Com a palavra: Drikuyla!

Postagem 33. O Poderoso Chefão

(The Godfather, 1972, EUA)

Gelo...

Algo que os Homo sapiens das grandes metrópoles jamais souberam verdadeiramente valorizar...

Para eles, Gelo era apenas isso: preservação de hambúrgueres...

Para algum raríssimo Homo sapiens um tanto mais refinado: História, contada em suas brancas páginas...

Mas para mim?

Gelo: a Arca Sagrada que guarda a resposta para uma Terra incomensuravelmente perfeita!

Mas uma Arca que exigiria uma ímpar chave para ser aberta...

Minha missão: elaborar a chave para esta Arca Sagrada!

E, quando aberta, esta seria a verdadeira e única Arca da Aliança!

Gelo...

O Gelo me enleva à tanta paz... traz-me a sensação da Eternidade e do Silêncio...

Eternidade...

Eu vivi para ver os últimos Homo neanderthalensis serem superados pelos Homo sapiens, na costa da Espanha, nos derradeiros suspiros da última Idade do Gelo...

Eu vivi para ver as Pirâmides de Gizé serem erguidas, desde seus berçários: o nascer dos seus primeiros blocos de pedra...

Eu vivi para ver Caio Otávio, o Augusto, derrotar Cleópatra e Marco Antônio, unificando o que um dia seria o Império Romano...

Eu vivi para ver Gengis Khan enganar a Grande Muralha da China, contornando-a...

Eu vivi para ver a Apolo XI beijar o solo da Grande Mãe da Noite...

Eu vivi para ver a New Voyager trazer misteriosas mensagens de som... debates sobre potencial vida inteligente em outras paragens, na imensidão gélida e mortal dos Raios Gama das Estrelas...

Século XXI...

Tantas possibilidades... mas ainda assim um paupérrimo parquinho infantil para quem não sabia ver qual o único jogo que valia a pena ser jogado: o Xadrez Supremo!

Mas agora, finalmente, eu havia inaugurado uma promissora ala neste parquinho de diversões para que uma adulta nele se refugiasse:

Uni a Biologia Molecular, a Criogenia e a Antiga Ciência...

Aparentemente, nada de mais...

Porém, os Antigos Conhecimentos verdadeiramente profundos da Antiga Ciência eram o hálito divino que faria um autêntico milagre!

Saberes tão profundos e tão antigos que, se não fosse por mim, teriam se perdido para sempre, soterrados pelas amargas areias do tempo...

Agora eu estava em minha Estação de Pesquisa...

Naquela noite, eu estava sentada no meu gabinete, pensativa...

Me sentia mais entristecida do que costumava ser...

Sentada em minha cadeira reclinável, eu mirava para a obra de Arte que enfeitava meu gabinete, em busca do encontro de mim mesma: esta obra estava mesclada à parede principal de minha sala...

Pura Arte da Natureza: dentro de uma caixa de cristal incrustada na parede, estava talhado nas rochas o fóssil mais completo existente no mundo de um Gorgonopsia.

Gorgonopsia: foste tu a mais poderosa criatura que respirou sobre a cálida face da Terra há 250 milhões de anos... em pleno período mais belo da História da Terra para mim: o ocaso do Permiano!

Gorgonopsia... foste tu o maior predador do mundo antigo: teus dentes afiados eram emoldurados por quatro adagas... teus caninos gloriosos levariam vergonha ao Tigre-dentes-de-sabre...

Gorgonopsia... tu, o maior predador do Permiano... aparentemente tão grandioso e invencível... porém, tão repleto de imperfeições...

Gorgonopsia... tu não podias contemplar a beleza do ocaso do Permiano e o nascimento do Triássico – aquele instante sagrado da Eternidade: 100.000 anos! – escondendo o período mais nobre e poético da História da Terra, que te prenderia nas rochas para todo o sempre!

Uma poesia, escrita nos pergaminhos vulcânicos da Sibéria Permiana com as tintas do Assoalho Oceânico!

Poesia e Arte: pois o que antes era um tabuleiro de um jogo obstruído, repleto de peças falhas, imperfeitas e claudicantes, tornar-se-ia um tabuleiro limpo, onde verdadeiramente a Beleza e a Perfeição poderiam vir a nascer...

Que tempos! Um novo mundo repleto de possibilidades! Um tempo em que cada instante nada mais era do que... pura poesia!

Gorgonopsia... tu, o mais poderoso predador de teu tempo... foste varrido da História da Terra por tua imperfeição...

Homo sapiens... tu, o mais poderoso predador de teu tempo...

Haveria algo que enlaçaria os destinos destas duas espécies?

Talvez tu, Homo sapiens, nem precisasse, como os Gorgonopsias, de que a Armadilha da Sibéria e o Assoalho Oceânico te empurrassem para as páginas fossilizadas do livro de Historia Natural escrito nas folhas das rochas... pois diferente dos Gorgonopsias, tu, Homo sapiens, estás escavando, alegremente, tua própria sepultura...

Prazerosamente, num frenesi de gozo: gerando teu dióxido de carbono, alterando todo o delicado ecossistema da cama em que tu mesmo dormes... podendo, na tua prostituta volúpia, liberar em poucas décadas dois a três gigatons de toneladas de CO2 na atmosfera: a mesma quantidade de CO2 que as Armadilhas Siberianas liberaram em quase 1 milhão de anos de árduo trabalho!

Já estava acontecendo... e por tuas próprias mãos, Homo sapiens...

O Caos Climático!

A Sexta Grande Extinção!

Grandes Extinções... a Terra as declarava periodicamente... algo como limpar o tabuleiro para que coisas novas e melhores pudessem florescer: uma segunda chance para a Beleza e a Perfeição...

A Primeira Grande Extinção foi há 440 milhões de anos: ocaso do período Pré-cambriano...

A Segunda Grande Extinção foi há cerca de 370 milhões de anos: ocaso do período Devoniano...

A Terceira Grande Extinção, a jóia mais perfeitamente elaborada, foi há 250 milhões de anos: término do Permiano...

A Quarta Grande Extinção foi há 210 milhões de anos: ocaso do período Triássico...

E a Quinta Grande Extinção foi há 65 milhões de anos, a pop star das Grandes Extinções: ocaso do Cretáceo... sepultura dos dinossauros...

Eu estava deveras entristecida naquela noite...

Tenho fé que tal tristeza nascia de dois motivos...

Primeiro: não havia poesia alguma desta vez, na Sexta Grande Extinção... não passava de um bacanal do Homo sapiens, acreditando-se senhor e lord da Terra, enquanto estuprava o seu próprio leito...

Não havia nada de Sagrado, de Pureza, de Beleza e de Poesia nesta prepotente ação violadora destes pederastas!

Segundo: os desafios da Criogenia...

Os mistérios da Arca do Gelo negando-se a revelarem-se...

O maior desafio da Criogenia, em seres complexos, sempre foi este: não somos como as cianobactérias ou o escorpião – que podem ser congelados e manter suas células íntegras nos seus tecidos simples, durante sua animação suspensa... e quando descongelarem: retorno triunfal à Vida.

O escorpião e as cianobactérias era campeões imbatíveis na Criogenia!

Mas ambos são criaturas vivas simples demais se comparadas à complexidade dos tecidos do Homo sapiens.

Pobres e frágeis Homo sapiens: quando suas células congelam – principalmente as mais nobres: seu hipercomplexo sistema nervoso! – a Água forma cristais que destroem a estrutura e a informação da célula...

Assim, quando o Homo sapiens é descongelado, ele está... perfeitamente morto!

Eu?

Estou de posse de parte da Chave, devido à minha rara linhagem.

Fui filha de Alguém que comandava as Águas dos Oceanos...

Antes, porém, que tal Ser infame – a quem um dia chamei de Mãe! – me abandonasse, aprendi muitos dos Dons e Segredos das Suas Águas Salgadas...

Pois, se fui uma filha traída de quem comandava as Salgadas Águas do Mar, tirei benefícios desta filiação...

Levando-se em consideração que o interior das células humanas são repletas de diversos minerais solubilizados em água – portanto: Água Salgada! – a solução do problema da Criogenia de células humanas já me era uma realidade enfadonha, que nem ao menos valia a pena pesquisar...

Receita tão trivial quanto uma criança a fazer bolinhos de lama!

Porém o que eu queria era algo mais profundo... algo que realmente era um desafio para mim, algo que realmente valeria a pena:

Como reanimar quem foi congelado inadequadamente tendo, neste processo, a sua estrutura celular e sua informação danificadas pelos cristais de gelo? Congelado não pela minha inteligência na Criogenia, mas pela furiosa violência das Geleiras?

Como reanimar algo assim, de modo que suas estruturas e informação fossem perfeitamente recuperadas?

Eu sabia criogenizar algo de modo que suas células e toda a sua informação jamais fossem perdidas durante o processo: após o descongelamento, tudo estava lá: intacto, nos seus mínimos detalhes, inclusive a memória e toda a lucidez mental...

Assim, eu sabia, por exemplo, criogenizar os soldados de elite de General McCarthy...

A idéia dele e de seus pares do Estado Maior?

Deixar suas tropas ocultas, em qualquer recanto do planeta, sem consumir praticamente nenhuma energia, alimento ou água – num mundo com recursos cada vez mais escassos – e em prontidão para serem rapidamente reativadas e celeremente surpreender qualquer oponente: a "logística perfeita", como eles afirmavam...

Obviamente: um infantil plano...

A velha brincadeira de Geopolítica que os militares tanto apreciam: com seus rifles de plástico e estrelas de xerife no peito, brincando de western nas areias dum parquinho...

Mas quando se necessita do auxílio das crianças, o que você faz?

Você lhes dá o que elas lhe pedem para que elas, imediatamente, dóceis, como bons meninos, te dêem o que você realmente quer, não é?

Foi assim que eu consegui realizar meus desejos:

Concedi ao General McCarthy os meios para ele realizar o seu sonho infantil – dele e de seus pares de sua Superpotência Mundial:

Jogar suas partidas de Playstation©, madrugadas adentro, enquanto comem batatas fritas, Big Mac's© e bebem Coca–cola©...

O sonho de todos os garotinhos!

E quando lhe dei isso – seu Playstation©ele satisfez as minhas condições inscritas em nosso Pacto, redigidas em nosso Contrato:

Cláusula primeira: deu-me uma estação inteira de pesquisas para que eu desvendasse os segredos de como reanimar um mamífero congelado da forma equivocada;

Cláusula segunda: deu-me preciosas amostras de tecido de um mamute congelado, obtidas da maior Universidade de sua nação;

Cláusula terceira: está realizando escavações incessantes, numa grande e específica zona da Groenlândia, na região de Isua, a 150 km da cidade de Nuuk...

Em Isua – assim como no outro lado do globo, em Barberton, na África do Sul – existem as rochas mais antigas do Planeta Terra, com quase 3,8 bilhões de anos... Que escavassem sem cessar, até que encontrassem uma Relíquia e um Artefato!

Pois entre aquelas rochas, junto às invernais Geleiras, sei que há uma criatura da megafauna pré-histórica, soterrada: a Relíquia... e em suas garras, há o Artefato que me pertence por direito, e que deve retornar à minha bainha vazia...

Crianças... são como vadios cães de rua: dê-lhes um osso ordinário e um afago fajuto e imediatamente sacodem o rabo para você, seguindo-lhe aonde você for!

Odeio cães! Me dão arrepios!

Pois deram-me tudo quanto pedi quando eu dei-lhes aquele osso ordinário... mas obviamente que a curiosidade infantil sempre fala tão alto: as crianças começaram a me perguntar como eu sabia que existia algo em Isua, na Groenlândia, e por que isso me era tão importante...

Obviamente que eu parei de dar-lhes meus presentinhos bélicos em resposta a tais perguntas ofensivas... o que rapidamente educou tais crianças malcriadas!

Assim, surgiu a última cláusula do Contrato do Pacto, que também foi satisfeita:

Cláusula quarta: que nunca mais ousassem fazer qualquer outra pergunta a respeito de tais escavações... apenas as façam!

E o tabuleiro para mim jogar o meu jogo estava sendo montado...

Geopolítica e o poder militar, político e econômico entre as nações: tal Playstation© é para crianças tão pequenas...

Xadrez: eis o jogo dos adultos!

E eu já possuía o tabuleiro... e várias das minhas peças negras, da cor da imensidão do Kosmos além do Firmamento!

Peões Negros: General McCarthy, seus pares e seus comandados... escavando e trabalhando para mim... afinal, no Xadrez, os peões vão primeiro: fazem o trabalho sujo para os nobres...

Torre Negra: a minha Estação de Pesquisa! E repleta de regalias, como numa espécie de novo Projeto Manhattan...

Cavalo Negro: as amostras de tecido do mamute, sem a qual eu não poderia saber se eu poderia reanimar a Relíquia...

Faltavam-me, agora, apenas três peças, e o tabuleiro estaria completo:

Bispo Negro: conseguir recompor com perfeição a informação celular de um tecido mamífero congelado de forma errônea...

Rei Negro e Rainha Negra: sepultados, sob rocha e gelo, em algum lugar de Isua, na Groenlândia...

Em breve... em breve eu possuiria todas as peças!

E eis que o Xadrez Supremo seria jogado:

A Perfeição.

A incrível vocação de ser mais!

A mola que nos impulsiona a irmos sempre além!

Além mesmo de nossa tola humanidade.

Homo sapiens...

Sapiens: sábios?

Sequer eram sábios os que assim auto denominaram sua espécie: tão pouco sabiam dos mistérios do Kosmos, satisfazendo-se com seus Playstations© tão infantis e sua volúpia, corrompendo a Sexta Extinção...

Ser mais!

Eis o Xadrez dos adultos!

Libertarmo-nos de todas as nossas amarras: o céu é o limite?

Jamais!

Na catedral herdada do silício e dos bits – os laboratórios computadorizados de pesquisa – a família da dupla hélice da vida, filhas e netas de Watson e Crick, no altar da Criogenia, estavam prestes a casar-se com o meu Sagrado Hálito.

Eu?

A missionária incumbida de executar esse sagrado matrimônio!

A única capaz de selar este casamento:

A Libertação! O Ser mais!

A vocação de Ser mais!

Sonho amado pelos religiosos de todas as eras, de todas as partes do globo... da China à América, da Groenlândia à Terra do Fogo...

O Futuro Promissor! A Terra Prometida!

Sonho desejado pelos sábios de cada tempo, de cada escola do pensamento que pulsou sobre este planetinha azul...

Libertação e Futuro: o sagrado dever que eu sentia ter sido colocado sobre meus ombros pelo Kosmos.

Eu precisava ter êxito na busca sagrada!

Verdadeira e audaciosamente, levar a Terra aonde ela jamais esteve!

E nada melhor que um lugar sossegado dos olhares curiosos, tão calmo, tão silencioso e repleto de Gelo para mim estabelecer minha Estação de Pesquisa e construir a preciosa Chave.

Gelo e silêncio.

Combinação perfeita!

Eu precisava ter sucesso!

Só eu poderia realizar um feito desse porte... só eu poderia realizar tal missão!

Mas eu estava infinitamente entristecida... pois tal missão sobre meus ombros parecia, por vezes, que ia estraçalhá-los...

Sentia-me, por vezes, tão frágil para executar dever tão nobre...

Tantas dificuldades...

Eu estava tão deprimida...

Me sentia tão... só... abandonada...

Não havia ninguém para dividir comigo o peso desta missão!

Meus ombros teriam que suportar tudo, absolutamente sozinha...

Cada experimento fracassado... e eu sempre estava só, no meu gabinete: não poderia dividir com ninguém a taça amarga dos meus insucessos...

Eu ficaria me remoendo aquela noite toda... se eu não ouvisse o ronco dos motores de um grande avião de transporte militar...

Ele havia aterrissado no aeroporto da Estação de Pesquisa.

Do avião sai uma comitiva.

Todos muito agasalhados, usando roupas pesadas.

Chamava a atenção um homem alto, gordo, com olhos bem claros.

Loiro, meio calvo, dono de uma certa idade: seus setenta anos.

Ele e a comitiva entraram no elevador. Sim, e levava para baixo: minha Estação de Pesquisa era subterrânea.

Quando o elevador chegou, alguns membros da comitiva, ali pela primeira vez, assombraram-se:

Havia uma verdadeira "metrópole" no seio da terra!

Minhas instalações eram titânicas!

Haviam vários militares, fardados e armados, bem como meu exército particular de homens e mulheres trajando guarda-pós brancos.

Mudam-se as vestimentas, mas a peça no meu jogo é a mesma:

Peões...

O homem gordo retirou seu pesado casacão...

Caminhou, tutorando sua comitiva, por entre várias salas daquele deslumbrante complexo, explicando-lhes muitas coisas...

Havia muito espanto e admiração nas meninas dos olhos dos passageiros daquele avião... e extremosa satisfação com o que miravam.

Passou-se muito tempo até que o homem gordo encaminhou a comitiva de volta para o avião que os trouxe... e partiram.

Liberto daquele compromisso, ele dirigiu-se até um certo gabinete, em que alguém consumia-se em tristeza...

Quando ele foi anunciado no laboratório, fui recebê-lo.

Um tenente o anunciou:

- General Joseph Richmond McCarthy!

Oh, os olhos dele, quando entraram no meu gabinete: eram de um gelo e de um frio que me aquecia!

- Oh, Joseph! Que contentamento revê-lo tão rápido!

Ele me fez sua clássica gentileza, beijando minha mão:

- Srta. Drikuyla... é incrível... nos conhecemos há uns cinquenta anos, desde quando eu era um jovem tenente... e você está sempre cada vez mais bela e encantadora!

Passaram-se cinquenta reviravoltas nas areias do tempo, a duração de nossa convivência, e ele não perdia seu belo charme galanteador:

- Gentil como sempre, Joseph... foram inesquecíveis aquelas nossas noites em Bagdá, não?

- Ah, você ainda se lembra! Foi quando a conheci... rivalizando em beleza com a Lua e as Estrelas do Oriente, deixando-as com inveja!

Hum... hum...

Oh...

Como eu necessitava ouvir tais palavras!

A visita de Joseph foi providencial!

Já começava a sentir-me melhor...

Conversamos diversas amenidades... oh, os velhos tempos...

Acabei mostrando-lhe alguns progressos – para ele eram enormes avanços, mas para mim, eram apenas passos de uma frágil formiga perante a grandiosidade dos Alpes... Ao menos ele ficou tão satisfeito... seus olhos gelados me sorriram tão belamente!

Minha solidão amenizou-se, um tanto, ao ver aquele discurso eloquente de seu olhar imerso em prazer... até que lhe indaguei:

- E as escavações, Joseph? Encontraram algo?

- Ainda não... estamos escavando por toda a região há meses sem parar, aproveitando a estação de bom tempo, mas nada ainda, Srta. Drikuyla... A Groenlândia é terrivelmente inóspita... temo que quando a boa estação se for, os trabalhos sejam paralisados por algum tempo...

Nada mais animador...

Minha tristeza retornava com toda a sua exuberância e vigor...

Ao menos Joseph havia trazido um bom vinho... como fazíamos nos tempos de sua juventude: duas taças e um divertido parlatório noite e madrugada adentro.

Seu senso de humor ácido e corrosivo, politicamente incorreto e discriminatório me fazia incomensurável bem: ele me fazia rir com tamanha facilidade, um verdadeiro dom!

Afinal, quando se viveu tanto, encontrar alguém que lhe faça rir com um gracejo inusitado – quando já se ouviu todos os gracejos possíveis e imagináveis – realmente é uma verdadeira dádiva!

Acabei esquecendo um tanto minha depressão ao longo daquela madrugada...

Oh, Joseph!

Você me contava causos hilários de suas missões militares no Oriente Médio, há tantas décadas... e eu lhe contava meus causos hilários da Segunda Guerra Mundial, da Primeira Guerra Mundial, da Guerra Franco-prussiana... enfim... foram tantas em que me diverti...

Joseph: a única pessoa que sabia que eu vivi... e muito...

Percebia que ele, por vezes, se lamentava, por não ter podido permanecer jovem comigo... que ele temia a Morte, e por um motivo:

- Terei de abdicar dessas maravilhosas madrugadas, conversando com a mulher mais inteligente e incrível que já respirou sob as Estrelas do Firmamento... e renunciar às nossas taças de vinho... só por isso temo a Morte, minha bela Drika...

É um tanto... estranho... mas devo, secretamente, admitir para mim mesma também: sentirei tanta falta de você o dia que você partir...

Foram anos tão proveitosos os nossos, Joseph!

Quando você era atlético e jovem... hum... foi um namoro efusivamente divertido!

Mas, oh, a Entropia...

Sim, Joseph: em um punhado granular dos anos da ampulheta que escorre incessante, você partirá...

Sei que neste dia chorarei verdadeiramente...

Nada conseguirá reter minhas lágrimas, porque sei que elas serão cruelmente geradas pela dor lancinante chamada: saudade...

Sim, Joseph: em um punhado granular de anos você partirá...

Mas até lá, aproveitemos nossa amizade:

Bebamos felizes, como nesta madrugada, um excelente vinho antes que este envinagre... e sejamos tão felizes quanto possível sob o silêncio do Gelo e à luz do manto da Lua...