Arcano 16 – A Torre
(a)
Quando nós cruzamos a esquina
saquei de imediato Espada 301 Sóis
pois senti que estava de cara
com terrível e implacável novo desafio
atraído por meu luminoso Fogo Chamuscante!
(b)
Assim como quando um Reino é adentrado
a primeira coisa que lhe interpela é a Coroa,
logo depois dela, ou geralmente junto dela,
quem vem lhe interrogar é a Cara e a Coroa!
(c)
Saquei veloz a Espada e mal tive tempo
de me defender de um golpe do Monstro violento
que surgiu mais veloz que o vento:
terrível Monstro saltou de um Balcão,
e se não fosse pela Espada 301 Sóis
estaria agora estirado morto no chão,
mas golpeei-o com minha Espada
e o Monstro saltou para outro Balcão!
(d)
Eu estava num recanto do Rio
repleto de Balcões de Cimento
que pareciam ter um Monstro igual
por detrás de cada Empreendimento!
Pensei rápido e mudei de posição
e foi aí que vi que era tudo armação:
não passava de um jogo de espelhos,
onde apenas um só Monstro ditava
pois os demais eram apenas seu reflexo!
Fiquei perdido um tempo
enquanto o Monstro parecia ser muitos,
pois o virtual dos espelhos me confundia,
e a criatura se movia nos umbrais detrás dos Balcões
e eu só sentia o Monstro real quando ele saltava
sempre em direção ao meu pescoço!
(e)
Ao descobrir sua rede de túneis
antecipei seu movimento
e, zás, dito e feito:
veio a criatura com sua bocarra aberta
tão veloz que eu só via uma sombra pela metade,
escura e mortal como Nuvem de Tempestade,
mas sua boca não encontrou meu pescoço
e sim a lâmina afiada da Espada 301 Sóis!
Dei-lhe um forte corte, contundente,
e lhe arranquei o seu maior dente!
Foi apenas assim, ferida, que a fera se afastou,
meio que parou, cessando de me agredir.
(f)
Foi só então que eu puder ver
como era o meu virtual agressor,
que de Balcão em Balcão
agia sem Pátria e sem Alma:
Eis o segundo dos 6 Monstros!
O corpo era de um homem
mas a cabeça era de um Monstro!
Olhos gigantescos me encaravam
com uma boca e focinho imensos,
com dentes de todo o tamanho e formato,
exceto o maior, que eu já havia tomado.
A sua boca era tão imensa
que parecia poder qualquer coisa engolir
pois havia tanta saliva, aquela Besta babava tanto,
que certamente digeriria qualquer coisa!
(g)
Vendo aquele Monstro à minha frente,
aparentemente tão diferente,
voltei apenas um olho para Lord Geo,
atrás de mim, e eu não pude deixar
de assim lhe indagar:
- Vocês são irmãos gêmeos realmente
mesmo sendo assim tão diferentes?
(h)
E bem atrás de mim,
Lord Geo disse assim:
- Puxa! Ninguém acredita quando digo
que o Barão é meu irmão...
bem, não digo exatamente "ninguém"
porque até existe alguém:
há os Teóricos da Conspiração
dizendo que até mais que irmãos,
somos irmãos siameses,
mas isso garanto que não passa de armação
ou, melhor dizendo: intriga da oposição!
(i)
Voltei novamente meus dois olhos
para onde a Besta-fera estava parada,
se recompondo do dente perdido
e, aproveitando de imediato aquela rara oportunidade,
pois oportunidade mais instinto igual a lucro,
com minha Espada em riste, lhe disse assim:
- Ó, Lord Make Money, Barão deste Rio d'Água,
me diga: onde está minha linda Oãça?
(j)
Lord Make Money pulou sobre um Balcão
assenhoreado de quatro sobre ele,
mostrando amplo sorriso vencedor
e, sentindo-se senhor da situação,
me deu seu golpe mais fatal:
- Ó, tão Astuto Rapazinho,
comigo não precisas destes formalismos!
Para os amigos tão astutos tenho apreço,
portanto me chame apenas de Lord MM!
Assim, ó Astuto Rapazinho,
se tu te curvares perante mim
não apenas te mostrarei onde está tua linda Oãça
como também nunca mais te deixarei passar necessidades!
Não! Farei muito mais do que isso!
Não apenas nunca mais passarás necessidades,
bem como nenhuma dificuldade,
como também te darei capacidade de satisfazer
qualquer necessidade, mesmo desnecessária,
com que venhas um dia a sonhar!
(k)
Isso me soou tão familiar...
onde eu já ouvi antes
algo assim tão semelhante?
Bom, deixa pra lá...
(l)
Era um convite generoso
para um papo bem gostoso!
Mas quanto mais eu falasse
menos Ar em meus pulmões haveria.
Portanto, para mim não acabar mal,
respondi com presteza sem igual:
- Agradeço sua oferta generosa
vinda de boca tão grandiosa,
mas não me resta opção
senão declinar de sua boa ação!
Não sinto mais necessidades,
muito menos as desnecessárias:
meu segredo é ter coisas boas
mas jamais deixar as coisas boas me terem!
Mas vejo em você, ó Astuto Lord MM,
o quanto nunca ter percebido isso
lhe causa a agonia desta imensa fome...
Tanta insaciedade concentrada assim
lhe ulcera e corrói o estômago:
você come sempre sem cessar
sem nunca a fome passar,
e assim também não quero terminar...
Mas se você me disser
onde está minha linda Oãça
lhe dou uma Comida Mágica
e lhe curo desta fome que nunca passa!
(m)
Quando eu, Ió-reh, disse isso,
o Barão fez cara de extremo espanto
e, muito impressionado,
por mim quase enfeitiçado,
nada conseguiu esconder:
- És astuto e perspicaz
pois antes de ti ninguém por aqui
viu assim todo o meu pesar!
Confesso, sem nada a ocultar,
o quanto ando cansado e exaurido
por jamais conseguir me sentir nutrido!
Beber de minha Água
é como buscar se preencher
em taça de Água do Mar:
a sede nunca cessará!
Que tormento, eu não mais aguento!
Minha úlcera me massacra,
minha língua sempre inchada,
e quanto mais eu como
menos sabor eu sinto!
Nada do que antes tinha tanto gosto,
doce, salgado, fino, encorpado,
me preenche mais de prazer:
fome me devora por dentro!
Não tenho mais nenhuma Paz
e assim nem tanto Ter me apraz!
Não há nada pior que adoecer
da faminta Necessidade de Ter Mais
e do ulceroso Temor de Perder!
Portanto, gostei de tua oferta:
sua linda Oãça está com meu confessor,
Lord Bishop, meu velho amigo,
que faz larga morada em portentoso Altar
no próximo alargamento do Rio.
Agora, cumpra sua parte do trato,
senão te ponho no meu prato!
Pois eu sempre mato num só ato
quem ousa quebrar um contrato!
(n)
Fazer um bom contrato
com tanta usura e avareza
exigia não só tato como muito trato,
e assim, com presteza,
e extremamente cuidadoso, cauteloso,
solicitei que o Barão me abrisse sua algoz:
sua Bocarra que lhe trazia fome atroz.
(o)
Muito desconfiado ele a abriu
e, vendo que minha Espada estava abaixada
mas minha guarda continuava erguida,
sem lhe demonstrar qualquer oportunidade ou risco,
seu maior bem ele me ofertou,
meio que na marra:
sua insaciável Bocarra!
Com um olho nele e outro na Bocarra
o Fogo poderoso de meu fôlego
lhe deu uma baforada vulcânica
derretendo todo o excesso da Bocarra
no imenso poder renovador do Fogo!
(p)
Cuidado de perto pelo Monstro,
eu, com muito tato e fino trato
e Espada 301 Sóis em prontidão
para um eventual rompimento de contrato,
fui moldando uma Boca reduzida
com novo Estômago e toda produzida!
(q)
Mal fiz isso, lhe mandei negociar no Balcão
um suco, com linguiça e pão,
para sentir enquanto consumia
como andava a velha fome que tanto temia.
Comendo tudo constatou, com imenso espanto,
que toda a fome que o atormentava tanto
haviam virado mero passado:
agora ele estava curado!
(r)
Sua alegria e alívio foi sem igual
a ponto de, tomado de puro êxtase,
toda a sua cabeça se transformou
repletas de imensa Humanidade!
E era tanta Humanidade que brotava
que o que era apenas metade
havia se tornado Integridade!
Vendo-se agora tão diferente
o Barão tanto se emocionou
que linda pessoa ele se tornou!
Tomado de júbilo, ele olhou para mim
e, apertando minha mão, me disse assim:
(s)
- Não só me curaste
como também me mudaste,
ó Astuto Rapazinho!
Agora eu e meu Balcão
estaremos sempre juntos à tua ação!
Não importa o que aconteça
estaremos sempre contigo,
não importa aonde fores!
(t)
Embainhei Espada 301 Sóis
e lhe disse bem assim:
- Então, Lord MM,
sejas bem-vindo!
Vem comigo!
(u)
E lá fomos nós!
Eu, o Senhor, a Fonte Eterna,
ele, a Ferramenta, o Paramento.
Monstro deixou de ser Monstro
e passou a ser Belo Instrumento!
