina salgada que parecia emanar por todo o corpo da Coisa, a água do hidrante jorrava não pra cima, como se esperaria – visto aquela gigantesca pressão! – mas pra horizontal, bem na direção das mãos da Coisa, que em movimentos delicados parecia que segurava uma corda, uma corda feita de... pura água!

Uma corda de água que... tava se enroscando exatamente na roda traseira da minha Luna e a desacelerando!

Até que, em alguns instantes, minha Luna parou e senti algo saltar por cima da minha cabeça, e quando vi, ali, bem na minha frente, com a mão esquerda tocando o pneu dianteiro da Luna, tava ela: a Coisa!

Eu?

Pânico é pouco pra descrever!

Meu coração ia saltar da minha boca, fiquei sem ar!

Vou morrer agora!

Vou ser despedaçada pela Coisa!

Não vai sobrar nada de mim!

Ela vai me comer viva! Comer as minhas tripas enquanto eu ainda respiro e meu coração pulsa!

Foi então que aconteceu!

O inesperado!

Ela olhou pra mim, com um olhar completamente indecifrável e disse, com uma voz incrivelmente... doce?!

- Calma, criança... não vou te machucar hoje... calma, calma...

Ela disse isso num tom quase... sei lá... maternal!?

E, dito isso, começou a entoar baixinho uma canção, numa língua que eu não tenho a menor idéia de qual era! Mas lembrava um pouco algumas rezas e pontos que eu ouvia na terreira de Rachel quando eu era muito criança!

Não sei dizer o que aconteceu comigo... eu fiquei como que... imobilizada... como se meus músculos tivessem começado a entrar num estado de torpor!

Ela continuo cantando aquela canção linda... e falando pra mim ficar calma, que tudo ia ficar bem... e por mais estranho que possa parecer... que coisa... exatamente como naquela primeira noite que eu encontrei Álex no Becker, ele com aquela voz que conforme puxava conversa comigo, me acalmava... tava acontecendo aquilo de novo...

A voz da Coisa era incrivelmente... bonita... sedosa... uma voz de cantora pop star, sabe?

Eu ainda consegui resistir, rosnando:

- Vamos lá, Coisa, faça o que veio fazer: acaba comigo duma vez!

Ela?

Deu um sorriso benevolente?!... e lançou pra mim um olhar... aqueles olhos verdes, grandes e expressivos dela, pareciam irradiar... que coisa... compaixão?! Paz?!

Sabe aquele olhar que muitos pintores e escultores imortalizam em obras sacras, como as de uma divindade de ternura e compaixão?

Aquela Coisa tava irradiando um olhar daqueles pra mim?!

Nisso eu me fixei nos dentes dela... nos caninos...

E pra minha surpresa, quando ela abria a boca pra falar comigo, eu percebia que os dentes caninos eram iguais aos de uma pessoa absolutamente normal!

Ela?

Ao meu rosnado, assim respondeu, com doçura:

- Talvez eu não seja uma Coisa... talvez eu tenha um nome, assim como você tem o seu... Você se chama Selene, não é?

Eu?

Não sabia o que falar! Aquilo tudo era completamente inesperado pra mim!

Eu tava esperando era que ela montasse em cima de mim e jantasse as minhas tripas quentinhas enquanto eu ainda me mexia!

Não sabia como reagir, e só consegui balançar a cabeça afirmativamente à indagação dela.

Ela? Disse isso:

- Prazer te conhecer, Selene... lindo nome o seu... uma bela homenagem à Deusa da Lua e da Magia da antiga Hélade... meu nome também é antigo e elegante como o seu... meu nome, traduzindo para sua língua, é "A Poesia e a Primeira das Três Partes Sagradas dos Dons da Virtuosa Biblioteca Viva dos Orixás Andantes, Guias e Guardiões do Glorioso Reino do Sul"... mas pode me chamar de Drikuyla... ou, simplesmente: Drika!

Inacreditável!

Isso lá era uma conversa de se esperar de alguém que, naquela madrugada na Assys Brazil Avenue, queria simplesmente jantar você?

Seja lá o que tava acontecendo, pois enquanto ela falava – e entre uma frase e outra ela lançava aquele cântico baixinho e suave – eu tava ficando calma...

E a Coisa, digo, Drikuyla... ou Drika, soltou o pneu da Luna, se aproximou, e sentou-se sobre a roda dianteira, ficando cara a cara comigo!

Senti o seu delicado perfume de mulher invadindo minhas narinas... e, estranhamente, era uma flagrância suave e extremamente agradável...

Eu conseguia até mesmo sentir o hálito perfumado e gelado da respiração dela: tocando meu rosto!

Como ela era fria: exatamente como Álex!

E, por incrível que pareça, meu medo tava passando!?

Minha respiração e meu coração tavam voltando rapidamente ao normal!

E ela?

Olhando-me face a face, disse, suavemente:

- Um dia como hoje é muito especial... é apenas num dia como hoje que Álex e eu podemos nos encontrar, em Paz um com o outro... há alguns locais sagrados na Terra para nos encontramos num dia como hoje e, sabemos qual deles é em conformidade com o horário e geometria do Eclipse... e em muito tempo, hoje foi a primeira vez que Álex foi ao meu encontro mas eu não estava lá... ao invés de ver ele, vim ver você...

Como é que é?

Não tô te entendo não, madame das Trevas!

E era essa a tal viagem de Álex?! Era um encontro... com Drika?! Um... encontro?! Com quem queria me comer?!

Ela olhou pros meus olhos... parecia tá... admirando eles:

- Olhos: os Espelhos Sagrados da Alma! Você realmente tem olhos violetas cativantes, Selene... Que raro tom de azul muito escuro, de um violeta faiscante, sanguíneo, tempestuoso... Conheci apenas quatro moças, ao longo dos milênios da História, com olhos exatamente assim: as únicas damas capazes de verdadeiramente cativar Álex, como você o consegue cativar hoje...

Como é que é? Que papo é esse?!

E ela continuou:

- Vim aqui especialmente para te afirmar que Álex é a criatura viva mais incrível e valiosa que já respirou sobre esse planeta para mim... nunca houve ou haverá outro ser nesse planeta inteiro que se iguale a ele!

Ela sorriu suavemente, abaixando levemente a cabeça, tentando ocultar seus olhos de mim... mas eu pude ver!

Os olhos dela, quando ela falou de Álex... brilharam dum jeito... daquele jeito... aquele jeito que o instinto de toda mulher sabe reconhecer!

E agora, face a face com Drika... sentindo até mesmo o perfume dela roçando as minhas narinas, tenho que admitir algo mega difícil...

Ela era realmente uma morena linda... imagine as mais atraentes e sexy atrizes morenas da história do cinema... Liz Taylor, Angelina Jolie, Megan Fox... só que numa versão ainda mais upload... porém com a pele branca e fria como a neve...

Uma brisa fez seus longos e perfeitamente lisos cabelos negros se moverem sensualmente sobre seus ombros, dançando sobre sua lindíssima capa vermelha, que encobria uma silhueta de uma deusa da beleza envolta em um vestido finíssimo, igualmente vermelho, e insinuante...

Quando ela falou em Álex... pude ver nos seus olhos verdes, enormes e expressivos, que enriqueciam seu rosto angelical, um discurso muito eloquente...

Talvez ela tivesse centenas de anos... ou até milhares... mas aparentava o esplendor de uns vinte e cinco anos...

Uma coisa era certa: Drika era capaz de deixar qualquer homem – e eu diria mais: todo e qualquer homem! – sedento de desejo...

Drika era a prova viva da injustiça da Natureza: era impossível concorrer contra aquilo que tava sentada sobre a roda dianteira da minha Luna... Que porcaria!

Ainda mais quando seus longos e lisos cabelos negros, quando acariciados por aquela suave brisa – ou quando ela simples e delicadamente se movia – pareciam fios de seda, dançando sensualmente como o pêndulo de um hipnólogo... tão longos e atraentes que convidavam, num chamado emudecido de palavras, a serem tocados pra fazer amor com você...

Inferno! Eu não devia mais cortar os meus cabelos! Eu podia também ter cabelos exatamente assim se eu não mais os cortasse curtos!

Ela? Me retirou daquelas cismas, dizendo algo que eu nunca esperaria ouvir justamente dela:

- Selene, você é realmente muito importante para Álex... se ele ama alguém, este alguém é você... vim aqui também para te dizer isso...

Não entendi mais nada!

Quem ia me comer... tava agora me falando sobre amor?

Mas heim?!

Ela? Prosseguiu:

- Uma vez, Selene, a "Coisa", que você bem chama, quase conseguiu destruir Álex... ela destruiu a parte mais valiosa dele... ela feriu tanto Álex que ele, como um leão acuado, quase despedaçou a "Coisa"...

Não sei porque, mas quando Drika disse isso, eu pude ver que havia discretamente, escondida por sua bela franja, um pedacinho de uma cicatriz no lado direito da sua testa... eu quase podia jurar que aquela cicatriz teria um formato de um minúsculo "A"!

Drika?

Começou a olhar pra minha guia de Oxum Pandá, pendente no meu pescoço... e em seguida se fixou, repousando sobre meu peito, no coração de cristal de Oxum.

Seus olhos brilharam por um momento, mas um brilho perspicaz, não um brilho de maldade... um brilho que parecia refletir o meu coração de cristal na pupila dos olhos dela!

Foi então que ela disse:

- Escute com atenção... não me julgue pelo o que farei, pois é a única forma de Álex acreditar no que você dirá a ele, ouviu bem?

Escutar o que? Não te julgar do quê? O que você vai fazer, heim?!

- Procure no Casarão uma caixa de cerca de seis polegadas por seis polegadas: seis, a conta de Xangô... é uma caixa toda feita de cristal vermelho e cristal branco: as cores de Xangô... lá dentro há algo que você precisa tocar... é algo quebrado de Álex, que ele esconde há muito tempo... se aquilo não for "consertado", ele jamais vai conseguir derrotar a "Coisa"...

Opa! Isso já tava começando a ficar muito interessante...

O que será que Álex escondia numa caixa assim, tão linda?

O que Drika tava querendo dizer com tudo isso?

Curiosidade desgraçada... por que você não se cala da minha mente, heim?! Isso lá era hora de ficar pensando numa coisa dessas?!

Foi então que Drika disse:

- Se eu não fizer isso, nada do que está dentro daquela caixa fará sentido, e Álex nunca acreditará no que eu disse pra você e muito menos no que você lhe disser... não me julgue... Pois, por alguns instantes, eu serei um instrumento das Forças da Natureza, antes que a "Coisa" volte!

Dito isso, numa agilidade incrível, sua mão gelada tocou no coração de cristal, pendendo sobre meu peito, e seus dedos como que dançaram sobre ele!

Quando ela retirou sua mão, foi aí que eu vi!

Sua vagabunda! Desgraçada! Cachorra!

Você partiu o cristal da minha Mãezinha Oxum!

Ficou só metade dele, pendendo sobre meu peito... o restante, tornou-se um pó mais fino que pó de giz, que caiu sobre minhas pernas!

Desgraçada!

O último presente de Rachel pra mim!

Vagabunda, piranha!

Se eu pudesse, eu te dava um soco com tudo bem na tua cara!

Ela?

Certamente viu a fúria crispando nos meus olhos, pois disse:

- Quando você encontrar a caixa e abri-la, entenderá tudo, criança...

Criança?

Com quem você pensa que tá falando, heim, sua, sua...

Inferno! Meu repertório de palavrões me traiu!

Não tinha nada que servisse perfeitamente em você agora, como uma blusa que cai certinho! Porcaria!

Drika?

Simplesmente ignorou as reações de meu olhar...

Ela apenas levantou seus olhos delicadamente pra Coroa Solar do Eclipse: noite em plena manhã... Sol Negro... Black Sun... e disse:

- Felizmente há raros dias especiais em que eu consigo deter a "Coisa"... mas preciso ser rápida...

Quando ela disse isso, eu olhei pro céu também e vi que uma parte muito tênue do Sol começava a dar sinais de aparecer...

Nisso, a voz de Drika começou a mudar de tom!

Sua voz começou a ficar... agressiva!

Aquele olhar de Paz começou a mudar pra um olhar de malícia... de engodo... de revolta!

Sua boca começou a esboçar um sorriso sarcástico e cruel...

Nisso olhei pros dentes dela: ainda tavam normais!

Notei que havia uma luta dolorosa no olhar dela... aquele olhar de Paz ainda conseguiu reaparecer por alguns instantes, enquanto ela me dizia, muito apressada:

- Criança, meu tempo está no fim! Este é o mais sagrado motivo de nossa conversa! Diga isso para Álex: a Desconexão... você e ele juntos tem uma chance de recompor as Três Partes despedaçadas da Biblioteca Viva! Se eu lhe dissesse isso pessoalmente, Álex jamais acreditaria em mim: me ignoraria por completo e ninguém nunca saberia disso. Mas você sabe agora, Selene! Convença-o a unir-se a você, antes que seja tarde... porque no Solo mais Antigo do Mundo, casado com o Gelo Eterno, há a chave que a "Coisa" busca avidamente, e ao encontrá-la, irá utilizá-la no Reino da Mãe Yemanjá, profanando uma benção de Yemanjá para transformar tal benção no tormento dos tormentos que...

Ela silenciou bruscamente!

Seu olhar agora tava incrivelmente agressivo! Qualquer sombra do anterior olhar de Paz evaporou-se!

Comecei a ser tomada de assalto pelo medo!

Os olhos dela: começaram a ficar avermelhados, como se muito sangue tivesse sendo levado pra eles, abruptamente!

Minha Mãezinha Oxum: os dentes caninos dela começaram a crescer!

Nisso, ela saltou pra trás, ficando a vários metros de mim e da Luna!

Como se ela tivesse fazendo uma força enorme pra se afastar de mim!

O rosto dela... mostrava muita agonia... dor!

Ela parecia retesar toda a musculatura do seu corpo... e foi assim, como se tivesse com a língua presa entre os dentes, que ela falou, com dificuldade:

- Pirralha desgraçada! Sorte sua eu não querer incitar a fúria implacável de Sol Negro nesta geração, senão eu exterminava você exatamente agora, sua vadia!

Eu? Entrei no mais intenso pânico!

Ela continuou a rosnar:

- Maldita sejas Tu, Yemanjá! Você me traiu! Vingar-me-ei de você, Senhora do Mar, vencendo você no Seu próprio Reino!

Ela cerrou os olhos, virou o rosto, ocultando-o de mim, e esbravejou:

- Eu sei como Álex é realmente, a sua forma verdadeira, mas você não! Eu jamais o rejeitaria na sua forma real, mas você, sua Homo sapiens estúpida, ficará em pânico ao ver como ele verdadeiramente é: a escultura mais perfeita que respirou neste mundo! E ele ficará arrasado quando ver seu olhar de medo direcionado justo a ele! Pois apenas eu posso admirar a verdadeira beleza dele, coisa que você jamais conseguirá: você é estúpida demais pra isso!

Ela se segurava nas barras de ferro duma grade de portão neoclássico de um antigo Casarão do Centro Histórico!

Vi que suas mãos tavam apertando as grades com força, quando ela disse em fúria, com os olhos ainda fechados, cabisbaixa:

- Ouça aqui, fedelha desgraçada: Álex é precioso, ouviu bem? Precioso! É um espécime extremamente valioso, um exemplar único! Ele é a obra-primada Criaçãodeste mundo! Por isso, se você machucar os sentimentos dele, eu farei isso com você!

Drika simplesmente puxou, com as mãos absolutamente nuas, uns dois metros daquela grade, como se os alicerces fossem de manteiga, e a retorceu: esta tornou-se uma enorme bola metálica, como se fosse papel ordinário!

- Odeio você, escória! Odeio o fedor de sua desprezível ralé cigana! Você roubou Álex de mim! Pelos Sagrados Portões das Trevas Abissais, cada átomo meu odeia você, sua Yalorixá desgraçada!

Quando ela disse isso, soltou um grito horrível de dor e sofrimento! E foi bem nesse momento que os hidrantes e o encanamento de água da calçada da rua inteira começaram a explodir!

Abaixei os olhos instintivamente, tentando me proteger daquela "chuva", e quando os reergui em direção a ela...

Drika havia desaparecido!

Foi nesse exato instante que o Sol voltava a dominar os céus daquela manhã!

Várias pessoas começaram a aparecer nas janelas dos apartamentos próximos à rua, assustadas com aquele grito horrível e pelo som do estouro de toda a tubulação de água!

Elas faziam caras de espanto, dependuradas nas janelas e sacadas...

Se elas faziam essa cara apenas porque ouviram aquele grito – que devem ter imaginado ter sido meu, supostamente pelo "meu susto ao ver a tubulação explodindo"! – e por verem a rua tomada de uma chuva artificial, imagine você a minha cara por ter visto A Devoradora de Homens, que ninguém jamais sonharia existir?! Imagine a minha cara: ao ficar frente a frente com a Coisa que teve prestes a me despedaçar viva?!

Quando as pessoas das sacadas começaram a fazer perguntas, acelerei a Luna e saí dali o mais rápido que pude!

Mas eu tremia! Tremia como vara verde numa fria madrugada de implacável vento de inverno!

Quando saí do Centro Histórico de Happy Harbor, peguei a orla do Guayhba River e, no calçadão deserto daquela manhã de domingo, parei a moto, desci, e me recostei nela... Eu tremia todinha!

Minha pernas endureceram!

Abracei a mim mesma, tentando conter a tremedeira daquele corpo franzino por debaixo do meu sobretudo negro de couro...

De repente, acariciada pela brisa suave e fresca do Rio, ao redor daquele imenso manancial de Água Doce, foi a Água Salgada que surgiu... Gotas salinas começaram a rolar pelas maçãs do meu rosto...

Nunca havia chorado tanto pelo mais puro medo!

Chorei de terror!

Não sei quanto tempo fiquei assim, recostada naquele calçadão deserto, chorando, abraçada apenas em mim mesma...

Só depois de chorar muito foi que a tremedeira começou a passar...

Quando percebi que minhas pernas voltaram a se mover um pouco e que eu havia readquirido algum equilíbrio no corpo, o medo de ser despedaçada me fez montar na Luna e voltar correndo pro Casarão!

Quarto Interlúdio:

A Garota da Capa Vermelha

(Red Riding Hood, 2011, EUA)

Porto Príncipe.

Citadel Soleil.

A antiga e valorosa nação haitiana – que nos idos do século XIX fora um exemplo civilizatório de Democracia e Igualdade a ser seguido – agora agonizava, naufragando sob os próprios dejetos de sua corrupção!

O país – que foi a primeira República proclamada da América a abolir completamente a escravidão e construir a Justiça e a Igualdade entre os seus cidadãos, nos áureos tempos de seu botão em flor – agora não passava de um tronco pútrido atirado ao chão, vencido na floresta das nações, sendo agonizantemente devorado pelos vermes da terra e pelas larvas das moscas...

Haiti.

O outrora farol de um governo do povo, pelo povo e para o povo, baluarte da América no século de Charles Darwin, tornara-se, no século XXI, a pulsante e ensanguentada amostra viva do inferno sobre a Terra!

Assim como o Japão, aquela ilha do Caribe repousava sobre as fúrias das carícias entre caprichosas Placas Tectônicas, ao mesmo tempo em que desfilava temerosa na passarela dos Furacões – que nasciam nas distantes Águas do Norte da África e lançavam seu mortal hálito na Águas caribenhas.

Aquele último Terremoto, ungido com as alianças brilhantes das bodas com o intenso ciclo de Furacões daquela temporada – muito mais intensos pelo ritmo alucinante da Mudanças Climáticas! – havia estraçalhado todos os ossos do Haiti, tal qual uma hiena faminta o faz com um filhote débil e doente de zebra...

E o dominó das Trevas foi jogado, peça por peça, desabando uma sobre a outra!

Peça um: o horror do Terremoto...

Peça dois: o horror dos Furacões e Tempestades Tropicais...

Peça três: o horror da falta de comida, água potável e abrigo...

Cada peça, deitando-se uma sobre a outra... até que cai a última peça: a verdadeira cereja do bolo!

Cereja, uma esfera vermelha, imersa em tom de sangue: a Guerra Civil!

A obra prima daquele dominó, protagonizada pelo Homo sapiens.

Homo sapiens?

Ou Homo sapiens demens?!

Eis esta espécie, tão animal quanto qualquer outro mamífero que respirou sobre a face da Terra: quando perde seu alimento, sua água, seu abrigo, sua energia, eis que arreganha os dentes, eriça os pelos que ainda lhe restam e extermina qualquer coisa – e qualquer um! – que ameace o seu quinhão de instintiva sobrevivência!

As ruas da capital Porto Príncipe – e principalmente da sua maior e mais violenta favela: Citadel Soleil – agora ostentavam as novas cores de uma preciosa tinta em suas paredes e solo.

A tinta rubra mais preciosa do mundo.

Sangue!

Sangue abundante.

Sangue... fácil.

Sangue... barato!

Aquele país caribenho havia se tornado o Paraíso Fiscal de investidores e especuladores muito piores que os mais frios banqueiros de Wall Street, pois eram aqueles que os sustentavam: os Apóstolos do Medo, da Desconexão, que viviam nos Abismos do Além!

Haiti: próspero fast food para a gula das Trevas!

Chovia naquela noite...

Nas ruas imundas, escuras e avermelhadas de Citadel Soleil surgiu, lentamente, de uma névoa de maresia: uma morena...

Os ares da madrugada acariciavam seus lindos cabelos negros, perfeitamente lisos, e sua pele, alva como a mais pura neve dos Alpes...

Mesmos ares que faziam tremular, em tranquila e silenciosa falsa paz, sua refinada capa vermelha de seda japonesa que escondia, parcialmente, seu vestido rubro de alta costura que sensualmente descia por sobre sua pele sedosa.

Rubro da capa e vestido: perfeita harmonia de tons com o sangue espalhado nas paredes e ruelas fartamente tingidas pelas execuções e combates entre governo e milícias...

Os passos da moça eram lentos e suaves... vagarosos e leves como um ar úmido de maresia que caía no silêncio da madrugada...

As gotas de Chuva acariciavam sua capa vermelha e seu capuz, que ocultava seu delicado rosto e seus pensamentos...

Seus belos olhos verdes estavam magicamente escondidos nos umbrais do capuz, perdendo-se em cismas...

E as Águas continuavam a precipitar-se, compondo poças que, no solo, constituíam uma alquimia entre a lama e o sangue a lamber as sensuais botas negras de salto alto da moça.

Era inacreditável a forma como aquela linda jovem andava naquelas ruelas esburacas, enlameadas e repletas de entulhos das fúrias da Natureza e da sanha da bestialidade humana: como se estivesse desfilando nos corredores de luxo de uma caríssima loja em Times Square!

A jovem perfurava sensualmente o véu da Chuva, dançando entre as gotículas, enquanto caminhava até o mercado de rua, aberto naquela madrugada.

Mercado: o último ponto de sobrevivência social, de trocas de necessidades vitais entre as pessoas.

O último reduto da vida social civilizada em tempos de barbárie!

Não importava mais a hora: no mercado pulsaria a Vida – Vida que teimava em não morrer naquela ilha, resistindo! – sempre que um caminhão fortemente armado, das Tropas de Paz da ONU, chegasse com mantimentos!

E foi naquela praça improvisada.

Foi naquele mercado.

E foi naquela madrugada!

A moça caminhou até o centro da praça, aproximando-se lentamente dos caminhões.

Henri De Laplé, vinte e três anos, saudável e robusto trabalhador, estava no meio da multidão.

O jovem buscava desesperadamente água potável, comida e remédios para sua esposa, Heloíse, e para seus dois filhos – dos cinco que um dia ele possuiu – que sobreviveram aos estertores da Terra, do Ar e do Mar: Jean Bertrand e Cecile...

Uma multidão de mãos pedintes, engalfinhando-se em empurrões, clamava próxima aos dois caminhões da ONU que chegaram...

Henri não desistia! Usava seus braços fortes para empurrar e conseguir pegar alguma coisa que os Capacetes Azuis jogavam ao povo em desespero, incapazes de organizarem-se em filas...

O suor escorria abundante de sua pele negra, no esforço que fazia para manter viva sua família!

E a moça parou perto dos caminhões...

Ninguém, instintivamente, ousou tocar sequer em sua sombra projetada no enlameado solo!

O seu rosto estava coberto pelo capuz vermelho...

Seu corpo estava ligeiramente arqueado para frente, flexível, como se estivesse entrando numa espécie de transe...

Sua saliva começava a brotar de seus lábios... estava ficando cada vez mais intensa e incontrolável...

Um filete leve desta escorreu pelo canto inferior direito de seus lábios...

Parecia que aquele filete se nutria das emoções indomáveis, selvagens, que pululavam em sua mente, como um vulcão prestes a esfacelar-se...

Vesúvio! Kracatoa! Santa Helena! Santorini!

E o vulcão bradou, em ferozes cismas, embaixo daquele capuz:

- Seu idiota! Seu grande idiota! Depois de tudo que eu sempre lhe fiz e lhe dei, você me abandona assim!

A erupção prosseguia:

- Por que você não está comigo? Comigo! Eu sou sua gente, eu sou seu sangue!

A lava escorria em rios de palavras em sua mente:

- Por que você não segue a sua verdadeira Natureza, que dei a você como presente e prova de meu amor? Por que você tem tanto prazer em, ao invés de seguir seu dom, caçar sem misericórdia sua própria família, sua própria gente, seu clã?

Chuva de pedras e rochas derretidas em magma fervente:

- Por que, Álex, fazes isso comigo? Por que me maltratas? Por que me abandonas?

E o temível gás venenoso vulcânico, das fúrias do seio da Terra, brotou:

- Por que você prefere aquela maldita cigana, aquela pirralha horrorosa, do que a mim?! O que aquela fedelha horrorosa tem que eu não tenho?! Por que tu me rejeitaste, se eu sou muito melhor do que ela?

A capa vermelha e o capuz rubro, na suavidade da Chuva, vestiam-na com uma falsa paz, tão falsa que ninguém sequer ousou pisar em sua sombra! Pois debaixo daquele capuz, naquele rosto lindo, uma tormenta de sentimentos a levavam ao desespero!

Desespero!

Ela nem sentia mais a Chuva lhe acariciando a pele...

Nem percebia mais os caminhões, as pessoas, a praça... nada!

Apenas o desespero da solidão e da rejeição!

Até que solidão e rejeição, irmanadas, se transformaram em fúria... e a fúria transmutou-se, em passos frenéticos de dança, em fome e sede!

A jovem dançava agora sua valsa de tormento interior!

Vazio!

Doloroso vazio!

Vazio que precisava ser preenchido com qualquer coisa para parar de doer!

Fome, sede!

Vazio... filete de saliva descendo abundante pelos cantinhos dos lábios vermelhos que emolduravam seu rosto pálido.

Vazio... sede!

Dor... sede!

Incontrolável vazio... insuportável dor... indomável sede!

Insaciável! Sem fim!

E, finalmente, até as gotículas de Chuva começaram a se recusar a cair por sobre a dama de vermelho!

Uma lufada de vento úmido e salgado começou a surgir por debaixo de sua capa vermelha. Seu capuz caiu sensualmente para trás, colocando seu angelical rosto à mostra.

Seus longos e lisos cabelos negros bailaram ao toque frio do Ar, fazendo a franja de sua testa mover-se suave e delicadamente...

Seu rostinho ainda permanecia cabisbaixo...

E sua testa descobriu-se das franjas, mostrando uma pequena e artisticamente esculpida cicatriz, em formato de "A", na extremidade direta de sua testa...

Henri, naquele frenesi ao redor dos caminhões, estava próximo da linda moça.

O movimento sinuoso do vento de maresia nos cabelos da jovem atraíram a sua atenção.

Uma cena de incrível e delicada beleza, no meio de todo aquele horror grotesco em que vivia...

Porém, uma predadora beleza, que ocultava outro horror... o adocicado perfume de uma planta carnívora!

Até que os olhos daquela jovem, até então verdes, tornaram-se vermelhos, como dois faróis demoníacos!

E junto ao filete incolor de saliva, dentes caninos começaram a crescer! Brancos, agudos e enormes!

E ela, ainda cabisbaixa, de posse daqueles faróis infernais, vasculhava com o rabo dos olhos as proximidades... o rastrear da predadora, sem sequer mover o pescoço!

Só seus olhos se moviam, de soslaio...

Sob a chuva, Henri estava a três passos daquela linda mulher que o atraía com tamanha beleza e sensualidade...

Até que um urro bestial foi ouvido!

Em milésimos de segundo todas as pessoas do mercado gritavam, embaladas pelo mais profundo pânico!

Os lábios da jovem misturavam filetes rubros à sua saliva!

Henri De Laplé não existia mais...

Em seu lugar apenas um corpo cada vez mais vazio de sangue, rapidamente drenando, cuja vida o abandonara!

Gritos! Pânico!

Tiros! Muitos tiros!

Pessoas esmagando-se uma contra as outras, em desesperada tentativa de fuga!

E, em alguns punhados de minutos, o silêncio tomou conta de toda a praça do mercado de Citadel Soleil.

O silêncio de um imenso sepulcro a céu aberto, abraçado pelas gotas de Chuva.

Silêncio.

O natural silêncio de uma multidão de corpos, cuja vida os abandonou junto com sua última gota de sangue, emudecidos pelo gélido toque da Morte que, naquela madrugada, sensualmente trajava seu capuz vermelho!

A Morte... o Lobo... e a Chapeuzinho Vermelho: todos moravam nos caninos insaciáveis daquela jovem!

O céu precipita-se sem parar...

As gotas de Chuva caem abundantes no interior de um capacete azul, que um dia pertenceu a um soldado da ONU... A Água, que nele se acumulava, misturava-se ao sangue ainda fresco que maculava sua forração interna...

Naquele mercado, agora tudo era o silêncio do gotejar da Chuva, sob as Trevas daquela madrugada...

Ó Haiti!

Quando tudo já te parece perdido, eis que mais perdição sobre ti recai!