Draco agradecera por sua habilidade adquirida com o pai de manter sempre uma postura inexpressiva. Ficara surpreso com o tanto de emoções que tivera de esconder. Uma vacilada e todo o disfarce cairia por terra. Saiu o mais rápido que pôde de Hogsmeade, tremendo só de imaginar a reação de seu pai se por acaso o surpreendesse. É claro que ele havia notado, Lucius não deixava nada passar, sempre atento, sempre alerta, sempre impiedoso. Como odiava aquele homem...

Já prevendo o que iria enfrentar, controlou-se por mais tempo. Em segundos estava na lareira de sua casa. Ao ver toda a casa apagada e silenciosa, um raio de alívio e felicidade o atingiu. Talvez o pai não houvesse notado, afinal! Talvez tivesse feito mais do que simplesmente fingir que não notava a presença do filho. Fizera isso de verdade. Mas mal andou alguns passos para um vulto negro empurrá-lo contra a parede e pressionar a varinha contra seu queixo.

Merda. Por que tinha baixado a guarda?

–Por onde esteve? A voz gelada ecoou em seus ouvidos e preencheu todo o ambiente.

–H-Hogsmeade. Apesar de evitar a todo custo demonstrar seu nervosismo, Lucius era o único para quem Draco inevitavelmente se mostrava vulnerável. Amaldiçoou-se por dentro por ser tão fraco.

–Com aquele maldito mestiço, não é? Você me envergonha. Como tem coragem, depois de tudo? Como pode ser tão estúpido? E o pior, se achar inteligente o suficiente para me enganar? Lucius pressionava a varinha com mais força e então rira assustadoramente. Ele farejava o medo, subjugava o filho e o tratava como sua presa caso fosse contrariado desde sempre.

–Eu já tenho 17 anos, posso decidir o que fazer... - sua voz era trêmula e fraca, e logo fora interrompida pelo pai:

–Mas você sabe bem que se quiser viver pelo nome Malfoy terá que seguir o que eu disser. Nossa família não se esforçou tanto para manter uma tradição pra que você estrague tudo com caprichos. Um mestiço, e o pior, o maldito Potter. Seu discurso era rápido e incisivo, e seu olhar cada vez mais sombrio.

Então um sentimento novo cresceu dentro de Draco. Algo que ele nunca dera vazão: a coragem de enfrentar o pai. Reunindo todo o desdém que sua voz pôde permitir, segurou o pai pelo punho com o qual apontava a varinha para ele e disse:

–Mas já não importa mais, papai. Voldemort se foi. Por mais que você odeie Potter, nada disso fará diferença agora. Nós não temos mais um inimigo. Perdemos.

A ênfase maior fora na última palavra.

Lucius avançou para cima do filho quando fora impedido pela mulher, que entrara aos gritos:

–LUCIUS, CHEGA! Ele é só um menino!

Desvencilhando-se de uma Narcisa em prantos, Lucius Malfoy recompôs-se e andou até Draco, apontando a varinha para seu queixo novamente:

–Você irá pagar caro por isso.

Draco então subira para seu quarto. Depois de certificar-se que havia trancado a porta, apoiara a cabeça nela derramando muitas lágrimas. Onde ele estava com a cabeça? Enfrentar o pai? Não havia mais Voldemort para mata-lo, mas com certeza ele o destruiria. Tivera um momento estúpido de coragem impensada e todo seu futuro agora estava eternamente amaldiçoado. Um conflito muito intenso instaurou-se dentro de si. Queria libertar-se de tudo aquilo que fora sujeito por toda sua vida, mas não queria ser desleal. Queria pôr fim às obras das trevas de Voldemort, mas não estava disposto a abandonar suas convicções. Odiava o pai, mas sabia que ele poderia dilacera-lo a seu bel-prazer.

Se ao menos tivesse ficado em casa nessa maldita noite, se ao menos tivesse se controlado... Então percebera que agira como Potter. Quem mais seria estúpido o suficiente para agir sem analisar friamente as consequências? Apenas deixar seus sentimentos fluírem sem considerar por um segundo o que aconteceria depois?

Não havia mais ninguém que agisse assim que importasse tanto para ele. O que ele buscou evitar em todo o caminho de volta pra casa invadiu seus pensamentos. Como se sentira ao beijá-lo, o calor e aconchego que percorreu suas entranhas quando o abraçou e ele esteve disposto a acolhê-lo. Quanta besteira expor tão escancaradamente sua carência por proteção e amor que sempre acompanhara sua vida e que até então conseguira ocultar perfeitamente. O que o fez voltar de sobressalto para casa fora justamente o medo do que acabara de acontecer. Tinha uma necessidade gritante de receber o que lhe faltara em toda a vida e fugir do ambiente hostil, mas o medo o prendia. Maldito sentimento que era capaz de dominá-lo até sua última instância.

Sentara-se na cama e chorara mais. Queria tudo que sentira no coreto novamente, queria a garantia de poder eternizar aquelas sensações. Mas seu orgulho, disso tinha certeza, o impediria de continuar. Provavelmente o mesmo orgulho afastara Potter para que ele nunca mais voltasse. O mundo de cada um era muito diferente e ele não estava disposto a abrir mão de suas crenças. Era melhor assim, afinal.

Era pra que a sua conclusão soasse certa, mas não soou. Arrependimento começou a enchê-lo por inteiro. Sentia que iria afogar em suas próprias lágrimas. Aquela com certeza era a pior noite das tantas que passara chorando escondido pelos maus tratos que sofrera. Por mais que tentasse, não conseguia dormir. Quando sentiu o pranto secar, relembrou-se dos bons momentos que tivera naquela noite. E então um pequeno floco de luz adentrara em seu quarto.

Draco o cutucou com o dedo e aquele contato avivou ainda mais sua memória. Entrou em um transe onde só aquele momento do beijo existia. Depois do que pareceram segundos, mas na verdade foram horas, ele despertara. O sol já nascia e ele não dormira por um segundo sequer. Levantou-se para observar o céu pela janela e outros pequenos flocos vieram brincar em seus dedos. Seu futuro não parecia mais tão pavoroso. Não estava bem, mas algo o certificava de que nem tudo estava perdido. Que havia algo a que se agarrar caso tudo desse errado. Apesar de não saber definir exatamente o que seria esse algo, era suficiente para confortá-lo.

Sentia-se mais calmo. Grande parte do temor que sentia fora gradualmente substituído por um senso de auto apreciação. Afinal, ele também era humano e merecia ser amado. Status era importantíssimo em sua vida, mas não aguentaria mais nenhum segundo de tortura psicológica. Era maior de idade, poderia agir por si mesmo. Estava decidido. Faria sua própria fama e não se subjugaria mais ao pai. Mesmo que no fim se torne um herdeiro de nada em particular. E não deixaria nada tomar isso dele. Mesmo que isso signifique ficar sem Harry.

Logo que abrira a porta, sua mãe o agarrou pelo braço. Tinha o rosto severamente inchado e parecia não dormir há duas noites.

–Filho... Está tudo bem?

–Claro, já estou acostumado a ser tratado sem um mínimo de dignidade. A ironia em sua voz era mordaz.

–E por acaso você enlouqueceu? Agradeça a mim por não ser expulso ou deserdado. Mas, se tratando do seu pai, não podemos ter garantias de que não fará nada. Ela abaixara a cabeça novamente para deixar escorrer uma ou duas lágrimas.

–Não me importo. Ele pode fazer o que bem entender. A frieza com que dissera isso fez Cissa olhar para ele horrorizada e o envolver num abraço.

Draco acariciou as costas da mãe com uma mão e se soltou gentilmente do abraço. Em seus olhos não se viam nada além de segurança e calma. Muita calma. Mas uma calma gélida e melancólica.

O pai o esperava na sala de jantar. Narcisa ficara no cômodo ao lado para dar privacidade. Ouvira um diálogo frio travar-se entre os dois. Apreensiva, juntava as mãos e esperava que seu plano funcionasse. Ela não ousara confessar, mas o histórico crescente de abuso a fizera cultivar ódio do marido. Não tomava atitudes pelo mesmo motivo de seu filho: o medo. Tinha fé de que poderia manter o status que tanto prezava sozinha e a cada dia que se passava sentia sua capacidade de aturar as atitudes do marido menor.

Espiara e pudera ver o filho cair ao receber uma maldição Cruciatus. Cerrara os punhos e retera o pranto que insistia em cair, apenas esperando. Depois de alguns minutos, ouvira o arrombar da porta. Finalmente.

Eram agentes do Ministério da Magia.

Na noite anterior, após a discussão com o marido, mandara uma coruja para o Ministério deixando-os alerta sobre a grande possibilidade de que um crime fosse cometido em sua casa. Exatamente como previra. O marido fora encaminhado para Azkaban.

Anos de abuso finalmente foram vingados.