Arcano 3 – A Imperatriz

(a)

Como todo jovem de Fogo

tive que trabalhar exatamente

no que era o certo da Aldeia.

Haviam muitas coisas de o certo para se fazer

mas todas as vagas já estavam ocupadas...

Um dia, achei uma vaga desocupada de o certo

no restaurante de Signori Giovanni,

um antigo imigrante da Aldeia

que havia nascido

de uma Dona Vulcão bem distante

chamada Donna Etna.

(b)

Comecei a trabalhar

no restaurante de Signori Giovanni

fazendo o que todo mundo fazia

quando iniciava a carreira por lá:

descascava batatas em brasa...

(c)

No início adorei o trabalho!

Nunca havia segurado uma faca antes:

a lâmina era tão bonita!

Mas o fio... era tão ruim...

Descascava, descascava batatas,

mas a coisa não rendia...

(d)

Fui ficando aborrecido:

de segunda a sábado,

quando o primeiro badalar do vulcão das horas soava,

começava a descascar batatas em brasa,

e quando o último badalar do vulcão das horas soava,

era hora de ir para casa.

Lá eu dormia, na minha macia cama de carvão em brasas,

até que o vulcão das horas soasse o primeiro badalar:

e mais uma jornada de descascar batatas em brasa...

(e)

Comecei a me cansar daquilo

e falei a Signori Giovanni:

- Isso é chato! A gente descasca batatas até quando?

Signori Giovanni olhou para mim

e me disse bem assim:

- Até ficar velho. Aí você se aposenta

e faz as coisas que realmente quer.

Fiquei olhando Signori Giovanni com uma cara,

daquelas cheias de pontos de interrogação

bem em cima da minha cabeça.

Perguntei de novo:

- E por que a gente faz assim?

Signori Giovanni me respondeu:

- Ué?! Porque é assim o certo! A Vida é assim!

Com ainda mais pontos de interrogação em mim

perguntei bem assim:

- A Vida é assim? Só isso?

Signori Giovanni disse orgulhoso,

estufando o peito honroso:

- Sim! Você fica velho

e depois vê aquele monte de batatas descascadas que acumulou!

Que legal, não é?

Isso é se arranjar, é ficar bem de Vida!

Ergui minha sobrancelha fogosa esquerda,

fazendo uma careta, talvez algo assim:

"Não entendi o que há de legal nisso...

mas o senhor é mais velho

e eu tenho que respeitar o seu saber...

pois as regras da Aldeia dizem a mesma coisa

nos "milhões de tem que e deveria"...

(f)

E o tempo passou...

E eu, o jovem Ió-reh,

passei a viver com a Síndrome da Segunda-feira!

Minha temperatura caía no domingo à noite:

era a febre que acometia os filhos do Fogo!

O problema é que,

com o passar do tempo,

a Síndrome da Segunda-feira

evoluiu para a Síndrome Mais Temida:

a Síndrome do Fogo Apagado!

(g)

Minhas chamas começaram a ficar tão fraquinhas...

Não tinham mais aquele viço, sabe?

Queda de temperatura: a temível febre...

E meus exames de soro de Fogo

até mostravam que haviam

poucos glóbulos vermelhos crepitantes

no meu soro ígneo:

a perigosa Afoguia...

(h)

E assim eu fui vivendo:

como um Fogo que tomava banho de Água Fria...