Viagens de Selene... Um conto espiritual Pop e Nerd em 7 postagens
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Crise, cabelo e perucas
Nada como um hambúrguer bem venenoso com fatias de queijo cheddar, maionese, queijo ralado, fritas e um monte de catchup pra gente se sentir mais calma... e depois: um mortífero pudim com calda de morango!
Nham, nham!
Ah, pois é! Sabe a dieta saudável que Hélène me ensinou? Foi suspensa pela prefeitura até que a cidade saísse do estado de calamidade pública!
Hei, não me julgue!
Crise é crise, ué!?
Mas tive até uns momentos de catarse quando tava entupindo o pão do meu hambúrguer com catchup... ah, aquela substância bem vermelha... líquida e rubra... e me deu uma sensação indescritível ao pegar a faca, com aquela lâmina tão afiada e brilhante, porque quando eu cortei o pão... brotou do pão retalhado aquela substância deliciosamente vermelha... carmim... escarlate...
Ah, fui tomada pelo êxtase celestial de uma onda de prazer sádico!
O Deus do Velho Testamento teria verdadeiro orgulho de mim agora: Selene, a Ira de Deus contra os inimigos de Judá e Israel! Glória ao Senhor! Aleluia!
Pois é... nunca fui tão agradecida a um hambúrguer... afinal, ele me ajudou, perante o Greenpeace©, a manter a minha ficha de crimes ambientais limpa...
Já pensou?
"Acusação: caça predatória até a extinção total dos Álex"...
Pois é... dessa vez eu me livrei da cadeia... ufff!
Mas isso também não significa que eu virei uma mocinha boazinha...
Capaz!
Porque naquela semana todinha eu não quis falar com Álex.
Nem uma única palavra. E não falei! Só algum grunhido... mas, até onde sei, grunhidos ainda não foram promovidos à categoria de "fala"...
Ah, eu tava uma fera!
Qualquer assunto que ele vinha puxar conversa, eu respondia com aquela eloquência de deputada populista de Happy Harbor, em fim de carreira, quando intimada pra depor em CPI:
"Não sei informar."
"Aham."
"Desconheço."
Ele fazia umas caras... franzia a testa. Talvez tivesse pensando do porquê de eu tá tão irritada...
Ah, como eu tava doidinha pra brigar com ele... mas não podia!
Ai, que ódio! Queria tanto brigar mas não podia!
Lógico: ia pegar mega mal eu ter uma briga de ciúmes com um carinha que nem é meu namorado só por causa duma garota num sonho!
Convenhamos: até mesmo eu tenho algum bom senso e noção de ridículo de vez em quando...
Mas que eu queria brigar com ele... ah, isso eu queria!
Nossa... aquela foi a semana em que eu realmente me superei! Até eu não tava mais aguentando a mim mesma!
Que horror!
Transformei a minha própria semana no inferno sobre a Terra! Tudo com as minhas próprias mãos!
Ah, não! Tava demais! Minha cabeça tava demais!
CALA ESSA BOCA, CABEÇA!
Cheguei a ir pra pia do banheiro mais de uma vez... enchia-a de água fria até quase derramar e enfiava lá dentro a minha cara toda... tudo pra ver se esfriava a minha cabeça! Ela tava me incomodando demais!
Que tormento!
Eu já tava ficando desesperada!
Acho que, naquela pia, até ficavam meus cabelos negros boiando sobre a superfície da água, soltando uma fumacinha de brasa quente na água fria, fazendo aquele barulhinho:
Sssssss...
Até que Hélène uma hora acabou me surpreendendo na pia!
Vinda por trás, sem eu sequer perceber, me perguntou:
- O que houve menina? Seu chuveiro estragou e está lavando a cabeça na pia?
Tomei um susto! Quase gritei!
- Não, tudo bem com o chuveiro! – disse de supetão, retirando minha cabeça toda ensopada da pia.
Escorria água por todo lado...
- Então?!
- Er... er... é exercício respiratório! Sim, é isso! Isso! Exercício respiratório! Treinamento pra equipe de natação da universidade!
Caramba... que fiasco... sorte a minha que eu sei editar fatos ra-pi-di-nha, senão... o fiasco seria ainda maior!
Olha, depois daquela semana... eu devia até colocar um rótulo na minha testa.
Tipo... um aviso de utilidade pública:
"Crise de ciúmes. O Ministério da Saúde adverte: isso realmente faz muito mal à sua saúde."
Que vergonha!
E foi assim que, naquela semana, fiquei no meu quarto a maior quantidade de tempo possível nas horas de folga...
Precisava ficar calma, de qualquer jeito!
E lá, tentei de tudo pra aquietar a minha cabeça... mas nada funcionava! Nada!
Meditação com CD... e nada!
Visualização Criativa... e nada!
Reza pra Exu e Pombagira, tocando meu atabaque: sim, como eu enchi o saco do Seu Exu da Encruzilhada e da Dona Rosa naquela semana... e nada!
Pontos de Exu à Oxalá... e nada!
Incenso... e nada!
Recitação de Mantras... e nada!
Play game: Resident Evil 13© até exterminar 100% dos zumbis... e nada!
Exercícios respiratórios... e nada!
Movimentos simples de Tai Chi Chuan... e nada!
E, cá entre nós, falando discretamente, porque discrição pra uma garota é tudo... mas também deixando de lado toda essa hipocrisia nojenta de negação e jogando no lixo todo esse moralismo barato: tentei até mesmo me acalmar com toques íntimos em mim mesma... aquele carinho e afeto tão bonitos que uma moça se dá, sabe?... E fiz por várias vezes... de vários jeitinhos...
E nada! Nada funcionava!
Nada!
Eu já tava uma pilha de nervos!
Talvez uma garota mega moderna até pensasse, numa hora tão extrema dessas, em conseguir alguma coisa positiva com uma dose de bebida pra relaxar... mas esse não era o meu caso.
Isso porque, há incontáveis eras atrás – lá no meu niver de 16 anos! – descobri que o álcool em mim não funciona como uma reação química tradicional, como acontece nas pessoas normais... em mim, uma pequena dose de álcool funciona como uma reação física de fissão nuclear!
Verdade!
E descobri isso do pior jeito...
Ayaan, minha melhor amiga de infância, me levou até uma mega balada em New Clod, Leste de Happy Harbor, pra comemorarmos meu niver de 16 anos... lá, ela me encheu o saco até que eu experimentasse vinho "porque você tá fazendo 16, agora é maior de idade, tem que curtir bebida de adulto! Chega de Coca-cola©, Sê!"... então tomei cerca de ¾ de cálice de vinho tinto suave... nem foi um cálice completo...
Pra quê?!
Simplesmente, em apenas alguns minutos, eu apaguei... mas se você perguntar pra qualquer garoto ou garota, que frequenta a noite no Leste de Happy Harbor, se já ouviram falar da história sobre "A Motoqueira Fantasma© Morena", eles vão te narrar histórias incríveis, coisas que só uma garota alien de outra galáxia conseguiria fazer na Terra... e o que é pior: foi tudo filmado por um monte de celulares e tá na web até hoje...
Por causa de ¾ de cálice de vinho, eu nunca mais tive coragem de pisar no Leste de Happy Harbor... lá, deixei de ser uma simples garota de carne e osso: me transformei em Lenda Urbana!
Sério!
Que horror!
Porque agora nem vinho, nem doces, nem pudim, nem nada acalmava a porcaria da minha cabeça!
Nada!
Ai, que pilha de nervos que eu tava!
Meus ombros e pescoço chegavam a ficar duros!
Sentia meu queixo como se fosse um bloco de gesso...
Enxaquecas? Tive várias...
Nunca, nunca minha cabeça me incomodou tanto quanto naquela semana!
Que tormento!
Que inferno!
Damned!
Até que, num crepúsculo, enquanto tentava novamente meditar sentada em posição de semilótus na cama... senti que um amigo invisível estava por perto...
Ele estava sentado exatamente na cadeira ao lado da minha cama, aquela onde sempre deixo dependurado meu fiel sobretudo...
Um velho amigo! Muito querido!
Um velho amigo que eu não via... há muitos anos!
Desde meus 11 anos!
Putz, fazia 8 anos, 8 longos anos que eu não o via! Que eternidade de tempo! Quase metade da minha vida!
Pai Joaquim de Angola!
O preto-velho que conhecia Magia como ninguém e que incorporava em minha vó Rachel!
Pai Joaquim, um antigo pai de santo que viveu e morreu no extremo sul de Happy Harbor, no século XIX...
Um homem sábio e meu amigo!
E lá estava ele... sentado naquela cadeira, ao meu ladinho... pitando o seu cachimbo...
Saía, de seu cachimbo, uma fumaça muito clara... brilhante e bonita... e, enquanto eu via aquilo, um trecho de um mantra, um trecho de um ponto que ouvia quando era menina, na terreira de Rachel, surgiu-me em minha mente...
"O cachimbo de Pai Joaquim
tem mironga pra benzer..."
De repente, senti um impulso... não, não um impulso... uma intuição!
O cachimbo de preto-velho de vó Rachel!
Eu o tinha guardado em algum lugar! Mas... onde?
Saltei da minha cama em direção ao meu roupeiro!
Comecei a abrir as portas e fuçar nas gavetas...
Onde? Onde?
Comecei a colocar, literalmente, meu roupeiro abaixo... tudo no chão do meu quarto!
Gaveta das meias... esvaziei... meias no chão... não, não tinha colocado o cachimbo lá...
Gaveta das bijuterias... abri cada uma delas... coloquei as caixinhas no chão... e nada!
De repente senti um cutuco firme nas minhas costas...
A bengala do Pai Joaquim!
E outro trecho daquele antigo mantra de meus tempos de menina me veio à mente:
"A bengala do Pai Joaquim
bate devagar
mas pode doer..."
Olhei pra ele, na hora!
Lógico!
Afinal, eu conhecia bem o temperamento de Pai Joaquim... um cara muito legal e tudo, um mega amigo... mas experimenta faltar com respeito com ele, experimenta irritar o homem pra ver o que te acontece!
Ninguém tira farinha da cara dele, não! Por isso que eu gosto tanto dele!
Afinal, nunca entendi porque tem tanta gente que acha que todo preto-velho TEM QUE ser todo "docinho", todo "meigo", "aquela florzinha, toda mimosinha"...
Tipo: todo preto-velho tem que parecer um velhinho banana, um pamonha, acessível e abusável como um velhinho indefeso que sofreu AVC ou tem Mal de Alzheimer!?
Mas... será que essas pessoas, para as quais "todo preto-velho tem que ser docinho", querem um amigo defunto que realmente as ajude? Um desencarnado amigo que efetivamente as auxilie a saírem de suas ilusões e as estimule a buscar incansavelmente a Verdade?
Ou será que, na real, os defensores dessa ideologia não estão a fim de ter um verdadeiro amigo defunto... mas sim estão a fim é de um defunto serviçal capacho, um lambe-botas do além que as ficasse mimando, passando a mãozinha por cima de seus erros, dando colinho e dizendo "coitadinha"?
Nesse caso... quanto mais banana e pamonha fosse o preto-velho, melhor!
Afinal, sempre é muito mais fácil continuar errando, fazendo um monte de porcarias e depois pedir colinho – e ainda por cima: tentar passar a perna! – num defunto serviçal todo sequelado por um derrame cerebral... ou aposentado por invalidez pelo Alzheimer...
Peguei pesado?!
Ah, não me diga! Essa jamais foi a minha intenção...
Afinal, Pai Joaquim não tinha o menor jeito de um "aposentado por invalidez"...
De jeito nenhum! Era muito mais fácil imaginar ele num pregão de Wall Street, fechando ótimo negócios no meio daquela gritaria toda, do que sentado numa cadeira de vovô com meias de lã e pantufas nos pés...
Assim sendo... foi sentir aquele cutuco de bengala e eu me virei direto pra ele!
Lógico! Eu conhecia a figura!
E sua bengala me apontava para a porta da direita do roupeiro...
Abri-a e fui direto até a única blusa cinza que eu tinha – um presente de Rachel.
Uma blusa antiga, solitária em meio ao meu estoque completo de roupas pretas. Afinal, cinza era a cor mais clara que eu conseguia vestir, e apenas com aquela blusa... unicamente porque ela estava imersa naquele imenso carinho de Rachel.
Pois é... pra mim, no universo das cores, ainda tem branco demais no cinza...
Foi então que mexi na blusa cinza e, enroladinho nela, estava um saquinho de papel.
Feito!
Abri o saquinho e lá estava: o cachimbo de Rachel e um pacotinho de fumo desfiado!
Abençoada "bengalada"! Do contrário, eu teria colocado todo o meu roupeiro ao chão, procurando minha relíquia!
Tomei nas mãos aquele saquinho de papel como quem segurava a mais preciosa jóia de família... e senti um enorme afeto que me tomava...
O cachimbo que vó Rachel usava nas antigas sessões com Pai Joaquim...
Fui novamente para minha cama e sentei-me novamente em posição se semilótus, ao lado de Pai Joaquim em sua cadeira.
Vi que meu velho amigo, além de seu cachimbo, deixava como que flutuando perante si uma vela astral branca muito iluminada...
Fiz, então, igual ao que fazia quando era menina, na terreira de Rachel... observava atentamente o que Pai Joaquim fazia e o imitava...
Assim sendo, da cabeceira de minha cama, abri uma gaveta e retirei uma travessa de louça branca e uma vela cor de neve, que usava na minha meditação com CD...
Lembrei-me de quando eu tinha 7 anos e Pai Joaquim havia me ensinado a devotar uma vela. Consagrá-la ao Divino.
Tomei-a, entre minhas mãozinhas, ergui-a sobre o alto de minha cabeça, e realizei a consagração, com um sentimento muito profundo que parecia fazer uma cosquinha gostosa em meu peito...
Firmei a vela sobre a longa travessa de louça, para proteger meus lençóis e minha cama.
Acendi-a.
Coloquei minha mão direita, porque sou destra, próxima à chama e, com um sentimento profundo, fiz uma prece mágica:
"Ó, Deus...
Ó, Grande Vida do Universo...
Ó, Grande Espírito do Universo...
Ó, Luz da Vida... vem, vem!
Do Mundo da Perfeição do Espírito
Vem e torna-me teu canal, ó Luz da Vida...
E como teu canal, ó Luz da Vida,
Através do Espírito da Vela
Através do Espírito do Fogo,
Abro este portal, abro este templo,
Ligo-me ao Mundo da Perfeição do Espírito
Para que neste portal, neste templo,
Flua profunda paz em todo meu corpo,
Flua profunda paz em todo meu campo,
Flua profunda paz em todo meu ambiente.
Que assim seja, pois assim o é!
Está aberto este templo!"
Sentindo aquela cosquinha estranha mas mega gostosa no meu peito, um suave alento de paz começou a me envolver... tênue e suave... como se fosse um fio que poderia se romper pelo meu vendaval barulhento de pensamentos...
Assim, sustentada por aquele alento, comecei a colocar o fumo no cachimbo.
Peguei um fósforo para acender o cachimbo, mas não o risquei na caixinha... o acendi na chama da própria vela devotada, como Pai Joaquim me ensinou aos meus 7 aninhos... "para que um fio do Divino unisse tudo numa chama só", como ele dizia...
Dei umas três ou mais baforadas, sem jamais tragar.
Pois Pai Joaquim sempre me dizia para não tragar durante todo o processo, "porque o objetivo é se ligar com o Divino, e não fazer crise de asma pra depois vender bombinhas!"
Essas três baforadas eram apenas para acender e aquecer o cachimbo...
Aceso, tomei-o entre minhas mãozinhas, exatamente como fui ensinada quando era pequenina, e fiz a segunda prece mágica:
"Ó Luz da Vida, aqui estou!
Ó Luz da Vida, aqui estou como teu canal,
E como teu canal, ó Luz da Vida,
Exalto o Espírito da Brasa e o Espírito do Fumo
Para que, exaltados,
Queimem, dissolvam,
Estourem, desintegrem
Toda a perturbação da minha cabeça,
Toda a preocupação da minha mente,
Toda bobagem que não funciona mais,
Que tudo isso seja queimado,
Que tudo isso dissolvido,
Para que a Paz do meu Espírito Divino
Se firme e se assente em mim!"
Fiz isso rápida, sem me demorar muito, para que o cachimbo não se apagasse.
Mas fiz profundamente concentrada, com toda a atenção que eu conseguia no meio daquele barulho infernal de pensamentos dos quais eu queria sinceramente me desvencilhar.
Daí em diante, cachimbei várias vezes... sem jamais tragar...
A fumaça abençoada se espalhava pelo meu quarto, iluminada belamente pela luz da vela branca...
Em cada cachimbada, concentrava-me na segunda prece mágica...
"Dissolve... queima... limpa tudo isso da minha cabeça... do meu campo... do meu corpo... esses pensamentos não me servem mais... tudo isso é bobagem... nada disso funciona e eu não quero mais isso! Eu não quero mais isso!"
Fiz isso várias vezes... até que o fumo esgotou-se do cachimbo, tornando-se cinzas...
Pai Joaquim continuava do meu lado... pitando... e com aquela sua vela astral flutuando à sua frente, concentrado nela...
Então esvaziei o cachimbo, concentrada na luz da minha vela, focando-me na Luz da Vida...
Peguei mais um pouquinho de fumo e coloquei no cachimbo.
Outro fósforo, novas baforadas para acendê-lo... e fiz a minha terceira ordem mágica...
Mas eu estava muito enferrujada!
Por isso, quando fui fazer...
Eu não lembrava mais da terceira ordem!
Eu nunca mais havia feito a "Meditação Divina do Cachimbo do Preto-velho" desde que Salet havia me internado em Saint Peter...
Esqueci da terceira prece!
E minha cabeça começou a se desalinhar de novo!
Quanto mais eu tentava lembrar da prece, mais me vinham velhos esqueletos do meu armário mental... Saint Peter...
Nisso, senti a mão firme e amiga de Pai Joaquim no meu ombro esquerdo!
Sua mão me acalmou e olhei para ele...
Então, com sua voz confiante e firme, começou a entoar a terceira prece enquanto pitava calmamente.
E eu, toda atenta, cachimbava e repetia as suas palavras, imitando-o:
"Ó Luz da Vida, aqui estou!
Ó Mundo da Perfeição do Espírito, aqui estou!
Ó, meu Espírito-Alma Divino,
Do Mundo da Perfeição do Espírito,
Vem mais pro meu corpo.
Vem, vem!
Vem mais pro meu corpo,
Vem mais pro meu campo,
Vem mais pro meu ambiente.
Traga mais e mais seus Dons
Para que se expressem através de mim.
Brilha em mim, meu Espírito-Alma Divino,
Brilha em mim mais e mais a tua Lucidez,
A minha Lucidez!
Estou lúcida!
Brilha em mim a Luz do Universo!
Brilha em mim a Perfeição do Universo!
Brilha em mim o Bem Maior do Universo!"
Então começamos a Meditação Contemplativa.
E ela somente se iniciava quando Pai Joaquim e eu entrávamos naquela sensação de estarmos com o nosso corpo não apenas no Planeta Terra, mas ao mesmo tempo, na Imensidão Luminosa do Universo...
Um sensação de que haviam estrelas brilhantes, constelações e galáxias imensas vibrando energia luminosa bem no meio do nosso peito... como se não houvessem mais pulmões, caixa torácica, coração, ossos, tecidos, mas apenas uma Luz Cósmica repleta de estrelas, como se nosso peito não mais existisse como conhecíamos e sim... um portal... um portal à Pureza do Universo!
E apenas quando sentíamos e vivíamos essa sensação, uma sensação que eu nunca mais senti depois dos meus 11 anos, é que começávamos a sintonizar com as Gigantescas Frequências Luminosas e Originais do Cosmos...
Para cada Frequência Original do Universo conhecida pelos seres humanos, um nome... um nome de Orixá conhecido pelas pessoas da antiga terreira de Rachel... um nome de Orixá que portava um conjunto de Dons...
E toda a nossa Meditação começava sempre pela Frequência Original Regente dos Caminhos Divinos... Orixá Bará... ou Orixá Exu:
"Salve, Divino Orixá Bará, Regente Divino dos Caminhos Divinos do Universo!"
E Pai Joaquim fazia um movimento com sua mãozinha, em cada baforada que sintonizava com cada Frequência Cósmica... era um movimento com sua mãozinha que movia igualmente a fumacinha do cachimbo em direção ao seu peito...
E eu, ao lado dele, com a minha mãozinha, fazia em mim o mesmo movimento.
Ele fazia... eu fazia igualzinha!
E assim a Meditação Contemplativa prosseguia... de Bará a Oxalá.
No meu caso, sei que sou uma "filha de Oxum"...
Sei disso porque fui muito bem identificada por Rachel e sem margem de erro, pois Rachel era cuidadosíssima nisso... afinal, tantas vezes bateram filhos de fé desesperados na sua porta pedindo para ela consertar as porcarias que outras "mães de santo" ou "pais de santo" – na real: só uns mercantilistas feitos à facão, umas porcarias de profissionais! – que "davam errado a cabeça" aos Orixás de seus filhos e filhas de fé e, com isso, a pessoa passava por muitas dificuldades e até adoecia gravemente...
Só que uma "filha de Oxum" não é mais a expressão correta pra se usar na Meditação Contemplativa do Cachimbo do Preto-velho...
Porque aqui se contempla a Beleza e a Perfeição, sentindo-as fazer morada e assentamento em seu corpo, em seu campo, em seu ambiente e em sua vida...
E a expressão "filha de Oxum", apesar de ser uma expressão linda e verdadeira, geralmente degenera muito rápido para o seguinte pensamento:
"Oh, eu sou SÓ uma filha de Oxum"...
E daí, para apodrecer num pensamento como "Quem sou eu para fazer isso? Sou SÓ uma filha de Oxum, bem pequenina, tão pequenina que sou apenas uma porcariazinha" ... é só um passo!
Por quê?
Por que um "Sou filha de(...)" degenera e apodrece tão rápido para um "Quem sou eu, senão uma porcariazinha!"?
Por vaidade e orgulho!
Ah, pois é!
Mas calma que eu já explico:
Enquanto eu me considerasse apenas uma "filha", sempre haveria na minha mente uma crença estúpida de "pecado" e de "não-merecimento"... uma crença de pecado que foi socialmente aprendida porque as pessoas tem uma fé muito negativa, uma fé que acha linda a maldade...
Sim, uma fé negativa que se encanta com a maldade!
Sério!
Duvida?
Pois olha só:
Veja quanta gente que acha lindo dizer "Ó, Deus, atiro-me ao teu pés porque sou uma miserável pecadora, eu sou tão pequena, eu sou uma nada"... tantas pessoas que acham isso lindo! E que se encantam com isso!
Mas que na real, só tão dizendo isso pra conseguir favorzinhos ocultos de Deus...
Ah, pois é!
Tipo... por debaixo dos panos, tentando enganar Deus, essas pessoas fazem isso:
"Olha aí, Deus, eu me rebaixei, do jeitinho como você gosta, viu?!
Então... vê se agora alivia a minha barra aí, heim!
Porque eu sou um nenezão que não sabe fazer nada... então vê se cuida de mim, vê se faz tudo por mim, vê se me dá papinha, vê se limpa as minhas fraldas quando eu fizer merda, porque eu quero ficar eternamente sendo um irresponsável por mim, tá?
Ai, que bom é ser um nenezão: posso me atirar nas cordas e deixar meu papaizinho do Céu fazer tudo por mim...
Abençoada seja a minha malandragem e a minha preguiça!
Amém! Salve! Aleluia! Que assim seja!"
Ah, pois é!
E as outras pessoas ao redor?
Quando vêem alguém rezando palavras como "Mas quem sou eu, Senhor? Sou tão pequenininho!", acham isso lindo... e aplaudem aquela pessoa que está lá rezando, ajoelhada, toda submissa ao Senhor...
Reza que não passa de uma tonelada de orgulho e vaidade, isso sim! Disfarçados de humildade, feitos pra ganhar tapinhas nas costas e aplausos dos outros: joguinhos hipócritas pra ganhar aprovação social!
E funcionam!
Esses joguinhos funcionam mega bem entre essas pessoas!
E quer saber o porquê? Por que essa palhaçada funciona tão bem entre as pessoas?
Porque tanto quem tá ajoelhado rezando quanto quem tá sentado vendo aquela pessoa rezar... aquelas duas pessoas tão fazendo o mesmo joguinho:
"Olha aí, Véio aí de cima... tô te puxando o saco... então, vê se alivia a minha situação!
Porque nenezão malandro e preguiçoso quer mimo, e vê se me atende logo!"
Agora pega esses dois malandros, que querem passar 171 nas Forças Divinas...
Pega eles e os coloca na frente da titia Selene aqui...
É só eles verem a Sê rezar, dizendo que ela quer se tornar cada vez mais responsável por si mesma, que quer ser cada vez mais transparente e autêntica com o Divino e que, para ser responsável, ela não pode mais se fazer de nenezona... precisa virar uma mulher! E que, para tanto, para assumir sua responsabilidade de mulher perante a Vida, não pode mais se esconder como uma "filha de Oxum": precisa começar a aprender a SER UMA OXUM!
Pronto! Se aqueles dois malandros tiverem à mão gasolina e fósforo... by, by, Selene!
"O quê?! Que horrível o que ela diz! Querer se igualar a Deus? Que herege! Blasfêmia! Calem a boca dela!"
E se colocam como os defensores da moral, de Deus e da família... queimando uma terrível inimiga de Deus!
Queimando uma inimiga de Deus?!
Queimando sim... mas, na real, é uma outra variedade de queima:
"Queima de arquivo"!
Sim, porque a titia Selene aqui sabia demais: descobriu o golpe 171 que eles tavam aplicando em Deus, sob os aplausos de TODA a sociedade... então... TODOS precisam calar a boca dela ra-pi-di-nho...
Queimar o arquivo...
Ah, pois é!
Você entendeu e percebeu agora a sutileza do golpe?!
Por isso, pra acabar com esse 171, na Meditação Contemplativa do Cachimbo do Preto-velho, quando chegava na Frequência Original Cósmica de Oxum, eu começava a me especificar mais...
Me detinha confiante e por mais tempo na Frequência Original dela... e em seguida, me especificava a contemplar a Frequência Original de Oxum Pandá... e vestia Oxum Pandá em meu corpo...
Me banhava dela... me nutria dela... me sentia nela e ela em mim...
E era esse o momento, no próximo passo da Meditação, em que eu desmanchava mesmo aquele 171:
Era esse o momento em que eu me conectava profundamente com...
Com uma Oxum Pandá específica em todo o Universo!
Com uma Oxum Pandá que jamais houve e que jamais haverá outra como ela: aquela que criou Selene Stern e que ao mesmo tempo Sou Eu mesma!
Minha Deusa Pessoal, que Sou Eu mesma!
Meu Espírito Divino Único, que Sou Eu mesma!
E nesse momento, cachimbando, eu dizia e buscava sentir ao máximo no meu corpo, na minhas pernas, na minha barriguinha, nos meus braços, nas minhas mãos, nos meus pezinhos, exatamente esse mantra:
"Meu Espírito Divino,
Deusa que Sou,
Do Mundo da Perfeição do Espírito
Vem mais pro meu corpo...
Vem... vem!
Aqui estou, consciente,
Aqui, neste quarto, nessa cama, nesse templo
Nesse planeta
Aqui estou,
vem mais pra mim,
No meu corpinho
Vem mais pra mim, vem, vem,
Porque você Sou Eu mesma!"
E assim, eu me sentia como um imã original que se quebrou... mas que, durante a meditação Contemplativa, enquanto cachimbava, uma gostosa atração unia os meus pedacinhos... uns estavam aqui, neste planeta Terra, sobre aquela cama... outros estavam no Mundo da Perfeição do Espírito...
E assim, aquela gostosura de atração unia-me de volta numa criaturinha inteira, imersa no Fluxo Cósmico de Oxum... de Oxum Pandá...
Sim, e unida em mim mesma, não mais fragmentada, eu era semelhante às outras Oxuns Pandás do Cosmos...
Sim, semelhante... mas ao mesmo tempo absolutamente única e, por isso, absolutamente diferente!
Semelhante e diferente e, portanto, única: como é única cada pessoa no Cosmos...
Sim, eu sou uma Oxum Pandá, mega específica...
Uma Oxum Pandá em treinamento através da reencarnação para assumir, um dia, minhas Funções de Oxum através de meus Dons de Oxum, completamente pessoais, individuais e únicos!
Reencarnei só pra isso... vidas e vidas e vidas reencarnando no planeta Terra...
Nigéria... Egito... Atenas... Roma... França... Japão... Tibet... vidas e vidas só pra isso... apenas para deixar de ser uma nenezona e me tornar responsável, assumindo-me como uma Deusa em treinamento!
E cada pessoa, dentre esse mundão de pessoas do planeta Terra, faz o mesmo, embora a imensa maioria ainda acredite e prefira aquele joguinho dos dois carinhas malandros...
Pois é, não acordaram ainda, se dando conta de que aquele 171 não cola mais, nunca colou... mas um dia vão ter que acordar e aprender a se tornar um Deus também!
Você pode apostar nisso! E apostar alto nisso!
Assim sendo...
Vesti-me da Oxum Pandá única que sou!
E, em seguida, senti uma vontade muito intensa... de me transformar!
Muito, muito sincera!
Uma vontade sincera de transformar tudo aquilo em mim que não servia mais!
De me livrar de todas aquelas roupas fora de moda, aqueles trapos e badulacos que tavam enfeando todo o look dessa linda Oxum Pandá em treinamento que caminhava e respirava agora sobre o planeta Terra!
Então, vestida dessa Oxum Pandá única no Universo que Sou Eu, segurando o cachimbo, fiz a quarta prece mágica:
"Meu Espírito Divino em Mim,
Ó meu Espírito Divino,
Como teu canal, flui mais em mim,
Flui mais em mim,
E fluindo em mim,
Exalto o Espírito da Brasa,
Exalto o Espírito do Fumo para que,
Exaltados,
Queimem e dissolvam em mim
Todas as minhas velhas estruturas que não funcionam mais!
Dissolve-as, ó Meu Espírito Divino,
Dissolve-as até onde eu conseguir aguentar...
Mesmo que doa, dissolve-as, porque eu aguento!
Pois Você sabe até onde eu aguento!
Dissolve-as e traga no lugar delas
Mais e mais a tua Verdade,
Mais e mais a minha Verdade,
Aqui, no meu corpinho,
No máximo que eu consiga aguentar a Verdade!"
Puxa, eu tava sendo mega sincera!
Eu quero me transformar! De verdade!
Do mais profundo do meu coração!
Foi quando...
Quando uma pequena brasinha do cachimbo saiu voando... suavemente...
Ela chamou a minha atenção... tão brilhante, tão quente, tão linda... e a acompanhei por alguns segundos até que ela se apagasse no ar...
Foi então que eu percebi!
Percebi!
Percebi que do meu peito, um calor enorme tomava todo meu corpo... todinho!
Um calor aconchegante... que eu não sentia desde meus 11 anos...
Um aconchego que me fazia sentir uma sensação imensa de...
Paz!
Imensa paz!
Minha mente parecia, naquele momento, apenas um radinho FM ligado bem baixinho... fazia ruído sim, falando um monte de besteiras... mas aqueles ruídos estavam tão baixinhos agora!
E me foquei naquela sensação em meu corpo... que se espalhava por todinho ele, como se fosse um "molinho bem molezinho" tão gostosinho que nem consigo descrever aqui, pra você...
E aquele relaxamento profundo começou a me tomar todinha...
Nisso, senti levemente a mão de Pai Joaquim segurando a minha canhota, como se pegássemos juntos uma velha colherzinha de sobremesa, que eu sempre usava como apagador de velas, para apagarmos a minha vela...
Eu estava tão relax que nem aguentava mais meus olhos abertos, por isso nem enxergava mais aquele toquinho de vela na minha frente... não tenho muita certeza, mas parece que ouvi isso:
"O calor divino já tá ótimo... não carece de um calor de incêndio por vela acesa, né?"
E com aquela risadinha típica dele, meus olhos ficaram mais e mais pesados...
Senti como se tivesse... sei lá... recebido um beijinho na testa...
Ainda espiei ao redor... foi quando percebi que ele já havia partido...
Um cavalheiro, lógico! Onde já se viu alguém ficar no quarto de uma moça enquanto ela se prepara pra dormir?!
E assim, com a mesma roupa de serviço que eu estava durante a meditação, estiquei-me, toda gostosa na minha caminha...
Ah, eu é que não ia sair daquele meu torpor tão gostoso trocando a minha roupa de serviço... esquece!
Esticadinha na cama, mexi com os dedinhos dos meus pezinhos... uma mexidinha tão gostosa de dedinhos... dei até umas gemidinhas, tão deliciosas... me senti como se estivesse molhadinha por afeto... como se eu estivesse saído de um árido deserto e voltado todinha pra minha Cachoeira...
Ai, como é gostoso ter dedinhos nos pés!
Ouviram isso, serpentes, tubarões e baleias? Então sintam inveja de nós, morram de inveja das garotas inteligentes que curtem mexer seus dedinhos e pezinhos na cama!
Ai, ai...
Virei-me, então, de ladinho...
Senti meus cabelos negros macios tocando carinhosamente minhas mãozinhas e sendo tocados por elas...
E assim, toda encaixadinha, em instantes estava dormindo profundamente... um descanso e uma paz que eu nem mais sabia como eram...
Acordei suavemente...
Sentindo-me ainda toda encaixadinha... confortável... energizada...
Completamente diferente de como eu geralmente acordava: como se fosse uma velha toda dura, mastigando a chapa!
Eu nem parecia mais eu!
Parecia... sei lá...
Uma Selene 2.0?!
E foi naquele estado de graça que fui fazer as minhas tarefas daquele dia.
Cumprir minha agenda...
Agenda cheia! Ufff...
Mas... sem nada daquela aflição costumeira, sabe?!
Foi assim que, à tardinha, quase noite, quando eu já tinha cumprido uma série imensa de tarefas na National University e no meu trabalho com Hélène, Álex me procurou.
Ainda sentia-me emanando uma coisa tão... gostosa... tão boa... aquela mesma sensação que me tomou durante o dia inteiro...
Aquela sensação que me inundava de tal forma que... eu sequer reparei muito nas pessoas ao meu redor o dia todo... como se aquela Cachoeira de Paz me mantivesse sempre flutuando tranquila muito além das perturbações e encrencas que as cabeças das pessoas sempre arranjam o tempo todo...
Assim, quando Álex chegou perto de mim, também não reparei muito nele...
Como a minha Cachoeira estava boa, quentinha e aconchegante! Por isso... agora eu não queria muita proximidade com ninguém que pudesse desviar a minha atenção daquela sensação...
Foi quando ele me disse:
- Sê... fiquei o dia todo te procurando e não te achava...
Pois é... agora é que lembrei que eu tinha recebido vários SMS dele hoje... ele nunca me mandava SMS...
Ah, mas hoje eu não tava a fim de conversar com pessoas... nem com ele, inclusive... queria era ficar quietinha, sentindo as delícias da minha Cachoeira...
- Recebeu meus SMS, Sê?
Fui mega espontânea... e falei sem sequer pensar:
- Sim, mas meu momento zen era mais importante! Nem li. O que era?
Pois é... não li mesmo!
Que coisa... acho que minha Alma realmente é vagabunda, sabe?!
Quando ela tá zen e sentindo-se toda gostosa, aquele sentir profundo, sensório, sensual... nada mais importa!
Adoro a minha Alma!
Pois é... pra mim... pelo visto... Espiritualidade e Sensualidade são uma coisinha só, inseparáveis... como se a própria pele macia e sedosa da minha Alma fosse pura Sensualidade...
Ai, que delícia!
Ele?
Pareceu até que tomou um susto com o que eu disse sobre os SMS!
Sei lá... como se o chão debaixo dos pés dele tivesse tremido... vai saber!
E, com aquele jeitão dele, que agora parecia meio sem jeito – aquele típico jeito sem jeito, sabe?! – finalmente ele disse:
- É que... me pareceu que seria legal... se a gente saísse nessa sexta... reformei minha Harley© e... bom... achei que... er... sei lá... que seria legal a gente estrear ela, passeando sexta à noite...
Hã?!
Como é que é?
Passear naquela moto lindíssima, toda negra como a noite, brilhante como um ouro-negro, e com aquele ronco que emanava notas musicais potentes e angelicais ao mesmo tempo?
Nossa, aquele som do motor dela meio que me... sei lá... me hipnotizava! Me fazia entrar num "estado alpha"... era música clássica pra mim!
Música!
Afinal, o som da minha Luna era legal... mas minha Honda© de média cilindrada soava tipo... sei lá... aquela vozinha da Amy Lee, do Evanescence©... cantando "Made of Stone©"... som legalzinho, eu sei, mas só "legalzinho"...
Mas... o som daquela antiga Harley© 2007 dele?
Ai! Soava aos meus ouvidinhos como a mezzo-soprano Simone Simons, do Epica©, cantando "Chasing the Dragon©"... saía completamente da esfera do legalzinho pra desfilar nos domínios do Divino!
Que chance!
E com... ele?
Ai!
Só que...
Só que eu lhe disse algo antes impensável, inimaginável:
- Ai, que pena... essa sexta não vai dar... já tenho compromisso...
Claro! Sexta à noite era a última aula do curso de Leonora!
Não podia perder aquela última aula...
Não podia perder... nem o curso... e nem aquela grande chance de ir lá e contar pra ela justamente a novidade desse convite de Álex!
Lógico!
Até porque... era a minha última chance de mostrar pra Leonora que sim, ela era mega linda, tanto quanto uma Antiga Deusa da Beleza andando entre nós, mortais... mas o Álex era MEU!
Ah, tudo bem... no problem! Leonora era mega legal! Compreensiva! Por isso ela iria entender que, no meu estado atual de evolução, quando se trata de garotos, eu sou um pouquinho possessiva...
Certamente que uma garota da Luz entenderia a situação de uma garota que, afinal de contas, não é TÃO da Luz assim... mas que curte a Luz pra caramba e se esforça pra ficar nela!
Hei, não me julgue assim só porque eu admiti que ainda tenho um monte de Trevas dentro de mim, ok?!
Porque sim, eu sei que tenho mesmo uns probleminhas de ciúmes e possessividade pra resolver... não nego não! Precisar enfiar a cabeça na pia várias vezes pra tentar esfriar ela me mostrou bem isso... não dá mais pra negar isso pra mim mesma!
Sim, não vou ser hipócrita! Pra que esconder? Tenho sim e não nego... porque se eu negar, como vou resolver meus probleminhas?!
Só que eu não sei ainda direito como resolver isso! Por isso estou estudando e me esforçando pra aprender!
Mas eu sei que eu vou conseguir resolver isso, tenho certeza disso... porém...
Eu preciso de um tempinho pra isso, pô!
Nem que eu acabe construindo uma "prótese de Alma portátil"!
Vai saber...
Sim, eu sei que vou conseguir ficar na Luz... não importa quanto tempo isso demore... porque, afinal de contas... mesmo tendo tido uma carreira estudantil desastrosa na escola... mesmo tendo sido rotulada de irrecuperável e incapaz por muita gente "çábia" de "jaleco branco"... eu sei que eu sou uma boa Aluna Cósmica!
Afinal, estes 7 posts que coloquei aqui, no meu face e dividi com você, recém foram as primeiras Viagens de Selene... as primeiras das muitas que farei, agora como uma Garota Cósmica!
Pois é!
Mas... saindo do Cosmos... e voltando direto ao Álex...
O que ele fez quando eu neguei seu convite pra sairmos nessa sexta?
Fez uma cara de espanto! Ficou assim por alguns instantes... depois... meio que tossiu seco, dizendo sem jeito:
- Entendo... quem sabe... na outra sexta?
Hã?! Ele insistiu?!
Wow!
O que eu faço agora?
Hummm...
Aquilo tava começando a ficar tão interessante...
E agora? Faço ou não faço ele rastejar mais um pouquinho? Afinal, eu tava começando a gostar tanto disso...
Crueldade, Selene?
Não! Não mesmo!
Apenas "Exercício de Gostosura"! Uma garota precisa de exercícios pra se manter em forma, ora!
Até porque... ser uma menina boazinha é algo que... sei lá... não tem aquele tempero, aquele gostinho, e assim fica tudo tão insosso...
Mas ser uma gatinha malvada? Ai, como isso apimenta a relação!
Ah, pois é!
Então eu ainda não me decidia sobre o que fazer... tipo: aceitar logo o convite dele, só pra parecer boazinha, sendo alguém que eu não sou... ou... ser autêntica, ser muito "eu mesma": me divertir mais um pouquinho com ele, com esse meu jeitinho único tão sacaninha, que ninguém mais consegue imitar?
Em outras palavras... me assumo como uma mentirosa, fingindo ser quem eu não sou? Ou me assumo como uma garota sincera, que mostra o que realmente sente ser?
Que dilema!
E Álex parecia querer me dizer algo enquanto eu não me decidia... mas... sei lá... queria dizer mas... não saía... parecia... sei lá... que ele tava meio nervoso...
É, nervoso! Ele tava mexendo demais os seus ombros... aquela balançadinha sutil, invisível para uma garota tapada, mas gritante para uma garota esperta – ou para uma garota com altas habilidades... para sacanagem!
Ora, ele só fazia aquele movimento todo único de ombros apenas quando ficava nervoso! Mega nervoso!
Hummm... eu tava deixando ele nervoso, é?
Mega nervoso?
Só com o meu silêncio? Só com a minha demora em lhe dar uma resposta?
Hummm... que interessante! Realmente: deveras interessante!
E, mexendo os ombros daquele jeitão dele, finalmente ele falou:
- É que... na outra sexta... no Night Opinion... vai ter um show da banda cover do Epica©... como sei que você curte muito Epica©, pensei que...
- Epica©? No Night Opinion? Na outra sexta?! Tá ótimo! Tô nessa!
Pois é... eu não disse?!
Eu sou mesmo uma criaturinha tão benevolente! Podendo me divertir tanto vendo ele rastejar mais um pouquinho, e eu não fiz...
Que criaturinha linda e virtuosa que eu sou!
Quase uma criaturinha a ser canonizada...
Pois é! Assim, quando você estiver em apuros, lembre-se sempre de suas orações:
"Santa Selene de Happy Harbor: rogai por nós!"
E ele? Quando aceitei o seu convite pra outra sexta?
Deu um sorriso mega lindo!
E acho que... não sei bem... acho que eu dei uma mordidinha nos meus lábios quando vi aquele seu sorriso... e suspeito que ele fez força pra segurar a sua própria mão... porque me pareceu que ela tava indo direto pra pontinha dos meus cabelos se ele deixasse...
Mãozinha boba...
[Atrás desse teclado: um suspiro longooo...]
Ai, ai...
Irmos na Harley© dele no show cover do Epica©!
Ai, naquela moto... que chance de ficar abraçadinha na cintura dele!
Yes! Yes!
Porque... ai, nem te conto... o cheirinho dele é tão gostoso! Mega gostoso!
Aquele cheirinho dele já me deixa louquinha há um metro de distância... imagina então como vai ser quando a gente estiver coladinhos na moto?!
Ai!
Melhor nem pensar... porque se a gente pensa, não faz... mas isso eu te garanto: fazer é tão bom!
Ah, eu realmente tinha que contar isso pra Leonora no último dia do curso!
Preciso, preciso, preciso!
Afinal, sem as aulas dela, eu jamais vestiria um pingo de elegância de Alma... e assim eu jamais conseguiria este encontro... eu precisava sinceramente agradecê-la!
E, nesse estado de emoção, fui para a nossa última aula do curso.
A aula foi mega legal!
Outra hora eu te conto mais detalhes...
Porque agora, tô louquinha pra contar como foram as minhas últimas palavras pra Leonora nessa noite!
Foi assim:
Terminou a aula e houve aquele reboliço normal de fim de curso e tal.
No final das contas, até fiz amizade com o Shrek©! Batemos um bom papinho no finalzinho da aula!
Ele se despediu de mim e seguiu o rumo dele.
Só que acabei me distraindo, espiando para ver aonde o Shrek 3.0 iria após o fim do curso – sim, 3.0 mesmo, porque ele já tava bem melhor que a versão 2.0! – que quando olhei novamente lá para a frente do salão... não encontrei Leonora!
Ela sumiu!
Não pode ser, não pode ser!
Meus olhos rastrearam ligeiros tudo ao redor... foi quando a vi cruzando o corredor, junto dos Men in Black©, já há vários metros de mim.
Ela tava indo embora!
Já tava fora do meu alcance!
Ah, não! Mas não mesmo! Não sem a minha gratidão!
Vesti então toda a minha elegância!
Levantei-me da minha cadeira!
Enchi meu peito com todo o ar que podia!
Coloquei minhas mãozinhas em cone perto da minha boquinha!
E bradei:
- LEONORA! SABE AQUELE GAROTO QUE TE FALEI? VAMOS SAIR JUNTOS SEXTA QUE VEM! VALEU PELO CURSO! VALEUUU!
Pois é...
Cada um veste a elegância que melhor lhe cai, né? Ora... a minha me cai é assim!
Ora... eu precisava mesmo agradecer à ela, não é? E agradeci! Do jeito que deu, lógico... mas que eu agradeci... agradeci!
Leonora? Quando eu lhe agradeci?
Virou seu rosto para mim!
Foi quando ela me lançou um último daqueles seus sorrisos, sustentado por aquele seu olhar... sempre indecifráveis...
Mas dessa vez aconteceu algo diferente!
Diferente... porque, de repente e inesperadamente, senti algo fazendo volume no bolso direito do meu sobretudo.
Mas heim?! Meu bolso estava vazio quando eu cheguei aqui!
Como pode?!
Foi então que coloquei a minha mãozinha dentro do bolso e lá havia alguma coisa sedosa, macia...
Quando retirei a minha mão de dentro do bolso, lá estava... aquilo...
Aquilo!
Aquela coisa inesperada, surpreendente:
A peruca do Champollion!
Ah! Não tive dúvida: antes que Leonora partisse, coloquei rapidinha a peruca na minha cabeça, imediatamente fitei o rostinho de minha nova amiga e... yes! Yes!
Consegui!
Finalmente consegui decifrar o sorriso e o olhar dela!
Decifrei! Decifrei! Yes! Yes!
O resultado da minha decifração?
Nem esquenta... depois eu empresto a minha peruca pra você!
FIM
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