Agora o cenário havia mudado. O casamento trouxe certa estabilidade que antes não existia, mas com ele vieram algumas reflexões. Conheciam-se mesmo a fundo? Qual a garantia de que não brigariam novamente como fizeram por tantos anos? Saberiam lidar de forma sensata um com o outro? E as tais luzes?
-Nós devíamos realmente nos dedicar a isso agora. Não quero ter que aguentar todo o estresse emocional que é brigar com você, Potter.
-Poderia começar me chamando de Harry. Somos casados agora.
Nenhum aderiu ao sobrenome do outro. Algo que ambos concordavam era que a individualidade deveria ser mantida. Ambos os sobrenomes carregavam histórias e não deveriam ser apagadas. No caso de Draco, iria carregar a história que iria construir no futuro. Ele sacudiu a cabeça levemente e disse em resposta a Harry:
-Força do hábito, Harry. Mas ainda precisamos estabelecer como as coisas vão ser.
-Eu não conheço muito sobre você e nem sei como lidar do jeito certo. Já você, parece me ler a cada segundo. Isso me deixa um tanto perdido.
-Habilidades impressionantes as minhas, não? Brincou, ao que Harry girou os olhos.
-Eu falo sério. Não sei quase nada sobre você, só as opiniões que formei durante todos esses anos. Eu não sei nem como meu interesse em você começou, na verdade.
Malfoy sentiu-se pessoalmente atacado. Teve vontade de estrangular o outro. Isso não podia estar acontecendo depois de tudo que já passaram e todos os esforços que tiveram que fazer para terminarem juntos. Quis desacreditar em seus ouvidos.
Surpreendentemente, Harry agora conseguia captar melhor as necessidades de Draco e conseguiu evitar um mal entendido que geraria briga, explosão, e orgulho. Ajoelhou-se para ficar no nível dos olhos dele, que se sentava extremamente rígido e sem expressão, e beijou-lhe as mãos enquanto dizia:
-Eu já sentia algo diferente por você desde quando te lancei aquele Sectumsempra. Ver você daquele jeito... Eu só não sabia que se tornaria isso que temos agora. Quer dizer, salvei sua vida, mas nunca passou pela minha cabeça que eu no fundo queria me casar com você. Sua mãe salvou minha vida, vi você mudar tanto depois da guerra... Mas o sentimento era algo adormecido. Foi repentino e forte demais.
As feições do outro finalmente se relaxaram em alívio:
-Acho que criei certa obsessão por você desde que te vi. Eu nunca iria admitir a ninguém, mas aquele ódio todo na verdade, bem... Não era ódio. Fui descobrindo isso depois.
-Desde quando?
-Não sei bem. Ora, não me faça essa cara, você não é tudo isso.
Harry riu enquanto balançava a cabeça.
-Bem que eu desconfiei que aquelas provocações fossem muito... Abaixo do seu nível.
-Ora, me poupe, claro que eram! Eu era patético perto de você...
-Um Malfoy assumindo que era algo menos que estupendamente maravilhoso? Isso devia ser publicado em livros, é um momento histórico!
-Sim, eu estou assumindo isso. Pare de se divertir com a minha humilhação, por favor.
Harry encarou o vazio por um tempo, sério. Draco, apesar de já saber o que ele iria perguntar, calou-se. Passou a olhar para baixo, preparando-se para ouvir a pergunta.
-Quando você desistiu de Voldemort... Bem, eu... Eu fui um dos motivos?
Como isso era desconfortável. Lembrar-se do seu passado, ter que assumir mais uma vez que os sentimentos eram o que realmente o controlava, em como era tão fácil abandonar a razão. Sim, era óbvio que Harry era um dos motivos. O maior dos motivos. Mas na época ele não via nada vindo dele a não ser desprezo. Tentava reprimir tal memória mas sim, ele havia mudado em função de sua paixão. Ou pelo menos ela foi o fator principal para isso. Não importa o quanto mentisse para si mesmo, não era só por ter percebido os horrores que eram aquela vida, a preocupação com seus pais, com sua própria vida. Não era somente isso. Depois de alguns minutos, pôde formular a resposta:
-Você foi um dos fatores. Um dos maiores, eu admito. Era algo estúpido de se fazer ainda mais porque na época você só me odiava. Tudo bem, eu havia dado motivos, não esperaria que me amasse depois que te azarei e te deixei sangrando no trem. Eu acho que foi um pouco depois disso que entendi toda a minha situação. Foi quando eu parei de pensar pelo ideal da minha família e pensei por mim. Acho que no fundo meu pai tinha razão, pensar por mim era estúpido porque eu sou estúpido.
A última frase foi dita sem que ele percebesse. Quando tomou dimensão do que havia acabado de dizer, paralisou-se. Harry lhe dava um olhar estupefato e risonho. Em dois segundos estava com ele agarrado a seu pescoço.
-Valeu tanto a pena te salvar. E foda-se o seu pai. Você é bom tanto quanto é arrogante.
-Ora, então sou melhor que todos.
E riram. Harry jamais imaginaria que algo assim poderia vir de Draco. Realmente o conhecia muito pouco, mas agora não era mais tão difícil fazê-lo. Soube desde então a importância que tinha a manutenção daquela união. Não pensava exatamente como Narcisa, que acreditava estar regenerando a alma do filho. Achava que ele era no fundo bem diferente do pai e que jamais seria como ele. Ele era diferente, e apesar de tudo que fez, no fim era alguém bom. Melhor do que – ele havia descoberto agora – o próprio marido acreditava ser.
-Você está melhorando nisso, Harry. Sua percepção melhorou muito. Disse em seu ouvido, enquanto acariciava os cabelos dele. Não haviam se soltado do abraço por muitos minutos. A esperança do sucesso tinha aumentado consideravelmente nos dois.
-Acho que já deu de nos conhecermos por hoje, senão as coisas vão ficar pesadas demais. Observou Harry depois que haviam se soltado.
Foi então que uma coruja negra com olhos verde azulados bateu na janela. Nenhum deles conhecia o animal. No bico carregava uma carta da tia de Draco, Andrômeda Tonks. Estava absurdamente feliz com o casamento e por ter participado da cerimônia e pedia para que os dois a visitassem no outro dia para o chá. Era uma tia com quem ele não tinha muito contato, então não soube prever como a reunião iria acontecer, mas ela era uma boa pessoa. Retomar o contato com ela seria um dos passos para a nova história que pretendia construir para si mesmo. A mãe já havia voltado às relações com ela, que eram agora, sem Bellatrix, apenas duas. Ele percebeu desde então certo desejo de abandonar a Mansão Malfoy da mãe. Sua intuição o dizia que, mesmo que tal evento demorasse muito, elas iriam acabar morando juntas. Seria ótimo ver a mãe feliz depois de tanto tempo de abuso e lealdade cega. Só a visita à sua tia seria o suficiente para confirmar ou não suas suspeitas.
Foi arrancado de seus pensamentos pelas más intenções de Harry:
-Sabe no que eu estive pensando? Foi tão bom você ter se aberto pra mim que estou morrendo de vontade de te recompensar por isso.
E não é que ele estava melhorando nas capacidades de sedução? Era como uma fonte inesgotável de novidades que o surpreendia sempre.
-Ah é? E como?
-Acho que eu devia ditar as regras dessa vez.
Delicioso. Estava novamente surpreso e incrivelmente excitado. Decidiu ceder, só um pouco... Ou talvez muito. Totalmente. Sim, totalmente.
Foi despido muito devagar enquanto estava apenas deitado, como Harry havia pedido. Queria sentir o gosto de cada minúscula parte do agora marido sem ser interrompido de nenhuma maneira. Foi um trabalho minucioso o dele enquanto distribuía beijos, mordiscava e passava a língua levemente por todas as áreas daquela pele excessivamente pálida. O outro respondia sem descontrole, apenas aproveitava tudo intensamente. Não queria que aquilo acabasse. Poderia muito bem durar para sempre, estaria muito feliz. Sua respiração era pesada e profunda. Aprendeu num dos livros excêntricos que Cho carregava consigo uma magia não verbal para o controle da explosão do desejo sexual. Conectavam-se agora pela afeição que nutriam um pelo outro. Tentavam muito desde que leram no mesmo livro alcançar o tal de orgasmo supremo. Um nome extremamente tosco, mas uma sensação fortemente almejada. E como era difícil consegui-la. Extremamente difícil.
Chegaram muito perto daquela vez.
Depois que toda sua área corporal fora beijada, mordida e tocada pela língua do outro, respirou fundo para não deixar a excitação tomar conta enquanto tinha seu pênis sugado devagar. Se falhassem por um segundo em manter a magia, tudo se quebraria. Tentou se concentrar no calor que percorria seu corpo de maneira diferente. Bebia cada sensação devagar e manteve-se sereno quando gozou. Era absurdo não poder gritar, contorcer-se, pensar naquilo e somente naquilo. O livro dizia para focar a mente nos sentimentos, e não nas sensações corporais. Só depois de muita prática os dois conseguiam não sucumbir. Draco apoiou as costas no encosto da cama e Harry manteve-se ajoelhado. Em movimentos sincronizados, ele retribuiu o que havia acabado de receber. O trabalho mental quase foi destruído em alguns momentos. Aquilo causava um descontrole imenso e nunca haviam chegado tão longe.
No momento seguinte, a conexão foi quebrada. Protestaram, frustrados, mas terminaram o ato do mesmo modo. O sexo visceral ainda era extremamente prazeroso.
-Será que um dia vamos conseguir? Murmurou Harry com o marido aninhado a seu peito.
-Vamos. Mas nossa conexão vai ter que ser mais forte do que isso. Agora, eu só queria dormir. Você me deixou exausto.
Dormiram, aconchegados um no outro. Malfoy dormia muito mais do que Potter pensou que dormia quando estava feliz e relaxado. A tensão o afetava muito fisicamente. Ao acordá-lo depois de esperar muito, ele espreguiçou-se como um gato e recusou-se a abrir os olhos.
-Desista, Harry, siga esse meu sábio conselho.
Tivera então uma ideia diabólica. Aproveitou a posição vulnerável em que o marido se encontrava e colocou-se por baixo dos lençóis. Observou divertido a contorção e a lufada de ar que o mesmo tomou depois de alguns segundos.
-Droga, isso é covardia. Murmurou. –Aonde pensa que vai? Não pense que vai me deixar terminar isso sozinho.
Acharam melhor continuar aquilo masturbando um ao outro enquanto prendiam-se num beijo sedento.
-Acho que isso é o mais romântico que conseguimos ser. Divertiu-se Draco depois do orgasmo.
Esteve então bem-disposto. Estava um tanto ansioso com a visita que faria à Andrômeda mas não tinha maus pressentimentos. A hora do chá chegou rápido e lá estavam eles depois de terem viajado por pó de Flu. Com uma sacudidela na varinha, Draco livrou-os das cinzas do corpo. Era quase uma afronta para ele sujar-se devido ao tempo que levava para se arrumar.
A tia os cumprimentou calorosamente, enquanto o bebê Teddy Lupin brincava com sua varinha noutro canto da sala. Tinha os cabelos naturalmente azuis e mostrava transformações primitivas e involuntárias de metamorfomago de vez em quando. Lembrava o pai nas feições, o que fez Harry ficar melancolicamente nostálgico.
-E então, como vai a vida de casados? Disse, amigável. Ela era tão diferente dos outros Black... Tinha um pouco da leveza e humor de Sirius, apesar de ser um tanto mais rabugenta. –Eu sempre soube que você seria diferente de seu pai, Draco.
Ele agradeceu, mas no fundo estava incomodado. Não gostava de lembrar-se do pai e nem de comparar-se a ele de nenhuma forma.
-Agora ele já não nos incomoda mais, tia.
-Oh, sim, eu fiquei sabendo. Fiquei tão feliz, eu nunca confiei naquele homem. Apesar de não manter contato, eu sentia que a situação da minha irmã não era das melhores. Ela me disse tantas coisas... Que estava feliz por vocês, apesar de ainda não ter se acostumado a ter Potter em sua convivência. Que finalmente estava genuinamente feliz.
Era incrível como o assunto Lucius ainda era pauta principal mesmo quando nada disso importava mais. Isso irritava Malfoy filho profundamente, até que Teddy veio para distrair a todos.
-Ele é tão parecido com o Lupin. Disse Harry, sentado no chão com o garoto no colo, que havia gostado dele.
-Me lembra tanto a minha filha... Dói não tê-la por perto.
O bebê engatinhou até Draco e puxou-lhe as calças. Paralisou um pouco, pois não sabia lidar com crianças, ainda mais as pequenas.
-Não tenha medo, Draco. Incentivou Harry num sorriso convidativo.
Teddy acariciou os cabelos do primo, intrigado. Draco continuou imóvel. Simplesmente não levava jeito, oras. Harry era muito melhor nisso.
A tarde fora de certo modo bem agradável. As conversas com Andrômeda eram calorosas, a mulher mostrou um grande interesse pela história das criaturas luminosas e ela aproximou-se muito de Harry. Algumas coisas, como o jeito um tanto frio de Draco, não mudavam. A imagem de Teddy se aproximando de Malfoy grudou na cabeça de Harry e ele simplesmente teve de pontuar quando estavam novamente em casa:
-Teddy gostou muito de você.
-Sim. Não sei por que. Não levo jeito nenhum para cuidar de crianças.
-É que você é um primo muito maravilhoso. Caçoou.
-Isso é óbvio, ora essa! Você... Pensa em ter filhos?
-Estou bem sem eles. Espero os que Ginny disse que terá com Neville, eu até que gosto de crianças.
-Tem certeza? Você não sentiria falta?
-Eu nunca parei para pensar muito, não sei. Não as quero agora, não mesmo.
-E como é a história de Ginny e Neville? E quanto às outras?
-Elas pensam em ter filhos dele também.
Draco riu, estupefato.
-Que bagunça. Eu acho que Cho poderia ter o nosso filho.
-O que? Uma ponta de ciúmes no rapaz fora inevitável.
-Ela é ótima. E eu sei que você quer, mesmo que seja lá no fundo, ter um filho. Não sei por que ainda tenta disfarçar.
-Acho que terei de recusar depois de quase morrer ao ver você com ela. E acredite, eu acho que ser padrinho deve ser o suficiente.
-A visita à minha tia nos deixou perturbados. Temos pouco mais de um mês de casados e já estamos falando nisso. Devíamos pensar era em arrumar emprego!
-Ótima ideia, esse assunto estava ficando muito pesado. Por que não tenta aquela vaga de medibruxo no St. Mungus? Seu conhecimento em poções é ótimo.
-Eu não sei, acho que seria bom. E você? Auror?
-Acho que não conseguiria fazer outra coisa. Mas às vezes penso na possibilidade de ambos entrarmos para o Quadribol. Imagina que fantástico? A competição entre nós não terminaria nem depois de casados! Ironizou.
-Ah Harry, você nunca muda! Deixou que ele deitasse em seu colo e continuou:
-Eu acho que vou tentar a vaga. Mas depois, ainda quero passar um bom tempo só com você.
