-Mãe, não dá mais. Eu não aguento.

Narcisa fora violentamente despertada de seu sono pelo filho, que escancarara a porta de seu quarto. Num olhar misto de sono, frustração e tédio, disse:

-É melhor que isso seja no mínimo urgente.

O filho correu para sentar-se ao seu lado da cama e disse tudo em uma única lufada de ar:

-Ele estava lá. Nós nos beijamos, mãe. Eu ainda o amo. Mas ele ainda é um estúpido e eu ainda não posso confiar nele. Eu não sei o que fazer.

Cissa apenas rolara os olhos antes de perguntar:

-E o que você pretende fazer?

-Eu não sei. Achei que você tivesse alguma ideia! Eu preciso que ele prove o que sente.

-Merlin, eu achei que isso tinha ficado óbvio, Draco. Peça-o em casamento. Faça-o me enfrentar. Se sacrificar por você.

-Por Merlin, como eu nunca pensei nisso antes?!

-Sinceramente, eu esperava mais de você.

-O que seria de mim sem você, Narcisa?

-Nada. Agora vá e me deixe dormir. E beijou-o na testa.

Era o plano perfeito. Genial, a prova de falhas. Afinal, caso não desse certo, casamentos poderiam ser desfeitos. Era a situação ideal para conseguir o que queria. Pouco importava o que viria depois, ele teria certeza de que poderia confiar no outro.

Isso se Harry concordasse. Sempre existia a chance de dar errado. Potter, uma pessoa tão previsível e ao mesmo tempo tão complicada... Tão egoísta, assim como ele. Talvez não aceitasse. Mas então poderia desistir de uma vez e se dedicar mais a outras coisas. Sempre teria Pansy e Blaise caso quisesse uma aventura, pensou. E Cho poderia distrair sua mente e estar por perto. Sim, seria o plano perfeito.

Começara a realmente botar fé nas criaturinhas luminosas e os manipulava a todo o tempo. Precisava saber como Harry se sentia, para ter certeza do que fazer. Tinha que deixa-lo a beira do desespero, a ponto de que não pudesse recusar de nenhuma maneira a sua oferta. Besteira, sempre havia a chance de recusa. Nesse ponto os dois eram tão parecidos... Seu ego feriu-o levemente quando se deu conta de que estava dedicando-se totalmente a essa empreitada quando na verdade deveria ser cortejado, deveria ouvir as súplicas do ex. Droga. Estava se rendendo aos sentimentos. Sua impaciência certamente estragaria tudo. Esperaria, então, por uma atitude.

Harry não fazia questão alguma de controlar sua inquietude. Não sabia se deveria esperar ou agir, e isso o incomodava profundamente. Não sabia o que esperar de Draco. Ao contrário dele, não tinha nenhuma maneira de saber o que as outras pessoas pensavam. Estava numa caminhada no escuro. Matutou durante todo o dia o que deveria fazer, até que finalmente entendeu. Ele tinha tudo que precisava voando a seu lado 24 horas por dia. Como seria tão desatento a ponto de não perceber?

A visão que teve não ajudou muito. Mostrava Draco... Sendo o Draco. Não pôde ler nenhuma emoção, nada. Completamente impassível. As criaturas foram completamente inúteis. Já frustrado e cansado daquilo, resolveu escrever para ele. Queria vê-lo e acabar logo com isso, queria uma resposta definitiva. Sem mais jogos.

Na carta pedia a ele para vir até lá para que pudessem conversar e passar o tempo. Tentou ser casual, ignorando o fato de que Draco perceberia suas intenções até pelo jeito que escrevia. Ele iria vir, tinha certeza. Sabia que ele o queria de volta e que dessa vez finalmente iria ter a situação em suas mãos para lidar com ela do jeito que quisesse. Pelo menos uma única vez.

Ele fora tão verdadeiro em suas demonstrações. Podia ver a verdade em seus olhos, seu toque, o beijo. Sentia saudade tanto quanto ele, e pôde observar que ele havia aprendido a controlar seu ego. Conseguiu, depois de tanto tentar. Havia conquistado Malfoy. O tão engenhoso e difícil Malfoy.

O dia arrastou-se e ele não viera. Recusou-se a dar a situação por terminada. Teria esperança e esperaria o quanto fosse necessário. Ele viria, tinha certeza. Andava ansiosamente em círculos pela casa quando nada mais satisfazia seu tédio. A ansiedade era avassaladora e não sabia como extravasá-la. Draco teria de vir logo ou ele explodiria.

Observava o nada pela janela quando viu uma figura de sobretudo preto e cabelos platinados aparatar. Ele veio. Seu coração parecia que ia saltar para fora de seu corpo de tanta agitação. Mal pôde conter-se e desceu as escadas como um raio para alcançar a porta. Lá estava ele. Num olhar tão instigante que o deixou desconfortável.

Algo estava por vir.

Ambos trocaram um aperto de mão desajeitado, antes que Harry se adiantasse para um abraço que Draco mal retribuiu.

-Ei... Erm, como vai? Ele fora desarmado pela frieza do outro.

-Bem. Ele parecia calmo demais. Centrado demais. E o pior: parecia saber suas verdadeiras intenções. Droga...

Ambos entraram e acomodaram-se na cozinha. Draco pareceu aprender o mesmo feitiço que Luna havia ensinado a Harry, pois ambos mantinham as luzes acomodadas dentro das roupas. Querendo acabar com tamanho nervosismo que demonstrava, havia virado uma dose da bebida. Por outro lado, Malfoy apenas a bebericava, não precisando dela para manter-se gélido e relaxado. Aquilo o incomodava tanto...

-Achei que devêssemos nos ver depois de ontem. Harry disse, lutando um pouco contra o efeito do álcool que começara a se instaurar em seu corpo. –Irmos devagar, como você disse.

-Você deveria parar de fazer isso. É tão patético... Ele ignorou completamente os olhares chocados do outro e continuou. –Você é muito mau mentiroso, Harry. Eu sei por que você me chamou aqui. E, sendo sincero, eu quero o mesmo que você. Por isso eu resolvi fazer uma proposta.

O corpo todo do Eleito gelou. Tivera pavor de perguntar o que seria. Não sabia o que esperar. Respirando fundo, perguntou enfim:

-O que é?

-Nós nos casamos.

As mandíbulas de Potter caíram. Arregalara os olhos em surpresa e arqueara as sobrancelhas, tamanha a confusão que o abatera. O pavor o tomou por completo e questionou-se se ouvira certo. Casar? Sentiu vontade de sumir, de fugir.

-Eu não sei... Parece muito compromisso pra mim.

-Bem como eu pensava. Constatou o outro e virou-se.

Ok, outro acesso de fúria. Mas como ele teria culpa nisso? Por que Draco simplesmente não parava de tentar manipulá-lo? Forçava seus limites até o fim, cutucava fundo a ferida de seus medos. Não queria submeter-se a isso. Queria-o, era só. Mas ao mesmo tempo o detestava.

-Você não cansa, não é? De tentar me levar além de onde eu posso ir, de manipular minhas fraquezas e usá-las contra mim. O que você quer de mim, afinal? Isso tudo é mágoa? Como eu queria que você parasse de agir desse jeito tão infantil e rancoroso... Sua voz saiu calma desta vez. Tinha um tom forte de desapontamento, mas nada de cólera.

-Eu só espero que você lembre o tanto que sacrifiquei por você. Tantos medos que eu precisei enfrentar para deixar essa convivência minimamente possível. Tantas brigas internas que eu tive para deixar você feliz. Tudo por você. E o que você fez por mim além de se aproveitar disso? Você também tem que aprender a fazer concessões, nem tudo é sobre você.

-Espera, vamos resolver isso! O garoto o puxou pelo braço, evitando que saísse.

-Não há o que resolver. Agradeça por eu ainda estar te dando um tempo para decidir. Não vou esperar minha vida inteira por você, Potter. Quero uma resposta até amanhã.

E foi embora com passos rápidos. Harry não teve forças de pará-lo. Ele tinha razão, mais uma vez. Odiou-se por alguns segundos. Não sabia o que fazer e não se sentia pronto para decidir. Toda sua vontade de recusar havia caído por terra depois de ouvir aquilo. Não podia esconder nada de Draco, e até agora ele não havia usado isso uma única vez contra ele – ao contrário do que ele mesmo pensava. Ele realmente o amava. Mas que provas Harry havia dado de que era recíproco? Seu orgulho ardia em seu peito. Era a única coisa que o impedia de concordar com a proposta.

Enquanto isso, Draco varava pelas ruas, frustrado. Com raiva, sim. Injustificável, também. Não ocorrera nada contrário ao que ele havia previsto. Era de Potter que estávamos falando, por Merlin! Precisava fazer alguma coisa. Nada nos olhos do outro havia dito que ele se arrependeria e diria sim. Surpreendeu-se ao pensar em quanta falta sentiria daqueles olhos. Estava terrivelmente magoado e amaldiçoava a todos por isso. Se abrir, grande besteira havia feito. Estava ali, sozinho e com vontade de chorar. Não importava mais. Iria seguir seus impulsos, para onde quer que eles o levassem. Pansy e Blaise... Era fim de tarde, provavelmente estariam em casa e não negariam o que ele queria. Draco não queria mais pensar, só agir, para talvez amenizar a dor e frustração que carregava dentro de si.

Sua mente poderosa conseguiu aparatá-lo para lá. Uma casa um tanto pequena para seus padrões, mas suntuosa, um tanto obscura e intimidadora. As coisas entre eles estavam mais sérias do que ele imaginava.

Dominado pela luxúria, tocou a campainha e ouviu o som ressoar por todo o lugar. Era um lugar um tanto afastado do movimento da cidade. Pansy estava do outro lado da porta. Pôde ver as pupilas muito dilatadas do par de olhos cinzentos, e os seus se encheram de lascívia.

-Eu sabia que você viria. Seus negros olhos pareceram fazer ecoar o desejo que sentiam na voz da garota.

Blaise estava no encalço da namorada. Assistira a tudo um tanto afastado e ainda assim pudera ler cada pensamento que se passava pela cabeça dos outros dois. Ora, ele não ficaria de fora de nenhuma maneira. Em poucos segundos vira-se atacando o pescoço de Malfoy, enquanto Pansy o beijava furiosamente. Guiaram-se por passos cegos até o quarto.

Draco fora deitado pelos outros dois enquanto tinha suas roupas arrancadas. Era disso que precisava. Apagar, esquecer. Enquanto Pansy o chupava, fazia o mesmo em Blaise. Isso o trazia tantas memórias de tantas maneiras. Riu-se por dentro. Era esse tipo de confusão que estivera procurando para ser seu entorpecente.

-Minha vez. Sibilou Pansy.

Ela deitou-se e deixou que ambos viessem a ela. Os rapazes alternavam entre o sexo oral e carícias em outras partes do corpo. Seus gemidos eram envolventes e ela era uma pessoa muito sensual. Há quanto tempo não tinha contato com ela... Sentia-se um pouco desacostumado.

Tudo se seguiu de forma bem dispersa. Tudo fora um borrão de hormônios e fluidos. Mas o bom era que não carecia de entendimento. Era só o ato, o instinto, o bestial, o cru, o visceral. Até que sentiu corpo e mente voltarem à realidade depois do orgasmo. Aquilo era tão... Frustrante! Estava pior do que quando havia chegado. Queria mandar o mundo à merda, esconder-se e fugir de toda aquela complicação. Não havia pedido por tudo isso, então por que ainda acontecia? Merda. Não havia como apagar aquela dor tão rápido.

Só pôde se levantar e ir embora. Sem justificativas. Sem nenhuma palavra. Sem explicações. Sua voz estava pesada demais para exprimir qualquer palavra. Todo seu esforço estava em segurar as lágrimas geradas pelo enorme buraco negro que carregava na alma. Voltou para casa e encolheu-se em seus lençóis, murmurando toda a longa lista de maldizeres que aprendera na vida.

Até que sentiu o aconchego. O alívio. Harry havia vindo. Estava ali, na porta. Não pôde descrever o quão bem se sentiu. Sem capacidades de recuperar sua compostura, fora de encontro a ele, que tinha as mãos trêmulas e lágrimas nos olhos.

-Eu aceito. Me caso com você. Por favor, vamos parar com isso. Suplicou o outro em seu abraço.

Trocaram um beijo sedento e então Draco pontuou:

-Já é tarde. Passe a noite aqui.

Subiram silenciosamente pelas escadas. Narcisa dormia, o que deixou Harry menos apreensivo. Ainda estava temeroso, mas não desistiria. Adentrou o quarto do noivo. Era imponente e caliginoso. Acomodou-se na cama enquanto esperava.

Cissa havia parado à porta para segurar o braço do filho e lançar a ele um olhar de "bom trabalho". Era óbvio que ela sabia. Nada escapava a essa mulher. Era imbatível.

Harry então repetiu a cena que o havia trazido à Mansão Malfoy em sua cabeça pela milionésima vez. Tivera a desgraça de tocar os flocos no justo momento em que vira o noivo com Parkinson e Zabini. Fora invadido por um sentimento novo: o ciúme. Flamejante ciúme. Cego de raiva e mudo de desespero, sabia que precisava agir ou então perderia quem amava para sempre.

Nunca mais queria sentir aquilo novamente. Queria ter a garantia de que estaria sempre junto dele e ninguém jamais chegasse a esse nível de intimidade com Draco. Que se danem seus princípios, nunca foi de segui-los de qualquer forma. Isso o trouxe uma paz tão absurda que se arrependeu de não ter dito sim antes.

Aconchegaram-se juntos, acariciando os cabelos um do outro e dizendo o quão abrandecidos estavam. Como era bom finalmente estarem se entendendo. Draco não queria nada mais do que abraçá-lo. Não queria mais contato sexual depois daquilo. Sentia-se sujo, estranho, arrependido. Queria buscar o consolo que tanto precisou desde sua infância. Sabia que o encontraria ali. Naqueles braços.

Adormeceram aninhados. Tinham as respirações, os sonhos e as batidas dos corações conectadas. Paz de espírito. Os flocos os traziam o melhor sono e as melhores sensações da vida. Jamais queriam sentir-se de outra maneira. Estavam bem agora. Juntos.

E assim pretendiam ficar por toda a vida.