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Melzinho e Afeto
Naquela semana, a secura da minha vida afetiva não parava de atormentar meus pensamentos...
Uma frase de um sábio, que Hélène me contou, ficou me martelando na cabeça...
"Afeto é afeto, não importa a razão. O poder dele sobre nossas condições continua intenso e importante na vida de todos nós, como alimento. Viver sem razão, tudo bem... mas viver sem afeto, não!"
Porém, foi outra frase que me fez me sentir mais seca que o Deserto do Atacama... aquela frase, dita por uma linda mulher...
"A Beleza é exibida. É ruim quando ele nem te nota..."
Ai, Leonora... você jamais devia ter dito isso na semana passada... não fala mais isso, por favor...
Isso destruiu a minha semana inteira!
Quanto mais eu pensava nessa frase... mais seca eu me sentia!
Eu precisava urgente de água, pô! Precisava desesperadamente lubrificar as minhas juntas! Essa vida no Atacama não é vida!
"Nem te nota..."
Leilene...
Ele nota Leilene tão fácil... aquilo chega a me tapar de nojo!
Tô eu lá, sentadinha perto dele... ele no tablet dele, Mademoiselle Life & Soul... eu no meu, Mister Sherlock Holmes...
Pois é... nossos tablets tem personalidade! Estilo!
É então que puxo um papinho com ele...
Ele? Responde assim:
"Aham..."
Nem tira os olhos da tela daquela porcaria de tablet!
Fico a manhã toda puxando assunto com ele.
E o que eu recebo de consideração?
"Aham..."
Arfff...
Até que Leilene chega.
Perto das 11 horas... afinal, ela nunca acorda antes das 10 da madrugada...
Ela passa por trás dele... balançando aquele imenso cabelão loiro macio... não puxa assunto nenhum com ele... apenas vai passando por detrás dele, sem sequer parar... e somente diz isso, com aquela voz rouquinha dela:
- Oi, Álex...
Ele tira os olhos da tela do tablet na hora, vira a cadeira giratória pra ela, a olha fixamente no rosto:
- E aí, Leilene! Como foi a noite?
Ela, que tava só passando, volta... fica pertinha dele, senta na cadeira ao lado, deixando as coxas quase encostarem na perna dele... ela suspira... mexe sensualmente no cabelo e diz, quase miando:
- Foi uma delícia...
E ficam lá, os dois, papeando meia hora: bem na minha frente! Argh!
Álex fica de costas pra mim... Leilene de frente... às vezes eu levanto os olhos da tela de Mister Holmes e dou uma espiadinha de soslaio... é sempre nessa hora que Leilene me flagra: ela me fita discretamente, sem que ele sequer perceba, bem nos meus olhos!
Que inferno! Eu odeio aquela loira de propaganda de cerveja!
Só porque ela tem estilinho de modelo de agência, fica se achando!
Argh, que nojo! Nojo! Nojo! Como aquilo me irritava! Me deixava uma fera!
Assim sendo, era tanto nojo que eu sentia naqueles dias que tudo o que fazia tava uma droga...
Meu trabalho com Hélène não rendia, principalmente na cozinha: tudo saía um desastre.
Óbvio...
Afinal, você já imaginou uma fera lidando com ovos pra fazer um omelete? Já imaginou o jeitinho com que ela quebra os ovos?
Desejando que fosse o pescoço de uma certa dupla! Lógico!
Suspeito... mas só suspeito... que Hélène percebeu que havia algo de errado comigo apenas vendo a ternura com que eu espatifava aqueles ovos...
Suspeito disso porque ela falou:
- Sai da cabeça, Sê...
- Hã?!
- Você está toda na sua cabeça e deixou seu corpo vazio de novo, menina!
Fiquei quieta.
Não dei muita bola.
Eu tava irritada demais pra falar! Muito menos pra concordar!
Ah, sim! Agora eu era "a garota do contra"!
Legítima anarco-militante!
Por isso fingi estar prestando alguma atenção na velhinha, mas na real não tava a fim de filosofia. Eu queria era praticar artes marciais com alguns pescoços...
Hélène falou algo sobre Mente, Sombra, Alma... um papo que já havia rolado antes entre nós... mas eu? Nem aí! Mas tava sendo educada:
"Aham...
Sim...
Pois é..."
Sei lá por quanto tempo a velhinha ia ficar falando sozinha. Até que ela saiu com essa:
- E tudo isso que eu falei, e eu não vou me repetir, é o segredo do porquê Leilene chama de longe a atenção de Álex sem fazer esforço algum e você se esforça tanto e não consegue sequer que ele te veja...
ARGHHH!
Não acredito que eu ouvi isso!
Nessa hora, juro, eu estava todinha ali, presente, querendo ouvir tudo de Hélène! Tudo! Qual era o segredo que Leilene usava? Eu preciso saber, preciso!
Foi nessa hora que Hélène simplesmente... silenciou!
A velhinha ficou muda!
Ai, eu não acredito nisso!
Fiquei nas próximas duas horas atenta a cada respiração dela... e a velhinha... nada! Muda, muda, mudinha... apenas parecia, em alguns momentos, sorrir discretamente como se fosse uma Mona Lisa...
E assim foi a manhã inteira...
Meio-dia...
Tarde...
Eu já não aguentava mais! Já tava exausta de ficar prestando atenção nela pra ver se saía alguma coisinha... e nada!
Até que, no meu ápice de exaustão, exatamente na hora do chá das 17 horas, enquanto ela sorvia o seu black tea Twinings of London© e eu aquele chá de cidreira horroroso – pra ver se eu me acalmava, ué! – é que ela se moveu na poltrona ao lado da lareira.
Eu nem tinha mais forças pra levantar os meus olhos pra ela. Bebia quieta aquela cidreira intragável...
E assim, enquanto eu encarava com aquela minha expressividade de uma rainha zumbi o vapor da infusão de cidreira escapulindo da minha xícara, essas palavras ecoaram, serenas e atraentes, daquela poltrona ao lado da lareira:
- Ah, Leilene... ela quase não fica em sua cabeça... os pensamentos não a consomem...
Deixei de ser a rainha zumbi na hora! Voltei ao mundo dos vivos!
Lógico! Uma rainha zumbi iria perder tudo o que Hélène dissesse, pois estaria apenas pensando em jantar alguns cérebros...
Não! Eu não podia ser uma zumbi agora, não mesmo! Senão todo o meu dia de tocaia esperando Hélène falar teria sido em vão!
Ela prosseguiu. Eu, mega atenta:
- Leilene está quase sempre em seu corpo... embora, por vezes, nem sempre muito lúcida... daí algumas encrencas em que ela eventualmente se mete...
Ah, aí eu não aguentei:
- Como daquela vez em que ela namorou aqueles três carinhas ao mesmo tempo?
Eu fui tão direta e espontânea que Hélène riu!
- Pois é, Sê... Como era mesmo o nome deles?
Ela matutou um pouco e logo respondeu sua própria pergunta:
- Richard, Harold e Anton!
Eu?
Nem pensei! Soltei isso direto, como uma tijolada em vidraça de agência bancária que resolveu fazer greve justo no meu dia de pagamento:
- O leão, o veado e o burro...
- Como assim?
- Ah, Hélène, não se lembra? Richard, o leão na cama dela. Harold, o veado que cuidava do cabelo dela. E Anton, aquele burro que pagava todas as contas dela!
Eu disse isso com tanta raiva, completamente sem máscaras, tão honesta e tão espontânea, que o inesperado aconteceu...
Hélène começou a gargalhar!
Claro que o gargalhar dela não era como o meu, esta coisa meio maloqueira... confesso que gargalhar não é uma arte que eu domine muito bem. Minha arte é efetivamente a elegância de um belo e sorridente olhar sarcástico...
Mas Hélène? Aquela verdadeira dama gargalhava de um jeitinho que deveria ser igual a... sei lá... tipo... a Rainha Elizabeth II vendo um filme do Peter Selers?!
Até eu comecei a rir!
Ai, ai, agora sim o clima tinha ficado descontraído!
Foi então que a sabedoria de Hélène continuou a ecoar junto à lareira.
Eu não me lembro de muita coisa pra postar aqui no face...
Mas foi mais ou menos isso...
Ela disse que Leilene não tinha medo da vida. Que ela acreditava que viver é seguro.
Sendo seguro, ela sentia-se sempre protegida em si mesma para transbordar afeto. E sentindo-se segura, ela não sentia necessidade nenhuma de agradar qualquer carinha que fosse. Pra ela, bastava agradar a si mesma.
Assim, aquela loira enjoada acabava emanando uma personalidade forte que brilhava perante os olhos dos meninos. Ao mesmo tempo, aquele afeto que transbordava dela, aquele jeitinho de gatinha ronronando, atraía os garotos como abelhas no mel...
Enquanto Hélène me dizia isso, eu me comparava mentalmente com a minha rival...
Eu era uma mega medrosa!
Viver, pra mim, era um eterno esperar pela próxima pancada!
Tanto era assim que eu usava meu sobretudo negro de couro, fosse inverno, fosse verão, como uma armadura psicológica...
Com o tempo, eu nem esperava mais as pancadas: eu já saía batendo, com a minha língua afiada e o meu sorriso sarcástico.
Lógico! Muito melhor bater do que ficar naquela angústia de esperar uma surra, não é?
Viver, pra mim, era muito, muito, mas muito perigoso!
Foi então que comecei a fugir do meu corpo...
Busquei refúgio onde?
Nos meus pensamentos!
Abandonei meu corpo às traças e fui morar de mala e cuia na minha cabeça...
Só que o afeto e o melzinho estão no corpo... não estão na cabeça!
É no corpinho onde arde o afeto que te faz sentir-se gostosa e onde emana o melzinho perfumado que atrai os meninos...
É no corpo que está o afeto que te deixa molhada de vida, que te dá sabor e perfume de existir. Gosto de viver. No corpo que se sente protegido. No corpo da menina que acredita que viver é seguro, é protegido.
Por isso eu tava tão... seca!
Eu acabei me treinando a fugir, a desconfiar, a jamais enfrentar...
Me treinei a me sentir desamparada: nunca me treinei a me sentir segura!
Até os onze anos – quando Salet dizia que eu desgracei a vida dela quando nasci, que roubei a juventude dela e tal – e vinha queimar a pele dos meus braços e pernas com seu cigarro ou me espancar, eu nunca reagi. Nunca a denunciei. Nunca lhe dei uma bofetada.
Fugia pra dentro de minha mente...
Na escola, quando os bullers me caçavam, quando me faziam de saco de pancada no recreio ou na educação física, perante a indiferença de professores e direção, eu nunca fiz o que hoje eu faria: pegar uma barra de ferro e bater nos bullers até ficar ofegante!
Não! A otária aqui se encolhia e deixava que batessem! Eram livres pra agir como se fossem uma extensão do braço com o cigarro de Salet...
Salet...
E quando a Sauron©, a Darth Veider© da Estrela da Morte© na Terra Média© resolveu se livrar de mim quando eu tinha 11 anos, me jogando no hospital Saint Peter, eu fiz o quê?
Continuei fugindo pra dentro de minha cabeça...
Sua burra! Burra! Burra!
Nem mesmo todo o tipo de maus-tratos que eu recebi dos "jalecos brancos", como se fosse uma ratinha de biblioteca sendo lentamente devorada por um imensa serpente – maus-tratos que me rendem até hoje aqueles pesadelos que me fazem acordar ensopada de suor nas madrugadas frias – nem eles serviram pra me fazer reagir, berrar, enfrentar, mostrar que eu tinha voz e que tava viva!
Não! Não mostrei que eu tava viva!
Continuava sendo aquela zumbi... aquela morta-viva cretina e estúpida!
Desde que nasci eu simplesmente me rebaixava a qualquer um que fosse uma figura de autoridade... mãe, crianças maiores, professores, enfermeiros, médicos... eles eram a autoridade.
E eu? Era a nada, a coisa nenhuma perante mim mesma!
Assim, se a autoridade vinha me surrar... era porque realmente algo de muito ruim eu devia ter feito... lógico!
Eu, bater em alguém?
Eu, denunciar alguém?
Que mega injustiça! Eu era uma boa menina! Jamais bateria ou prejudicaria alguém!
Se eu batesse em alguém... ou demandasse... ou denunciasse... ou reivindicasse algo... "O que Jesus iria pensar?", dizia-me Salet!
Mas alguém com autoridade vir me bater? Nada mais justo...
Afinal:
"Se alguém te esbofeteia, dai a outra face"...
"Se alguém vem te arrancar a capa, dai também a túnica"...
Que Inferno!
Que maldito Inferno travestido de Céu!
Eu realmente odeio hipocrisia! Tenho todos os motivos pra isso!
Como eu pude ser uma criança tão... tão... tão... mas tão...
Argh!
Sem palavras! Nenhum adjetivo que conheço serve aqui!
Foi então que...
Que imaginei como seria Leilene quando era criança...
Senti uma imensa inveja dela! Imensa!
Sim, eu sou invejosa mesmo! E daí?! Pelo menos não sou daquelas hipócritas que sentem mas escondem, fazendo-se de uma "santinha" ou de uma "fadinha da Luz"...
Senti inveja sim... e também senti mais do que isso...
Imensa admiração...
Confesso, pô: eu admiro aquela loira caramelada enjoada!
Sim, a admiro...
Porque eu soube de algumas coisas escabrosas da infância dela, antes dela ser adotada por Hélène...
A garota também comeu o pão que o diabo amassou... chegou até a viver um tempo na rua... isso, pelo menos, eu nunca passei... aquela guria passou o inferno na rua...
Admirei ela... justamente porque ela não fez como eu!
Ela não fugiu.
Não perdeu a fé em si mesma... como eu perdi.
Não ficou com raiva da Vida... como eu, que me enfureci.
Sim, eu enfiei meu dedo no nariz da Vida e gritei:
- Sua puta desgraçada! Você não é segura!
Leilene?
Ela deu um selinho nos lábios da Vida e ronronou pra Ela:
- Sua safadinha... você é segura!
Senti tanta inveja e tanta admiração por Leilene!
Sua loira terrível: eu te admiro!
Pois é... minha relação com Leilene é bem estranha... Tão estranha que, por vezes, lá no fundo, eu me pergunto:
Será que eu realmente detesto essa garota? Será que eu realmente não gosto nada dela? Ou será que realmente ela poderia ter sido aquela irmã mais velha que eu sempre desejei? Não sei...
E foi nesse estado em que, na minha Viagem Astral à noite, assisti à outra aula de Leonora...
Mas, o que Leonora falava... lá vinha Leilene na minha cabeça...
"Vestir a elegância" ensinou a belíssima professora...
Então imaginava Leilene... ela devia vestir a elegância tão facilmente porque... devia se sentir segura...
Leonora ensinava a elegância como presença de Espírito... como uma postura muito sintonizada com a lucidez da sua própria Alma.
Sim! Eu tentei prestar atenção, juro que tentei!
Mas... quando me dava conta... lá tava a minha cabeça em Leilene... em Álex... e na secura da minha vida afetiva...
Sorte que eu tinha um mínimo de controle, senão eu acabaria saindo em segundos lá da aula, sem intenção racional, me transportando à velocidade do pensamento para fazer companhia astral indevida pra um certo garoto...
Sorte mesmo é que Hélène sempre dava um jeitinho de me manter na linha... sentadinha, ali do meu lado, ela me impedia de fazer bobagem!
Até que a aula acabou...
Todos começaram a se levantar de suas cadeiras no salão...
E eu tava tão desatenta que me perdi de Hélène por uns instantes.
Quando vi, lá estava a velhinha, lá na frente, batendo papo com Leonora!
Putz!
Eu me aproximei, bem ressabiada... e fiquei quietinha. Lógico!
Não queria que Leonora me deixasse mais perturbada do que eu já estava, apenas ficando em silêncio por 60 segundos se eu perguntasse alguma coisa!
Ah, pois é! Macaca velha não mete a mão em cumbuca!
Enquanto isso, Hélène e ela dá-lhe a papear... um papo mega espiritual.
Eu? Nem tava aí...
Foi quando Hélène se despediu dela.
Beleza! Finalmente íamos embora!
Nisso, Leonora me perguntou:
- Aprendeu a "vestir a elegante" em você na aula de hoje, Selene?
Putz! Eu não esperava por isso!
Não esperava que ela me perguntasse alguma coisa!
Respondi, mas no puro instinto!
- Pode crer, Leonora! Agora que aprendi as noções básicas da elegância, nunca mais vou ser deselegante de novo! Quero uma vida nova agora!
Ela? Assim me respondeu:
- Que bom! Tenha então uma boa semana de treinamento, vestindo-se assim. Até o nosso próximo encontro. Ah... e mande um abraço para Álex.
Heim!?
Mandar um abraço... para... o Álex?
Como é que ela sabia o nome dele? Se eu nunca contei?! Eu jamais contei o nome dele!
O nome do MEU Álex?!
Ele conhece ela! Só pode!
Aquele cachorro!
Garanto que ao vê-la, ficou igual a um terra-nova pulguento balançando o rabinho!
Homem não presta mesmo: é tudo igual! Tudo cachorro! Que inferno!
Confesso: perdi parte do meu chão nessa hora... minha elegância, que aprendi com Leonora ao longo daquela aula inteira, foi toda pras cucuias...
Olha... não tenho a menor ideia de que cara eu tava fazendo naquela momento... nem sei de que cor eu fiquei...
Tudo sumiu das minhas vistas!
Só sei dizer uma única coisa sobre aquele instante: que uma frase tava gritando dentro da minha cabeça.
Esta:
"Abraço uma ova: eu vou é MATAR ele! Ele que me espere quando eu acordar!"
E eu acordei!
E você quer saber o que aconteceu depois que eu acordei?
Sorry, agora não dá pra contar! Eu tô mega irritada demais pra falar!
Vou ter que deixar pro próximo post! Porque o que eu falar agora, eu não respondo mais por mim!
Tô em crise!
Ai que ódio!
