A luz que entrava pela janela fez os olhos de Harry arderem. Há muito tempo aquele quarto não recebia luz natural. Virou-se e encontrou o outro lado da cama vazio. Ainda um pouco tonto, percebeu o noivo fitando o espelho a alguns metros. Sabia que Draco sempre fora extremamente narcisista, mas observá-lo nesses momentos era algo precioso. E ele tinha motivo para toda a vaidade. Era extremamente bonito.

Quando Malfoy percebeu Harry acordado, virou-se e deu-lhe um sorriso. Verdadeiro, delicado, sutil. Sentou-se na beira da cama e segurou as mãos do outro.

-Bom dia.

Harry estranhou aquela atitude e riu. Não havia acostumado com a ideia de atitudes extremamente gentis e singelas de Draco direcionadas a si. Beijou-lhe as mãos.

-No que você está pensando? Pela primeira vez, Harry sentiu que sua mente não estava sendo lida. Era muito mais confortável.

-Em como vai ser. Eu estou tão feliz por estarmos juntos... Mas não sei como isso vai funcionar. Quer dizer, pude perceber que Cho te conhece melhor do que eu. E as brigas...

-Eu sei. E eu quero mesmo assim. Não vamos nos sentir pressionados. Se não der certo, bem, não é um voto inquebrável... Tenho esperanças de que possamos aprender a conviver extremamente bem.

-Você parece tão feliz.

-E estou.

Como poderia resistir a ele? Draco tornava impossível a tarefa de não se embeber em seu charme quando queria... Tão persuasivo! Ele o fez sentir seguro muitas vezes também. Agora que estava tão satisfeito, fazia isso melhor do que nunca. Os flocos flutuavam levemente próximos a luz da janela. Sem agitação, sem fervor. Calmaria apenas. Era um ótimo sinal, ele tinha de admitir.

-É melhor você se apressar... Vamos ter que falar com a minha mãe.

Isso fez suas entranhas queimarem. Não sabia o que sentir e nem como se comportar com Narcisa. A mulher que o havia salvado enquanto tentava salvar o filho também... Como isso era embaraçoso. Sentiu como se houvesse uma pedra em seu estômago. Levantou-se de um salto e tentou arrumar-se, falhando miseravelmente. Os cabelos continuaram na forma de juba indomada, as roupas um tanto casuais demais se comparadas com a do noivo. Terno, cabelo tão bem arrumado... Ora, que frustrante. Era melhor encarar o que estava por vir.

Desceu as escadas pensando em como agir. Ensaiou todos os diálogos que pôde naquele curto intervalo de tempo, até que a voz da mulher congelou seu corpo.

-Ora... Potter.

Não sabia o que fazer com as mãos. Mexia insistentemente na própria nuca e não conseguia manter o olhar fixo em Cissa. Depois de alguns minutos em profundo desconforto silencioso, Draco interviu. Harry não sabia se aquilo melhorou ou piorou a situação:

-Nós temos algo para contar.

Os três se sentaram. Potter apertava os próprios punhos, suava e tinha a respiração ofegante. Sua face avermelhara-se intensamente e deixou que Draco conduzisse a conversa.

-Pois não?

-Nós vamos nos casar.

A expressão da mulher em resposta fora séria e impassível. Nenhum sentimento transparecia. Isso só o deixou mais nervoso. Ele podia jurar que mãe e filho comunicavam-se amistosamente por baixo daqueles olhares... Mas quem era ele para afirmar, era tão ruim nisso!

-É verdade, senhor Potter?

-Sim. Teve que forçar-se para não gaguejar naquela simples palavra. –Nós vamos.

-Devo confessar que isso é muito repentino. Diga-me, Potter, vocês não tiveram uma relação um tanto animosa por tantos anos? De onde surgiu... Tudo isso?

Merda. Por que ela tinha que perguntar justamente isso? Como iria explicar? Até para ele isso era rápido demais. Num momento repentino os dois se beijaram e sentiram uma conexão inexplicável e agora estão... Casando! Em um intervalo de semanas! Então começou a entender o que eram os flocos na prática. Porque mesmo rápido demais, tudo parecia fazer sentido e era errado querer qualquer outra coisa. Poderia sentir tudo isso sem as criaturas, é claro, mas era diferente. Ou então ele via toda a situação assim.

De repente, sentiu-se extremamente seguro, como se pudesse fazer qualquer coisa. Draco segurava sua mão e todo seu nervosismo se esvaíra. Com voz pausada e firme, respondeu:

-Pode até ser muito rápido. Mas eu acho que isso veio de muito antes. Nós temos uma espécie de ligação diferente das outras. Algo nos destinou a isso. E queremos cumprir esse destino.

-Ele é melhor do que eu pensava. Riu a mulher para o filho.

-Espera... Vocês...

-Foi minha mãe quem sugeriu, na verdade. É por causa dela que estamos juntos agora.

Harry não pôde evitar um sorriso. A timidez novamente havia colorido seu rosto de vermelho. E então a lembrança de outro fato o arrancou de seus devaneios:

-O problema é Lucius. Eu realmente quis que a união de vocês acontecesse, mas não sei como ele vai reagir...

-Não precisamos falar dele agora. Disse Draco, com grande dose de aspereza na voz.

-Draco...

-Ele morreu pra mim. Podemos esquecer isso agora?

Uma quietude pungente se formou. Nenhum dos três soube como reagir. Malfoy foi-se apoiar na janela, fixando o olhar do lado de fora, mas sem nada ver. Falar do pai o transtornava muito. Por que a mãe havia tocado no assunto? Havia sofrido tanto quanto, ou até mais do que ele. Por que ainda insistia na ideia de que o pai pudesse melhorar? Sua mãe não era estúpida, disso ele sabia bem. Não acreditava nas ideias fantasiosas de regeneração de caráter, mas também detestava rancores. Acreditava que uma relação minimamente suportável poderia se formar dali. Não queria ver o filho ser envenenado pela mesma coisa que condenou o pai. Ele ela ainda podia moldar, e iria prosseguir nisso o quanto precisasse.

O tato que Harry fora obrigado a adquirir em todo esse pouco -porém intenso- tempo de convivência com Draco veio em ótimo uso naquele momento. Encostou a cabeça no ombro do outro e pontuou:

-Acho que a gente deveria começar os preparativos agora... Não estou com muita vontade de esperar, e você?

O outro riu.

-Sim. Senão a sua impaciência levaria você a fazer tudo sozinho e eu não quero um casamento organizado por você nem em meus piores pesadelos.

Riram como bons amigos. Iria funcionar, afinal?

-É, dá pra perceber que não levo jeito para a coisa. Assumiu Harry.

-Já que vão discutir os preparativos, por que não começam pela casa de vocês? Sugeriu Narcissa. –Ela com certeza precisa de uma boa reforma pelo que me lembro.

-Tem certeza, senhora Malfoy? Apagar todos os traços da sua família...

-Ninguém se importa mais com isso. Respondeu. –Por falar nisso, deveríamos avisar sua tia Andrômeda, ela gostaria muito de saber.

-Isso será um daqueles casamentos clichês que unem famílias ou eu estou enganado? Ironizou Draco.

-Já estava mais do que na hora de nos livrarmos das coisas velhas. Afirmou a mãe. –A casa era de propriedade de Sirius, e ele a deixou para Potter... Não tenho o que opinar nisso.

Harry apenas assentiu e esperou o noivo reunir suas coisas. Aparataram até seu novo... Lar. Compromisso. Um arrepio gelado percorreu a espinha de ambos, mas nenhum se atreveu a admitir isso.

Discutiram muito sobre a reforma da casa. Tinham gostos diferentes e era difícil conciliar tudo. Depois de muita teimosia por parte de ambos, conseguiram achar algo que ambos concordassem. A elegância e opulência de Draco e a leveza e energia de Harry. Dizem que o lar reflete as pessoas que o habitam, ou pelo menos deveria. Achavam que era assim que casais deviam ser. Pouco sabiam sobre, mas tentavam de todo jeito possível.

Todo o passado negro e pesado havia sido varrido do ambiente. Agora transbordava leveza, tranquilidade... Era enfim um lar. Trazia vontade de ficar ali, muito diferente do que era antes. Logo estavam se reunindo com os velhos amigos de ambos e tendo uma convivência muito além de agradável... Quem diria? Quem, observando toda a trajetória de todos eles, pensaria que todas as adversidades e conflitos iam ser deixados para trás um dia? Não demorou muito e os dois eram o casal favorito de todos os amigos.

Por muito tempo não brigavam. A euforia que os preparativos causavam parecia levar todas as desavenças e preocupações para longe, para os cantos mais longínquos da mente. Era a perfeita relação. Sexo frequente, cumplicidade amiga, sorrisos sem motivos a todo o tempo... A alegria inicial era sempre muito satisfatória.

Fizeram como mandam as tradições bruxas. Draco fora quem comandou praticamente a cerimônia toda. Um luxo sóbrio, ao cair da noite. Sua felicidade era exultante. Sentia-se orgulhoso. Por estar com quem nutria um sentimento desde a primeira vez que o viu. Sentiu-se vingado da rejeição que havia sofrido na infância dele e que não soube interpretar como o que realmente era: mágoa e atração. Sempre o quisera, e agora havia conseguido. Estava disposto e pronto para mudar, viver diferente, e ele era seu motivo. Encontravam o conforto de que necessitavam um no outro. E deixaram isso transparecer o máximo possível nos feitiços de união feitos naquela noite. E foram bem agradáveis os efeitos do excesso de vinho-de-fogo que haviam consumido (o qual Harry havia aprendido finalmente a tomar, mas não aguentava tão bem quanto Draco):

-Pra onde vamos? Perguntou.

-Conheço um lugar aonde não vão nos incomodar.

Arrastaram-se até um armário vazio e um tanto apertado do local. Pela moleza excessiva que o álcool lhe trouxera, Harry apenas deixou que Draco escorregasse a boca por todo seu corpo e parasse entre suas pernas, ansioso para retribuir depois.

Depois de fazer o mesmo com Malfoy, Harry achou pertinente apontar:

-Nós não deveríamos voltar? Vão sentir nossa falta...

-Ah, Harry... Algumas coisas nunca mudam, não é? Debochou. –É a nossa noite. Pouco me importa os outros agora...

Com essa resposta, Harry o empurrou contra a parede e o virou. Mordia-o a orelha enquanto o ouvia gemer com as estocadas. Sem nenhuma censura ou controle do volume que mantinham ali. Estavam absortos um no outro. Não existia mais nada ali. Engraçado e irônico como o álcool produzia efeitos tão parecidos com os do amor...

O orgasmo fora violento. Tinham os cabelos e roupas extremamente bagunçados – o que denunciava o que estariam fazendo – mas pouco se importavam. Se é que isso tinha alguma relevância sequer para eles. Ao saírem, ouviram Hermione cochichar:

-Na próxima vez, usem um Abaffiatto... Ou então sejam mais discretos.

Não restou nada a se fazer a não ser rir. Estavam felizes, ora essa! Talvez se arrependessem por sua falta de inibição depois que ficassem sóbrios, mas provavelmente não. Uma coisa que eles tinham em comum era ter pouquíssimos escrúpulos.

Fora uma das festas mais regadas a álcool que muita gente já havia frequentado. Eram pouquíssimos os que não sofreram de uma ressaca severa no dia seguinte. Era difícil deliberar se fora um casamento inesquecível... Ou esquecível. Mas o que realmente valia, no fundo, era a felicidade dos dois. Precisavam disso para continuar quando as brigas viessem. Sabiam que a euforia não duraria muito e logo teriam que superar seus próprios problemas para que pudessem continuar. Mas uma grande festa e algumas poucas lembranças bem turvas eram um grande estímulo para isso.

Casados, enfim!