Epílogo

Com a palavra final: o Velho!

Tantas coisas eu vi...

E as vi por muitos meios!

Vi por Sonhos...

Vi por Jornadas Xamânicas...

Vi por perguntas aos Búzios...

Demorei muito para entender o que estava acontecendo...

Muitas vezes o Sagrado Ifá, através dos Búzios, precisou me guiar para que eu compreendesse os Sonhos e as Viagens Astrais e Xamânicas conforme Sua vontade, devido às limitações de um ser humano preso ao seu tempo, ao seu espaço e à forma de ver e entender o mundo em que toda a sociedade que eu conheci estava presa... inclusive os seus sábios... até os Babalôs precisam fazer muito esforço para se libertar dessas limitações...

É a Prisão da Aldeia...

Como as manadas de gnus, zebras e antílopes andam juntas, as pessoas da Aldeia andam juntas, pastam juntas, sempre imersas na manada...

Mas para se ver além, precisa-se de coragem para, um dia, sair da manada...

E ao sair da manada, abrir-se aos mais profundos e poderosos mistérios dos Orixás, até que atinja-se a Libertação.

Por muitas noites eu tive um Sonho... muito nítido... de coisas que nunca poderia contar para ninguém... porque presos às suas formas de entendimento, jamais conseguiriam entender o que eu entendi...

Por isso eu nunca revelei a ninguém.

Revelarei apenas para você, nestas linhas... e somente para você e mais ninguém, pois sinto que você poderia compreender...

Sinto que os fatos que eu sonhei no passado afetam você no futuro...

Este velho negro, no meio de uma savana – numa época tão antiga em que as únicas luzes que existem a iluminar as noites do mundo são as das fogueiras, das tochas e das velas – viu coisas que afetam todos os povos do futuro que eu conheci em Viagens Astrais: os brancos ao Norte, os vermelhos ao Oeste, os amarelos ao Leste... e afetará os netos de meus netos: os negros.

Os Orixás me ensinaram tantas e tantas coisas...

Me guiaram em muitas Viagens, quer fossem Astrais, quer fossem Xamânicas...

Me mostraram a vastidão e complexidade do mundo...

Mas me mostraram também que um dia haveriam tantas pessoas no mundo, pensando e se comportando como se fosse uma manada tão grande de gnus, que o mundo, antes tão vasto, se tornaria muito pequeno...

Que haveriam tantas pessoas, sedentas pelo desejo de ter sempre mais e mais rápido, que em segundos um branco do Norte poderia falar com um amarelo do Leste e que, em apenas algumas horas, pássaros de aço – que rugiam, como o mais feroz dos leões, por bocas embaixo de suas asas! – os ligariam: seja para apertarem as mãos, seja para lançarem flechas uns contra o coração dos outros, caindo em forma de ovos que explodiam na Terra...

Que haveriam tantas pessoas, sedentas pelo desejo de ter sempre mais e mais rápido, que o que Oxossi e Ossanha demoraram séculos para plantar e gerar sumiriam em poucas horas – devoradas por elefantes de aço...

Onde os elefantes de aço passavam nasciam estradas negras, por onde cavalgavam carruagens sem cavalos entre muitas e muitas aldeias estranhas – onde as choupanas eram construídas umas sobre as outras, até os céus... seriam tantas as pessoas, sedentas pelo desejo de ter mais e mais rápido, que construir aldeias inteiras tentando agarrar os céus seria a única forma de acomodar a todos...

E por onde os elefantes de aço e seus domadores passavam, não sobrava mais lugar para cultuar Oxossi e Ossanha...

O desejo de ter sempre mais e mais rápido foi aprimorado, de forma tão sedutora por um grupo de brancos, que apenas trezentos anos após eles fazerem o primeiro casarão que fabricava muitas coisas, muito rápido, lançando muita fumaça e fuligem no Céu e restos na Água, todos no mundo estavam seduzidos pelo desejo de ter sempre mais e mais rápido...

E os Orixás me mostraram que o mundo estava ficando muito pequeno... e muito rápido... tão rápido quanto mais rápido e insaciável o desejo dos homens e mulheres se tornava...

Porém alguns homens e mulheres viam que algo errado e muito grande estava acontecendo...

Eu os vi nas terras mais geladas do Norte... no meio do gelo...

Estavam num casarão... no meio de uma imensidão de neve e gelo...

Mas era uma casarão muito estranho... porque ao redor dele havia muito frio mas dentro dele, sem fogueiras em parte alguma, tudo estava quentinho.

Aqueles homens e mulheres tentavam sair da manada, ao seu modo... pude ver que eram uma variação dos Babalorixás: pessoas que tentavam entender a vontade dos Orixás só que não acreditando nos Orixás... pessoas que tentavam entender como os Orixás regiam a Natureza, mesmo não tendo contato com Eles!

Parece que eram os homens e mulheres que cultuavam e protegiam o conhecimento daquele tempo...

E eu ouvia eles falarem algo – em uma língua estranha que eu nunca ouvi, mas que os Orixás traduziram para mim – e falaram aquilo, dentro do casarão, repetidas vezes:

"Emissões de gases de Aquecimento Global impregnados no gelo"

"Mudanças Climáticas muito rápidas"

"A Sexta Grande Extinção"

Seriam estas frases uma espécie de mantra dos que cultuavam e protegiam o conhecimento daquele tempo? Uma espécie de cântico sagrado, estrofes de um ponto e reza?

Vi que saíram do estranho casarão alguns homens e mulheres sem cor...

Vestiam grossas roupas, para suportar o frio de um lugar onde até a raposa e o urso eram brancos para se harmonizarem com o gelo e a neve.

Saíram do casarão e entraram na barriga duma hipopótamo de aço que andava rugindo na neve.

E rumaram para uma imensa geleira – muito maior que os picos gelados do Kilimanjaro! – há alguns quilômetros de onde ficava o estranho casarão.

Perto da geleira, os homens e mulheres saíram da barriga da hipopótamo e procuraram lugares para retirar pedaços de gelo e neve.

Eles tinham máquinas para fazer isso, que certamente Ogum lhes ensinou a fazer!

As máquinas enfiavam uma lança oca no gelo duro e depois retiravam um pedaço de gelo semelhante a uma vara, de dentro da lança.

Ifá me disse que ali, naquelas varas de gelo, aqueles homens e mulheres buscavam explicações para as coisas ruins que estavam acontecendo em seu mundo. Pois, disse Ifá a mim, aqueles homens e mulheres sabiam que tudo o que acontecia no mundo, acontecia primeiro e mais visivelmente nas suas duas pontas mais frias...

Eles se espalharam, em duplas, pela geleira. Buscavam os melhores locais para depois se reunirem e retirarem as varas.

Pude ouvir o nome de dois deles.

Nomes estranhos que eu nunca havia ouvido antes:

Doutor Inoue... e Doutor Takiguchi.

Tudo parecia ir bem...

Até que, de repente, enquanto Inoue ia pegar uma outra espécie de instrumento, o chão de neve e gelo embaixo de seus pés cedeu!

Inoue gritou!

Takiguchi foi em sua direção e viu que o companheiro havia caído num escuro buraco: uma falha no gelo bem embaixo dos seus pés!

- Inoue! Inoue! – ouvi gritar Takiguchi.

Em seguida, Inoue gritou:

- Estou bem! Só torci a perna!

Imediatamente Takiguchi pegou uma caixinha, colocou-a perto de sua boca e parecia falar sozinho... mas dentro da caixinha parecia até ter alguém... porque a caixinha também falava... Takiguchi disse para a caixinha:

- Estação Ártica Dois, aqui é Takiguchi! Houve um acidente com o Doutor Inoue! Precisaremos de cuidados médicos!

Em seguida, vi que Takiguchi colocou no bolso sua caixinha falante e apressou-se a ir próximo ao buraco e disse:

- Vamos arrumar uma corda para te puxar! Fique firme!

Vi que Inoue estava no escuro. Uma tênue luz do dia entrava pelo buraco por onde ele caiu. Mas o homem tinha uma poderosa tocha no seu bolso, que acendia ao se apertar algo parecido com uma concha.

Com a tocha poderosa – que não se apagava nem tremulava com o vento frio! – ele começou a verificar sua perna. Não parecia que a tinha fraturado. Devia ter sido apenas uma torção bem dolorida.

Mas fiquei aliviado ao ver que o homem estava bem!

Ele se levantou, mancando. E passou a olhar com a tocha poderosa ao seu redor.

Havia muito gelo: um verdadeiro paredão de gelo ali embaixo!

Ouvi Inoue resmungar consigo mesmo, tentando controlar a dor em sua perna:

- Deve ser um gelo muito antigo! Bom para pegar boas amostras...

E olhando para aquele paredão de gelo, de repente o homem exclama algo – parecia o nome de sua Orixá:

- Sagrada Amaterasu!

Por que ele exclamou o nome da sua Orixá?

Vi o que Inoue viu...

Presa dentro do paredão de gelo, como se fosse uma estátua, havia uma criatura enorme!

Inoue se aproximou e a olhou de perto, e exclamou essas palavras:

- Parece até como ver um peixe congelado em um aquário!

Inoue e eu vimos a criatura...

Ela era enorme, completamente peluda!

Era muito maior que o maior dos leões!

Parecia ter uns sete metros de comprimento ou mais!

Tinha focinho e enormes dentes: tudo nela era muito grande!

Sua cabeça parecia a de um lobo gigante!

Vi que foi com um espanto enorme que Inoue constatou o tamanho das patas traseiras e dianteiras da criatura e sua conformação: elas tinham proporções e formas que até lembravam... humanas...

Disse Inoue:

- Sagrada Amaterasu! Esse animal pré-histórico poderia até andar de pé! Pareceria até um edifício de tão grande!

Ele continuou olhando admirado para a criatura congelada.

Mas eu não me admirei... pois eu já havia visto aquela criatura em minhas Viagens Astrais, atormentando os meus Antepassados!

Através do gelo parecia que aquela enorme criatura, que um dia andou de pé, tinha o pelo completamente da cor do carvão.

Foi olhando detalhadamente para seu pelo, através do gelo, que Inoue percebeu que havia algo cravado em seu peito... parecia... parecia... metal! Um pedaço de lâmina de metal trabalhado!

Mas eu não me espantei... pois eu sabia de quem era aquele pedaço de lâmina de metal... Pertenceu àquele que eu vi, em minhas Viagens Astrais, protegendo meus Antepassados!

Mas foi com supremo espanto que Inoue viu que, para dentro do gelo, parecia que havia mais algo... o gelo era tão grosso que até a luz de sua tocha poderosa era ofuscada... Inoue não podia ver muito para dentro do bloco de gelo...

Mas ele pode perceber algo... parecia que nas garras da criatura, que lembravam em muito a conformação de uma mão humana... parecia estar segurando algo... segurando algo?

Inoue foi mais a fundo tentando, no furor de sua descoberta, ver tudo o que poderia com a sua tocha poderosa... e parecia algo nunca antes imaginado: parecia que aquela criatura gigantesca estava... segurando algo de metal... e Inoue pode ver que havia uma empunhadura!

Inoue, espantado, exclamou:

- Uma espada!

Mas eu, porém, não me espantei... sabia de quem era aquela espada... um presente de Yemanjá para uma de Suas filhas que A renegou... pois eu vi essa Sua filha, em minhas Viagens Astrais, empunhando aquela espada e atormentando os meus Antepassados!

Inoue pegou, absolutamente trêmulo, a sua caixinha falante... tremia tanto, de tão fascinado com sua descoberta, que nem sentia mais dor alguma na perna... E assim ele falou com a caixinha – e eu me lembro muito bem daquelas suas palavras estranhas:

- Doutor Takiguchi, aqui é Inoue! Eu estou bem! Mas acho que nós acabamos de fazer a maior descoberta da história da Paleontologia e da Arqueologia! Precisamos de muitos homens para conseguirmos levar o que descobri à nossa Estação!

Foi também um espanto enorme quando o Doutor Takiguchi e os demais homens e mulheres da sua aldeia desceram na falha do gelo e viram a descoberta do Doutor Inoue!

Demoraram vários dias escavando, com todo o cuidado, ao redor da criatura congelada.

Eles a retiraram sem remover o gelo ao seu redor, deixando-a imersa num bloco... ouvi-os dizendo essas estranhas palavras:

- Não deixem que os tecidos do espécime entrem em contato com a nossa atmosfera atual... tudo deve ser preservado, ao máximo, até as amostras de ar presas no interior do bloco e quaisquer outras partículas!

O bloco de gelo contendo a criatura foi colocado a bordo de um barco muito grande, todo feito de aço...

Seu destino era incerto naquele momento... eles não sabiam com exatidão aonde aquilo iria ser levado para que os homens e as mulheres que guardavam e protegiam o conhecimento daquele tempo pudessem melhor estudar a criatura...

Mas eu sabia apenas o nome do lugar – apesar de não saber onde ficava – porque dentro de minha mente soaram estas duas estranhas palavras:

Fukushima... Japão...