Arcano 18 – A Lua

(a)

Com todo aquele povo junto de mim,

que agora chamo de minha gente,

parti de imediato à minha busca urgente:

corri em direção ao Gigantesco Palácio daquele Rio!

Seus imensos portões estavam abertos, convidativos,

mas logo desconfiei de algo tão prestativo

e, armado com muito cuidado,

com 301 Sóis em punho entrei desconfiado.

No hall de entrada colossal

haviam dois imensos salões,

cada um atrás de um pórtico monumental

onde estavam escritos em alto brasão:

"Primeiro" e "Segundo Salão".

Como indicado, cruzei o pórtico da direita

onde estava a inscrição "Primeiro Salão"

sempre com Espada 301 Sóis

muito firme em minha mão!

(b)

Meu luminoso Fogo Chamuscante na escuridão

imediatamente atraiu a atenção

da primeira criatura que se manifesta

quando um Palácio é adentrado

e ela, nadando furiosa, como um submarino,

vinda de uma mesa com imensa máquina complicada,

saltou em minha direção!

(c)

Eis o quarto dos 6 Monstros:

engrenagens por todo lado, que coisa complicada!

Fios, placas, circuitos, tubulações, toda intrincada!

Mas o que muito me chamou a atenção

foi seu peito, todo oco, sem vida dentro,

onde lado a lado apenas haviam

um tenebroso Moedor de Carne

e um poderoso Compactador!

Que visão horrenda e sinistra,

pois o Moedor estava sujo de sangue

e o Compactador continha pedaços, membros arrancados,

que um dia não se adequaram ao Molde do Compactador!

(d)

Mal me viu, lá veio a Coisa em convite cruel!

O Monstro imediatamente em mim se agarrou

querendo me dar trágica recepção:

queria me moer radicalmente

para depois me comprimir completamente

me deixando todo quadrado,

bem do tamanho de um dado,

no compartimento de compressão

que havia no lugar do buraco de seu coração!

Declinei do convite e entrei em ação!

Com golpe certeiro de 301 Sóis

me desvencilhei do abraço mortal

e lhe retribuí com eficiência digital:

se não se esquivasse e rápido se afastasse,

o Monstro teria terminado estraçalhado

exatamente como jazia agora seu Moedor de Carne,

virtualizado por Espada 301 Sóis!

(e)

Fui objetivo e, com poucas palavras,

interroguei a Coisa assim:

- Ó, Respeitável Coisa Monstruosa Complicada,

que em deformar e adequar tanto se delicia,

onde está minha linda Oãça

e os outros desafortunados reféns?

O Monstro, afastado de mim,

me respondeu assim:

- Que falta de respeito, rapazinho!

Fiquei perplexo! Perguntei:

- Por que, ó Respeitável Coisa Monstruosa Complicada?

O Monstro respondeu assim:

- Porque onde já se viu

chamar de "Coisa Monstruosa Complicada" uma Mestra?!

Que caradura!

Eu tenho um nome, ouviu?

E não é, nunca foi

e nunca será "Coisa Monstruosa Complicada"!

Eu sorri, alegremente, por minha gafe.

Imediatamente perguntei:

- E qual é sua graça?

Como resposta, assim ouvi:

- Lady System!

A Mestra andava pesada ao meu redor,

computando, processando, analisando,

estudando qualquer brecha em minha guarda,

mas como não encontrou nenhuma

deu um sorriso amarelo para mim

e me disse bem assim:

- Mas, para os íntimos moldáveis,

prefiro que me chamem apenas de Sy!

Mas, nada pessoal...

(f)

Grande cortesia havia nascido

onde, momentos atrás, quase fui comprimido!

Foi então que me lembrei da Quarta Lição,

não abrir a boca mas erguer o Coração,

e lembrando disso, eu disse isso:

- Ó, Sy, Mestra Eficiente e Impessoal deste Palácio,

me diga onde está minha linda Oãça?

(g)

Lady System, ou Sy para os íntimos,

- Sy, porém, nada pessoal! -

dançou com absoluta perfeição, sincronia e técnica

ao redor de sua complicadíssima máquina na mesa,

mostrando amplo sorriso vencedor

e, sentindo-se senhora da situação,

me deu seu golpe mais fatal:

- Ó, Moldável e Influenciável Rapazinho,

se tu te adequares perfeitamente à mim,

não apenas te mostrarei onde está tua linda Oãça

mas também farei com que todos de tua Aldeia

sejam moldados e influenciados por tua vontade!

Não! Farei muito mais do que isso!

Não apenas os de tua Aldeia

perfeitamente se moldarão adequados aos teus caprichos,

mas também te darei infinita capacidade

sobre toda a gente de todas as terras

para os moldar e influenciar conforme tua vontade!

Tudo isso, eficazmente, te darei!

Mas, claro, não é nada pessoal...

(h)

Era um convite generoso

para um papo bem gostoso!

Mas quanto mais eu falasse

menos Ar em meus pulmões haveria.

Portanto, para mim não acabar mal,

respondi com presteza sem igual:

- Agradeço sua oferta tão especial

vinda de boca tão impessoal,

mas não me resta outra opção

senão declinar de sua boa ação!

Não preciso mais moldar ninguém

porque isso não mais que convém.

Tanto amo a Riqueza da Diversidade

que me sinto pobre vendo tanta uniformidade!

Não planejo mais deformar em ninguém sua Natureza,

pois assim se fazendo, corrói-se sua Beleza!

Mas vejo em você, ó Eficiente e Impessoal Sy,

o quanto lhe enferruja e lhe desgasta

tanto atrito em sua fábrica de moldagem...

Tanta Capacidade de Moldar concentrada assim

tanto lhe desgasta, oxida e endurece em terrível atrito,

suas próprias peças acabam gastas no conflito

nascido da pobreza da Diversidade

devido à Crise de Identidade,

e assim também, todo endurecido,

enferrujado, desgastado e empobrecido,

não quero terminar como você: todo vencido...

Mas se você me disser

onde está minha linda Oãça

lhe faço uma Inspeção Técnica nas avarias

e lhe liberto destas anomalias!

(i)

Quando eu, Ió-reh, disse isso,

a Mestra fez cara de extremo espanto

e, muito impressionada,

por mim quase enfeitiçada,

nada conseguiu esconder:

- És astuto e perspicaz

pois antes de ti ninguém por aqui

viu assim todo o meu pesar!

Confesso, sem nada a ocultar,

o quanto ando ineficiente, sobreaquecida,

com tanto atrito, controle e conflito,

que são naturais efeitos colaterais

de tanta Eficiência em Moldar concentrada

a danificar minha mecânica e elétrica.

Com tantos curtos-circuitos, ferrugens nas juntas,

não consigo mais ter nenhuma Paz

e assim nem tanto Moldar mais me apraz!

Não há nada pior que ficar obsoleta

pela corrosiva Perda da Criatividade,

pelo curto-circuito da Incoerência entre meios e meta,

e pelo superaquecimento do Dever!

Pois estou a ditar tantos milhões de "tem que" e "deveria"

que jamais imaginei que tanto me perderia!

Portanto, gostei de tua oferta:

sua linda Oãça está, conforme meu banco de dados,

com meu vizinho chamado Dragão Gordo

que faz sua morada ao lado, detrás do Segundo Pórtico.

Agora, exijo, em requerimento,

que realize já o procedimento!

Cumpra imediatamente sua técnica obrigação

senão te extermino na minha compactação!

(j)

Fazer um bom contrato

com tanto Dever Social concentrado,

exigia não só tato como muito trato,

e assim, muito respeitoso,

e extremamente cuidadoso, cauteloso,

solicitei que a Mestra me abrisse sua algoz:

sua complicadíssima Máquina, sobre a mesa,

que lhe tornava tão obsoleta.

(k)

Muito desconfiada ela abriu a tampa do mecanismo

e vendo que minha guarda continuava erguida,

sem demonstrar qualquer menção de fuga,

a intimidade de seu maior bem ela me revelou

e naquela mesma imensa mesa ela se deitou.

Com um olho nela e outro na Máquina,

o Fogo esperto de meus hábeis dedos

de ex-descascador de batatas

retirou do complexo mecanismo

muita graxa e farto óleo

que se espalhava por todo lado.

(l)

Cuidado de perto pelo Monstro,

eu, com muito tato e fino trato,

e Espada 301 Sóis em prontidão

para um eventual rompimento de contrato,

pedi licença para colocar aquela graxa

dentro dos moldes de compactação,

desfazendo o compactador deficiente,

transformando-o em flexível molde acolhedor,

bem como pus óleo na Mestra ineficiente.

(m)

Mal fiz isso, fechei novamente sua Máquina,

e lhe solicitei a se levantar da mesa.

Ficando de pé, foi com imenso espanto

que toda a falha que a atormentava tanto

haviam sido consertada:

agora ela estava aperfeiçoada!

(n)

Sua alegria e alívio foi sem igual!

Deixou de lado tudo o que era impessoal:

acolheu a cada nova forma,

antes inaceitável por ser diferente do rígido molde,

pois sem todo aquele atrito, que só fervia em conflito,

moldava agora em parte o recém-chegado

enquanto ao mesmo tempo

o recém-chegado também a moldava!

E naquele peito, antes oco, morto,

agora, com a nova interação,

eis que este se preenche de imensa Vida!

E era tanta Vida que brotava de seu peito

que, do que antes só saía carne moída,

agora belas pessoas nasciam naquele feito!

Vendo nascer de si tanta Diversidade

que gerou tanta Inovação, Avanço e Invenção,

a ex-obsoleta Mestra foi tomada de tanta emoção

que linda pessoa ele também se tornou!

Tomada de júbilo, ela olhou para mim

e, apertando minha mão, me disse assim:

(o)

- Não só me consertaste

como também me aprimoraste,

ó Engenhoso Rapazinho!

Agora eu e toda minha formação

estaremos sempre ao teu lado

não importa o que aconteça

e estaremos sempre contigo,

não importa aonde fores!

(p)

Embainhei Espada 301 Sóis

e lhe disse bem assim:

- Então, Lady Sy,

sejas bem-vinda!

Vem comigo!

(q)

E lá fomos nós!

Eu, o Senhor, a Fonte Eterna,

ela, a Ferramenta, o Paramento.

Monstro deixou de ser Monstro

e passou a ser Belo Instrumento!