Arcano 4 – O Imperador
(a)
Até que, em um fim de semana,
encontrei à beira do Rio de Fogo,
bem na hora do Poente da Erupção daquele dia,
o Velho!
(b)
Era um Velho que devia ser muito velho
porque era diferente de todos da nossa Aldeia!
Pois todos que conheço,
além de ter a cabeça tão grande
num pescoço tão pequeno
e olhos pequeninos, opacos,
também tínhamos forte inclinação
em nossos corpos,
quer fosse para a esquerda,
quer fosse para a direita.
Com nossos corpos assim, inclinados,
pendidos, por assimetria,
ninguém conseguia, com elegância,
correr com velocidade sobre as rochas vulcânicas,
nadar com agilidade nas labaredas do Rio de Fogo,
ou voar com altivez nas nuvens de chamas do Céu Flamejante.
(c)
O Velho, porém,
deveria ser muito velho
porque era diferente de todos nós:
sua cabeça era proporcional
ao calibre de seu pescoço...
Seus olhos eram grandes,
incrivelmente expressivos, brilhantes,
o que lhe permitia ver muito longe e com grande nitidez...
Seu corpo era ereto,
reto como um fio de prumo,
nada pendia à esquerda ou à direita
mas todas as suas Forças
pareciam convergir
não para um Centro fora dele
mas para um Centro de Gravidade
voltado ao Interior dele!
Era assim que o Velho,
por detrás de seus longos bigodes finos, ardentes
e de sua longa e esguia barba, crepitante,
que lhe fazia parecer alongado, tal qual um Dragão Chinês,
era aquele que despertava espanto
em todos na Aldeia porque
corria com a velocidade de um mustang
sobre as Rochas Vulcânicas,
nadava com a agilidade de um golfinho
nas labaredas do Rio de Fogo,
e voava com a altivez de uma águia
nas nuvens de chamas do Céu Flamejante!
(d)
Nossa!
Aquele velho deveria ser muito, mas muito velho mesmo
para ser assim tão diferente!
Mas era um diferente tão bonito!
Puxava os nossos olhos para ele,
chamava e prendia a nossa atenção
aquela sua diferença banhada em perfeição!
(e)
Muitos o viam sempre
mas tinham vergonha ou medo de se aproximar,
pois o diferente geralmente assusta...
Mas eu, Ió-reh, não tive dele medo algum,
mas sim imensa curiosidade
porque o Velho parecia ter uma coisa tão bonita,
algo que eu não sabia o que era,
mas que eu sentia querer ter também!
(f)
Foi assim que cheguei perto dele,
e direto, na caradura,
lhe disse bem assim:
- Oi, Velho! Sou Ió-reh!
Sinto que você tem algo bonito
que eu quero ter também!
Onde se consegue isso?
O Velho olhou firme para mim,
deu largo sorriso,
e me disse bem assim:
- Ó, Invertido Ió-reh,
tu és audacioso... gostei de ti!
Por isso assim te digo:
há alguns Movimentos a se fazer
para tu conseguires "o que de bonito eu tenho"...
E aprender a fazer tais Movimentos
necessita de um Treinamento.
(g)
Ouvi isso muito atento,
e respondi nadinha lento:
- Quero fazer esse Treinamento,
você me treina em meu intento?
(h)
Houve muito Silêncio
após minha indagação.
O Velho parecia pensar muito,
em demorada reflexão.
Foi então que ele mexeu
nas pontas de seus longos bigodes,
sorriu sacana para mim
e me disse bem assim:
- Tu não me pareces macho o suficiente...
Pois ao homem conquistar o que tenho
em Treinamento precisa ser muito macho,
e à mulher conquistar o que tenho
em Treinamento precisa ser muito fêmea...
Será que tu aguentas mesmo o tranco?
(i)
Fiquei pasmo, quase em descrença,
ao ouvir tamanha ofensa!
Foi assim que respondi, indignado,
feroz, todo ultrajado:
- Eu sou Ió-reh, e sou muito macho!
Eu aguento tudo, não sou um capacho!
Aguento qualquer Movimento,
quero fazer o Treinamento!
(j)
O Velho fechou e abriu os olhos
e falou muito sério, solene:
- Tudo bem! Te treinarei!
Primeira Lição do Treinamento:
pare de te nutrires, também nutrindo,
de fogo com cinzas, que te rouba o apuro,
e comece a te nutrires de Fogo Puro.
(k)
Fiquei em estado de choque!
Todos na Aldeia comiam fogo com cinzas!
Mais do que isso:
fogo com cinzas também movia
toda a nossa Economia!
Cada vez mais pessoas
trabalhavam nos Campos de Cinzas
bem nos limites de nosso Reino,
limites perigosos porque faziam fronteiras
com o terrível Rio d'Água
onde nenhuma de nossas chamas podia brilhar:
lá tudo era Escuridão em açoite,
Escuridão tão violenta
que devorava até a Noite!
(l)
Deixar de comer fogo com cinzas
era deixar de o certo viver,
pois é o certo o que todos da Aldeia
dizem que todos devem fazer!
(m)
Tremi quando o Velho disse para mim
parar de comer fogo com cinzas
e, tremendo, lhe respondi bem assim:
- É impossível parar de comer fogo com cinzas!
(n)
O Velho me olhou firme
com um olhar relampeando,
que me deu calafrios, quase me apagando,
e olhando para mim disse bem assim:
- Guri, eu não disse "pare de comer",
eu disse, isso sim,
algo de mais profundo fim:
"pare de te nutrires, também nutrindo"!
Mas como tu és tão covarde
dizendo que tua Primeira Lição já é impossível
suspeito que tua macheza
nada mais é do que mera pobreza
sem destreza, nem beleza...
Pois onde tu dizes que tem dureza
mal começa o roçar e já desaba em moleza...
Há aí virilidade e macheza
ou somente conversa para boi dormir?
(o)
Meu Fogo voltou a crepitar forte!
Fiquei num vermelhão,
naquele calor perigoso,
aquele que sobe, poderoso,
quando lhe disse bem assim:
- Vou mostrar que sou muito macho:
lhe farei engolir tais palavras goela abaixo!
(p)
Não sei qual foi o porquê
do Velho ter ficado com aquele imenso sorriso
tão largo e amplo, quase um riso,
quando me viu sair furioso,
crepitando fogoso, trotando raivoso,
em direção à minha casa!
