Lou: Muito obrigada a quem deixou reviews e está acompanhando a história! Estou continuando, como prometido. Até a próxima, gente :) continuarei se houver algum retorno, espero que gostem do capítulo!

Cho logo notou que algo estava errado. Viu o tumulto que tentou ser encoberto quando todos avistaram Malfoy do outro lado do estabelecimento. Abraçou as companheiras com alegrias e dera um olhar desdenhoso a Ron, que veio reclamando a viagem inteira.

Fora uma das viagens de trem mais engraçadas que Harry tivera em todos aqueles anos. A incredulidade do melhor amigo enquanto fazia perguntas irritantes e incessantes só não era mais engraçado do que as reações de Hermione, Luna e Ginny.

-Mas... Como tantas pessoas ficam envolvidas num relacionamento só? Você acha isso certo, Ginny?

-Acho, Ron. Disse a irmã, e continuou:

-Você não?

-É óbvio que não!

-Que pena. Não me importo.

Tentava controlar o riso em respeito a Ronald, mas falhava miseravelmente todas as vezes. O ruivo sentiu seu coração quase parar ao ver as três moças darem um delicado beijo... Triplo. Não entendia como o rapaz poderia achar uma coisa tão simples algo tão anormal.

O caminho até Charriot era realmente estonteante. Neville contava sobre seus planos de futuramente lecionar Herbologia em Hogwarts e as três amigas só conseguiam falar de Cho. Harry não admitia, mas estava mortalmente curioso para vê-la. Não sabia se isso era o certo, mas era assim que se sentia, afinal. Os flocos haviam sossegado e estavam acomodados dentro de seu paletó por um feitiço que Luna o ensinara. Quase não notava a presença deles ali a não ser quando um ou outro escapava. A tentação do toque aumentava, ainda mais pelo brilho atraente que a criatura mantinha. Tentou esquecer, pois não estragaria o propósito da noite.

-Caramba Harry, as coisas não fazem mais sentido nenhum. Reclamou o Weasley enquanto todos pulavam dos vagões para a plataforma, já avistando uma quantidade absurda de luzes e pessoas. Era um lugar enérgico e com muita classe ao mesmo tempo. Um lugar que Malfoy com certeza iria gostar... Mas o propósito era não pensar nele, não? E então tais confabulações esvaíram rapidamente de sua cabeça.

Um pub ridiculamente decorado com todo tipo de simbologia irlandesa chamava atenção dentre todos os outros lugares. Não se requeria muita percepção para saber que aquele era o Black Kelpie. O floco que conseguira sua liberdade das roupas de Harry agitou-se intensamente enquanto se aproximavam do lugar, fazendo o feitiço então se quebrar e todas as outras criaturinhas pularem para fora. Bufou em frustração temendo pensar no significado daquilo quando não precisou de mais explicações.

Lá estava ele. E Cho. Juntos.

Sentiu-se paralisar e todas as suas entranhas congelarem. Tinha uma dificuldade deveras intensa de capturar ar ao respirar. Não sentia mais o chão a sua volta. Apenas queria-o. Mas o contato visual se desfez rápido como se gerou e a realidade caiu sobre si. Focalizou o nada enquanto todos cumprimentavam Cho animadamente, exceto Ron. Ela estava bonita, sim, mas pouco importava. Por que ele estava ali? Por que ela falava com ele? Sobre o que conversaram? Será que ele citou seu nome na conversa?

Ficara claro demais até pra quem pouco sabia de Oclumência toda a situação. Chang notara imediatamente os flocos de Harry que também pairavam sobre Draco e lançara um olhar investigativo para Harry. Em poucos segundos, seu olhar tornara-se apiedado e sentou-se ao lado do rapaz.

-Então... Era você de quem Draco havia falado. E o que são essas coisas, afinal?

-Indicam...

-Disso eu já sei. É tão fácil ler sua mente, Harry... Sua voz era carinhosa e consoladora.

-Não sabemos o que essas coisas são. Ninguém sabe. Mas por que só foi nota-las agora?

-Na verdade foi uma das primeiras coisas que notei. Mas ele esconde os pensamentos tão bem... Só consegui captar poucas coisas.

-Como o que?

-Ele sente sua falta, Harry.

Todos na mesa haviam mantido o nível alto das conversas para que pudessem dar um mínimo de privacidade à conversa dos dois. Era perceptível a tensão e a tristeza carregada no lugar. Logo então todos se calaram para ver Jailer começar a apresentação.

O Eleito até gostaria de dizer que prestou atenção, mas estaria mentindo. Não desviava de nenhuma maneira o olhar dos cabelos quase platinados de tão claros. Sozinho. Queria ter forças para ir até lá, mas não conseguia encarar o que havia feito. A culpa o corroía, talvez mais até que a saudade. Toda sua animação havia morrido.

As músicas se arrastavam e pareciam durar dois infinitos cada uma. O vazio que carregava em si era grande. Quando o olhar desviava, os pensamentos buscavam. Aquela noite, que deveria ser o oposto, se trataria de Draco Malfoy.

A animação de todos era evidente. Tentou disfarçar o melhor que pôde e integrar-se no ambiente, mas sentia como se não estivesse realmente ali e todos não pudessem vê-lo. Quando tudo acabou, sentiu a mão de Cho agarrar firme seu pulso.

-Vá falar com ele, por favor. Seus pensamentos estão me torturando. Riu-se, amigável.

Num impulso, conseguiu ir até o ex. Sentou ao seu lado, esperando qualquer reação. Qualquer uma. Não recebeu nenhuma. Buscou o contato visual de Chang, que apenas acenou a cabeça. Sentiu os olhares preocupados das amigas, mas sabiam que era algo que ele deveria fazer sozinho. Aproveitavam a chegada da namorada, de quem sentiam tanta saudade. Ron ainda reclamava, mas havia cedido um pouco. Respirou, e tocou o ombro à sua frente.

-Potter. Sibilou Malfoy acomodando-se como um gato preguiçoso na cadeira.

-Podemos... Conversar?

Recebeu um encolher de ombros e um olhar indiferente como resposta. A máscara fria e irredutível havia voltado em sua melhor potência.

-Eu... Sinto muito. Por favor, não aguento mais... Sei que deveria esperar por uma resposta sua.

Foi o mesmo que falar com o nada, tamanha indiferença do outro. Persistiu naquela conversa unilateral para atrair o interesse dele. Precisava dele, por Merlin, deveria ser capaz de dizer tudo.

-Eu...

Sua voz havia travado. Forçava as palavras a saírem, mas elas só escorregavam mais para o fundo de sua garganta. Sentiu seu coração pular algumas batidas quando recebeu o mesmo olhar investigativo, só que mais sombrio e pesado.

-O que foi isso, afinal? Desdenhou Malfoy.

Harry conseguiu unir as palavras em um sussurro.

-Eu quero você de volta.

Draco acomodou a mão em forma de concha ao redor de sua orelha, debochando do quão estupidamente baixa a voz do outro saíra. E então decidiu tentar uma abordagem diferente. Machucá-lo só lhe causava mais dor, por Merlin! Deveria saber lidar com aquilo da maneira correta. Segurou a mão do rapaz e olhou-o fundo nos olhos, amolecendo os traços endurecidos da face. Estava calmo, relaxado... Verdadeiro.

-Eu vou ser sincero. Você não está pronto. Sendo assim, eu não posso. Eu sinto muito.

A imensa melancolia que explodiu no peito de Potter fora rapidamente se transmutando em pura raiva. Lançou um olhar fulminante a Draco e sibilou:

-Você é um maldito. Um maldito egoísta! Por que não pode simplesmente parar com esse jogo? Por que tem que ter o ego maior do que pode carregar? Do que você está se protegendo, afinal? Estava tudo bem, por que você tinha que ficar tão paranoico com aquilo? A ponto de chorar, inclusive! Não fui eu quem estragou tudo, foi você com seus malditos jogos.

Ora. Golpe baixo. Malfoy nunca imaginaria que Potter debocharia de seu sofrimento. Chegou até a rir ironicamente consigo mesmo. Estava tão incrédulo... Não acreditaria se não tivesse presenciado a cena com os próprios olhos. E então o Eleito desabou. No mesmo segundo em que havia dito aquilo, se arrependeu. Buscou com o olhar o perdão de Malfoy, que recusou na mesma hora, rindo e pendendo as mãos para os lados.

"Você acabou de confirmar o que eu disse, estúpido".

A frase nunca chegou a ser pronunciada, mas fora subentendida. Desolado, só conseguiu virar as costas e sair. Cho observava tudo de esguelha e sem nem ao menos estar por perto, sabia de cada palavra dita na discussão pela linguagem corporal de ambos. Quando Harry finalmente chegou até a mesa, todos sugeriram ir embora, pois a noite caía e com certeza Cho estava abatida pelo cansaço. A mesma sussurrou no ouvido de Harry:

-Vá com todo mundo até a plataforma, eu encontro vocês depois. Vou te ajudar com isso, Harry. E lançou a ele uma expressão cúmplice.

O pub ia esvaziando-se aos poucos e só restavam algumas pessoas e o loiro perto do palco. Cho sentou-se perto dele.

-E então, o que achou?

-Entediante. Disse, com voz sonada.

-O que aconteceu com você e Harry? Disse, muito séria.

-Não acho que eu precise dizer. Ele perdeu a cabeça como sempre faz. E me atacou. Eu nunca havia levado a sério quando me diziam que muitas vezes ele se descontrola e magoa todos ao redor. Agora, não me surpreendo. Exceto que ele falhou em me magoar. Só provou que eu não posso confiar nele.

Chang suspirou, entediada.

-Você pode enganar qualquer um Malfoy, menos a mim. Você se magoou sim. E isso só te deu mais dúvida se deveria retomar tudo ou não. Tem medo do que pode estar perdendo caso fique com ele e ele te magoe. Isso é tudo medo, nada mais.

-É melhor assim.

-Pois eu te desafio. Faça o que você está pensando. Garanto que não será metade do que tem com ele. Essas criaturas indicam algo forte, algo raro, não vê? Não são elas que criaram isso, foram vocês! Isso é só uma consequência! Você não terá isso com mais ninguém, acredite em mim.

Um silêncio aterrou a conversa. Os olhares se sustentaram fixos um no outro por alguns segundos e então Draco fez o que estava pensando e o que Cho já sabia. Ele a beijou. E, como ela já previa, foi a prova de que estava certa. Ele abaixou a cabeça, com lágrimas nos olhos.

-Eu vou te ajudar. E beijou-lhe a testa.

Quando a viu se afastando, Malfoy tivera um lampejo de ideia em sua mente e a chamou. May estava se arrumando para sair, poderia assinar algo para Cho. Fora sua mostra de gratidão. Não aguentava mais tudo aquilo e queria tudo de volta como antes. Ele não se enganou no final. Ela era uma boa pessoa e uma boa amiga. Poderia... Confiar nela. E tinha esperanças de que tudo se resolvesse, pois sentia asco ao lembrar-se do que Potter havia lhe dito minutos mais cedo.

A felicidade da moça era radiante por receber o autógrafo. Ela despediu-se com um beijo na bochecha e fora saltitante até a estação de trem, com o vento frio da madrugada balançando seus longos cabelos negros. Ao avistar todos esperando por ela, anunciou feliz:

-Eu não poderia ir embora sem o meu autógrafo, não é?

Todos acabaram caindo no sono na viagem de trem de volta. O álcool que haviam consumido fez com que todos apagassem rapidamente. Exceto Harry. Não conseguia perdoar-se pelo que havia dito ao outro. Ora, se antes já estava difícil aproximar-se de Draco, agora era tarefa impossível. Deveria desistir de tudo, pois seus impulsos estragaram tudo. Encarou o rosto sonolento de todos na cabine. Chang estava sentada bem à sua frente. Não iria aguentar. Precisava saber como ela o ajudaria. Se ele teria chance. Ela lidava tão bem com Malfoy...

-Cho... Sussurrou, em voz muito baixa.

Ela, que tinha sono leve, acordou:

-Hm, o que foi Harry?

-Você acha que... Ainda tenho chance?

Ela suspirou, com cuidado para não acordar ninguém, e disse muito severa:

-Você precisa controlar seu ego. Malfoy estava com medo e tudo o que você disse só piorou. Ele não sabe se pode confiar em você, Harry. Se realmente quiser, pare de se auto apiedar e peça desculpas. Mostre que mudou. Que pode dar a segurança que ele precisa. Não faça algo tão bonito morrer.

Ela estava certa, afinal. Maldito ego. Aquilo fora o estímulo final para que pudesse finalmente agir certo. Para que pudesse tê-lo por perto novamente. Que saudade que sentia! Como o queria de volta... Tocou então num dos flocos. E sua visão fora Malfoy fazendo o mesmo em um dos vagões do mesmo trem.

Era certo. Deveria ir até lá. Era sua chance. Andava com seus passos surdos até o outro lado do trem. Olhava cuidadosamente pelas portas de vidro, até que no fim do corredor, ali estava quem tanto procurava.

-Ei... Sussurrou.

Draco aproximou-se com passos tímidos até ele. Os dois envolveram-se num abraço apertado e Harry sabia o que fazer a seguir:

-Eu sinto tanto... Desculpe-me, foi tudo culpa minha, eu estraguei tudo. Eu sinto tanto sua falta... Eu te amo.

Draco apenas calou sua boca num beijo. A saudade era tanta, céus! Todos os problemas pareceram resolver-se ali. Ambos encolheram-se na cabine de Malfoy, observando o céu por uma das janelas. Os flocos tinham brilho característico de quando tudo estava bem. Mas sua luz era um tanto vacilante.

-E então, como ficamos? A curiosidade de Potter era grande. Precisava saber para finalmente sentir-se aliviado. Tinha suas dúvidas, claro. Tinha seus medos. E se tudo desse errado novamente? Havia descoberto o quão pouco sabia do outro ao conversar com Cho. Não tinha nem metade do jeito que ela tinha de lidar com ele. Como faria dar certo?

E essa dúvida transpareceu. Draco também tinha seus medos. Precisava garantir-se totalmente de que aquilo não desabaria. Só a conexão carnal não bastaria. Ele teria de ser capaz de encarar seus sentimentos, demonstrá-los e obter reciprocidade nisso. Não estava pronto, ainda não.

-Eu preciso pensar. Eu não me sinto pronto. Ainda não estamos prontos. Eu não posso...

Ao sentir o outro acomodar-se em seu ombro, ele o consolou:

-Ei... Eu também amo você. E mesmo que isso demore um pouco, vamos nos esperar, certo?

Beijaram-se novamente. Grande parte da aflição os havia deixado. Agora só restavam os problemas a serem resolvidos. Não poderiam relacionar-se novamente se isso significasse conflito constante. Seria danoso para ambos. Talvez fosse realmente melhor assim.