Arcano 15 – O Diabo
(a)
Minha Luz Chamuscante na escuridão
imediatamente atraiu a atenção
da primeira criatura que se manifesta
quando um Reino é adentrado
e ela, nadando furiosa, saltou em minha direção!
(b)
Eis o primeiro dos 6 Monstros:
a criatura era uma serpente aquática
com a metade de cima de um homem.
Não tinha pernas, eis a parte serpente,
mas tinha braços, pescoço e cabeça,
eis a metade gente.
E a parte serpente era horrível:
possuía 7 caudas
e no final de cada uma das 7 caudas
mais 7 caudas em outras 7 caudas
totalizando 70 vezes 7 caudas!
Cobrindo seu tronco havia um manto
repleto de símbolos e brasões.
Em sua mão esquerda havia um cetro dourado
em sintonia com o que lhe foi coroado:
em sua cabeça havia o que torna reis em reis!
(c)
O Monstro imediatamente em mim se enroscou
querendo me dar trágica recepção.
Declinei do convite e entrei em ação!
Com golpe certeiro de 301 Sóis
me desvencilhei do abraço mortal
e lhe retribuí com reverência real:
se não se esquivasse e rápido se afastasse,
o Monstro teria terminado estraçalhado
exatamente como jazia agora seu manto real
beijado por Espada 301 Sóis!
(d)
Fui objetivo, com poucas palavras,
e interroguei-o assim:
- Ó, Senhor Monstro Feroz,
que em esmagar e oprimir tanto se apraz,
onde está minha linda Oãça
e os outros reféns?
O Monstro, afastado de mim,
me respondeu assim:
- Que falta de respeito, rapazinho!
Fiquei perplexo! Perguntei:
- Por que, ó Senhor Monstro Feroz?
O Monstro respondeu assim:
- Porque onde já se viu chamar de Monstro Feroz
um Rei?! Que caradura!
Eu tenho um nome, ouviu?
E não é, nunca foi
e nunca será "Monstro Feroz"!
Eu sorri, alegremente, por minha gafe.
Imediatamente perguntei:
- E qual é sua graça?
Como resposta, assim ouvi:
- Lord Geo Politics!
O Rei nadava ao meu redor,
estudando qualquer brecha em minha guarda,
mas como não encontrou nenhuma
deu um sorriso amarelo para mim
e me disse bem assim:
- Mas, para os amigos poderosos,
prefiro que me chamem apenas de Lord Geo!
(e)
Grande cortesia havia nascido
onde, momentos atrás, quase fui comido!
Foi então que me lembrei da Quarta Lição,
não abrir a boca mas erguer o Coração,
e lembrando disso, eu disse isso:
- Ó, Lord Geo, Rei deste Rio d'Água,
me diga onde está minha linda Oãça?
(f)
Lord Geo enroscou-se em seu Trono
mostrando amplo sorriso vencedor
e, sentindo-se senhor da situação,
me deu seu golpe mais fatal:
- Ó, Poderoso Rapazinho,
se tu te curvares perante mim,
não apenas te mostrarei onde está tua linda Oãça
mas também farei todos de tua Aldeia
se curvarem perante ti!
Não! Farei muito mais do que isso!
Não apenas os de tua Aldeia se curvarão perante ti,
mas também te darei concentrado Poder
sobre toda gente de todas as terras
que teus olhos desejarem!
(g)
Era um convite generoso
para um papo bem gostoso!
Mas quanto mais eu falasse
menos Ar em meus pulmões haveria.
Portanto, para mim não acabar mal,
respondi com presteza sem igual:
- Agradeço sua oferta generosa
vinda de boca tão poderosa,
mas não me resta opção
senão declinar de sua boa ação!
Não preciso mais do que tenho
porque vejo em você, ó Grandioso Lord Geo,
o quanto lhe pesa esta imensa Coroa...
Tanto Poder concentrado assim
tanto curva e fere sua coluna,
e assim também não quero terminar...
Mas se você me disser
onde está minha linda Oãça
lhe faço uma Massagem Mágica
e lhe curo destas dores de coluna!
(h)
Quando eu, Ió-reh, disse isso,
o Rei fez cara de extremo espanto
e, muito impressionado,
por mim quase enfeitiçado,
nada conseguiu esconder:
- És astuto e perspicaz
pois antes de ti ninguém por aqui
viu assim todo o meu pesar!
Confesso, sem nada a ocultar,
o quanto ando cansado e exaurido
com tanta angústia e ansiedade
que são naturais efeitos colaterais
de tanto Poder concentrado
a esmagar meus ombros.
Com tantas dores de pescoço,
de coluna e de ciática,
não consigo mais ter Paz
e assim nem tanto Poder mais me apraz!
Não há nada pior que adoecer
da reumática Angústia do Poder
e da nevrálgica Ansiedade de Perder!
Portanto, gostei de tua oferta:
sua linda Oãça está com meu fraterno,
Lord Make Money, meu irmão gêmeo,
que faz larga morada em portentoso Balcão
na próxima esquina do Rio.
Agora, cumpra sua parte do trato,
senão te ponho no meu prato!
(i)
Fazer um bom contrato
com tanto poder concentrado
exigia não só tato como muito trato,
e assim, muito respeitoso
e extremamente cuidadoso, cauteloso,
solicitei que o Rei me emprestasse sua algoz:
sua Coroa que lhe trazia dor atroz.
(j)
Muito desconfiado ele a retirou
e vendo que minha guarda continuava erguida
sem demonstrar qualquer menção de fuga
seu maior bem ele me emprestou
e numa imensa mesa de massagem
ele tornou o fundo do Rio e se deitou.
Com um olho nele e outro na Coroa,
o Fogo afiado de meus hábeis dedos
de ex-descascador de batatas
retirou do símbolo real
70 vezes 7 pedras preciosas
todas muito pesadas, sem vida.
(k)
Cuidado de perto pelo Monstro,
eu, com muito tato e fino trato,
e Espada 301 Sóis em prontidão
para um eventual rompimento de contrato,
pedi licença para colocar uma pedra preciosa
sobre a ponta de cada uma das 70 vezes 7
caudas de serpente do Rei prepotente.
(l)
Mal terminei isso, lhe pus de volta sua Coroa
e lhe solicitei a levantar.
Ficando de pé, foi com imenso espanto
que todas as dores que o atormentavam tanto
haviam virado mero passado:
agora ele estava curado!
(m)
Sua alegria e alívio foi sem igual
a ponto de, tomado de puro êxtase,
cada uma das 70 vezes 7 caudas
brilhavam com as novas pedras preciosas
repletas de imensa Vida!
E era tanta Vida que brotava de suas caudas
que cada uma delas mudou de formato:
das assustadoras serpentes
belas pessoas nasceram de fato!
Vendo nascerem de si tantos filhos
o ex-carcomido Rei tanto se emocionou
que linda pessoa ele também se transformou!
Tomado de júbilo, ele olhou para mim
e, apertando minha mão, me disse assim:
(n)
- Não só me curaste
como também me mudaste,
ó Poderoso Rapazinho!
Agora eu e toda minha gente
estaremos sempre ao teu lado
não importa o que aconteça,
e estaremos sempre contigo
não importa aonde fores!
(o)
Embainhei Espada 301 Sóis
e lhe disse bem assim:
- Então, Lord Geo,
sejas bem-vindo!
Vem comigo!
(p)
E lá fomos nós!
Eu, o Senhor, a Fonte Eterna,
ele, a Ferramenta, o Paramento.
Monstro deixou de ser Monstro
e passou a ser Belo Instrumento!
