Retorno à palavra: Selene Stern!

Postagem 31. Dormindo com o Inimigo

(Sleeping with the Enemy, 1991, EUA)

Voltei!

Onde eu tinha parado mesmo, heim?

Hum...

Ah, tá!

Let's go!

Álex voltou da viagem dele… e eu agora sabia exatamente qual tinha sido a viagem que ele tinha ido fazer...

Encontrar-se com Drikuyla!

Algo de especial havia num Eclipse raro do Sol...

Algo que fazia Drikuyla ficar... diferente!

Eu não sabia o que era...

Nem porque Drikuyla ficava "diferente"...

Mas quando Álex soube do que aconteceu... que Drika e eu havíamos conversado bem de pertinho... a tal ponto que sentimos uma o perfume da outra roçando por nossas narinas...

Quando ele soube... arfff...

Me xingou tanto, mas tanto, por eu tê-lo desobedecido!

Eu não sei se ele ficou mais furioso com o fato de eu ter lhe desobedecido... ou pelo fato de Drika ter feito o que fez...

Sim, porque a bestona aqui acabou lhe contando quase tudo!

Eu disse QUASE tudo!

Eu não era tão bestona assim pra falar sobre a tal "caixa" especial... eu ainda não tinha encontrado aquilo que Drika havia me falado... Ajudando Hélène na conservação do Casarão, eu poderia fuçar em todas as coisas que eu pudesse, secretamente... mas o Solar era enorme! Haviam ainda alas, peças e aposentos que eu sequer havia entrado ainda!

Eu precisava encontrar aquela caixa primeiro... e descobrir o que tinha lá dentro... só depois eu poderia avançar...

Eu senti que, se eu falasse daquela caixa, eu jamais a encontraria!

E se eu jamais a encontrasse, sabe-se lá o que eu poderia perder... e pra sempre!

Por isso eu também sequer toquei no assunto sobre a tal "verdadeira forma de Álex"...

Ou sobre a tal das "Três Partes da Biblioteca Viva"... que diabos seria uma "Biblioteca Viva"?

Ou o fato dele "unir-se" a mim – o que será que era isso, esse tal "unir-se"?

Nada disso eu falei... nem sussurrei! Silencie completamente!

Havia algo muito especial naquela caixa... e eu precisava encontrá-la primeiro!

Eu precisava de todo o cuidado, pra não falar demais... e por tudo a perder!

Mas só com o que eu falei... Álex virou aquela fera!

Primeiro, obviamente: mais um móvel virou cinzas!

Os olhos dele transformaram-se em brasas vivas!

Suas mãos emanavam Raios, implorando por Trovões!

Demorou muito tempo até pra própria Hélène, mesmo fazendo um imenso esforço, conseguir acalmar Álex!

Nunca vi Hélène fazer tanto esforço assim, na minha vida!

Como aquela velhinha se esforçou pra que Álex conseguisse se acalmar!

Depois que ele – literalmente! – incinerou alguns móveis com as mãos, ele passou a andar de um lado pro outro, colocando as mãos sobre os cabelos!

Eu nunca tinha visto Álex assim!

Ele tava uma pilha de nervos!

Andava, de um lado pro outro, sempre ao redor das pinturas de An-het e Saraí... e repetia pra Hélène, sem parar:

"Eu avisei, eu avisei! Eu sabia que isso ia acontecer!"

Nervoso, caminhava sempre perto daquelas pinturas, e falava sem parar pra velhinha:

"Quase aconteceu de novo, quase aconteceu de novo!"

Hélène fazia de tudo pra acalmá-lo, mas ele não parava de repetir, sem cessar:

"Drika podia ter feito Selene em pedaços! Drika podia tê-la matado em segundos! Quase! Quase! Eu avisei, eu avisei, Hélène!"

Nossa, como aquela velhinha se esforçou pra acalmar ele!

Eu?

Tava assustada demais com tudo aquilo pra falar qualquer coisa...

Não sei o que tava me assustando mais... se meu encontro com a Coisa... ou se ver Álex desesperado daquele jeito...

- Isso só está piorando as coisas, querido! Ela está bem, chegou em casa sã e salva! Os Grandes Orixás a protegeram! Mas olhe agora como ela está! Seu desespero está machucando-a!

Quando Hélène disse isso, daquele jeito tão firme, apontando pra mim – que tava do lado da lareira, entre ela e a parede, sentada no chão, toda encolhida, tentando me sentir protegida de tudo o que tava acontecendo, inclusive da reação de Álex... – foi que finalmente ele se abrandou...

Álex me viu, virada naquele montinho humano, no cantinho da lareira... com meu rosto escondido nos meus joelhos...

Ele respirou muito fundo...

Muitas e muitas vezes... muito profundamente...

Seus olhos voltaram ao normal... do crepitar do Fogo, retornaram a ser verdes novamente...

Suas mãos pararam de implorar por Trovões...

Foi então que ele lentamente se aproximou de mim, naquele cantinho da lareira...

Quando chegou bem pertinho, ele fez algo que eu nunca ia imaginar:

Se ajoelhou, bem na minha frente!

Távamos nós dois, quase na mesma altura...

Tive coragem de levantar meu rosto dos joelhos...

Nessa hora ele me olhou de um jeito... que eu não soube decifrar... e disse, num tom que me pareceu... sei lá... doce, até:

- Eu não aceito que nada nem ninguém te machuque, nunca...

Eu não soube o que dizer...

Ele então se aproximou e se sentou bem ao meu lado, no chão...

Távamos agora nós dois, um do ladinho do outro, de costas pra parede, meio espremidos entre a lareira e outra parede...

Nós dois távamos com o olhar perdido, olhando o nada à nossa frente...

Foi então que eu disse, com a cabeça voltada pra frente, sem fitar Álex:

- Eu nunca mais quero ter medo de Drika... eu quero enfrentá-la...

Álex tava sentado do meu lado... em silêncio... apenas olhava pra frente, fitando o nada, como eu...

Eu prossegui:

- Eu quero enfrentá-la... me ensine como fazer isso...

Álex?

Nada disse... apenas deu um longo suspiro...

Eu finalmente falei, olhando pro nada:

- Por favor... me ensine a enfrentá-la... senão eu serei escrava do medo pra sempre...

Não sei o que houve...

Parece que minha última frase teve um forte efeito sobre Álex...

Ele continuou olhando pra frente, pro nada que nós dois fitávamos... mas disse, com a voz meio perdida:

- Se você quiser enfrentar Drika... vai precisar antes conhecer aquele que transformou Drika na "Coisa"...

Eu? Tava ouvindo... com o olhar perdido... até que eu disse, lentamente, também com a voz meio perdida:

- Então... me leve pra conhecer quem a transformou...

Álex suspirou fundo.

Nós dois, fitando o nada, com os olhos voltados à frente, um sentado ao lado do outro.

Até que ele disse:

- Quem a transformou é horrivelmente assustador, Selene...

Eu nada disse.

Ele fez uma longa pausa... até que disse:

- Você está mesmo disposta a ver o monstro que transformou Drika, e fitá-lo, bem no meio dos olhos da criatura?

Eu suspirei fundo...

Do jeito que Álex falava, não sabia mais quem era o mais terrível: a Coisa ou quem criou a Coisa...

Foi então que eu disse aquela frase...

A frase que mudaria a minha vida pra sempre:

- Tô cansada de viver com medo... eu enfrento qualquer coisa pra viver livre do medo... me leve pra conhecer o monstro... eu fitarei os olhos dele...

Álex deu um longo suspiro:

- É um caminho sem volta, Selene...

Foi minha vez de suspirar:

- Eu tô cansada demais pra recuar... eu não quero mais voltar... eu quero ser livre... ou morrer tentando...

Álex balançou a cabeça... como se aceitasse o que eu disse...

E estando nós dois ali, paradões, sentados no chão, fitando pro nada à nossa frente, sem olhar um pro outro, Álex finalmente disse:

- Pegue seus documentos... você precisará deles... amanhã mesmo iremos viajar... te levarei para conhecer aquele quem transformou Drika na Coisa... amanhã partiremos em nossa viagem...

Álex se levantou...

Caminhou lentamente em direção à escada...

Antes que ele subisse eu, com o olhar ainda fitando o nada, lhe perguntei:

- Esse monstro tem um nome?

E enquanto eu ouvia os pés de Álex subindo pesada e lentamente as escadas, ouvi ele dizer apenas essas palavras:

- Poderoso Frágil Pequeno Grande Monstro...