Arcano 11 – A Força
(a)
Foi naquela manhã de Inverno,
tão fria que nem o fogão do Restaurante bem aquecia
atordoando Signori Giovanni e seus negócios,
que alguém entrou desesperado no Restaurante!
Era a mãe de Oãça, que chorava,
e em seus prantos, gritava:
- O Dragão Gordo
levou minha Oãça!
Minha Oãça agora é refém
no fundo de horrível frio,
na intensa escuridão, aprisionada,
das profundezas daquele Rio
de hostil Água Congelada!
E a Senhora chorava, em apelo,
no mais profundo desespero!
Signori Giovanni colocou a pobre Senhora
perto do fogão, para aquecê-la e acalmá-la.
(b)
Ao ouvir aquela notícia
minhas pernas tremeram,
o chão sumiu sob meus pés,
e uma neblina se apoderou de meus olhos!
Linda Oãça estava em grave perigo
em horroroso lugar sem abrigo!
(c)
Sentei numa cadeira...
Deixei cair ao chão
minha batata e minha faca sem fio...
Quando o som da faca banal
caindo no piso da cozinha do Restaurante
tiniu em meus ouvidos som sem igual,
o som de pedra batendo em metal,
foi que num só golpe me lembrei:
a Espada 301 Sóis!
(d)
Foi esse o exato momento
em que desliguei todas as infinitas vozes
que sempre moravam em minha cabeça
e apenas senti o brilho da Espada
como se ela e eu fossemos um só!
(e)
Com Silêncio de vozes em minha cabeça
me levantei rápido da cadeira,
fui até o fogão,
toquei nas mãos da Senhora
e lhe disse assim à hora:
- Eu buscarei nossa linda Oãça!
Ela voltará comigo ao nosso Reino!
(f)
Mal eu disse isso,
Signori Giovanni começou a falar,
a falar, a falar e a falar,
e falou tanto que nem me lembro
de quase nada do que ele disse,
mas foi tudo mais ou menos isso:
- Ficou doido, Ió-reh? Pazzi?!
Você é só um descascador de batatas,
nunca vai matar o Dragão Gordo!
Isso é coisa apenas para os heróis,
jamais para um tapado e inútil
descascador de batatas!
(g)
Eu, no Silêncio de vozes em mim,
naquele raro mutismo total de minha cabeça,
muito firme lhe disse assim:
- Não vou descer ao fundo
do Rio d'Água Congelada
para matar o Dragão Gordo:
vou lá primeiro
para conversar com ele,
olho no olho,
face a face!
(h)
Signori Giovanni continuou a falar,
a falar, a falar e a falar:
"descascador de batatas tem que ser isso",
"descascador de batatas deveria ser aquilo",
falava e falava e falava!
Então eu retirei meu avental corriqueiro,
coloquei-o nas mãos dele bem ligeiro
e, finalmente, neguei o que me negava:
(i)
- Se como descascador de batatas
não posso fazer o que sinto ser meu certo,
este foi o último momento em que me omito
como descascador de batatas:
eis que me demito!
(j)
Signori Giovanni continuou a falar,
a falar, a falar e a falar,
mas eu sai rápido dali!
Ia direto para casa bem depressa,
buscar a Espada 301 Sóis, "e vamos nessa!",
pois se eu ficasse mais um segundo ali
Signori Giovanni falaria tanto,
nas tanto, que facilmente me convenceria
de que tudo o que eu sentia estava errado
e assim me deixaria todo amarrado!
(k)
Tomei Espada 301 Sóis,
fixei sua bainha numa faixa,
a pus em minhas costas
e parti imediatamente.
(l)
Mas não fui diretamente
ao temível Rio d'Água Congelada.
Antes fui ao Rio de Fogo:
ver o Velho, meu amigo,
orar perante o Rio de Chamas,
e com o Velho, orando comigo,
para que realmente minha flama
queimasse para sempre
meu avental de descascador de batatas.
(m)
Não iria lá para rezar
por sucesso, glória, fortuna...
Iria orar ao Rio de Fogo,
ao lado do Vulcão em que nasci,
para apenas manifestar em minha empreitada
tudo que de melhor havia em mim nesta jornada!
E que nenhuma Labareda minhas fosse aquém
de toda a minha capacidade, e sim até além!
(n)
Viver ou morrer,
desencarnar ou permanecer encarnado,
sucesso ou fracasso,
nada disso me importava mais.
Somente manifestar ao máximo
o que eu sentia que havia em mim
era tudo que me importava agora!
