Lou: Muito obrigado a quem comentou e está seguindo. Aqui vai o próximo capítulo :).
–Luna? Harry virou-se animado ao ouvir a última frase sarcástica de Hermione. O beijo havia cessado sem que ela percebesse que estava sendo ouvida. Em resposta, apenas abriu um largo sorriso e recebeu o abraço do amigo. Ron não pôde disfarçar sua indignação:
–Di Lua? Isso é sério, Hermione?
–E por que não seria? Ela é uma pessoa muito interessante, pra dizer o mínimo. Ergueu o pulso que trazia pequenos planetas que cintilavam em todas as cores no pulso até os olhos de Harry.
–O presente que ela me deu de natal. É lindo, não é? Descobri que temos mais em comum do que jamais pensei. Ela também ama Astronomia...
–Parece que as coisas mudaram mesmo! Disse olhando para Malfoy. -Estou muito feliz por vocês! E por que ela não veio?
–Era pra ter sido um segredo até então. Mas acho que ela vai ficar feliz de saber.
Draco abraçara as costas de Harry e deixou recostar sua cabeça em seu ombro. Essa ocasião carregava consigo uma energia estranha, porém calorosa e cheia de carinho. A situação resolvida só impelia Malfoy a ser carinhoso e gentil sem medo de represálias e sem medo de si mesmo. Se isso se repetiria era um mistério a se descobrir. Mas o interesse em questionar havia se perdido em meio ao abraço.
Percebendo nos olhos de Malfoy a vontade de ficar sozinho com o namorado, Hermione cutucou Ron no braço e se despediu dos dois. Ao andarem pela porta puderam ouvir um "finalmente!" vindo de Weasley e uma repreensão de Granger. Com a casa vazia, sorriram aliviados um para o outro.
–O que eu te disse?
–Que daria certo no final. Que você sabia o que estava fazendo. Que você é o melhor de todos. Debochou.
–Não me lembro de ter dito essa última parte.
–Acredite, ficou subentendido.
–Besteira, deixe isso pra lá. Disseram Draco em um meio sorriso. –Vamos deitar? Eu estou um pouco cansado.
Normalmente Harry sabia no que levariam esses pedidos só pelo olhar. Mas Draco não o olhava com a mesma faísca de desejo de antes. Era puro... Carinho. Extremamente confuso e sem saber o que esperar, subiu ao quarto com ele. Colocaram as calças de dormir e deixaram os peitos nus encostarem-se e Malfoy entrelaçou seus dedos nos de Harry. Mais confuso do que já estava, Harry questionou:
–Como se sente?
–Descobri que gosto de estar com você. Que seria melhor do que estar com outra pessoa. E não posso negar que estou muito mais tranquilo agora que não tem ninguém atrapalhando.
–E de onde veio isso tudo assim, tão de repente? Harry detestava desconfiar das intenções do próprio namorado. Algo gritava em sua cabeça que não deveria funcionar assim. Mas infelizmente seria no mínimo natural duvidar das palavras de Draco.
–Escuta. Eu descobri que prezo você mais do que muita coisa na minha vida... E eu sei que não sou a melhor pessoa, mas eu estou tentando. Eu acho difícil demais lidar com tudo que se passa na minha cabeça. Ainda mais por não fazer ideia de porque te ver chorar me deixou daquele jeito... Merda, eu senti que meu coração ia explodir. Eu posso não ser bom com as palavras e nem ao menos ser uma pessoa apreciável, mas... Quero estar com você. E fazer isso funcionar.
Potter perguntou-se um milhão de vezes se não estava sonhando ou delirando. Não podia acreditar no que acabara de ouvir. Mas Malfoy mantivera contato visual o tempo todo. Parecia real, soava real... E então, odiando-se por ter duvidado, beijara levemente o outro.
–Saiba que estarei aqui, sempre que precisar de mim.
Malfoy dera novamente um meio sorriso. Era estranho demais se colocar em posição de precisar de alguém ainda. Sabia que era uma das coisas nas quais teria que trabalhar. Engolindo um protesto de "eu não preciso", agradecera:
–Obrigado. E... Estarei aqui também. Mesmo que você não confie em mim.
Ok. Malfoy havia lido a expressão no rosto de Harry. Ele sabia que isso aconteceria. E temeu que isso estremecesse a confiança tão frágil recém-estabelecida. Por que não conseguia confiar? Por que não apenas aceitar o carinho sem pensar que viesse de algum interesse oculto? Quer dizer, ele acabara de salvar o relacionamento. Concluiu que as personalidades estavam se invertendo. Malfoy seguia os instintos e ele a razão. Quando foi que tudo mudou tanto? Maldita paranoia.
Sua linha de pensamento fora cortada. Draco acariciava suas bochechas e então disse:
–E eu entendo. Eu não lhe dei tantas razões pra confiar... Seria tolo de sua parte acreditar em mim. Havia certo tom de tristeza na voz dele.
–Olha, eu estou sendo estúpido, me desculpa... Você acabou de sacrificar seu orgulho pra pedir desculpas aos meus amigos por nós... Eu não devia estar agindo assim...
Os flocos brilhavam desiguais em toda a conversa. Os mais perto de Harry estavam fracos e turvos, já os de Draco eram fortes e com brilho vivo. O costume de ignorá-los foi o pior que já adquiriram, já que diziam muito sobre um e o outro e provavelmente facilitariam muito a convivência. Mas a ideia e a carga que eles traziam era pesada demais pra ser encarada.
Draco então calou Harry com um beijo. Pôs-se a excitá-lo como sempre fazia. Depois do sexo oral, sussurrou:
–Pode ir em frente se quiser...
Harry estava perplexo. Sentia que aquilo era errado, não tinha ideia do que fazer e no meio do turbilhão de questionamentos que tinha na mente, só pôde perguntar:
–Você tem certeza? Se for por causa do que eu disse, esqueça isso, me desculpe...
–Você precisa confiar em mim, não é? Quer maior prova? Estou cedendo... Vá em frente.
–Eu não posso. Iria me sentir horrível.
Um tanto irritado, Draco beijou novamente todo o corpo do outro, tocava delicadamente em cada parte buscando excitá-lo até ser tomado pelo desejo como em todas as outras vezes. Precisava disso, precisava que aquela noite não fosse em vão. Que tudo que ele dissera significasse alguma coisa. Em meio aos toques, gemia e pedia a Harry que fosse em frente. Não precisou insistir muito, afinal, era um dos melhores em conseguir o que queria. Não sentiu dor, já havia feito isso antes em escapadas com Blaise. Mas nunca tivera a importância que tinha agora.
Era uma sensação diferente. A de estar entregue no sexo. Gostava dessa parte, apesar de preferir dominar. Mas era extremamente difícil fazer isso com Harry, pois não envolvia só sexo e seu corpo. Envolvia sua mente, seu interior, suas fragilidades, seu eu como um todo. Evitou mostrar toda a insegurança que carregava. Precisava que isso funcionasse, que ganhasse a confiança do namorado. O orgasmo fora ofuscado pela melancolia que o havia invadido. Tentou esboçar um sorriso ao ver que atingira seu objetivo, mas simplesmente não era capaz. Deixou ser abraçado e ouvir os risos de satisfação. Esperou que o outro adormecesse e derramou incontáveis lágrimas silenciosas.
Mas por que chorava? Por que tamanha tristeza tomou conta de si? Céus! Era só sexo, qual a grande problemática? Era justamente a de não ser apenas sexo. Foram as circunstâncias as quais à situação se submeteu. O pavor inegável que o havia atingido quando vira nos olhos de Harry a falta de confiança. Por Merlin, era tão difícil se abrir e dizer o que sentia a ele, e quando finalmente conseguira fazê-lo de boa vontade, suas palavras eram rejeitadas. Não adiantava repetir o quanto seria sensato não confiar no que dizia, sentia-se numa tempestade com uma jangada velha. Levantou-se devagar para não acordar Potter e desceu. Então pôde soluçar e liberar todo o choro que guardava.
Foi então que a consciência socara firme a sua cabeça e o fizera sentir-se como se estivesse se afogando no Lago Negro. Ele havia se perdido. Havia deixado de ser tão vigilante, apenas deixou-se confiar. Em si mesmo, em Harry, no relacionamento. Já era tarde. Havia se importado demais, se aberto demais, se entregado demais. E seria rejeitado. Potter nunca confiaria nele, mesmo com tudo que tentasse fazer. Já não poderia sair dessa história sem machucar-se. O que mais temia começou a acontecer diante de seus olhos e era questão de tempo até que tudo piorasse. Só conseguia socar a própria cabeça e chorar sem pausa. O que faria a seguir? Como evitar a dor? Droga. Não tinha mais forças para abandoná-lo. Como aquilo iria doer. E não ter uma resposta fazia a agonia o engolir.
Fora se acalmando e então voltou ao quarto. Tinha os olhos tão pesados e o corpo tão cansado que não ouvira os flocos zunindo desesperadamente tentando acordar Potter, que, com o sono pesado, não havia ouvido também. Aparentando estarem cansados de voar, provocaram em Harry um sonho. Que na verdade não passava da visão que teria caso acordasse e tocasse um deles. Acordara assustado e inundado em remorso. Vira Draco dormindo e não tivera coragem de acordá-lo. Maldição, o que fizera? Arruinara tudo com sua própria insegurança e ter tudo de volta iria requerer esforços astronômicos. Como pôde ser tão insensível e não perceber o que se passava na mente de Malfoy? A capacidade que ele tinha de manipular no fundo o causou mais irritação ainda, como se provasse a razão de sua desconfiança e... Merda! Por que continuava a pensar nisso?!
Não precisou esperar tanto para que finalmente as criaturinhas luminosas arrancassem o outro de seu sono. Quase arrancando os cabelos com as mãos, não conseguiu formular nenhum discurso enquanto era encarado. Aproximou-se rapidamente a Draco sentado na cama, ficando de joelhos para ele.
–Por favor, me perdoe...
Draco respondeu rispidamente e tentou sem sucesso fazer Harry se soltar de suas pernas.
–Esqueça o que quer que você tenha visto. Não importa.
–Me desculpe, eu não queria te machucar. Dissera com os olhos lacrimejantes.
–Me solta, Potter. Acabei de dizer que não importa. Já entendi que você não confia em mim, isso nunca vai dar certo. É melhor eu ir embora.
Em resposta, Harry prendeu-se a ele com mais força. Beijava seus joelhos e soluçava com a cabeça entre eles. Emitia murmúrios abafados:
–Por favor, não... Podemos resolver isso, não vá embora...
E logo depois sentiu um empurrão e tombou para o lado. Em um acesso de fúria, levantou-se e elevou a voz:
–Porra, o que é que eu tenho que fazer?! Como eu devo lidar com isso se toda vez que você tem um problema resolve fugir dele ao invés de falar?! Qual a grande dificuldade?!
A expressão de Draco assumira uma animosidade indignada e, sem pestanejar, disse:
–Me diga você. Como vai reagir toda vez que eu quiser dizer o que eu sinto? Vai correr de medo e se esconder de mim, e depois ainda por cima querer me culpar?
Houve uma curta pausa e então ele continuou:
–Eu não posso. É melhor acabar por aqui.
–Espere. Dê mais uma chance pra isso tudo. Eu prometo que vou tentar também...
–Não tenho certeza.
–Pelo menos pense melhor...
–Ok. Eu irei. Disse com certa má vontade. –Me dê um tempo. E por favor, não crie esperanças. Não torne isso mais desagradável do que já está.
Arrumou as malas sem sequer levantar o olhar a Harry. Ali estava Malfoy. Com a velha altivez e apatia de sempre. Um olhar malicioso, analítico, penetrante. Mal se podia imaginar que horas antes agia com doçura e carinho. Não se arriscaria dizer que ele estivera junto de Potter. Por fora, tudo parecia bem normal.
Apenas por fora. Por dentro havia passado um furacão. Em meio à taciturnidade, tudo estava destruído. Harry não queria acreditar no que estava acontecendo. Em tudo o que aqueles poucos dias trouxeram a ele. Se pudesse, voltaria à noite de natal em Hogsmeade e jamais teria ido atrás do namorado. Agora ex. Ou talvez... Não se sabia. Não tinha certeza de nada. Apenas queria-o desesperadamente e desejava que tudo isso passasse e ele voltasse. Voltasse caloroso como estava. Sentia-se patético, tão corajoso para arriscar a vida, tão medroso para lidar com seu próprio interior. Sabia que Malfoy não ia voltar. Sabia que seu orgulho e mágoa o impediriam. Estava então sozinho.
Os flocos voavam preguiçosamente, opacos e abatidos. Não tinham nada a mostrar no momento. E mesmo que tivessem, ele não queria ver. Poderia encarar palavras de ódio cultivadas dentro dele, poderia encarar o desprezo, mas não poderia encarar o fato de que o tinha magoado. Droga, por que tinha que ser tão difícil? Sua cabeça doía fortemente e só tinha vontade de desligar-se. Voltar quando tudo tivesse passado. Daria tudo para parar de pensar por alguns momentos.
Reuniu forças para acompanhar Draco à porta sem esboçar reação alguma. Só era capaz de encarar o chão. Levou os olhos aos dele e sentiu queimar por dentro:
–Bom... Adeus, Potter. E o observou virar a esquina da rua e aparatar.
Assim que a porta se fechou, ruiu em agonia. Não conseguia mais chorar. Um laço apertava muito forte sua garganta e sua cabeça ameaçava explodir a qualquer minuto. Resolveu deitar-se. Quando encostou o corpo nos lençóis, pode sentir o cheiro do rapaz que acabara de sair. E arrepiou-se por inteiro. Quis chorar, quis vomitar toda sua tristeza e incômodo, mas não tinha forças para separar-se do cheiro. Sentiu-se desolado, desamparado, solitário. Apertara o travesseiro buscando o alívio ou pelo menos a pausa de tudo aquilo. Em instantes o sono o abateu.
Draco adentrou a mansão silenciosamente. A mãe aconchegou o filho nos braços, surpresa, e fora aprontar o chá. Apenas haviam se comunicado por cartas até então, e Narcisa aceitara o relacionamento, não sem algumas ressalvas. Por não se verem a alguns dias e por gratidão, aceitou a trivialidade. Talvez isso o distrairia do que havia acontecido na noite de ano novo. Besteira, sabia que não. Mas não custava tentar.
Os dois não haviam proferido uma palavra para o outro enquanto bebiam o chá. O olhar alheio e distante de Draco fez Narcisa compreender de certa forma o que havia acontecido. Sabia que seu filho não iria ceder tão fácil, mas teria de tentar.
–E então, o que o traz aqui?
–Não iria ficar lá pra sempre, mãe. Uma hora eu teria que voltar.
–Sim, disso eu sabia. Só não pensei que fosse ser tão cedo. E, a julgar por sua mala, nem mesmo você.
–Se está insinuando que algo aconteceu, esqueça, está errada. Eu preferi terminar tudo, foi isso.
–E pra você isso não é um acontecimento?
–Não, eu não me importo.
–Ele afetou você mais do que eu esperava.
–Brilhante dedução. De onde a tirou? O ácido do sarcasmo borbulhava quente em sua língua. –E não seja tola, mãe, ele não me afeta.
Antes de responder, Cissa apenas segurou a mão do filho e acariciou seus cabelos enquanto falava:
–Eu conheço você. Vejo que você está desmoronado por dentro, decepcionado, arrependido, mas ao mesmo tempo desejando muito voltar. Seus olhos dizem tudo. O que quer que tenha acontecido tem toda a importância pra você.
Narcisa então se surpreendeu com o que aconteceu a seguir. Jamais imaginaria que o filho debulharia em lágrimas e a abraçaria. Não pôde evitar sentir-se feliz. Isso mostrava que ele não era igual ao pai. Draco estava salvo de toda aquela insensibilidade que um dia o levaria à ruína. Agradeceu Potter em seus pensamentos por isso. Aguentou os outros tantos minutos de choro do filho com o coração comprimido, até que o mesmo recuperou o fôlego e deitou-se em seu colo.
–Por que tem que doer tanto? Por que eu me importo tanto assim? Sou fraco, deixei isso tudo tomar conta de mim... Por que eu sou tão fraco, mãe? Quer dizer, eu sabia que ele iria me decepcionar. Mas eu insisti, poderia ser algo bom. Agora tudo que eu previa aconteceu e eu estou assim. Eu me abri demais, eu me deixei descontrolar. Por que, mãe?
–Você não é fraco. Observe seu pai, teve as mesmas ideias e olha o que ele nos trouxe. O que ele nos fez. Você tem que assumir e encarar o que se passa. Ou você quer viver uma vida igual a que ele nos proporcionou? Se decepcionar e se importar com alguém dói, mas muitas outras coisas também.
–Mas eu me sinto inferior quando demonstro o que sinto. Sinto que estarei facilitando pra ele no fim se aproveitar. E foi o que aconteceu, mãe.
–Você tem exemplos tão péssimos de superioridade que nem sei por que ainda pensa nisso. Se você entender relacionamentos como guerra, seu pensamento está certo. Mas eu não creio que inimigos sejam tão afetuosos um com o outro, meu filho.
–E o que eu devo fazer então? Estou tão confuso, eu só quero acabar com esse tormento.
–Confiar. E falar. Você está frágil, sofreu. Mas precisa se permitir ter confiança ou então irá enlouquecer.
–Ele não confia em mim, mãe.
–Vocês dois tem o mesmo problema. Responda-me: por que está com ele?
–Porque parece certo.
–Isso deve bastar. Ele fez bem a você. Está te libertando, te fazendo crescer. Não era o que eu imaginava pra você, mas você estava bem ali. E deve ser algo especial, essas criaturas são raras. Disse, apontando para os flocos.
Draco sentiu-se liberto depois de ter falado tudo que guardava dentro de si. Sentia uma saudade imensa de Harry, mas sentia-se muito frágil para ceder outra vez. Precisava pensar. O que sua mãe havia dito fora de grande ajuda, afinal. Só não se sentia pronto para tomar a atitude. Queria voltar à mansão Black, queria estar com Potter. Mas ainda havia a mágoa. Nada conseguia apagar o que havia acontecido. Deveria então decidir o que seria mais importante. O amor ou os princípios.
