Arcano 2 – A Papisa
(a)
É assim que lembro como minha história começou...
Foi assim que eu, até então,
julgava que tinha sido o meu nascimento...
Contarei para você como foi!
(b)
Minha lembrança mais antiga
era de ter nascido do Ventre de um Vulcão
tendo como berço as lavas, as Chamas!
Este era para mim o dia do meu nascimento,
quando abri meus olhos pela primeira vez
de dentro de minha mãe, Monte Olukó,
ou Dona Vulcão, para os íntimos,
senhora que vivia em um país chamado:
Happy Harbor!
(c)
Meus olhos, quando se abriram,
permitiram ver-me
nos espelhos do Rio de Lava e Fogo
ao lado de meu berço:
meus cabelos eram chamas laranja-avermelhadas,
meus olhos eram faíscas ardentes
e o fogo crepitava por todas as minhas juntas,
de braços, de pescoço e de pernas,
e meus dedos, das mãos e pés,
eram terminações em flamas!
(d)
Mal comecei a enxergar
já me pus a correr,
sapeca e arteiro,
ao redor do Vulcão,
entre os Campos de Brasas,
e já ensaiava trepar nas copas
das árvores de ramagens de Fogo!
(e)
Sim, eu sou Ió-reh!
Aquele que nada no Rio de Fogo como um lambari!
Aquele que anda na Pedreira de Fogo como um gato!
Aquele que voa nas Nuvens de Fogo como um sabiá!
(f)
Sim, eu era muito arteiro!
Foi então que descobri
que eu não morava sozinho:
havia nascido em uma Aldeia.
Na Aldeia eu era pequeno e novo,
haviam algumas crianças como eu,
e também haviam vários aldeões mais velhos.
(g)
Os mais velhos foram
os construtores da Aldeia:
haviam feito não só as cabanas
mas uma série de regras
sobre como se devia viver nas cabanas.
Essas regras deveriam ser obedecidas
para ser bem visto pelos mais velhos
que construíram a Aldeia
antes que eu nascesse.
(h)
E os mais velhos
me ensinaram muitas coisas:
que todos nascem de Dona Vulcão
e que não existia nada antes disso.
Me ensinaram que todos, então,
tem que se adaptar
ao modo de viver da Aldeia.
Essa adaptação é chamada de
"os milhões de tem que".
Me ensinaram que todos,
a partir "dos milhões de tem que",
conforme crescem,
devem assumir vários Deveres com a Aldeia.
Esses Deveres são chamados de
"os milhões de deveria".
Me ensinaram também
que todos precisam fazer
o que todos da Aldeia fazem
pois isso era chamado de
"o único certo".
E quem não fizesse o único certo
seria punido com muitos sofrimentos
no dia que tivesse que voltar
a dormir para sempre no seio de Dona Vulcão.
Essa punição terrível,
para quem não fizesse o único certo,
era chamada de
"as profundas raízes do Medo".
(i)
E tudo isso
que os mais velhos da Aldeia me ensinaram
tinha também um só nome:
isso se chamava "Educação".
(j)
O curioso é que,
quando eu nasci,
eu era como algumas outras crianças:
nascemos com a cabeça de tamanho médio,
proporcional ao pescoço e à coluna,
e os olhos bem grandes, expressivos.
Todavia, a maioria das outras crianças
já nascia assim, parecida com os adultos:
com a cabeça bem grande,
desproporcional ao pescoço e à coluna,
o que lhes causava muitas dores
de pescoço e de coluna,
e os olhos eram bem pequenos,
um tanto vítreos.
(k)
Mais curioso ainda foi que,
conforme Educação agia em mim,
minha cabeça também crescia
e meus olhos também diminuíam.
E a dor, que eu nunca antes sentia,
de pescoço e de coluna,
virou minha companheira tão fiel
que se transformou em rotina.
(l)
E assim, normal eu fiquei:
cabeça do tamanho de todos da Aldeia,
olhos do tamanho de todos da Aldeia,
dor de pescoço e coluna como todos da Aldeia.
E assim foi que eu, Ió-reh,
adequado me tornei.
(m)
E foi assim que eu cresci,
cresci e cresci e cresci,
e deixei de ser um menino de Fogo.
Ió-reh criança deixou de existir,
pois, agora, existia eu: o jovem de Fogo Ió-reh!
