Arcano 19 – O Sol
(a)
Novamente no hall de entrada colossal
me dirigi ao Pórtico monumental
onde estava escrito em alto brasão "Segundo Salão"
e o cruzei, sempre com Espada 301 Sóis firme na mão!
O Salão era de uma imensa Riqueza:
ouro, jóias, livros, pinturas, esculturas,
toda a sorte de Arte, Cultura e Beleza!
(b)
A vibração de meu Fogo Chamuscante
imediatamente atraiu a atenção
da segunda criatura que se manifesta
quando um Palácio é adentrado
e ela, nadando desconfiada,
vinda de cima de altíssimo Cofre,
se moveu em minha direção
parecendo ora perdida, ora achada!
(c)
Eis o quinto dos 6 Monstros:
O Dragão Gordo!
Aquele que havia sequestrado
minha linda Oãça! O próprio!
(d)
Naquele nadar, ora perdido, ora achado,
quando pareceu se achar,
o Dragão Gordo saltou em cima de mim,
cuspindo furiosa Água Fria,
querendo apagar todas as minhas Chamas que sentia!
Recebendo esta trágica recepção
declinei do convite e entrei em ação!
Com golpe certeiro de 301 Sóis,
me desvencilhei do disparo tenebroso
e lhe retribuí com o mesmo remédio venenoso:
rápido como uma bala, num só golpe,
desviei com a lâmina de 301 Sóis,
tal qual bastão de baseball,
a torrente de Água Fria que,
batendo no Cofre sem igual,
ricocheteou, atingindo o Monstro em cheio!
Ele caiu no chão do salão...
Sacudiu a cabeça, zonzo...
E não me atacou de novo:
ficou desconfiado,
nadando ao meu redor,
enquanto rosnava, furioso.
(e)
Essa era a minha oportunidade
de, Espada 301 Sóis em punho,
engendrar uma breve diplomacia,
a mais curta e objetiva possível,
para mim não me afogar:
- Veja bem, ó Senhor Dragão Gordo...
A resposta do Monstro foi imediata:
- Que falta de respeito, rapazinho!
Fiquei perplexo! Perguntei:
- Por que, ó Senhor Dragão Gordo?
A resposta veio novamente imediata:
- Porque, primeiro, não sou Senhor, sou Senhorita...
Segundo, não me diga "veja bem" porque sou cega,
e, ainda por cima, mal tenho tato!
E terceiro, o maior absurdo de todos, foi esse:
onde já se viu chamar de Gorda
uma dama?! Que caradura!
Eu tenho um nome, ouviu?
E não é, nunca foi,
e nunca será "Dragão Gordo"!
Virei imediatamente para Sy meu olhar
lhe cobrando por sua informação incoerente!
Ela, mal a fitei, já se defendeu:
- Eu estava desatualizada e ineficiente!
Então me voltei ao Monstro
e sorri, todo desenxabido
por aquele mal entendido.
E imediatamente perguntei:
- E qual é sua graça?
Como resposta, assim ouvi:
- Lady Covet!
(f)
Lady Covet nadava ao meu redor,
estudando qualquer brecha em minha guarda,
mas como não encontrou nenhuma
deu um sorriso amarelo para mim
e me disse bem assim:
- Mas, para os íntimos que cobiço,
prefiro que me chamem apenas de Bibi!
(g)
Grande cortesia havia se implantado
onde, momentos atrás, quase fui apagado!
Foi então que me lembrei da Quarta Lição,
não abrir a boca mas erguer o Coração,
e lembrando disso, eu disse isso:
- Ó, Bibi, Grande Lady deste Palácio,
me diga onde está minha linda Oãça?
(h)
Bibi enroscou-se com sensualidade sem igual,
acariciando a porta de seu enorme Cofre,
mostrando amplo sorriso vencedor
e, sentindo-se senhora da situação,
me deu seu golpe mais fatal:
- Ó, Ambicioso Rapazinho,
se tu te curvares perante mim
não apenas te concederei tua linda Oãça
mas também farei com que todos de tua Aldeia
sintam inveja de tua imensa Boa Sorte!
Não! Farei muito mais do que isso!
Não apenas os de tua Aldeia invejarão tua Boa Sorte
mas também te satisfarei cada Ambição
sobre toda gente de todas as terras
que teus olhos cobiçarem!
E com tanta Boa Sorte e Ambição concentradas
todos, sem exceção, vão querer se oferecer em submissão!
(i)
Era um convite generoso
para um papo bem gostoso!
Mas quanto mais eu falasse
menos Ar em meus pulmões haveria.
Portanto, para mim não acabar mal,
respondi com presteza sem igual:
- Agradeço sua oferta generosa
vinda de boca tão ambiciosa,
mas não me resta opção
senão declinar de sua boa ação!
Já me sinto bem servido por Boa Sorte
por isso de mais dela não necessito!
Nada mais me atiça o veneno da cobiça,
nem me interessa mais aos outros despertar inveja,
tampouco faço alguma ação motivado por Ambição!
Pois com esta sua Boa Sorte não quero ficar,
cego e sem tato, vivendo nesse pesar:
cercado de tanta Beleza, implorando por meu contato,
sentir-me na mais profunda pobreza, porque me falta o tato!
Pois se você quase não tem tato e é cega,
ó Bibi, Bela Dama deste Palácio,
de que vale tanta Ambição e Cobiça
por tanto ter e assim tanto querer obter,
já que tudo aquilo que conquistar
você jamais poderá apreciar
porque se nega à vitalidade da experiência?
(j)
Quando ouviu "Bela Dama deste Palácio"
imediatamente Lady Covet,
ou Bibi, para os íntimos,
pareceu perder toneladas de peso!
Foi então que ela sentiu, a si mesma,
seu olhos se encheram de lágrimas
e, assim, ela desabafou:
- Como sofro, rapazinho, estou tão cansada,
como sofro, horrivelmente sofro, esgotada!
E Bibi caiu vencida
dominada por seu pranto,
deixando seu tesouro
abandonado lá no canto.
(k)
Foi neste momento que baixei a guarda,
pois a luta terminara,
e estendendo minha mão à Bibi
lhe disse bem assim:
- Então chega de Sofrimento!
Vem comigo!
Leva tudo isso, mora comigo,
e usufrua através de mim:
ponho em ti um Arreio Mágico,
e cavalgando sobre ti
eu serei tanto os seus olhos
como serei o seu tato!
(l)
Quando ouviu isso, Bibi,
que já havia perdido toneladas de peso,
logo ficou muito alongada:
perdeu todas as suas frias escamas,
adquiriu macio e quente pelo,
e se transformou numa linda Dragão Chinesa!
Eis o Poder de meu Mágico Arreio!
(m)
Imersa em nova forma
onde abundava tanta Vida,
repleta agora de visão e tato,
imensamente feliz por tanto contato,
em lágrimas de gratidão
Bibi me disse então:
- Não só me curaste
como também me transformaste,
ó Generoso Rapazinho!
Agora eu e toda a minha Riqueza,
Arte, Cultura e Beleza,
estaremos sempre ao teu lado
não importa o que aconteça,
e estaremos sempre contigo,
não importa aonde fores!
(n)
Imerso em indescritível alegria,
sentindo-me tão perto de minha linda Oãça,
a bela inspiração que era minha motivação,
disse com entusiasmo e sagrada comoção:
- Então, Bibi, ó linda Dragão Chinesa,
sejas então bem-vinda!
Me traga, agora, finalmente,
o que eu tanto vim buscar
e vem com a gente!
(o)
Bibi abriu seu imenso Cofre
e ali dentro lá estava
tudo o que me motivava:
minha linda Oãça!
Com ela também estavam todos os reféns,
assim como muitos outros tesouros,
e a tudo e a todos Dragão Chinesa me entregou!
(p)
Que alegria foi a minha
quando Oãça, assim que me viu,
não mais com aquele velho avental
mas brilhando com minha Espada sem igual:
me abraçou chorando,
quase me beijando!
(q)
E Bibi, a Dragão Chinesa,
depois de a tudo e a todos me entregar,
pegou todas aquelas coisas,
imensos tesouros,
e nos ofereceu seu lindo e macio dorso
para todos nela montar.
Agora, sempre onde quer que eu fosse
teria outra eterna companhia:
Bibi, a Dragão Chinesa, domada, domesticada,
estaria comigo, me servindo!
(r)
E lá iríamos nós!
Eu, o Senhor, a Fonte Eterna,
ela, a Ferramenta, o Paramento.
Monstro deixou de ser Monstro
e passou a ser Belo Instrumento!
