Arcano 13 – A Morte

(a)

E o Velho se pôs a andar

em direção ao Rio d'Água Congelada

demonstrando que ali, à beira do Rio de Fogo,

nenhuma Lição mais me aguardava.

(b)

Me pus a marchar, o alcancei,

e mais do que isso, o ultrapassei,

porque eu sentia que aquela marcha

era a minha marcha,

minha, apenas minha, nada mais que minha.

(c)

Quando eu o ultrapassei,

ouvi sua voz atrás de mim,

dizendo bem assim:

- Sim, tu acertaste em cheio

pois és tua esta marcha.

Mas não importa aonde fores,

estarei sempre atrás de ti.

Porém jamais olhes para trás

pois não poderás me ver,

mas atrás de ti sempre eu estarei!

Olhar para trás apenas dará

imenso poder aos 6 Monstros!

(d)

Lembro-te também:

serás tu e somente tu quem empunharás

a Espada 301 Sóis contra cada Monstro,

mas ainda assim eu estarei atrás de ti,

dando-te cobertura contra a Água Cruzada.

Porém, será no momento mais crítico

que tu poderás ver-me ao teu lado:

estarei com rosto tranquilo, imóvel e bem sentado,

pois jamais estarás sozinho em teu difícil legado!

(e)

Chegamos ao Rio d'Água Congelada

que, sinuoso, cortava o Campo de Cinzas.

Quando pus meu pé sobre o Temível Rio

o frio do gelo subiu tanto pelos meus dedos

que meu pé logo se apagou! Que dor!

Sentei ligeiro no Campo de Cinzas

tentando acender meu pé novamente,

e até conseguir isso, que susto foi:

pensei que meu nome mudaria totalmente

de Ió-reh para Sem-pé!

(f)

Qual não foi a minha surpresa

quando eu, ainda ali sentado,

protegendo-me no Campo de Cinzas,

vi o Velho caminhar sobre o gelo sem igual,

como quem passeia no próprio quintal!

Não eram os frios do gelo que subiam

aos pés do Velho, cortando-os rente:

eram os pés do Velho quem desciam

transformando o que antes era gelo

em pegadas de vapor, Água Fervente!

Foi nesse exato momento

em que o Velho, em fácil intento,

vencia aquele gelo que me era um tormento,

olhou muito firme para mim

e me disse bem assim:

(1)

Ó, Invertido Ió-reh,

chegou a hora da Quinta Lição:

conheceis o que o Grande Oponente teme!

Estás agora à beira do Reino do Oponente:

o oposto a tudo o que tu és.

(2)

Se entrares neste Reino com teu fogo banal

o resultado será inevitavelmente fatal:

perderás teus pés e tudo que neste Reino tocar

e assim nada restará: tudo se apagará!

(3)

O Reino do Oponente se nutre do fogo banal:

isso é o seu café da manhã, sua mera distração,

por isso cada herói que antes de você aqui veio

tombou, transformando-se em fácil refeição!

(4)

Para adentrar no Reino do Oponente

precisas estar imerso no que vai além do fogo banal,

e este Fogo tem um nome:

o Fogo das 301 Cores!

(5)

Ó, Invertido Ió-reh, ouça com Atenção:

o fogo banal se nutre da visão banal,

da sensação banal, do sentimento banal,

das banalidades mil.

(6)

O fogo banal, fogo com "f" minúsculo,

é banal porque sua identificação

é sempre com a forma.

Onde houver a identificação

de Ió-reh com a forma,

tudo que for limitado e frágil como a forma

se transformará em Ió-reh.

(7)

Se Ió-reh acreditar que é

a forma que se apaga na Água

e que, apagada, desaparece para sempre,

Ió-reh vai morrer,

embora em Verdade jamais tenha morrido.

(8)

Se Ió-reh acreditar que é

a forma que sofre na Água

e que, sofrendo, viverá em vale de lágrimas,

Ió-reh vai sofrer,

embora em Verdade jamais tenha sofrido.

(9)

Se Ió-reh acreditar que é

a forma que peca na Água

e que, pecando, viverá em castigo eterno,

Ió-reh vai ser castigado,

embora em Verdade jamais tenha pecado.

(10)

Esta é a Prisão da Forma

esculpida pela crença de Ió-reh

de que ele é apenas o que os olhos podem ver,

de que ele é apenas o que os ouvidos podem ouvir,

de que ele é apenas o que a língua pode degustar,

de que ele é apenas o que o nariz pode farejar,

de que ele é apenas o que a pele pode tatear.

(11)

Esta é a Prisão da Forma

que crepita no fogo banal,

tão banal porque reduz tudo o que Ió-reh é

em apenas duas linhas, em uma lápide:

nascido em dia tal de mês tal de ano tal,

falecido em dia tal de mês tal de ano tal.

(12)

Esta é a Prisão da Forma

que crepita no fogo banal,

banal porque acredita que Ió-reh

teve um começo e terá um fim.

(13)

Uma vez que terá um fim,

o fogo banal teme horrivelmente esse fim!

Faz tudo para evitar esse fim

pois para o fogo banal o fim é a não-existência,

e nada no Universo causa maior temor

do que a não-existência!

(14)

E, assim, se Ió-reh acreditar que é a forma,

toda a sua vida será pautada

apenas para evitar que a forma

seja devorada pela não-existência,

e para sempre Ió-reh apenas manifestará

o frágil fogo banal,

frágil porque é fogo refém do Medo.

(15)

Ó, Invertido Ió-reh, ouça com Atenção:

todo fogo que for refém do Medo

será fogo limitado,

e fogo limitado nunca conseguirá perceber

o Real tamanho de todas as coisas.

(16)

O fogo limitado, limitado porque banal,

banal porque limitado,

verá tudo errado porque tem visão estreita,

e assim, preso na limitada visão,

verá um formiga e a tratará com desprezo porque é pequena,

verá um elefante e o tratará com respeito porque é grande,

verá um monte de esterco

e o tratará com desprezo porque terá nojo,

verá um monte de ouro

e o tratará com cobiça porque terá atração,

verá um monte de cadáveres

e os tratará com revolta porque terá medo,

verá um monte de lindas moças nuas

e as tratará com volúpia porque terá desejo.

(17)

O fogo banal, prisioneiro da forma,

jamais conseguirá sentar-se

em um local nobre em que possa ver tudo,

a partir de um vasto ponto de vista,

porque seus olhos são míopes:

mesmo sentado no cume da mais alta montanha da Terra

verá apenas alguns centímetros à frente de seu próprio nariz.

(18)

O fogo banal, prisioneiro da forma,

não consegue ver os Grandes Movimentos,

não consegue ver os Grandes Processos,

não consegue ver o Desencadear dos Fatos

que se desenrolam ao longo dos séculos

na Esteira da Eternidade.

(19)

Eis o fogo banal, eis aquele que se enfraquece

quando a Água lhe acaricia suavemente,

eis aquele que se extingue e morre

quando a Água lhe chicoteia violentamente.

(20)

Ó, Invertido Ió-reh, ouça com Atenção:

se tu queres entrar no Reino do Oponente

e queres sair de lá vitorioso de uma vez por todas

sem que precises morrer,

sem que precises novamente nascer,

sem que precises novamente morrer,

sem que precises novamente nascer de novo,

sem que precises novamente morrer de novo,

sem que precises novamente nascer de novo outra vez,

eternamente entrando e sendo derrotado no Reino do Oponente,

tens que fazer isso:

desidentificar-se da forma,

desidentificar-se do fogo banal!

(21)

Eis os perigos do fogo banal,

o fogo que Ió-reh julgava ser fogo

mas que na verdade não passa

de frágil cortina de fumaça

que encobre o Verdadeiro Fogo:

o Fogo das 301 Cores!

(22)

Ó, Invertido Ió-reh, ouça com Atenção:

é o Fogo das 301 Cores,

o Fogo Transcendente,

a tua Verdadeira Natureza!

Eis o Fogo com quem Ió-reh

deve profundamente identificar-se

com toda a capacidade de sua Inteligência

e com toda a sinceridade de seu Coração!

(23)

O Fogo das 301 Cores, fogo com "F" maiúsculo,

é Verdadeira Natureza porque sua identificação

é sempre com a Não-forma.

Onde houver a identificação

de Ió-reh com a Não-forma

tudo que for Ilimitado e Livre como a Não-forma

se transforma em Ió-reh!

(24)

Se Ió-reh acreditar que é

a Não-forma que jamais se apaga na Água

e que, crepitando sempre, brilhará eternamente,

Ió-reh vai viver eternamente,

mesmo que a forma de Ió-reh tenha desaparecido!

(25)

Se Ió-reh acreditar que é

a Não-forma que jamais sofre na Água

e que, jamais sofrendo, viverá em Estado de Contentamento,

Ió-reh viverá em Contentamento,

mesmo que a forma de Ió-reh passe por desafios!

(26)

Se Ió-reh acreditar que é

a Não-forma que jamais pecou na Água

e que, imaculada, viverá em Bem-aventurança Eterna,

Ió-reh vai ser glorificado,

mesmo que a forma de Ió-reh cometa erros,

porque os erros nada mais são que a porta de entrada triunfal

para a glória do Palácio dos Acertos!

(27)

Esta é a Liberdade da Não-forma

esculpida pelo Sentimento Mais Profundo de Ió-reh

de que ele é muito mais do que os olhos podem ver,

de que ele é muito mais do que os ouvidos podem ouvir,

de que ele é muito mais do que a língua pode degustar,

de que ele é muito mais do que o nariz pode farejar,

de que ele é muito mais do que a pele pode tatear.

(28)

Esta é a Liberdade da Não-forma

que crepita no Fogo das 301 Cores,

Verdadeira Natureza porque Ió-reh vira o que é

nos infinitos fios da Teia do Universo:

jamais nascido, pois é co-Criado do Incriado,

jamais falecido, pois é Chama Eterna Una à Teia da Vida!

(29)

Esta é a Liberdade da Não-forma

que crepita no Fogo das 301 Cores,

301 porque Sente Profundamente que Ió-reh

jamais teve um começo ou um fim,

pois 301 é o Símbolo Africano do Infinito!

(30)

Uma vez que lhe é impossível ter um fim,

o Fogo das 301 Cores ri-Se diante de um suposto fim!

Gargalha e debocha deste "fim"

pois, para o Fogo das 301 Cores, o fim é a não-existência,

e nada no Universo lhe causa mais vontade de rir

do que a crença infantil na não-existência!

(31)

Como pode a Própria Existência,

que é o próprio crepitar do Fogo das 301 Cores,

temer algo tão infantil e imaturo como a não-existência?

Como pode o Incriado,

que deu de Si para co-Criar toda a imensidão do Kosmos,

que é o próprio crepitar do Fogo das 301 Cores,

temer algo tão infantil e imaturo como a não-existência?

(32)

Pois sabe o Fogo das 301 Cores em Ió-reh

que a forma apenas se transforma

a mando da Não-forma,

que a forma apenas se trans-forma

sob o comando da Não-forma!

Temer o quê, então?

(33)

É assim que Ió-reh, sentindo que é Não-forma,

tem toda a sua vida pautada

primordialmente para manifestar

a Existência Gloriosa da Não-forma,

e para sempre Ió-reh gradualmente manifestará

o Verdadeiramente Poderoso Fogo das 301 Cores,

Verdadeiramente Poderoso porque é Livre do Medo!

(34)

Ó, Invertido Ió-reh, ouça com Atenção:

todo Fogo que for Livre do Medo

será Fogo Verdadeiramente Poderoso

crepitando na Glória, faiscando na Pira Eterna,

e Fogo Livre facilmente conseguirá perceber

o Real tamanho de todas as coisas!

(35)

O Fogo Livre, Livre porque Verdadeira Natureza,

Verdadeira Natureza porque Ilimitado,

verá tudo Certo porque tem visão imensa,

e assim, Livre pela imensa visão,

verá uma formiga

e a tratará com respeito porque a formiga é o que é,

verá um elefante

e o tratará com respeito porque o elefante é o que é,

verá um monte de esterco

e o tratará com cuidado porque o esterco é o que é,

verá um monte de ouro

e o tratará com cuidado porque o ouro é o que é,

verá um monte de cadáveres

e os tratará com sabedoria pois o cadáver é o que é,

verá um monte de lindas moças nuas

e as tratará com sabedoria pois a linda moça nua é o que é.

(36)

O Fogo das 301 Cores, Livre da forma,

facilmente conseguirá sentar-Se

no local mais nobre, em que possa ver

tudo a partir de um vasto ponto de vista,

porque Seus olhos são grandiosos:

Ele sentará no Trono da Existência

ao lado de Sua Rainha, a Teia da Vida,

e verá tudo com a grandiosidade de um Monarca!

(37)

O Fogo das 301 Cores, Livre da forma,

Senhor da Não-forma,

consegue ver, sentir e fazer os Grandes Movimentos,

consegue ver, sentir e fazer os Grandes Processos,

consegue ver, sentir e fazer o Desencadear dos Fatos

que se desenrolam ao longo dos séculos

na Esteira da Eternidade!

(38)

Eis o Fogo das 301 Cores, eis aquele que Se ri

quando a Água lhe acaricia suavemente,

eis aquele que Se ri

quando a Água lhe chicoteia violentamente,

pois o Fogo das 301 Cores sabe que

Fogo e Água são apenas faces aparentes

da mesma moeda que compõem os dois

pois que, em Verdade, dois são Um Só!

(39)

Ó, Invertido Ió-reh, ouça com Atenção:

se tu queres entrar no Reino do Oponente

e queres sair de lá vitorioso de uma vez por todas

sem que precises morrer,

sem que precises novamente nascer,

sem que precises novamente morrer,

sem que precises novamente nascer de novo,

sem que precises novamente morrer de novo,

sem que precises novamente nascer de novo outra vez,

eternamente entrando e sendo derrotado no Reino do Oponente,

tens que fazer isso:

identificar-se com a Não-forma,

identificar-se com o Fogo das 301 Cores!

(40)

Eis as Bem-aventuranças do Fogo das 301 Cores,

o fogo que Ió-reh julgava não ser fogo

porque antes não o via

além da frágil cortina de fumaça da forma.

Mas Ió-reh pode senti-Lo, além da cortina de fumaça,

pois o Verdadeiro Fogo é aquele que não é visto

mas sentido, em Bom-senso,

Senso, Sensório, Sensitivo, Sentir,

pois é esse o único Fogo do Universo

que faz a Espada 301 Sóis brilhar:

o Fogo das 301 Cores!

(41)

Este foi o porquê a ti, ó Ió-reh,

dei a Espada 301 Sóis:

para que teus olhos VISSEM por si mesmos

o que antes se escondia Além da cortina de fumaça,

enquanto tu não pudesses SENTIR este mais Além!

(42)

Espada 301 Sóis é apenas um Espelho

para que tu, ó Ió-reh, possa sempre te lembrares

que és tu mesmo a fonte do Brilho Eterno

da Espada 301 Sóis: o Fogo das 301 Cores!

(43)

Por isso, ó Ió-reh, ouça com Atenção:

empunha a Espada 301 Sóis,

faça-a brilhar como só tu podes fazer,

sobe já neste Rio d'Água Congelada,

derretas este gelo no crepitar de tua Chama,

vaporizes esta água no bailar de teu Espírito,

entra já neste Rio d'Água

e faças já o que só a ti compete fazer!

Eis o fim da Quinta Lição!

Anda!