Postagem 32. Revólver
(Revolver, 2005, EUA)
Procurei os meus documentos por todo o meu quarto!
Droga, aonde eu os meti, heim?!
Procurei nas minhas gavetas...
Procurei na minha mochila...
Procurei na bolsa de viajem de Rachel...
Procurei nos roupeiros... joguei nervosamente todas as minhas roupas no chão e fucei dentro de todos os bolsos, de cada uma delas!
Até debaixo da cama e do colchão eu procurei!
Revirei todo o meu quarto, do assoalho ao teto! E nada!
Nada, nada!
Até que, como um raio, me veio uma imagem:
A geladeira de Pink Pig! O grande vaso de flores plásticas!
"Merde, merde, merde!" como diria Álex!
Inferno dos diabos do cacete!
Eu tinha esquecido os meus documentos escondidos bem no meio daquele vaso de flores: em cima da geladeira de Pink Pig!
Merde, merde, merde!
Eu jurei pra mim mesma que nunca mais iria por os pés naquele inferninho! Nunca mais!
Mas eu precisava com urgência dos meus documentos!
Sem eles eu jamais poderia viajar! Iria ser barrada no primeiro guichê do aeroporto!
Arfff...
Não tinha jeito... eu teria de ir lá... pegar os meus documentos...
Hélène viu que eu tava me sentindo mega mal...
Ter que voltar lá tava me deixando muito aflita... depois do encontro com Drika, meus nervos sempre tavam à flor da pele... imagina ainda ter que ir desse jeito, dirigindo a Luna, do extremo Sul de Happy Harbor, Lamy Village, até o extremo Norte, White Wing? E justo pra casa de Pink Pig?!
A velhinha sacou isso de cara...
O que ela fez?
Convenceu Leilene a me levar até lá, na pick-up dela.
A companhia era péssima...
Mas Madame Sou Grossa e Daí simplesmente não falou nada, ao longo da viagem inteira.
Não disse uma palavra... não implicou comigo nenhuma vez...
Eu também: falava com ela tanto quanto um pé de couve...
Távamos nós duas ali, na cabine da pick-up, enquanto a paisagem da cidade desfilava por nós... a loira e a morena...
Naquela cabine: a loira dirigia seu possante com uma mão só, enquanto parecia deliciar-se com o Vento acariciando seu braço pra fora, batucando com a ponta dos dedos no teto externo da pick-up... parecia até que ela tinha com o Vento a mesma relação que eu tinha com a Água Doce: uma sintonia e um carinho tão grande que nos acalmavam...
A morena? No banco do carona, completamente amuada, olhando pra janela, com o olhar perdido...
A loira e a morena: as duas mudas, naquela cabine, executando entre si os ricos discursos sem palavras que apenas as mulheres sabem tão bem decifrar...
Chegamos em frente à casa de Pink Pig... arfff...
Leilene e eu descemos da pick-up.
A casa tava toda fechada! Jóia! Pink Pig ainda não tinha chegado da casa dum dos machos dela!
Entramos no pátio e rumamos até a porta dos fundos.
E mais uma vez, embaixo daquele famoso vasinho de cactos, eis que lá tava ela:
A chave da porta dos fundos!
Mas, enquanto eu abria a porta, fiz algo que achei que nunca faria um dia na minha vida: pedir um favor pra Leilene!
Mas eu precisava, a situação era desesperadora:
- Posso te pedir um único favor, Leilene?
Ela? Foi espantosamente... simpática?!
- Sim, diga, Selene.
Nossa, até fiquei chocada!
Mas eu não tinha tempo a perder, por isso falei mega rápida:
- Você fica aqui fora, cuidando pra mim se não chega ninguém?
- Claro...
Assim, Leilene ficou na porta, do lado de fora...
Entrei ligeira, furtivamente, e fui mais uma vez direto pra geladeira! Mais especificamente, meus olhos voaram direto pra cima da geladeira: bem naquele vaso de flores de plástico!
Meus dedinhos, trêmulos de ansiedade, fuçaram no meio daquele grande vaso e...
Achei, achei!
Depois de todo aquele tempo, Pink Pig nunca tinha visto que aquele meu tesouro tava ali, escondido sem querer!
Eu tava com minha carteirinha de documentos agora, bem na palma da minha mão, yes!
Tava checando se todos tavam ali mesmo...
Tavam! Todinhos! Yes, yes!
Mas, enquanto eu guardava minha carteirinha no bolso interno do meu sobretudo, algo terrível aconteceu!
Leilene encostou a porta dos fundos da casa de Pink Pig!
E eu ouvi um barulho de chaves!
Leilene havia me trancado! Dentro da casa de Pink Pig!
Vagabunda desgraçada do cacete!
Sua ferrada duma figa!
Corri até a porta:
- Para com essa brincadeira, Leilene! Abre já essa porta!
Leilene?
Não me respondeu!
- Leilene, Leilene!
Apenas silêncio.
O silêncio mais aterrorizante que eu já tinha ouvido!
Comecei a gritar por ela!
E nada!
Nisso, como um animal acuado, olhei pra todas as janelas ao meu redor!
Não adiantava nem quebrá-las pra sair dali: todas elas tinham grades de aço!
Corri até a porta da frente! Também tava chaveada! E esta, ainda por cima, tinha uma sobreporta de grades de aço, por fora!
Foi nesse momento que me começou a bater um desespero!
Eu tava presa!
Presa dentro da casa de Pink Pig!
Tava presa no último lugar do mundo que eu queria tá!
Presa! Encurralada!
Meu peito começou a apertar horrivelmente! Minha respiração começou a ficar ofegante!
Ela ia chegar a qualquer momento!
Ela ia brigar comigo por eu ter entrado dentro da casa dela, ainda mais quando ela não tava em casa!
Ela ia acabar comigo!
Começou a me faltar ar pra respirar! Comecei a ficar tão ofegante que buscava desesperadamente o ar que me fugia dos pulmões!
Cambaleante, fui novamente até a porta dos fundos.
Tava trancada mesmo!
- Leilene, por favor, te imploro, abre essa porta!
Puxei, desesperada, com tudo, aquela porta. Quase quebrei a maçaneta!
Foi quando comecei a bater na porta:
- Leilene, te suplico, abre essa porta!
Nada!
Nenhum som...
O silêncio era assustadoramente sepulcral...
Não havia ninguém lá fora! Leilene foi embora!
Leilene me prendeu e me abandonou lá!
O Sol morria no horizonte: o pior crepúsculo da minha vida!
E o ar morria no meu peito: eu tava sufocando!
- Minha mãe vai me matar! Abre essa porta, Leilene!
Foi aí que eu comecei a chorar... de pavor!
E, chorando, comecei a chutar a porta!
Chorando de desespero, enquanto puxava a maçaneta, dando chutes na porta, como uma fera acuada pelos mais cruéis caçadores!
Foi nessa hora, em que eu me debatia, chutando a porta com todas as minhas forças, que em me sacudi tanto que minha carteirinha de documentos caiu de dentro do meu sobretudo... estatelou-se, aberta, no assoalho daquela casa de horrores!
Meu coração sacudia dentro de meu peito, enquanto eu berrava no mais profundo desespero:
- Ela vai me surrar! Ela vai me queimar com o seu cigarro!
Eu nem me dava mais conta do que eu falava!
Pink Pig havia me queimado com seu cigarro, pela última vez, quando eu tinha nove anos... pois logo após fui pro Saint Peter e depois Rachel tomou minha guarda. Por que eu disse aquilo, então?
Eu me sentia absolutamente indefesa naquele momento!
Tava desesperada e chorando, exatamente como naquela tarde, do dia em que Pink Pig me espancou e me queimou com seu cigarro, pela última vez!
Tudo tava girando pra mim...
O ar não vinha mais pros meus pulmões...
Meu coração parecia que ia saltar pela minha garganta!
Até que fiquei tão sem ar que minha forças se acabaram!
Foi aí que eu me prostrei no chão, e fiquei praticamente em posição fetal, ao pé daquela porta... só me restavam forças pra chorar, de terror e desespero!
Parecia que eu ia morrer!
Eu não enxergava mais nada direito... meus olhos tavam tão imersos em lágrimas que ardiam... minha voz morria nas profundezas da minha garganta, tamanho meu pavor!
Foi quando meu olhar, perdido, olhou um ponto fixo no chão...
A minha carteirinha de documentos, caída e aberta, com um simbolicamente famoso documento à mostra...
Era minha Carteira de Identidade... com a minha foto voltada pra cima... como se tivesse olhando pra mim...
Aquela foto horrorosa minha – assim como é horrorosa toda foto de Carteira de Identidade! – tava como se me fitasse...
Foi então que aconteceu!
Aquilo!
A minha foto, na minha Carteira de Identidade... parecia se mover!
E parecia que falava!
Eu, prostrada no chão, comecei a prestar atenção naquela foto...
E ela falava mesmo! Parecia falar muito, consigo mesma!
Uma foto que falava consigo mesma?! E eu a ouvi dizer isso:
- Preciso sair dessa casa, preciso, preciso!
Eu via a foto desesperada, colocando os braços sobre sua própria cabeça, em pânico! E a foto da Carteira de Identidade, se movendo apavorada, dizia:
- Ela vai me queimar com o cigarro! Ela vai bater em mim! Ela me odeia! Ele sempre me rejeitou! Preciso sair daqui, preciso fugir!
E a foto berrava, desesperada:
- Leilene, sua vaca desgraçada, você me traiu! Não, não, volte! Me tira daqui, me tira daqui, te imploro! Abre essa porta, senão ela vai me pegar!
Quando eu vi a foto falando – aquela foto horrorosa, deformada – eu senti algo muito, mas muito estranho...
Como se fosse uma voz, que vinha do meio do meu peito e do alto da minha cabeça, bem no meu Ori:
"Você não é seus pensamentos. Veja seus pensamentos como quem vê uma foto ou uma paisagem. Você é Aquela que vê a foto, pois a transcende."
Enquanto isso, minha foto da Carteira de Identidade, estendida ali no chão, falava desesperada, acuada, sem parar:
- Vão me machucar, vão me bater! Vão me machucar muito!
E a foto se encolhia... e recolhia todas as sua próprias forças, como uma ostra se escondendo em sua concha... sempre esperando o terrível momento que bateriam nela, que a espancariam!
A foto parecia até uma criança pequena e indefesa!
Não parecia com uma moça adulta, dona do seu próprio nariz e destino, que sempre lutou e batalhou pra se manter viva e inteira...
E a foto, gritando, toda encolhida, com as mãos no alto da cabeça, pra se proteger, falava chorando:
- Ninguém me ama! Todos me machucam! Ninguém gosta de mim! Eu tô sozinha! Eu tô abandonada!
Ela chorava e gritava:
- Rachel se foi! A única pessoa nesse mundo que me amou! Eu fiquei sozinha no mundo! Tô abandonada! Tenho medo!
Encolhendo-se, a foto lamentava:
Perdi meu emprego! Perdi a casa em que eu cresci e fui feliz com Rachel!
Perdi a minha única amiga! Ayaan me abandonou! Sua egoísta desgraçada: foi só se dar bem na vida e logo me abandonou!
Eu tô cansada! Eu quero morrer! Não me sobrou nada nem ninguém nesse mundo!
Não me sobrou mais nada neste mundo! Meus últimos momentos felizes que me restaram são correr sobre minha Luna, nas madrugadas! Só me sobrou a sensação de liberdade do ar gelado da madrugada nos meus cabelos... A carícia do vento, sobre minha Luna, é o último carinho que me restou! Não quero usar capacete! Tô pronta pra morrer e ir embora!
Vivo exilada, nos fundos da casa de Pink Pig! Preciso me proteger, preciso, preciso! Os machos tarados dela vão me pegar! Vão abusar de mim! Dr. Watson vai me pegar! Todo vestido de branco! A Serpente Branca vai me comer! E Pink Pig vai ver tudo e rir, se vingando porque eu roubei a juventude dela!
Os homens de branco! Não, não! A hora do remédio, não!
Eu tô desempregada... tô passando fome... ai de mim! Meu cofre forte, minha latinha de refrigerante tá quase vazia! A fila da sopa, não, não! Tudo, menos a fila da sopa! Eu vou cair na miséria! Só me restou a fila da sopa! Eu vou passar frio e fome todos os dias até o resto da minha vida! Eu vou virar mais uma mendiga, não, não! Não quero morar na rua, morrer de fome, de frio ou ser queimada viva como os playboys queimam os mendigos por farra, nas madrugadas! Não, não! Tenho medo de ser machucada, não, não! Tenho medo, tenho medo!
De repente notei que a expressão da foto mudou:
Álex! Como você é lindo e especial... mas você nunca vai me amar... você é lindo e eu sou horrorosa, feia, desengonçada, magricela, uma encalhada! Você me rejeita... você me evita... você é cruel comigo porque eu sou feia, pobre, esquisita, toda sem graça! Eu vou virar uma velha sozinha, amarga, numa casa enorme e silenciosa, cujo silêncio só é quebrado por gatos miando!
Eu vou ser uma velha carcomida, cercada de gatos por todos os lados, como minha única companhia! Nenhum garoto nunca me quis! Nunca fui desejada, nunca fui amada! Tenho medo de nunca ser amada, tenho medo!
E a expressão da foto mudou novamente:
Preciso me esconder das outras crianças e adolescentes, preciso, preciso! Eles vão me pegar, eles vão me bater! Recreio, Educação Física, não, não! Vou fugir pra Biblioteca da escola, é o único lugar que não é perigoso no mundo! Tenho medo!
Foi então que a expressão da foto adquiriu um ar de horror:
Moses! Você vai me furar! Eu vou sangrar! Vai doer muito, muita dor! Eu vou morrer retalhada, mais cedo ou mais tarde! Eu tô sozinha no mundo, os bandidos vão me pegar uma hora! Eu tô desprotegida, eu tô abandonada! Tenho medo, tenho medo!
A Coisa! Minhas tripas vão sair pra fora! Ela vai comer minhas tripas quentinhas enquanto meu coração pulsa! Ela vai me estraçalhar! Não vai sobrar nada de mim! Eu vou morrer despedaçada, enquanto ainda respiro! Um monstro, o pior de todos que já existiu sobre a face da Terra, me persegue! Ai de mim! Sou odiada pelo pior monstro que já vagou sobre o mundo! Ela vai me pegar! Álex vai embora, vai me abandonar, e ela vai me pegar! Ela vai me torturar muito antes de me matar! Ela vai me comer bem devagarinho, órgão por órgão! Vai ser horrível! Eu preciso me esconder, preciso me ocultar! Preciso sumir da vista de todos pra que a Coisa não me ache! Tenho medo, tenho medo! A Coisa é meu maior medo! Ela é o medo supremo sobre a face da Terra! Tenho muito medo, tenho medo!
Foi no momento em que a foto disse isso que eu percebi...
Dentre todas as palavras e frases que ela pronunciava, uma ela sempre dava destaque especial: "Tenho medo"!
E percebi isso porque agora eu me sentia completamente por fora de tudo o que a foto dizia...
Eu me senti como se realmente a foto fosse apenas uma paisagem pra se observar...
Eu senti que a foto não era eu...
Eu senti que eu era muito maior do que aquela foto... e muito maior do que tudo o que ela dizia, ou do que os outros diziam dela...
Eu me sentia tão calma vendo aquela foto falar tanta coisa, sem parar por um único segundo... pois agora era apenas uma foto...
Uma foto...
Uma mera representação...
Algo que na realidade, não existia... porque uma foto jamais poderia captar o que Existe... tudo o que Eu Sou...
Perante mim tava apenas aquela mera representação de algo que achava que existia... algo que havia se perdido no meio de um labirinto de conceitos... mas por baixo desse imenso labirinto de conceitos sem fim, tinha uma única pedra sustentando tudo:
Medo!
E olhando pra aquela foto, eu me sentia... calma...
Dentro daquela foto, tudo era apertado, doloroso, sufocante, sem ar, com o coração saindo pela boca, apenas sofrimento!
Mas aqui fora, Eu Comigo, dentro do meu peito havia agora tanto espaço!
Uma sensação de Espaço Interior, um delicioso vinho licoroso doce que eu já havia experimentado algumas de suas gotas antes:
Quando saí do Casarão de Álex, pela primeira vez, dirigindo minha Luna, sem rotular absolutamente nada ao meu redor...
Quando acendi aquela vela pra Mãe Oxum Pandá, agradecendo o fato de eu tá viva...
Tanto Espaço Interior, dentro de mim, naqueles momentos...
Tanto Tempo Interior, dentro de mim, naqueles momentos... como se o passado se dissolvesse e o futuro se evaporasse... com apenas um momento existindo... o meu momento no Eterno Agora...
E enquanto eu tangia aquela sensação de Espaço Interior crescendo no meio do meu peito, eu percebia que minha foto, naquela Carteira de Identidade, ficava cada vez mais asfixiada, apertada, encurralada!
Ela permanecia desesperada, falando, falando, falando...
Falava tanto que tudo o que ela dizia não parecia outra coisa senão isso: barulho!
E ela se sentia cada vez mais apertada, sofrendo cada vez mais!
Foi quando eu fitei firme pra aquela foto e lhe disse:
- Tenha calma, garota... não tenha mais medo... Eu posso ver você: você não tá mais sozinha!
Quando eu disse isso... algo aconteceu!
A foto!
Ela me fitou nos meus olhos, completamente assustada:
- Heim? Você pode me ver?
Eu lhe respondi, imersa no meu confortável Espaço Interior:
- Sim.
Você tá enganada! Você não pode me ver!
- Porque eu não posso te ver?
Porque eu não existo! Sou só uma alucinação sua!
Eu respirava calma e tranquilamente... o Ar me servia, era meu amigo: jamais me faltava...
Sentia meu coração batendo suave, bailando em harmonia rítmica na arca do meu peito...
E imersa nesse Espaço Interior, respondi:
- Sim, você existe... pois Eu te percebo... Eu te sinto... cada barulhinho seu, cada pensamentinho vagabundinho seu repercute no meu corpo, como o tiro de um revólver... sim, Eu posso ver você agora... você não pode mais se esconder de mim... Eu posso observar você...
A foto fez uma careta de desgosto e, muito irritada, disse:
Tá bem, tá bem! Lógico que você pode me ver! E sabe por quê?
- Por quê?
Porque eu sou Selene Stern. Porque eu sou você! Eu sou seu espelho! É através de mim que você existe!
Quando ela me disse isso, fez-se um imenso silêncio!
Percebi que a foto sorriu... um sorriso de vitória!
Até que eu lhe disse:
- Você é o acúmulo dos meus pensamentos do passado. Você é como as imagens de um filme, impressas numa película... imagens que apenas se imprimem e se repetem... você tá presa dentro dos quadros de um filme, dentro de uma filmagem... mas Eu Sou a roteirista, a diretora e a atriz principal. Eu Sou muito maior que a personagem, que ficou presa pra sempre naquela gravação do filme. Por isso Eu não sou você... Eu Sou muito maior do que você!
O sorriso de vitória da foto morreu imediatamente, dando lugar a uma expressão de raiva e ódio:
Não, não, eu sou você! Eu sou a diretora, a roteirista, a atriz principal!
Eu sequer ouvi suas últimas palavras...
Sentei-me no chão...
Sentia minha respiração tão gostosa!
Sentia o bater do meu coração tão compassado!
Foi então que cruzei minhas pernas, em posição de semilótus...
Sentia cada vez mais nítido o meu corpo... cada parte dele... a respiração, o coração, as roupas sobre meu corpo... os sons que vinham do relógio da casa de Salet... eu sentia e percebia tudo isso, tão nítido...
A foto ficou uma fera:
Pare já com essa palhaçada! Você vai copiar e imitar aquela velha senil, que tem mais anos que o Dr. Chapatim? Vai ouvir aquele Xangô que evita e renega você, que a trata como uma nada? Ouça a mim! Eu sou sua melhor amiga!
Meus pulmões se abençoavam do Hálito Sagrado do Ar e meu coração expandia meu Espaço Interior...
Pare já com isso! Acorda, garota! Todos mentem pra você! A velha caduca e senil mente pra você! O anormal do Álex mente pra você! Eles mentem, só querem se aproveitar de você, sua ingênua, sua bobona, sua bestona! Todos só querem usar você, machucar você! Mas eu não! Eu protejo você! Eu cuido de você!
Meus pulmões se abençoavam do Hálito Sagrado do Ar e meu coração expandia meu Espaço Interior...
Pare já com isso! Todos querem machucar você, mas eu protejo você! O mundo lá fora é perigoso! Eu cuido de você, Selene! Eles são novidade que passam na sua vida, mas eu sou sua amiga mais antiga! Eu sempre nos protegi! Eu sou sua melhor amiga, não me ignore! Abra esses olhos, olhe pra mim! Não me ignore! Me ouça, me ouça! Tudo o que eu lhe digo é sempre extremamente importante! Eu sempre salvei você! Me ouça, me ouça! Eu sou de confiança, eles é que são os perigosos! Eu fico, eles vão embora! Não me ignore, me ouça sempre!
Meus pulmões se abençoavam do Hálito Sagrado do Ar e meu coração expandia meu Espaço Interior...
Não me ignore enquanto eu falo com você! Você sabe algo da vida sem mim? Você é burra, desastrada, faz tudo errado! Tonta, imbecil, estúpida! Sua idiota! I-di-o-ta! Se não fosse eu tomando conta de você, você nunca teria sobrevivido! Nós duas teríamos morrido! Eu salvei a gente! Eu protejo a gente! Eu te ensinei tudo o que é o certo e o errado! Eu te ensinei todas as verdades eternas do mundo! Eu te ensinei a sobreviver nesse mundo perigoso e horrível! Eu ensinei tudo a você!
Meus pulmões se abençoavam do Hálito Sagrado do Ar e meu coração expandia meu Espaço Interior...
Você conhece a vida ou o mundo sem mim? Não! Porque sem mim você é um nada, você não existe!
Meus pulmões se abençoavam do Hálito Sagrado do Ar e meu coração expandia meu Espaço Interior... até que...
Algo aconteceu!
De repente eu senti algo sobre meus ombros...
Um enorme peso... um enorme cansaço...
Tudo parecia tão complicado... tão difícil...
E eu senti que haviam tentáculos, feitos de uma energia escura e fétida... tentáculos feitos de pura energia mental... que brotavam exatamente... de minha cabeça!
Eram horríveis!
Nesse momento, me lembrei da frase do Seu Exu Tiriri:
"A moça aí estava num carrego só... horrível, horrível! Que cabeça mais suja a dela, heim? Para fazer esse carrego... horrível, horrível!"
Aqueles tentáculos, de pura energia mental negativa, produzidos pelos pensamentos que tavam na boca da foto: a causa daquele carrego que Seu Tiriri havia falado... uma cabeça inundada pelos pensamentos negativos!
Eu senti medo e nojo ao perceber aqueles tentáculos, como se fossem uma medusa de pura energia negativa, brotando dos pensamentos da boca da foto!
E quando eu senti medo daqueles tentáculos, eles começavam a ficar mais grossos, se enroscando pelo meu pescoço e apertando meu peito, fazendo meu coração acelerar e o ar me faltar!
Mas eu decidi, muito firme:
- Tudo isso são apenas os pensamentos de um filme horroroso que eu filmei ao longo da minha vida... Eu não quero mais esse filme! Eu quero fazer um filme completamente diferente e novo!
Quando eu disse isso, comecei a sentir uma luz gostosa, quentinha e brilhante no meio do meu peito...
Meu Espaço Interior voltando!
Ele afastava os tentáculos que brotavam da minha cabeça...
Por vezes, os tentáculos menores e mais frágeis eram até queimados pela Luz do meu Espaço Interior!
Quando alguns foram queimados, a foto se desesperou:
Não! Não! Me ouça, me ouça! O mundo é perigoso! Eu protegi a gente! O mundo é mau, é perigoso! Lá fora todos querem machucar a gente! Me ouça, me ouça! Não me ignore, não me ignore! Você não é de confiança, vai por tudo a perder!
E eu sentia aquele calor delicioso no meio do meu peito!
Ele se expandia, a ponto de até aquecer o pedaço que sobrou do meu colar de cristal da Mãe Oxum Pandá...
E eu cada vez sentia mais aquele Espaço Interior ficar mais e mais imenso, acolhedor e delicioso no meu peito!
Minha foto ainda disse, desesperada:
- Te imploro, me ouça, me ouça! Não me ignore! Tudo que eu lhe digo é sempre muito importante... não me ignore...
E minha foto falava, falava... mas eu nem sequer a ouvia mais...
Eu sentia é aquele calor imenso e delicioso, da Luz que sempre houve bem no meio do meu peito, me preenchendo de Espaço e Silêncio, de leveza e relaxamento, quanto mais atenção à Luz do meu peito eu dava!
Que sensações!
Foi nesse momento que eu tive a mais forte das sensações!
Senti, de forma incrivelmente intensa, que nunca mais nada nem ninguém iria me machucar se eu não lhes desse a minha Força – o meu Poder, que nascia na minha imensa Usina Hidrelétrica de Força Interior! – através de um sutil e sinuoso canal que vazasse as poderosas Águas da minha Usina: o Canal do Medo!
Senti um crescente de uma ligação muito forte de Eu-Comigo, que ia enfraquecendo, naqueles instantes, a ligação de Eu-com-a-foto-falante...
Surgia como num crescente essa ligação entre Eu e Mim Mesma, como se um fio muito forte começasse a nos unir!
Um fio!
E esse fio, eu senti que tinha um nome:
Con-fio!
Confiança!
Confiança em algo sempre tão importante, que eu raramente ouvia porque a minha foto sempre falava tanto dentro da minha cabeça – fazendo tanto barulho, o tempo todo! – que obscurecia esse Algo Mais Precioso que morava em mim!
Eu ainda não sabia o que era esse Algo... Mas percebi que esse Algo lançava, de meu peito, muitos fiozinhos, fios lindos, de muitas cores vivas e puras, que me conectavam a todas as coisas boas que Sempre Existiram!
Será que este Algo e seus fios lindos, me conectando a tudo que era bom, a tudo que era Harmonia, sempre teve dentro de mim, fazendo essas conexões?
Dúvida! Era a foto falando! Mas eu não a ouvi!
Pois saber isso não importava agora!
Importava que eu sentia aquela Conexão, e com ela... Paz!
Naqueles deliciosos instantes, em que a foto falava e falava, mas parecia que eu tinha apertado o botão mute dela, eu sentia um imenso Silêncio Interior... um imenso Espaço Interior... e uma imensa Paz!
Pois foi exatamente nesse instante que eu percebi que, naqueles momentos, todos os meus medos... sumiram!
Me senti, pela primeira vez... como se tivesse em Casa...
Como se eu tivesse voltado pra Casa!
Que momentos deliciosos aqueles!
Foi aí que eu me dei conta:
Eu tava presa dentro da casa de Pink Pig!
Um arrepio de medo me tirou daquele estado de Graça!
Foi aí que o botão mute desligou, e a foto começou a ser ouvida:
Ela vai chegar a qualquer momento! Preciso me proteger, preciso, preciso!
Foi naquele momento que abri os meus olhos.
Minha foto, na Carteira de Identidade, era o que sempre foi: uma mera foto – supostamente horrorosa como em toda Carteira de Identidade – mas absolutamente imóvel.
Uma foto que nunca falou ou que nunca se mexeu.
Como todas as fotos são e devem ser.
Mas agora eu sabia que ela podia falar... que ela podia se mover... e sempre num momento especial:
Quando eu sentia medo!
Estranhamente, aquela foto horrorosa não parecia mais ser tão horrorosa assim...
Olhei-a por alguns momentos...
Não é que Selene Stern era mesmo uma morena bem engraçadinha? Bonitinha até?!
Descruzei as minhas pernas.
Meus dedinhos pegaram a minha carteirinha de documentos, desabada no assoalho da casa de Salet.
Levantei-me e fechei-a. Deixei minha Carteira de Identidade – e aquela foto! – guardadinhas dentro da minha carteirinha.
Mas não sem antes dizer isso pra ela, em voz bem alta e bem firme:
- Não se preocupe! Deixe Salet chegar. Eu cuido bem de nós a partir de agora! Porque eu simplesmente... confio!
Eu sorri quando disse isso!
E dei um tapinha, fazendo um carinhozinho na minha carteirinha de documentos, como se eu dissesse isso com aquela carícia:
"Eu tô aqui, e quando eu tô aqui, tudo vai tá bem! Eu cuido bem de você, não precisa mais ter medo!"
Foi nesse instante que eu ouvi algo na fechadura da porta, e alguém mexendo na maçaneta!
Salet!
Bem que seja! Pode entrar! Eu confio! Eu tô pronta!
Arrumei meu sobretudo e meus cabelos com minhas mãos: queria tá mega alinhada pra este encontro, oras!
A porta abriu!
Eu percebi que havia um vulto, parado perante a porta, na escuridão do quintal...
Somente o Luar iluminava aquele vulto...
O vulto deu um passo... e deixou de ser um vulto:
Era Álex!
Eu, espantava, o encarava!
Jurava que fosse Salet!
Ele me olhava!
Seus olhos emanavam um brilho muito diferente... eu não sei dizer o que era... eram indecifráveis como sempre... seria orgulho de mim, admiração?!
Foi então que com sua voz – que me soou incrivelmente doce, parecia até repleta de ternura naquele momento! – assim me disse:
- Você viajou... e realmente olhou bem fundo nos olhos do Poderoso Frágil Pequeno Grande Monstro! Tenho um imenso orgulho de você!
Eu?
Eu não sabia como reagir!
Aquilo tudo que houve comigo, dentro da casa de Salet: aquilo era a viagem?!
Eu fiquei incrivelmente emocionada!
Lágrimas começaram a surgir, bailando por sobre as maçãs do meu rosto!
Eu não pensei em nada! Apenas me senti!
Apenas fiz o que eu sentia profundamente!
Me grudei com tudo no pescoço de Álex e lhe dei um fortíssimo abraço!
Com todo o carinho e gratidão que viviam na arca do meu peito!
Somente depois daquele demorado abraço, quando nos soltamos, foi que vi Leilene, sentada exatamente na soleira do meu antigo quartinho, do meu velho bunker!
Ela tava tão estirada, confortavelmente ali – como se fosse uma nobre patrícia romana, curtindo uma cadeira da Antiguidade! – que me pareceu que nunca tinha arredado o pé dali!
E Leilene olhou pra nós, enquanto erguia preguiçosamente a sua mão direita:
Sacudia, por entre seus dedos, as chaves do seu possante!
E disse, com seu sotaque carregado e aquela sua cara de sacana, num tom que eu não sei como descrever:
- Ô cabeçuda, hora de voltarmos... Hélène já deve tá nos esperando com o jantar servido!
