Arcano 8 – A Justiça

(a)

Eu praticava muita Atenção

mas também estava muito curioso:

por que o Velho era tão diferente

de todos na Aldeia?

(b)

Foi assim que,

bem na hora do Poente da Erupção daquele dia,

fui à beira do Rio de Fogo

e lá encontrei aquele que agora chamo

de meu amigo: o Velho!

Ele estava de olhos fechados

sentado sobre suas pernas cruzadas.

Cheguei à frente de meu amigo

e me sentei igual a ele.

E fiquei ali sentado, todo quieto

até que ele abrisse seus olhos.

(c)

Demorou, mas abriu.

Ele mal os abriu, eu o fitei,

mas nada queria que minha língua fizesse:

apenas continuei prestando Atenção àquele momento.

Ficamos os dois, em Silêncio, ainda por muito tempo.

(d)

Só depois que a Noite reinou

é que minha língua entrou em ação,

mas sem cessar de prestar Atenção:

- Velho, por que você é assim, tão diferente,

e por isso caminha tão rápido: nos deixa para trás?

Além disso, muitos da Aldeia não tem sorte nenhuma

pois tem Afoguia e Síndrome de Fogo Apagado

mas você não tem doença alguma...

Qual o seu segredo por detrás?

(e)

Eis sua resposta:

- Sou assim diferente,

e nunca fico doente,

porque a Aldeia está cheia de gente

que nunca ouve a si própria:

porém ouve todas as exigências.

(f)

As pessoas da Aldeia

são surdas ao Fogo das 301 Cores

que crepita no meio do peito de todas elas:

elas não dão Atenção aos pedidos

deste Fogo de Infinitas Cores

e, surdas a Ele,

insistem em dar atenção à desatenção,

de obedecer à programações,

o Desejo Exigente,

o programa que tudo e a todos coloca em caixas,

em fôrmas e moldes, conforme o programado.

(g)

As pessoas que fazem isso

perdem o Centro de Gravidade de seus corpos

e passam a mancar,

seja para a direita, seja para esquerda,

porque se colocaram, elas mesmas,

fora do Centro que habita em seus corpos

adotando e adorando um centro lá fora

que não passa de mera programação.

Como essa programação,

esse robô que cria vida robotizada,

não interessa aos seus corpos,

é assim que as pessoas ficam tão doentes.

(h)

E meu Velho amigo, piscando para mim,

finalizou dizendo bem assim:

- Mas eu sempre fui rebelde, independente,

assim nunca me submeti

ao Desejo Exigente

que queria oprimir em mim

tudo o que me tornava Gente!