Arcano 6 – Os Enamorados

(a)

Passaram-se muitos e muitos dias

e nada da Espada 301 Sóis

fazer jus aos seu nome comigo...

Parecia até presente de grego, coisa de inimigo!

Aquilo me aborrecia, me irritava!

Foi assim que um dia

fiquei com tanta raiva

que fixei sua bainha numa faixa

e a pus em minhas costas:

se a Espada Mágica não servia para brilhar

ao menos serviria para enfeitar!

Totalmente inútil, apenas para me irritar,

é que não me seria, não mesmo!

(b)

E a levei comigo, na hora de trabalho,

ao Restaurante de Signori Giovanni.

Lá, sua beleza causou alguma sensação

mas logo virou rotina e não mais atraía atenção.

(c)

E eu, cuja vida também era mera rotina,

voltei a descascar batatas.

Descascava, descascava,

e nada do serviço render,

com aquela faca tão ordinária

de fio mais grosso

que bigode de gaudério da fronteira...

(d)

Foi então que tive a ideia

de testar o fio da Espada 301 Sóis:

se não brilhava

e se só enfeitar não mais me bastava

quem sabe ela serviria

para bem descascar e cortar?

Peguei uma batata,

tomei a espada, desembainhei-a,

e por pouco não cortei meus dedos!

Que afiada!

Fiquei algum tempo

com ela e as batatas nas mãos

experimentando a melhor estratégia

de conseguir fazer aquela Espada

me ser de alguma utilidade.

(e)

Nisso, passou à porta do Restaurante

nada mais, nada menos, que o Velho!

Quando me viu com a Espada 301 Sóis numa mão,

batatas na outra,

experimentando meu novo aparelho descascador,

ele entrou rapidamente,

chegou veloz até mim

e me tomou a Espada das mãos!

(f)

Olhou severo, muito firme para mim

e me disse bem assim:

- Esta é a Espada 301 Sóis!

Você faz alguma ideia do que tem em suas mãos?

Ela não serve para descascar batatas assim!

(g)

Fiquei espantado, aturdido,

com a severidade do Velho!

Mas ainda mais espantado e perdido

fiquei quando o Velho fez o que fez:

pegou de minhas mãos a batata

e a segurou com a sua mão esquerda

e, empunhando a Espada 301 Sóis

em sua mão direita,

começou a descascar aquela batata

na minha frente, de forma perfeita!

Não apenas descascou uma,

mas, em segundos, muitas batatas!

(h)

Eu, Ió-reh, me irritei, e muito:

- Você me xingou,

tirou a Espada de minhas mãos

porque disse que ela não servia

para descascar batatas!

E o Velho, ainda assim,

ficou descascando batatas bem na minha frente!?

(i)

O Velho?

Sorriu, enquanto ainda estava descascando batatas

e de olhos fechados, sem se cortar!

E, sorrindo para mim, ele disse assim:

- Ó, Invertido Ió-reh,

veja com grande Atenção!

Eu não estou descascando batatas.

Parece que estou descascando batatas,

mas só parece...

(j)

Fiquei muito confuso!

Mas fiz o que ele me pediu:

olhei com grande Atenção

o Velho descascando batatas...

foi então que percebi

que havia algo diferente!

Parecia que o Velho,

muito diferente de mim, enquanto eu descascava,

estava todo ali, quando ele descascava suas batatas!

(k)

Não havia Velho na beira do Rio de Fogo.

Não havia Velho na porta do Restaurante.

Não havia Velho em lugar algum:

o Velho estava todo ali

descascando aquela batata!

(l)

Não havia Velho no Passado,

não havia Velho no Futuro,

só havia Velho no Agora

pois era apenas no Agora

que batata e Espada estavam,

com a lâmina a brilhar como 301 Sóis

e a batata a refletir a Luz dos 301 Sóis!

(m)

Batata, lâmina, Velho e 301 Sóis

eram todos uma coisa só,

uma única Totalidade

no Agora, para o Agora!

(n)

Fiz expressão de espanto ao perceber isso!

Pois antes eu não fazia nada disso!

Vendo meu assombro

o Velho me deu uma batata e a Espada 301 Sóis para mim,

piscou, sorridente, e me disse bem assim:

- Sua vez, experimente!

(o)

Quando eu senti o peso afiado

da Arma Mágica em minhas mãos,

engoli o seco!

Ela, mal toquei-a, parou de brilhar,

ficando novamente opaca.

Com minhas mãos tremendo,

temendo me cortar,

a Espada não brilhou

e eu me cortei várias vezes!

Eu tremia, vendo aquela lâmina afiada

e os cortes nos meus dedos

por onde caíam gotículas de meu Fogo.

Nisso, o Velho fez algo muito estranho:

retirou seu cinto de pano rubro

e o amarrou em minha cabeça,

vendando meus olhos!

(p)

Foi então que ele me disse:

- Ó, Invertido Ió-reh,

o Medo, nutrido pelos olhos pequeninos,

pequeninos porque fazem só barulho,

não pode matar,

mas as ações dominadas pelo Medo

podem matar, e muito!

Medo se fortalece na desatenção

e na atenção da pequenez ao que gera desatenção,

e é assim que Bom Senso,

Senso, Sensório, Sensitivo, Sentir,

acabam sendo assassinados!

(q)

Tenha Atenção, somente Atenção,

pratique Atenção, somente Atenção,

sentindo atento desde seu respirar,

sentindo atento desde a pressão da batata em sua mão,

sentindo atento desde o mínimo som da lâmina sobre a casca:

sentindo atento tudo o que puder,

tudo ao mesmo tempo!

Atenção, Atenção!

E descasque essa batata!

(r)

Segui as instruções do Velho.

Nada mais via, com a venda,

do que podia me ferir:

apenas sentia tudo o que conseguia ao meu redor,

repleto de Atenção,

e fiz tudo bem devagar

praticando Atenção a cada mínimo detalhe

que antes eu nunca imaginava existir.

Fiz isso até que o Velho disse:

- Solte agora a batata,

mantenha a Espada 301 Sóis em sua mão,

e retire com a outra mão a venda dos olhos

sem perder por nenhum instante a Atenção

em cada detalhe enquanto retirar sua venda!

(s)

Obedeci.

Quando retirei minha venda

o impossível havia se tornado possível:

a Espada 301 Sóis brilhava, em minha mão!

Fiquei em uma estado tal

como que tomado de puro êxtase!

(t)

Nisso, o Velho já saía do Restaurante

e, à porta, disse sem olhar para trás,

enquanto abanava para mim:

- Saber praticar Atenção,

esta foi a sua Terceira Lição!

(u)

E o Velho foi embora.

A Espada em minha mão brilhava,

e eu queria mostrar a todos como ela irradiava

mas o Restaurante estava vazio!

Pensei em ir correndo até a cozinha

mostrar para Signori Giovanni minha proeza

mas foi apenas nisso pensar

e a Espada parou de brilhar...