Arcano 5 – O Papa
(a)
Desde aquele dia
parei de comer fogo com cinzas!
Mal fiz isso e em minha vida cotidiana
comecei a ter vários contratempos
porque todos aos meu redor
não entendiam porque
eu agora comia só Fogo Puro.
Diziam que eu ia morrer
diziam que eu ia adoecer
diziam que eu ia ter uma vida desgraçada,
que nada teria de abençoada.
Diziam até que eu havia enlouquecido
pois o certo eu havia esquecido:
e foi assim que perdi muitas amizades...
(b)
Mas eu ia provar, de tão danado,
para aquele Velho safado
quem é que desaba em moleza
mal começa um roçar!
(c)
O mais estranho foi que,
comendo Fogo Puro,
retirando da minha vida as cinzas,
minha Afoguia virou passado:
agora eu estava curado!
(d)
Quando eu já estava bem firme
na ausência de cinzas em minha vida
fui até à beira do Rio de Fogo
bem na hora do Poente da Erupção daquele dia,
e lá encontrei sentado o Velho, com seus olhos fechados,
sobre suas pernas cruzadas no solo que ardia.
Cheguei à frente do Velho
e me sentei igual a ele.
E fiquei ali, sentado,
todo quieto, parado,
até que ele abrisse seus olhos.
(e)
Demorou, mas ele abriu.
Mas mal os abriu
eu soltei a minha língua
quase como pulga
que se recusa a parar de pular:
- Parei de comer fogo com cinzas!
Quem perdeu sua dureza agora
quando mal começa o roçar?!
O Velho nada disse:
fechou os olhos
e quase começou a rir!
Não sabia o que era tão engraçado!
Ficamos em silêncio.
Aguardava que o Velho algo falasse
mas ele nada disse.
(f)
Eu então rompi o Silêncio:
- Minha Afoguia se curou
comendo Fogo Puro,
e sem cinza alguma na vida,
me sinto com mais apuro...
(g)
O Velho então, sem olhar para mim,
pois de olhos fechados, me disse bem assim:
- Ó, Invertido Ió-reh,
cinzas geram muito Sofrimento...
Cinzas corroem os alicerces
da Casa em que moram autenticamente
os Heróis em semente...
Cinzas enferrujam e destroem
o fio da Espada com que se manifestam
os Heróis em semente...
Cinzas geram muito Sofrimento
pois constroem muros de Labirintos sem fim...
Por isso o Treinamento se inicia
retirando as cinzas, enfim,
para romper os primeiros muros
que deixam o Fogo Puro em apuros.
Ó, Invertido Ió-reh,
lembra-te sempre:
cinzas geram muito Sofrimento
e atrapalham o teu Treinamento...
(h)
Ouvi aquilo com Atenção.
Comecei então, em reflexão,
a ver minha imagem no Rio de Fogo...
E, refletindo algum tempo,
vendo a mim mesmo, ali completo,
fiquei de dúvidas todo repleto!
(i)
Foi assim que, com pontos de interrogação
sobre as chamas dos meus cabelos
perguntei ao Velho assim:
- Se comer cinzas com fogo ao invés de Fogo Puro
causa tanto Sofrimento, enfim,
por que as pessoas continuam comendo assim
e mais do que isso:
vão até os limites do Reino
se arriscam tanto perto do Rio d'Água,
fluido feroz que a tudo apaga,
para irem aos Campos de Cinzas
buscar ainda mais cinzas,
se expondo a tantos apuros,
para despejar em Fogo Puro?
(j)
O Velho pôs seus longos dedos
a acariciar seus bigodes e barba
e parecendo olhar para dentro de Si,
fechou seus olhos e me disse assim:
- Ó, Invertido Ió-reh,
as pessoas fazem isso
porque estão Inconscientes...
Inconsciência gera Sofrimento,
Sofrimento gera Mais Inconsciência,
Mais Inconsciência gera Mais Sofrimento,
Mais Sofrimento gera Muito Mais Inconsciência,
Muito Mais Inconsciência gera Muito Mais Sofrimento,
e assim a roda nunca para de girar,
cada vez mais intensa, sem cessar,
gerando cada vez mais Sofrimento e Inconsciência...
(k)
Não me aguentei:
- Tá, e aí? As pessoas vão girar
para sempre essa roda burra de tormento,
rodando esta do mesmo jeito
causando a si mesmas mais Sofrimento?
Pensei que as pessoas mudavam e mexiam
o jeito de fazer as coisas quando sofriam!
(l)
O Velho, sorrindo, me disse assim,
ainda olhando para dentro de Si mesmo:
- Ó, Invertido Ió-reh,
as pessoas não mudam o jeito de fazer suas coisas
por causa do Sofrimento...
As pessoas mudam o jeito de fazer suas coisas
por causa do Cansaço do Sofrimento!
Quando elas estiverem muito cansadas deste tormento,
decidida e verdadeiramente esgotadas,
pararão de girar esta roda
que tanto as incomoda!
(m)
Fiquei em Silêncio.
Ouvia com Atenção.
E assim ficamos um bom tempo,
em calada fruição,
sem trocar palavra alguma.
Ali ficamos, assim,
até que o velho retirou algo
que havia escondido debaixo
de seu longo sobretudo rubro de Fogo:
uma bainha toda de rubi
onde, dentro, repousava uma Espada!
(n)
Ele a desembainhou,
e eu vi que sua lâmina
era do Fogo mais Intenso
que acredito que ninguém
um dia viu algo tão imenso!
O Fogo era tão luminoso
que parecia o brilho de 301 Sóis
que a tudo envolvia, caloroso!
(o)
O Velho a embainhou novamente,
com elegância e maestria,
fez uma reverência a mim
e, finalmente, disse bem assim:
- Ó, Invertido Ió-reh,
Segunda Lição do Treinamento:
te dou a Espada 301 Sóis,
uma Poderosa Arma Mágica!
(p)
Teu dom é utilizá-la
com o Bom Senso da Sabedoria!
Quando for utilizada
com o Bom Senso da Sabedoria
sua lâmina brilhará como 301 Sóis!
Quando utilizada sem Senso,
Senso, Sensório, Sensitivo, Sentir,
sua lâmina ficará opaca,
igual à faca mais vulgar.
Nesta Segunda Lição,
pratique muita Atenção:
aprenda a fazeres a lâmina
da Espada 301 Sóis
a fazer jus a este nome!
(q)
Quando recebi a Espada 301 Sóis
a primeira coisa que fiz foi desembainhá-la,
voltando-me para o Rio de Fogo
e para o Crepúsculo do Vulcão!
Queria ver seu brilho que encantava,
quase mesmo hipnotizava:
tornar a Noite em Dia!
Mal saiu da bainha,
enquanto eu a empunhava,
e ela ficou opaca
como a lâmina da vagabunda faca
que eu usava para descascar batatas!
Fiquei todo frustrado.
Voltei-me para trás, desenxabido,
para pedir explicações ao Velho
e ele já havia sumido!
(r)
Era Noite. Voltei para casa ligeiro
com aquele precioso presente
debaixo do meu braço, faceiro!
Lógico que estava todo contente:
eu era o único da Aldeia inteira
que possuía uma Arma Mágica!
