Arcano 20 – O Julgamento

(a)

Mal havia tomado Oãça em meus braços,

comemorando nosso reencontro em amoroso abraço,

e mal Bibi havia oferecido seu dorso,

eis que houve um gigantesco tremor

que a todos nós trouxe terror!

Todas as paredes do Palácio começaram a se mover

e enquanto aqueles blocos e paredes ruíam

nossos corações se punham a temer!

Onde haviam colunas de sustentação

nasciam tentáculos de agarração,

e onde haviam janelas de iluminação

nasciam olhos de visão!

(b)

Minha Luz Chamuscante na escuridão

imediatamente atraiu a atenção

do último Monstro que se manifesta

quando de derruba cada máscara da Maldade,

pois ele está por detrás de cada Deformidade!

(c)

Eis o sexto dos 6 Monstros:

O Monstro de todos os Monstros!

A Mãe de todo o horror:

a imensidão do próprio Temor!

(d)

O Monstro Supremo era como um polvo gigante

com 70 vezes 7 tentáculos com o tamanho de todo o Rio,

com 70 vezes 7 olhos vermelhos maiores que montanhas,

e com uma boca de tamanho 70 vezes 7, trevosa,

com dentes sobre dentes sobre dentes, bocarra feroz,

que engolia qualquer Luz como um Abismo sem Fundo

transformando tudo o que tocava em algo imundo!

(e)

Quando vi a extensão daquele imenso horror

o brilho de minha Espada 301 Sóis

começou a enfraquecer:

péssimo sinal, todos podíamos perecer!

(f)

O Monstro imediatamente lançou contra mim

seus imensos tentáculos pegajosos sem fim,

e eu me grudei com tudo em minha Espada,

pois diante de tanto horror e tormento

eu precisava ganhar tempo!

Foi assim que muito rápido

cravei 301 Sóis no fundo do Rio

e rasguei uma trincheira para meu intento:

lancei Oãça, a todos e a mim lá para dentro!

Perante Monstro descomunal,

fonte de horror sem igual,

precisava nos proteger

diminuindo seus ângulos de ataque:

dentro da trincheira seus tentáculos pegajosos

só nos atacavam por cima!

(g)

Cada tentáculo que vinha

eu o cortava com a lâmina de 301 Sóis,

mas parece que de cada um que eu decepava

mais 70 vezes 7 se criava!

Eu lançava tantos golpes de Espada

que estava começando a perder rápido meu fôlego:

se o Monstro dos Monstros não me matasse,

rápido seria a Água a me fazer com que me afogasse!

(h)

Procurei, sem olhar para trás,

onde estaria o Velho,

pois neste momento mais crucial

era nossa amizade que inspiraria meu ideal!

(i)

Procurei meu amigo com meus olhos,

tomado de angústia e desespero,

pois meus pulmões já se enchiam d'Água!

Procurei e implorei por todo o canto

que o Velho surgisse, como por encanto,

mas qual não foi o meu espanto

quando vi algo acima da trincheira!

Bem ao lado da imensa boca do Monstro,

podendo ser devorado

e a qualquer instante ser aniquilado:

lá estava o Velho!

(j)

Ele estava bem sentado,

como um Rei de Si mesmo sobre suas próprias pernas,

e seus olhos não eram tocados pelas Águas daquele Rio

mas sim banhados na imensidão do Oceano de Paz!

(k)

Quando o vi tão perto daquele Monstro,

que poderia esmagá-lo sem piedade,

dei tudo que eu mais não tinha:

um imenso grito para chamá-lo de lá,

para proteger-se na trincheira enquanto ainda era tempo,

grito que em meu nobre intento

consumiu meu último fôlego de Ar!

Comecei a me afogar!

Senti a invasão das Águas em meus pulmões,

apagando cada ramo e folha outrora fogosos

de cada parte de minha Árvore da Vida!

Enquanto sentia toda a agonia

da Água que tocava tétrica sinfonia,

do Gelo que apagava todo meu Calor,

sentia cada vez mais imensurável dor!

(l)

Ainda consegui voltar meus olhos

para quem eu mais amava:

em tanta dor enquanto me afogava,

eu só queria saber se ainda estava bem

o Velho que eu mais adorava!

(m)

Foi quando vi que o Velho

não somente estava bem,

mas enquanto eu me afogava

percebi que ele sorria suave o mesmo sorriso

que o banhava confiante, imantando seus olhos:

o Oceano de Paz, o simples Êxtase da Existência!

(n)

Ele não me disse nada,

ele não fez nada,

mas ao mesmo tempo ele me disse tudo

e também me fez tudo:

tudo estava Certo desde o Princípio,

porque desde o Princípio, Hoje e Sempre,

tudo, em toda a parte, é Bom!

Foi este o momento

em que eu, Ió-reh,

nas dores da agonia,

na angústia do afogamento,

senti que tudo, desde o Princípio, era Bom!

Bastou isso, e Espada 301 Sóis

começou a brilhar como 301 vezes 301 Sóis

e seu brilho foi tão rápido

que parecia me envolver em suas Chamas!

(o)

Mas qual não foi a minha surpresa

quando vi que a lâmina da Espada Sagrada

nada mais fazia do que refletir

o imenso Brilho Sem Fim que nascia

exatamente de meu peito!

(p)

Era eu que brilhava, resplandecente,

como 301 vezes 301 Sóis!

E foi assim brilhando

que toda a Água de meus pulmões se evaporou

por todo o imenso Fogo de 301 Cores

que em mim crepitou!

Um turbilhão de Chamas e Brasas

me envolviam completamente

e foi assim que saltei da trincheira,

aquela parte do terreno inferior,

e fitei exatamente no branco dos olhos do Monstro,

e com Espada 301 Sóis descansando em minha bainha

proferi estas palavras enquanto corria

em direção à boca do Monstro,

desviando-me dos golpes ensurdecedores

de seus pesados tentáculos devastando tudo ao meu redor:

(q)

- Monstro, você não tem o Poder que julgas

pois Medo nada mais é

que apenas uma Onda de Distorção:

surge como simples Reação

quando se esquece e se rebaixa como inferior

o que deve sempre ser lembrado como Superior!

(r)

E assim corri, veloz, em Chamas Gloriosas,

e me atirei dentro da bocarra do Monstro,

exatamente para dentro do Abismo de Trevas sem Fundo

onde antes tudo que tocava parecia imundo,

quando saquei Espada 301 Sóis

e cravei-a com Todo o Poder do Universo:

(s)

- Ouça bem, para todo o sempre!

Nada que Medo toca pode ficar imundo

porque Distorção nada pode tocar,

só iludir, enganando que toca!

Mas tudo o que Eu toco,

o Sublime Fogo das 301 Cores,

torna-se como Eu:

a Própria Pureza do Êxtase da Existência!

(t)

E liberei o grito dos gritos de um Herói

enquanto cravava com Todo o Poder

minha Espada em Chamas

no coração das entranhas

da Fonte do Abismo da Ilusão!

Minhas Chamas rapidamente se espalharam

por todas as entranhas do Medo,

a artífice de toda a Ilusão,

a Mãe de todos os Monstros,

e por onde meu Fogo cruzava, a tudo queimava!

Tudo começou a vaporizar:

onde havia carne, cinza restava,

onde haviam dentes, ossos, brasas no lugar,

onde havia Água de um Rio, vapor quente a exalar!

(u)

O Monstro dos Monstros se desfez

mostrando o que sempre foi

desde o Princípio:

um punhado de cinzas!

(v)

Oãça, certa vez,

sobre aquele momento,

disse que eu entrei no Abismo de Trevas daquela bocarra,

e quando aquela havia se fechado

ela julgava ter me perdido,

mas em instantes Chamas e Clarão consumiram

o Abismo de Trevas por dentro

e apenas uma imensa Luz se fez!

Quando a Luz se esmaeceu

ela disse que só estava eu lá,

erguendo, Heroico, Espada 301 Sóis,

brilhando todo resplandecente!

(w)

E, com o Monstro dos Monstros derrotado,

eu agora estava completamente mudado!

O que em mim antes se acreditava

que deveria ser em cima

na verdade sempre esteve embaixo

e, assim, teve que voltar para baixo.

O que em mim antes se acreditava

que deveria ser embaixo

na verdade sempre esteve em cima

e, assim, teve que voltar para cima.

Cabeça, pernas, braços, mãos, pernas, pés,

Coração, intestinos, pulmões,

tudo em mim, Ió-reh, ficou mais Belo,

porque mudou de lugar quando saí do Abismo!

Ao sair, minha cabeça estava menor,

meus olhos estavam grandes e brilhantes,

e eu, Ió-reh, estava perfeitamente ereto:

não caminhava mais curvado,

nem para a direita nem para a esquerda,

como eram curvados os outros da Aldeia.

Eu, Ió-reh, agora caminhava ereto

como o Velho sempre caminhava:

eu, Ió-reh, havia descoberto

o meu Verdadeiro Centro de Gravidade!

(x)

Mas eu, Ió-reh,

mal saí do Abismo de Trevas,

e algo mais incrível ainda ocorreu!

Vou lhe contar o que aconteceu:

Eu, Ió-reh, ouvia uma linda Canção

entoada por toda a parte da imensidão!

Era a Canção da Teia da Vida!

Uma Canção que sempre Se manifesta

em toda a parte, mas só é audível

para todo aquele que educou,

para todo aquele que limpou,

no mergulho nas Águas Congeladas

e nas profundezas do Abismo de Trevas,

seus ouvidos para poder ouvi-La!

E é assim que eu digo:

quem tem ouvidos, que A ouça!

Porque há um Centro,

um Centro de Gravidade, como na dança,

Centro que você precisa conhecer e preservar.

Se você não O encontra,

você se move mas não dança,

pois fica dividido e tenso!

Dançar ao som desta Canção:

eis o que é o Nirvana, o Paraíso!

Pois o Paraíso é um estado mental interno:

nunca foi um lugar lá ou acolá,

ele sempre esteve e Agora está, bem aqui,

quando você não está subjugado

pelos Desejos ou Exigências,

nem pelo Medo ou Compromissos Sociais,

aqueles "um milhão de tem que e deveria, senão..."

O Paraíso está manifestado

quando você se apoia no seu Centro de Gravidade

e age a partir deste Centro!

Este era o meu Supremo Prêmio!

Supremo, porque ninguém

jamais poderá me tirar esta Canção

exceto eu mesmo,

tapando meus ouvidos!

Mas isso eu jamais faria

porque eis que esta Canção

é a Suprema Felicidade,

que pode ser ouvida por toda a parte,

porque esta Canção assim se chama:

"O Puro Êxtase de Simplesmente Existir"!

Eis minha sublime recompensa por um Ato Heroico!

(y)

E foi nesse momento que o Velho,

antes sentado, todo calado,

se levantou, veio até a mim,

e tocando com o dedo indicador

no leito seco do Rio,

tal qual um fiscal sanitário em inspeção,

sorriu satisfeito para mim

e me disse bem assim:

- Fez um bom trabalho, guri!

Dito isso, o Velho pôs a mão no bolso

e dele retirou um saco vazio.

Com suas mãos recolheu o único punhado de cinzas

que o antigo Monstro havia se tornado,

um pó muito Brilhante e Belo,

e o colocou naquele saco.

Feito isso, amarrou a boca do saco,

deu-me e me disse assim:

- Tu, o Senhor, a Fonte Eterna,

ela, a Ferramenta, o Paramento.

Monstro deixou de ser Monstro

e passou a ser Belo Instrumento!

Onde fazia morada Lady Fear, Medo,

nada havia que valia,

mas tens agora este Pó Mágico:

eis que se chama Ousadia!

(z)

E todo o meu povo saiu da trincheira

num momento de única festa!

Vivas, sorrisos, risos de folia!

Abraços, lágrimas de alegria!

E foi neste estado de alegria

que todos montamos sobre Dragão Chinesa

e do fundo do Leito Seco saímos voando,

cruzamos o Ar e estávamos chegando

na Aldeia onde todos estavam nos esperando!