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Professora sem inhaca de professora

Já que Hélène me garantiu mesmo que não soltaria o meu braço, pra mim não fazer besteira indo pro curso que não deveria, ao invés de ir ao curso certo... aceitei o convite!

Vou contar pra você como foi!

Foi como num sonho... sonho que parece sonho que não é sonho mas jurando que é sonho...

Sim: é mesmo algo mega complicado de explicar!

Talvez você entenda e curta melhor o que eu vou lhe contar se a gente tivesse uma imagem mais inteligente sobre nós mesmos...

Sim: uma imagem!

Tipo... você já notou que muitos espiritualistas chamam os médiuns de "cavalos"?

Pois é...

Mas eu sempre odiei essa imagem... nunca curti essas de me sentir uma "eguinha pocotó" de alguém!

Aliás, qualquer coisa que me rebaixa a uma reles mascadora de chiclete de grama me irrita profundamente... experimenta só me chamar de ovelha, égua ou vaca pra você ver!

Sempre detestei essa imagem dos espiritualistas sobre nós mesmos: comparar um ser humano sensível, ou melhor, um ser hipersensível, que capta energias emanadas no ambiente inclusive por desencarnados, por defuntos, um ser que se destaca facilmente do seu próprio corpo físico podendo dar comunicação a defuntos ou se projetar... compará-lo a um animal de carga no qual basta você montar para fazer dele todos os caprichos que você quiser?

Me tira dessa!

Pois com a hipersensibilidade que nós, médiuns, temos... não somos cavalos, somos sim verdadeiros radares!

E alguns de nós são radares tão potentes que já se tornaram... radiotelescópios!

Sim! Verdadeiros radiotelescópios do Programa SETI com suas antenas poderosas instaladas sobre as areias escaldantes do deserto da Califórnia, mirando os céus para adentrar na intimidade secreta do Cosmos!

Ah! Agora sim!

Essa imagem de nós mesmos finalmente nos eleva ao nosso verdadeiro posto ao invés de nos rebaixar numa falsa humildade hipócrita... absolutamente falsa porque exala aquele fedor de vaidade facilmente farejada para quem tem um olfato refinado como o meu...

Assim sendo, olha só o que a titia Selene acabou de fazer com a imagem de nós mesmos:

De cavalo, uma criatura subjugada e cruelmente rebaixada a banal objeto utilitário, passamos a radiotelescópio, um objeto hight tech com o qual se desvenda os mistérios da imensidão do Cosmos!

Ah, ficou muito melhor!

E talvez...

Talvez essa nova imagem dos médiuns como radiotelescópios, aposentando de vez os antigos cavalos, seja um indicativo do próximo passo da Mediunidade...

Um próximo passo que poderia nos levar ao próximo degrau da evolução de nossa espécie, a coroação do Homo sapiens, ou até mesmo ao alvorecer de uma nova espécie do gênero Homo:

Deixarmos de sermos médiuns à mercê da vontade dos outros espíritos para nos tornarmos médiuns de nosso próprio Espírito!

Que coroação!

Médiuns que seguem a vontade de seu próprio Espírito Divino em seu próprio corpo!

Médiuns de suas próprias Almas!

Médiuns – ou seja, "no meio", a "mídia"! – a multimídia entre esse planeta e a nossa própria Luz, trazendo para a Terra as próprias Virtudes e Dons que Deus colocou em nós desde a origem dos tempos!

Médiuns... mídias... pendrives, Compact Discs, DVDs da sua própria Luz, do seu próprio Espírito Cósmico, que somos nós mesmos na Cloud, na Nuvem Cibernética do Mundo Espiritual, e que dela queremos sair para nos expressarmos materialmente neste planeta Terra!

Afinal, esse não seria o significado mais profundo da "Jerusalém Celeste na Terra"?

Essa não seria a própria metáfora de "Shangrilá"? De "Ywi Mara Ey", a "Terra Sem Mal"?

Esse não seria o significado mais sagrado de "O Orum retornando ao Ayê"?

Pois é...

Mas isso é assunto pra outra ocasião!

Outra hora que der eu entro aqui, no meu face, e faço mais umas 7 postagens sobre isso...

Afinal, meu papo aqui e agora não é Mediunidade... é Viagem Astral!

Assim sendo...

Uma coisa que facilita muito a Viagem Astral é a pessoa se desidentificar de seu próprio corpo físico...

Sim, porque se você está identificada com seu físico, você torna-se apenas matéria e assim vira "uma só"... e daí surge um probleminha fatal pra Projeção Astral...

Porque sendo "uma só", como é que você vai se mostrar sendo pelo menos "duas", onde uma garota fica lá, deitadinha na cama, enquanto a outra – que é você, a garota consciente! – sai por aí pra curtir uma tour?

Entendeu por que é fundamental estar desidentificada do seu corpo físico?

Mas também eu não digo uma desidentificação mega pirada... como aquela estupidez que Francisco de Assis fazia...

Ah, pois é: todo mundo acha "São Francisco" o máximo!

Todo mundo puxa o saco dele...

O adoram e batem palminhas pra ele: " O Santo que tratava bem os bichinhos!"... mas quando a titia Selene aqui, que estudou bem a história do carinha, começa a contar o que ele fazia pra se desidentificar de seu corpo, e em seguida a titia aqui pergunta "Se você admira tanto ele, então faz como ele! E aí, vai fazer mesmo ou só vai ficar enrolando?", aí as pessoas se irritam, né?!

Pois é... eu tenho mesmo um Dom único: o de irritar as pessoas... Definitivamente, deve ser o meu melhor Dom!

Porque... pô, chega dessa palhaçada hipócrita mega mentirosa: se você puxa o saco do Santo mas não vai fazer o que o que carinha fez, então para de puxar o saco do Santo, pô!

E Francisco de Assis fez o seguinte: chamou o seu próprio corpo de jumento!

Ah, pois é! O chamava de "irmão jumento"!

Sério!

Mas foi Francisco rebaixar seu corpo à categoria de "mascador de chiclete de grama" – afinal, jumentos pastam, não pastam?! – e ele imediatamente começou a maltratá-lo: expondo-o ao frio das nevascas; rolando-o em espinheiros até ficar em carne viva quando sentia desejo sexual; comendo restos de comida tal qual lavagem que se dá pra porcos e, quando alguém generoso lhe doava uma comida boa e gostosa de comer, ele colocava cinzas sobre ela pra estragar o "pecaminoso" sabor gostoso...

Putz!

Como é que eu vou confiar nos papinhos dum "Santo que tratava bem os bichinhos!" se ele não tratava bem nem mesmo o bichinho do seu próprio corpo?

Porque meu corpinho é meu pet! É o meu legítimo bichinho de estimação!

Eu é que não vou machucar a minha gatinha de estimação, não mesmo!

Machucar minha gatinha?

Tudo bem que às vezes ela até se parece com uma cachorra... mas machucar ela?

Never!

Sentir tesão e me rolar até sangrar em espinheiros pra perder o tesão? Comer comida gostosa com cinzas para retirar o gosto bom da comida? Comer lavagem que se dá pra porcos?

Blargh! Que horror!

Por isso mesmo é que eu não curto esse papinho de "Santo"!

"Rezar pra Santo"...

Me tira dessa! Tô fora!

Porque a desidentificação com o corpo tem que ser uma coisa inteligente! Não uma cretinice dessas!

Afinal, eu curto o meu pet pra caramba... mas eu não sou o meu pet!

Você já imaginou: você ter uma gatinha de estimação com os olhos contornados de lápis preto; batom vermelho no focinho; vestir ela com um imenso sobretudo gothic, de couro negro como uma noite de eclipse lunar; vestir ela com calça jeans preta; calçar botas dark nas patinhas dela e sair por aí, com ela no colo, dizendo que ela é a Selene?!

Vão dizer que você pirou! Lógico!

Então... desidentificação inteligente é isso: não vestir a gatinha de Selene!

Pois é!

E os antigos gregos até que foram bem mais inteligentes que os místicos cristãos... porque não vieram com papinhos de "cavalo" ou de "jumento"... inventaram o centauro!

Ah, isso sim é mais elegante!

Centauro: metade cavalo, metade humano. E ainda, de brinde: um belíssimo arco com flechas!

Uma imagem bem melhor pra se desidentificar do corpo físico!

Sim, centauros são legais! Não que eu seja exatamente uma sagitariana reprimida, escondida no armário, pra ficar defendendo tanto os centauros...

Não, eu sou é escorpiana mesmo! Nascida exatamente às 23h10min de uma noite de 31 de outubro, um sábado, bem no meio do Halloween, só pra você ter uma ideia... e nem por isso fico defendendo que as pessoas devam se divertir levando picadas de escorpião lá no Butantã...

Sim, eu até que curto centauros... mas ainda assim tem um probleminha... a parte cavalo é fixa, sempre fixa...

Sim, não dá pra separar a parte humana da parte cavalo nunca... exceto se a garota centauro for ingênua o suficiente pra ter um encontro com um açougueiro chinês ou uma consulta com um médico nazista...

Então... você fica presa a uma única forma... e isso te traz um monte de problemas!

Afinal... você já imaginou um centauro sentado numa cadeira da sala de jantar? Ou deitado na sua cama? Putz, fica ridículo!

Ah, não... eu não abro mão de ficar bonita, vistosa e elegante tanto à mesa quanto na cama! Não abro mão mesmo!

E você já imaginou um centauro sentado num trono, tipo... o do palácio de Buckingham? Ou dentro da cabine da Apolo XI? Ou pior: dando pulinhos na Lua, com roupa espacial, do ladinho do Armstrong? Já imaginou?!

Não, não, assim não dá! Essa parte "cavalo sempre fixa" do centauro ainda me mata de vergonha!

Mas isso tem solução! Quer ver?

Cyber-centauro!

Um centauro com a parte cavalo plug and play: a parte garota tem duas pernas humanas que se encaixam na parte cavalo de forma tão perfeita que é só plugar e jogar!

Você, enquanto está jogando, sente-se como uma centauro, onde humano e cavalo são uma coisa só!

Já pensou? Aquela brisa maravilhoso no seu rostinho, movendo seus longos cabelos soltos ao vento, enquanto cavalga absolutamente livre como uma selvagem corcel negra, respirando o suspiro da Vida na imensidão sem fim das pradarias?

É de dar inveja aos unicórnios!

Já pensou? Fez carinho na patinha do cavalinho... e você sente gostoso! Deu beijinho no lombinho do cavalinho... e você sente aquela delícia!

Ai, que gostoso!

E quando você quiser ter as sensações que um cavalinho não pode acompanhar? Tipo... no palácio de Buckingham ou na Apolo XI?

Fácil! É só desplugar! E lá está a garota dando pulinhos na Lua!

E lembre-se: você ainda leva o arco com flechas de brinde inteiramente grátis!

Yes! Yes!

Ah, eu curto mesmo cybers-centauro!

E assim fica mega fácil de se entender Viagem Astral!

É realmente como se você desplugasse da sua parte corcel selvagem e, com suas perninhas humanas, andasse aonde seu fiel cavalinho não conseguiria te acompanhar.

Por isso lá estava eu...

Deitadinha sozinha na minha cama, mais ou menos no horário em que Hélène havia combinado... me preparando pra me desplugar...

Selene Cyber-centauro Modo Desplugado: on...

E logo que tava desplugada e solta, sentindo-me flutuando sobre minha cama, já percebi a presença de Hélène, trajando um vestido azul muito brilhante...

Eu? Tava vestindo meu fiel sobretudo negro, lógico! Não tirava a minha marca registrada, meu copyright, nem pra me projetar!

Mas... como eu ainda não era uma viajante treinada e disciplinada como Hélène, apenas uma novata que estava começando a aprender o ofício... a minha astronáutica devia ser tão boa quanto a dos albatrozes...

Assim, Hélène parecia bem acordada, parecia ver tudo... mas eu tava meio sonolenta... tinha horas que eu via alguma coisa... mas tinha horas que eu apagava igual ao meu celular na hora em que eu mais precisava dele: sempre fora da área de cobertura...

Sentia, por momentos, que estava andando em um lugar, levada pela mão firme de Hélène, mas meu caminhar cambaleava e tudo estava borrado... como tentar explicar isso pra você?

Hummm...

Ah, já sei!

Tipo assim: é como você beber a terceira taça de vinho tinto suave naquela noite de sexta no pub quando, subitamente, falta eletricidade porque deu mais um daqueles apagões que a ANEEL sequer sabe explicar e que o Ministro só enrola na imprensa... Daí você fica tateando no escuro lá no meio do pub tentando encontrar a porta do toilet para tentar se recompor por lá!

Era assim o meu estado, entendeu?

Só que, de repente, eu sai desse meu modo "tropeçando em um pub no escuro total naquela noite de sexta em busca do toilet".

Ou seja: finalmente voltei a ficar consciente durante a projeção.

Foi aí que se Hélène não estivesse segurando bem firme no meu braço, me passando segurança e equilíbrio, eu teria tomado um susto daqueles!

Eu vi nitidamente que eu tava sentada, ao lado dela, numa espécie de plateia.

Eu estava em um imenso salão repleto de cadeiras organizadas em semicírculo como se fosse um imenso anfiteatro. Meu assento ficava ao lado do corredor e o de Hélène ficava ao meu lado.

Mas a plateia que estava lá era assustadora: que gente mais feia!

Horrível!

Só pra você ter uma ideia: os mais bonitos pareciam os filhos do casamento secreto da Medusa com o Chubaca© na capela de Westminster, oficiado pelo reverendo Mr. Bean©...

Será que Hélène não se enganou e realmente estávamos naquele meu curso que deixaria Salet de cabelo em pé?!

Quase entrei em pânico!

E assim, olhei só de cantinho de olho pro cara ao lado de Hélène, mega discreta, rezando pra ele não perceber que eu estava o espiando...

Ai, que medo! Aquele carinha parecia muito com o Shrek© de mau humor num dia ruim de tempestade no pântano!

Me bateu um arrepio daqueles... e me escondi cada vez mais debaixo do meu sobretudo negro, apertando firme o braço de Hélène!

Ela?

A velhinha tava naquela calma de sempre... como é que pode?!

Então olhei ao redor, buscando por mais socorro... afinal, Hélène parecia a Tia May© do Peter Parker©... Já pensou se o Shrek© se irritasse e quisesse me jantar? Duvido que a Tia May© conseguiria me salvar! Eu precisaria, nessa hora, é do Homem Aranha©!

Foi quando me senti mais aliviada: tinha uns caras bem apessoados, bonitões, vestidos de um jeito bem elegante, de pé e próximos às portas do salão, coordenando a entrada de pessoas, com um jeito muito disciplinado, quase militar... pareciam até um mix de seguranças de shopping com o pessoal do MIB: Homens de preto©...

Fitei dois daqueles carinhas de preto, altos, fortes e elegantes, que me pareciam o agente Jones© e o agente Smith©, e suspirei mega aliviada: se houvesse alguma espécie de rebelião dos ogros, eu corria direto pra me esconder lá atrás deles!

Foi só aí que eu a vi.

Ela!

Aquela para quem toda a plateia voltava sua atenção!

Havia uma moça deslumbrante lá na frente, lindíssima, ensinando alguma coisa.

Seria uma professora?

Não, não podia ser...

Sempre estudei em escola pública de Happy Harbor e garanto: nunca conheci uma professora bonita!

Quer saber se conheci alguma professora bagulho, estilo bicho-papão molambento? Sim, quase todas!

Mas... tá... confesso que em toda a minha árdua carreira de estudante, conheci apenas duas que eram realmente bonitas, que tinham uma estrela, um brilho, algo que me puxava, que me encantava, e eu fazia qualquer coisa na escola por elas: minhas professoras Anne, de Artes Plásticas, e Maryon, de Ciências Naturais.

Tirando elas?

Tudo bagulho!

Então... conclusão lógica: aquela moça deslumbrante lá na frente, que encantava apenas com um singelo olhar, certamente não era uma professora!

Porque ela era... de uma beleza extraordinária! De você ficar parada mesmo, admirando, como se teus olhos implorassem por mais, sabe?

Fiquei assim não sei por quanto tempo... até que percebi um pensamento na minha cabeça:

"Selene... a concorrência vai ser complicada!"

Tirei meus olhos dela na hora!

Lógico!

Então comecei a observar toda aquela cena...

Que cena, que contraste incrível: no meio daquela feiúra toda, naquele oceano de Orcs©, lá estava aquela moça, irradiando uma Beleza e se expressando com uma elegância que eu jamais seria capaz de imaginar que existisse...

Havia um brilho completamente... encantador nela... como se fosse uma estrela radiante...

Eu poderia até mesmo jurar que ela estava contendo sua estrela, porque se ela a soltasse com toda a sua capacidade... talvez pudesse nos ofuscar!

Olha, na boa...

Eu vou ser mega honesta agora: eu nem mesmo vou tentar descrever aqui no meu face a beleza daquela garota, de jeito nenhum! E não o farei por dois motivos:

Primeiro motivo: nenhum tipo de palavra que eu conheço consegue traduzir direito aquilo que eu estava vendo... e olha que eu tenho muitas palavras no meu repertório: ele é bem rico e bem esperto!

Sim, isso eu posso garantir pra você: tem certas coisas em que eu sou uma completa bestona, mais tapada... que uma toupeira desmamada! Mas... tem outras coisas, como por exemplo, letras e palavras... em que eu sou é uma garota corvo faminta: o terror do milharal! Quando eu levanto meu voo... o milharal inteiro só não sai correndo porque tem raiz!

Porque letras e palavras compõem cápsulas de suporte de vida para o significado. Mas o que você pode fazer com as letras e palavras quando o significado é tão grande, tão profundo, que não consegue mais caber dentro da cápsula de suporte de vida e a rompe?

Aquela moça emanava algo... que rompeu as minhas palavras!

Assim sendo... eu não vou descrevê-la porque... simplesmente não dá pra descrever aquilo que eu tava sentindo dela através de meus olhos!

Segundo motivo, e o mais importante: eu não vou ficar aqui fazendo propaganda de graça pra concorrência! Não mesmo! E, nesse caso, nem mesmo muito bem paga: já pensou se o meu candidato a namorado ver aquela garota?

Ai! Se isso acontecer eu tô ferrada! Melhor o Álex nem saber que ela existe! Nunquinha!

Fui mega honesta, oras! Mentir é uma delícia, eu sei – ou melhor dizendo, já que uma garota nunca mente: apenas edita alguns fatos! – mas a arte da edição também tem limite, pô! Ainda mais quando se tem candidato a namorado na jogada...

Por isso sei lá por quanto tempo eu fiquei pensando no Álex e de como fazer pra que ele nunca conhecesse aquela garota perfeita... e fiquei naquela...

E fiquei... e fiquei...

E ainda fiquei...

Até que minha mente começou a se cansar daquilo... e só quando ela ficou bem cansadinha é que comecei a prestar alguma atenção no que aquela moça tava dizendo...

Pois é!

Ela falava mesmo como uma professora. Mas não tinha aquela "inhaca" de professora, sabe?!

Você quer saber o que é uma "inhaca" de professora?

Ah, convenhamos! Todo mundo já foi aluno e aluna e sabe como é, já sentiu como é: eu não vou ficar aqui definindo pra você tudo o que eu digo, não! Confie aí também nos seus instintos!

E aquilo era inacreditável... uma professora exuberante... sem inhaca de professora...

Será que era só por isso que ela era exuberante: porque não tinha inhaca?

Mas por que ela não tinha inhaca?

Vai saber!

Até que esqueci o papo da inhaca... e finalmente comecei a prestar atenção de verdade no que a professora estava dizendo:

"É uma história longa mas... por várias razões, eu acabei descobrindo que eu possuía a qualidade de trabalhar com as forças de transformação, com as forças da regeneração.

Isso me encantava, por ser um dom natural do meu Espírito.

E, encantada, me aprofundei e me especializei.

Com o tempo percebi que a utilidade do meu trabalho era muito grande para todos aqueles que retornam da Terra e que tiveram a sua forma perispiritual avariada pela vida material.

Uma vez que a velhice e os efeitos das experiências afetivas e psíquicas causavam marcas profundas no corpo astral, muitas pessoas tinham dificuldades imensas em colocar para funcionar os seus próprios elementos restauradores. Assim também os espíritos que permaneciam na deformidade por muitos anos, nas regiões de Trevas.

E foi assim que o meu trabalho de regeneração foi ganhando bastante avanço nas suas técnicas, e as minhas pesquisas avançaram nas causas e no Dom da Beleza e da Saúde: o Dom extraordinário que todos nós temos de regeneração."

Hummm...

Forças de regeneração?

Beleza e Saúde?

Forças de transformação?

Dom?

Até que é um assunto legal... principalmente porque eu me sinta meio envelhecida precocemente...

Hei! Eu não disse "tão velha assim", viu?!

Mas... realmente, ter menos vigor que Hélène era algo que me incomodava!

Só que... apesar de ser um assunto legal, tem dois probleminhas na colocação dessa moça...

Primeiro: eu não desencarnei... ao menos, não que eu saiba!

E segundo: eu não sou uma demônio fugitiva duma furna do Umbral... mas garanto que o Shrek© aqui do meu lado é!

Então...

Como consequência lógica:

Presto atenção na aula dela... ou pego meu caderninho e começo a desenhar?!

Não sei...

Hummm...

Tá bom... vou até dar pra ela mais uns minutos de crédito... afinal, desde o momento em que Hélène havia me convidado pra uma aula, eu realmente tinha colocado minha caderneta de desenho e minha caneta nankin ponta 0.3 dentro do bolso interno do meu sobretudo. Assim, foi só me projetar e elas já estavam comigo!

Pois é: viajante astral prevenida é isso aí!

E ainda prestei mais alguma atenção no que a moça tava dizendo, antes de pegar de vez meu material artístico anti-tédio:

"Para que nós entendamos a transformação e a regeneração e possamos fazer algumas experiências juntos, nós temos primeiramente que compreender a palavra 'deformação'.

A palavra 'deformar' significa que alguma coisa aconteceu na forma original. Significa que existe algo que é padrão e há algo que saiu deste padrão."

Ai, que saco... definições?

A essa hora de uma noite de sexta? E numa Viagem Astral?

Definições?!

Tenha dó!

Meus dedinhos já começaram a coçar, querendo tanto passear em direção ao meu bolso... desejando acariciar aquele meu material de desenho...

Mas eu fui valente! Resisti ainda por mais alguns minutos:

"A deformação é um estado temporário que nós todos enfrentamos.

O que nós temos que compreender é que a forma, como ela se apresenta para vocês, possui implícito nela a sua própria funcionalidade.

Dessa maneira, a forma faz funcionar as diferentes texturas e arranjos de células tanto em nosso organismo físico quanto no perispiritual e está relacionada com a função daquela célula. Assim, tanto a função determina a forma quanto a forma determina a função.

A deformação também é vista como 'as doenças'. Assim sendo, quando a forma se altera, altera-se também a função e esta alteração vocês chamarão de 'doença' ou 'disfunção'.

Portanto, se nós estamos falando na condição de disfunção e de deformação, nós estamos falando também de 'forma': há uma 'forma padrão' ou 'forma original'. E onde ela está? Dentro de nós.

Dentro de nós está registrado um sistema que mantém a evolução da nossa forma no Projeto Divino, um projeto aonde a funcionalidade se impõe diante de cada individualidade."

Aham... aham! Que interessante!

Selene modo educada: on...

Mas ainda valente, segurando firme aquela fúria dos meus dedinhos, quase lá no bolso:

"Observem que ao longo de sua vida vocês trocam as células com frequência, no entanto seu coração permanece coração e seu estômago permanece estômago apesar de tudo estar em transformação.

É este poder em nós que mantém a transformação em certo padrão. E este padrão é considerado o padrão primordial, o padrão original. Um padrão original que é determinado pelo grau de evolução do espírito.

Por isso, depois de desencarnar velho e passar por uma série de transformações, fora da matéria nos é mais fácil manipular os elementos primordiais e recuperar a juventude e a funcionalidade ideal. Porém esta funcionalidade ideal também pode ser recuperada no corpo material."

Hei!

Aquela última frase, dita com certa ênfase pela moça, realmente chamou a minha atenção!

E... sei lá... mas tive a impressão, quando ela disse aquela última frase, de que seus olhos, por uma fração de segundo, estavam como que fitando discreta mas diretamente bem no fundo dos meus!

Ah, não, capaz! Não pode ser!

Isso foi só impressão... só uma bobagem minha...

Lógico!

Era absolutamente impossível ela notar que eu sequer existia no meio daquele salão enorme lotado, quanto mais me flagrar no exato momento em que eu tava pegando discretamente o meu bloquinho de desenho!

Isso era impossível!

Ou será que não...?

Sei lá!

Mas só sei que esse papo de recuperar a juventude e a funcionalidade ideal estando encarnada... caramba, era exatamente isso que eu tava precisando no meu trabalho cotidiano com Hélène!

Afinal... putz... pegava mega mal eu, com meus 19 anos, não conseguir acompanhar o ritmo de uma velhinha que... sei lá... devia ter a idade do Dr. Chapatim©?!

Ai caramba, como isso pegava mal pra minha reputação! Eu precisava acompanhar aquela velhinha, de qualquer jeito!

Por isso... vou prestar agora bastante atenção no que a moça aí tem pra dizer!

Dedinhos desejosos por desenhar: vocês perderam! Eu venci! E agora fiquem quietinhos!

"Observe que muitas pessoas melhoram com a própria idade, tornado-se mais belas e funcionais, mais interessantes e vitalizadas com a idade.

Portanto, a funcionalidade não está determinada pelo tempo de vida dentro da matéria mas sim pela capacidade de cada pessoa viver padrões que nutrem a fonte primordial da forma e da funcionalidade do Espírito. Esta fonte, este senso, está situado na Alma.

A Alma é um conjunto de sensos e por isso iremos utilizar muito os nossos poderes de Alma.

O senso da Alma é que se expressa em todo o corpo, por isso as pessoas que têm a Alma muito presente, muito manifesta, possuem longevidade, aparência jovial apesar dos anos e possui uma funcionalidade exemplar em todos os campos: no corpo emocional, no corpo físico, no corpo mental... sempre lúcido, sempre inteligente.

A Alma, quando está processando as suas energias, sempre emite para nós o Modelo Original.

Este Modelo Original domina a forma e esta, então, acaba se tornando como deve ser: uma forma funcional, saudável e, portanto, sempre bonita.

Por isso dizemos que a Beleza mora na nossa Alma: porque o senso de estética está na Alma.

O senso de Beleza está na Alma.

O senso de justiça está na Alma.

O senso de adequado, o bom-senso, está na Alma.

O senso de humanidade está na Alma.

É dentro da Alma que existe o poder primordial: a base e o significado.

O poder primordial da Alma é o que dá significado às coisas. Ao se dizer "isto aqui me toca" ou "isto é muito importante para mim" significa dizer que o primordial foi tocado.

Nós temos na Alma a alegria.

Temos na Alma a bondade.

Temos na Alma o bom humor. O bom humor inteligente.

Quanto mais você exerce o bom humor, mais bonita você fica.

O bom humor rejuvenesce.

A risada cura.

O bom humor e o carinho podem transformar uma pessoa doente numa pessoa saudável.

Observe que uma pessoa de muita Alma geralmente não se ofende. A pessoa, perturbada no seu contato com a Alma, envolvida na mente por ideias mais primitivas, logo sente aquele momento como ofensivo e toda essa força penetra e a mente alimenta.

Enquanto você alimenta isso, você perde o contato da força primal. A força primordial não consegue estabelecer com sua estrutura um nível de contato suficiente para que ele mantenha a Beleza e a funcionalidade. Assim, estas experiências deformam."

Hummm... já saquei...

É só eu nunca mais me ofender, e fico jovem de novo!

Isso é fácil!

Hummm... será?

Bem... talvez não seja TÃO fácil assim...

Mas pra se sentir mais jovem e bonita... e, principalmente, não passar mais essa mega vergonha de ter menos vigor do que Hélène, vale a pena tentar, né?!

E, enquanto eu fazia os meus votos inquebráveis de jamais me ofender de novo, a professora continuava sua aula:

"Eu sei que vocês estão habituados com uma vida mental bastante intensa.

Mas a vida mental nada atrapalha quando você está funcionando com a Alma.

O difícil é quando nós nos envolvemos em certos caminhos que nos fazem nos desligar do que somos."

Minha vida mental é intensa?

Não... capaz!

É só impressão sua...

O fato de eu querer por vezes matar a minha cabeça, desejando ter nascido com um tecla mute cerebral, significa que minha vida mental é serena como a superfície de um lago em noite de luar...

Sim: uma noite de lua cheia, com um monte de lobisomens nadando, uivando e fazendo arruaça nesse lago!

Ai, que horror!

E, por incrível que pareça, aquela moça pareceu que tinha uma pistola com balas de prata... pois ela disse algo que me deu esperança pra acabar com aquela farra de lobisomens no meu laguinho mental:

"Nas minhas aulas nós estudamos e exercitamos, de início, a Alma.

Você é capaz de sentir sua Alma com facilidade?

É peito, não é cabeça!

Com a Alma tem que ter muito peito. É como se o coração estivesse na cabeça.

A Alma é atrás do coração, não é bem o coração. O ponto é a glândula timo.

Então respire fundo e abra a Alma.

Saiba que ela é o veículo e o depositário dessas forças de regeneração. Precisamos ativá-las, precisamos encontrar nossos pontos de equilíbrio que nos harmonizem, que nos embelezem, que nos façam ficar sempre jovens, sempre funcionais.

A maior competidora da Alma, obviamente, é a cabeça.

A cabeça quer mandar, enquanto a Alma não quer mandar mas sim orientar:

'É pra cá!': você sente aconchego no peito.

'Não, não, não, não': você sente ela se recolher e se esconder no peito.

Pois quem manda sempre é você. No entanto é a Alma quem orienta o seu mando.

A cabeça é apenas um aparelho de memória e gravação. Tudo o que a cabeça faz foi absorver aquilo que os outros fizeram ou ensinaram.

No entanto você sabe que você não é a cabeça, você não é a mente. Você é o Espírito Lúcido que usa a mente, não é isso?

Perceba o seu uso da Mente:

Quero pensar: ela pensa.

Quero lembrar: ela lembra.

Quero imaginar: ela imagina.

Você é a Presença.

E se sua atenção agora vai para a Alma, imediatamente a Alma responde.

Mas a cabeça impõe certos comandos e você precisa descomandar a cabeça."

A cabeça...

A maior competidora da Alma...

Quando ouvi isso, acabei me perdendo um pouco em algumas memórias...

Realmente... muitas e muitas vezes senti minha cabeça competindo com minha Alma...

Como naquela vez em que fui à casa de Hélène pela primeira vez, no dia em que a conheci e, montada em minha moto, voltei do Sul ao Norte de Happy Harbor, aonde morava na época...

Naquela viagem de duas horas, ainda imersa naquela impressão incrível que tive ao conhecer Hélène, senti um imenso vazio mental durante todo o percurso, num estado interior profundamente silencioso, que me nutria de indescritível paz...

Pois é...

E assim, me perdendo naquelas memórias, tentando entender o que a moça quis dizer... também me perdi no meio da aula dela!

Putz!

Quando voltei a lhe prestar atenção, ela já falava sobre um tal "ponto de equilíbrio", uma moderação interior ou coisa parecida... moderação e atenção ao nosso ponto de equilíbrio particular: no comer, no falar, no sentir... nem falta, nem exagero... nem escassez, nem excesso...

Mas não dei muita atenção pra esse assunto...

Até que ela disse isso:

"Então, até o prazer, sem o ponto de equilíbrio, deforma."

Ai! Essa doeu!

Prazer sem ponto de equilíbrio deforma?!

Essa não!

Quer dizer que, se eu curto demais uma certa coisinha... então, se eu exagerar nessa certa coisinha eu posso... eu posso virar...

Foi quando resolvi espiar discretamente para aquele lado, de cantinho... lá estava o Shrek©...

Que horror!

Eu nunca tinha me dado conta de que se eu me exagerasse no prazer de uma certa coisinha que eu curto muito... eu podia virar uma ogra Fiona©!

Argh!

Eu devia ter prestado mais atenção na parte da aula em que ela falou do ponto de equilíbrio!

Mas... será que...

Será que alguém aqui tem smartphone e tá filmando a aula?

Se filmassem e colocassem na web eu poderia fazer download! Lógico!

Hummm... putz... espiei o salão todinho... ninguém tá filmando...

Damned!

E, enquanto eu me queixava daquele atraso tecnológico da plateia, aquela moça começou a fazer um exercício com o público...

Fiquei toda atenta agora! Um exercício prático que, se eu perdesse, não ia poder fazer download depois!

Vamos lá, Sê, toda a atenção agora no que a moça tá ensinando:

"Então me tragam a Alma pro rosto e olhem com o rosto cheio de Alma, essa coisa alegre e leve.

Olhem como se ela saísse pelo rosto e irradiasse se projetando.

Ajude com os músculos, descontraindo, mas deixando que a energia que sobe passe pelo rosto...

Vamos lá: puxem novamente, eu quero ver essa energia subir, não só sair do peito, esta alegria que sobe. Sinta o canal da energia que sobe pelo peito, pescoço, maxilar, e entra na cabeça pela nuca, pelas orelhas e vem pro rosto.

Ela não entra de baixo para o rosto, ela passa por trás da nuca e entra no rosto.

Isso é importante, o caminho. Eu quero que ela suba, passa por trás na nuca, orelhas e desça da testa para o rosto como um véu.

Sinta que o efeito é diferente do que se subisse direto pelo pescoço, sem passar por trás, entrando pela nuca.

Perceba que toda a negatividade da mente desapareceu!

E você foi obrigado a tomar uma postura, não foi?

Repare que a Alma já harmonizou toda a sua cabeça, orelhas, olhos e dá uma sensação de profundo bem estar e de encaixe, de leveza.

Essa leveza é um ponto muito bom de equilíbrio. Veja como está tudo encaixadinho. Tão bem encaixadinho que você se sente leve.

'Leve' significa 'encaixe com o primordial'.

Mas você não está se encaixando no si da forma, está se encaixando no si da Alma. Isso é que é leveza.

Toda vez que eu me encaixo nos padrões da minha primordialidade, do meu equilíbrio, das exigências das condições da forma da minha Alma, eu sinto essa leveza.

Então é importante perceber, nos exercícios de Regeneração e de Beleza, que essa sensação se expresse dando a entender a você que você está fazendo certo.

A tendência é também mudar a postura do corpo, não é isso? Ou seja, eu não sou mais inferior, agora eu sou superior. Ou seja, não superior a ninguém, apenas voltei para minha posição natural de Presença espiritual.

Agora veja como do seu rosto e da sua cabeça está saindo alguma coisa. Como se fossem ondas de energia. É como se algo irradiasse, repare!

A nossa Alma é Luz.

Ela ativando o nosso sistema estrutural, seja ele Corpo Astral, Corpo Emocional e, consequentemente, Corpo Físico, dinamiza as estruturas atômicas, o que significa que revitaliza as funções atômicas e esse é o poder regenerador já em ação: a irradiação."

Ai, caramba!

Ao final daquele exercício, parecia que algo em mim tava diferente...

Eu me sentia... mais revigorada!

Mais bonita e mais revigorada!

Sentia até como se tivesse um solzinho gostoso e brilhante dentro de mim!

Uma Estrela do Dia bem no meio do meu peito!

Foi quando Hélène chegou de cantinho ao meu ouvidinho e me sussurrou:

- Eu não lhe disse que o curso era bom?

Olhei pra ela... e ela me parecia um pouco diferente...

Hélène notou que eu tava a "investigando"... tentando ver se o exercício havia funcionado com ela... nisso, ela sorriu sapeca e me disse:

- Vou lhe mostrar uma coisa, bem discretamente para não chamar a atenção... olhe uns instantes para meu rosto...

Fitei-a.

Em alguns segundos todas as suas rugas desapareceram!

Seus cabelos grisalhos ficaram castanhos e ela exalava todo o perfume que o rosto de uma adolescente de 16 anos exalaria!

A velhinha tinha ficado mais jovem que eu!

Putz! Não acredito!

E Hélène era uma garota linda! Com feições praticamente desenhadas por uma pintora ou por uma artista!

E, ainda com aquela minha cara de espantada, ela me disse:

- Essa é a minha aparência sempre que faço projeção astral, há vários anos!

Não aguentei:

- Quer dizer que você já é assim, projetada, há tempos? Então porque eu não a vi assim desde lá no meu quarto?

Ela piscou para mim, voltando à forma daquela velhinha de cabelos prateados que eu sempre conheci:

- Ora, porque você não me reconheceria!

Que coisa...

Mas, se Hélène já dominava o ensinamento daquela professora... o quê será que aconteceu com aquele pessoal da plateia, feio pra mais de metro?

Foi quando olhei de forma muito discreta para o lado de Hélène, bem de cantinho de olho, e fiquei surpreendida:

O Shrek©! Ele tava bem menos feio!

Não parecia mais tão ogro... parecia mais... sei lá como dizer isso... mais... humano?!

E com uma única sessão de exercício daquela moça!

O carinha parecia uma nova versão, mais aprimorada e refinada, daquele que havia entrado no salão... tipo... um Shrek 2.0?!

Só sei que agora ele já não me assustava mais tanto... começou a até me parecer meio simpático...

Que coisa!

Aquela moça ensinou algo que... conseguia transformar um ogro num carinha simpático!

Amazing!

É óbvio que a plateia toda estava se olhando... e olhando uns para os outros...

Exclamações e expressões de admiração pipocaram por todo o salão!

E eu fiquei mais alguns instantes perdida em pensamentos...

Aquilo tudo era incrível demais pra mim!

E fiquei matutando... e matutando...

E o tempo passou...

A moça disse ainda mais algo lá na frente... e eu só percebi que aquela aula havia se encerrado quando um dos carinhas de preto, aquele que parecia o agente Jones©, agradeceu perante todos em voz alta e firme, muito máscula, a presença daquela moça:

- Muito obrigado, Leonora, por mais esta sessão de regeneração!

Ele disse mais alguma coisa... mas eu nem ouvi... me fixei foi no nome daquela garota: Leonora!

Leonora: era esse o nome dela?!

Leonora...

Professora Leonora... será que tem alguma coisa sobre ela no Google©?

E aquele povo feio todo – mas já não tão feio assim... – tava se levantando e, sob orientação dos seguranças de shopping, dos Man in Black©, se dirigiam para fora do salão, sumindo de minha vista em direção a um ambiente que parecia emitir Luz.

Notei que ao se levantar, próximo a mim, o Shrek 2.0 quis dar uns passos em direção à Leonora. Parece que ele queria ir até lá, na frente, e dizer algo para ela!

Eu via que ele estava deslumbrado por ela! Encantado! Parecia até um cachorrinho bobinho abanando o rabinho!

Vi então que ele, subitamente, retesou seu corpo e baixou a cabeça por algum motivo. Como se tivesse um juiz de perucas brancas berrando nos seus ouvidos: "Culpado! Culpado! Imundo! Imundo!"

Ele não foi até ela. Baixou mais a cabeça, como se estivesse sentindo muita vergonha de algo, e apenas se dirigiu à porta, como todos os outros.

O que será que deu nele, heim!?

De cachorrinho todo faceiro, abanando o rabinho, se transformou num... maracujá murcho!

Ah, comigo não!

Esse papo de maracujá murcho não é comigo: detesto fazer feira!

Eu não senti medo não: porque jurei que ela jamais iria conhecer o meu candidato a namorado!

Aí sim: agora eu tava corajosa!

Peguei Hélène pelo braço – quase a arrastei comigo! – até onde Leonora estava conversando elegantemente com o agente Jones©.

Eu tava cheia de perguntas! Minha língua parecia uma lagartixa com cãibra se retorcendo de curiosidade na minha boca!

Caramba: essa foi a descrição mais nojenta que eu já fiz da minha própria língua! Por favor, esqueça imediatamente essa frase que eu digitei e postei no parágrafo anterior, please!

Foi quando cheguei até lá, onde ela estava.

E é lógico que eu sou uma garota educada: esperei Leonora terminar de falar com o agente Jones©.

Fiz força pra ouvir a conversa... não que eu estivesse me metendo na vida dos outros... mas é que... sei lá, tava curiosa com tudo aquilo.

Tá, tudo bem, admito: eu queria me meter na vida de Leonora, saber tudo sobre ela naquele momento! Porque... e se não tivesse nada sobre ela no Google©?! Eu não podia arriscar isso!

O raio é que eu não ouvi nada da conversa!

Damned!

Os dois falavam de forma tão baixa e elegante... bem diferente de pobre dentro de ônibus em Happy Harbor, atendendo ao celular quando tá voltando do trabalho depois das 18h: o ônibus inteiro fica sabendo de cada detalhe da vida dele! Procurar no Google© é a maior perda de tempo...

Quando os dois terminaram de conversar, olhei para Leonora e levantei meu dedinho indicador pra cima, tipo guria de 9 anos na aula de Ciências.

Agora, enquanto digito isso aqui no face, me parece que foi um gesto mega ridículo... mas esse era o único jeito que eu conhecia de chamar a atenção duma autoridade, de forma educada, pra dizer que eu tinha uma pergunta, oras! Porque eu é que não iria tentar chamar a atenção de Leonora, uma moça tão elegante, tão educada e tão bonita, do mesmo jeito que eu fazia pra chamar a atenção das autoridades políticas de Happy Harbor nos protestos de rua! Lá, com a máscara do Guy Fawkes, eu geralmente levantava era um outro dedo...

Pois é... suspeito que talvez eu tenha algum probleminha com autoridade... mas é só uma leve suspeita, tá?!

Leonora sorriu ao me ver com o dedinho indicador apontado para cima... olhou para mim, um olhar muito convidativo, quase impossível de descrever.

Eu queria fazer um milhão de perguntas pra ela!

Só que na hora... putz, eu fiquei na dúvida de como me dirigir à ela: como eu faria as perguntas? De que jeito?

Formal ou informal?

Tipo: de tayer ou de moletom?

Como eu faço isso? Puxa, escolher tá tão difícil!

De repente, me veio à mente dezenas e dezenas de vozes das mais variadas pessoas, dizendo como você deve se comportar diante de um espírito superior, diante de um Espírito de Luz.

O estranho é que, senti no meu peito algo diferente... algo que pegou todas aquelas vozes, com tantos conceitos completamente diferentes de como se comportar diante dum Espírito de Luz, e conseguiu enfeixar todos aqueles pensamentos num único bloco. Senti algo no meu peito surgir como se fosse uma voz muito calma e bonita, me dizendo isso:

"Todos esses pensamentos de milhões de vozes querem apenas dizer isso:

'Não vá fazer fiasco, seja vaidosa, mostrando parecer saber o que você não sabe'.

Mas, ao invés de milhões de vozes, não seria mais fácil somente ter uma voz que diz:

'Quando sei, mostro que sei; quando não sei, mostro que não sei'?"

Quando senti isso no meu peito... me veio uma calma!

Foi então que eu olhei para Leonora e disse isso, nem sei como:

- Oi, Leonora! Eu sou a Selene! Mas na boa, tá? Eu vou deixar as coisas bem claras antes da gente começar a se falar, ok?

Ela emanou um olhar... indecifrável pra mim. Sei lá como traduzir ou interpretar aquilo!

Achei que era um convite pra mim continuar falando, então... falei mais, oras!

- A coisa clara é o seguinte... eu não vou aqui ficar fazendo aquela tipinho que é toda espiritual, uma fadinha com luzinhas que nasceu pra salvar a humanidade... e lá por dentro estar é, na real, toda com medo de fazer perguntas ou comentar algo pra não mostrar o que é. Pra mim é mais fácil admitir que, se sou burra num assunto, sou burra nesse assunto. Se sou esperta noutro assunto, sou esperta nesse assunto. Acho que é mais fácil eu falar, mesmo que todos achem que não é coisa de se falar pra alguém da Luz. Eu não vou ficar aqui fazendo de conta que sou evoluída, que sou adulta, ou seja lá o que, tá? Na Terra eu acho que não tem adulto, só tem pirralho, sabe? E em Happy Harbor, de onde eu venho, tá cheio de pirralho que fica se fazendo de muito adulto. Pra mim é mais fácil dizer que eu sou pirralha e pronto, sabe? Tô de saco cheio de ver todo mundo fazendo tipinho, sempre só se fazendo!

Ai, caramba!

Nem acreditei que eu disse aquilo!

E falei toda ra-pi-di-nha, como se fosse uma esquilinha que tomou uma overdose de café com chocolate: parecia uma esquila elétrica!

Nem acredito que eu disse aquilo... mas eu disse!

Leonora? O que ela fez quando ouviu aquilo tudo?

Ela sorriu um sorriso... indecifrável!

Embora eu estivesse entendendo alguma coisa do que ela ensinou na palestra, parece que tudo que Leonora expressava naquele seu rosto perfeito era indecifrável pra mim... Indecifrável, tipo: hieróglifos!

Hieróglifos... que coisa...

Acho que antes desse encontro com Leonora eu realmente deveria ter ido ao shopping pra alugar, naquela loja de trajes à fantasia, uma peruca do Champollion: decifraria qualquer coisa!

Foi aí que ela disse suas primeiras palavras para mim, mas num tom tão sereno que pareceu me tranquilizar, como se sua voz fosse uma espécie de mantra a me acalmar:

- Compreendi perfeitamente o "seu claro" e agora "está tudo bem claro entre nós". O que você gostaria de me perguntar?

Putz, por essa eu não esperava!

Tava era esperando um xingão daqueles... aquela coisa típica de professora mal paga de escola pública noturna de Happy Harbor, sabe?

Jamais esperava algo assim, ainda mais dito daquele jeitinho tão... puxa, nem dá pra descrever!

Fiquei com uma cara de boba!

Nem sei porque eu tava tão armada contra ela!

Será que é porque antes eu não tava enxergando Leonora... mas sim vendo as minhas ex-professoras de ensino fundamental e médio de Happy Harbor?

Sei lá por quanto tempo eu fiquei ali, com aquela cara de bobona... mas tenho certeza que foi ainda com aquela cara que eu perguntei:

- Leonora... sabe... tem um garoto que eu acho mega legal... e... hã... você tem alguma dica boa pra me passar pra... pra... tipo... sei lá... uma dica... só uma diquinha pequenininha... ou... sei lá... quem sabe dar uma mãozinha na minha situação...

Leonora?

Não me disse nada! Apenas sorriu, que coisa!

Sorriu em completo silêncio!

Fiquei, lógico, esperando uma resposta.

Ela?

Ficou me olhando, calada, com uma expressão incrivelmente calma no rosto... mas seu olhar me era completamente indecifrável.

Eu não conseguia traduzir o olhar dela!

Puros hieróglifos! Cuneiforme sumério! Hitita antigo!

Putz, eu devia mesmo ter alugado aquela peruca...

Que coisa!

E assim ela ficou. Me fitando em completo silêncio enquanto eu esperava dela uma resposta!

E ela ficou... naquele silêncio...

Dez segundos...

E ela ficou... naquele silêncio...

Vinte segundos...

E ela ficou... naquele silêncio...

Trinta segundos!

E ela ficou... naquele silêncio...

Quarenta segundos... e eu já tava começando a entrar em pânico!

Pânico! Desespero! Cadê a minha resposta? Por que ela não falava? O que será que eu fiz de errado? Será que foi por causa do meu caderninho de desenho? Mas eu nem desenhei, juro!

Sessenta segundos... e eu já tava quase chorando!

Eu não acredito!

Como é que alguém conseguiu me colocar em pânico, me abalar completamente e quase me pôr a chorar sem dizer uma única palavra?!

Eu não acredito! Eu não acredito! Não acredito mesmo!

Aquele líquido quente, ardendo nos meus olhos, já estava prontinho pra sair queimando as maçãs do meu rosto se eu não sentisse, naquele momento, uma tremidinha no meu braço exatamente aonde Hélène me segurava.

Foi quando eu olhei para o rosto da velhinha.

Ah, aquela expressão era completa e totalmente decifrável para mim: ela tava se segurando pra não rir!

Velhinha safada!

Rindo de mim!

Espera só até eu acordar pra ver o que eu vou fazer na sua cozinha!

Hummm... melhor não... deixa pra lá! Melhor eu ser uma menina boazinha. Porque senão eu mesma vou ter que limpar depois...

E foi nessa hora que senti uma coisa úmida me tocando...

Um tecido úmido...

Meu travesseiro!

Putz... eu chorei no travesseiro!?

Acordei!

Me sentei na cama. E me senti incrivelmente... ridícula!

No coments! Fim desse post!

Finish!

Arfff...