CAPÍTULO #3

LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE LODGE


- As diárias aqui são mais que o dobro do que costumamos pagar.

- Foi você que escolheu ficar aqui. E justifica ficarmos. Esse quarto tem uma visão privilegiada da estrada. Acoplei a minicam a um sensor de movimento. Vai registrar qualquer carro que passe na direção da reserva florestal. Dificilmente vai dar para identificar com segurança o carro nos registros feitos à noite, mas, como sabemos o que estamos procurando, deve funcionar.

- Eu sei. Só estou dizendo que as diárias são mais caras.

- Isso não é algo que devia nos preocupar. Afinal, o cartão é clonado. Depois, neste um ano que você ficou fora, eu me permiti um pouquinho mais de conforto.

- Já eu não dormi numa cama um mísero dia nestes doze meses em que estive .. fora. Deitar e fechar os olhos no alto de uma árvore já era um luxo. Depois de passar por aquilo, por pior que seja a espelunca, ainda vai parecer o Paraíso. Aqui, apesar de saber que existem lobisomens lá fora, ainda posso fechar os olhos à noite e acreditar que vou poder abri-los pela manhã.

- E, mesmo assim, você nunca pensou em desistir, não é mesmo? Nunca vai se permitir parar e ter uma vida normal.

- Eu tentei e você sabe disso. Juro que tentei.

- Me desculpa por ter te arrastado de volta para isso. Eu não estava realmente no controle. Se fosse hoje, deixaria você quieto onde estava. Você merecia ter uma família. Tenho certeza que seria um pai maravilhoso.

- Não foi você. Os problemas foram atrás de mim. E as coisas não estavam tão perfeitas como você está fazendo parecer. Tinha os pesadelos. Eu me sentia representando um papel. Essa coisa de família tem um significado diferente para nós. Não fomos criados para sermos pais de família. Fomos criados para ser assassinos. Não de gente. Mas, muitos deles parecem gente. Quando apertamos o gatilho ou enterramos uma faca no peito de um deles, é, muitas vezes, uma face humana que estamos vendo. Não é fácil e você sabe disso.

- Você não precisava ter cortado os vínculos. Afinal, não sei de nenhuma outra que você tenha amado.

- Não adianta ficar pensando nisto. Não tem volta. Ela me esqueceu.

- Você fez que ela esquecesse. Já pensou em pedir para ..

- NÃO! Pode parar. Não vou pedir nada para ninguém. Não mudei de idéia quanto a isso. É melhor para eles. Vamos deixá-los viverem a vida deles como se eu nunca tivesse existido. É melhor para todo mundo que seja assim.

- Você sabe que não importa o quanto nos esforcemos. Nunca vamos conseguir salvar todo mundo.

- Não podemos simplesmente fechar os olhos sabendo que existem monstros à espreita fazendo mais e mais vítimas. Uma garota grávida foi atacada e o rapaz, pai da criança, foi estraçalhado. Pouco depois, a mesma garota é morta no hospital. Quem teve acesso ao quarto da garota? Foi uma fera que matou o rapaz, mas foi um homem que matou a garota. Ou a fera e o homem são um único indivíduo? Existe um monstro agindo nesta cidade. Provavelmente, mais de um.

- Uma parte da família Argent mora em Beacon Hills. Duvida que tenham sido eles que massacraram a família Hale? Mesmo as crianças acabaram mortas. Derek Hale era um adolescente. Ter a família assassinada de forma tão cruel abala a estrutura de qualquer um.

- Na ocasião, ele pode ter sido uma vítima. A questão não é o que ele foi. A questão é o que ele é agora. O tipo de homem que se tornou. E quando digo homem, estou supondo que exista um pouco de humanidade nele quando a lua cheia não está no céu.

- Como é possível acreditar que Victoria Argent tenha se suicidado? Você conheceu a mulher e sabe o quanto ela era determinada. Uma mulher assim não entra em depressão e se suicida.

- Mesmo nós já baqueamos algumas vezes. Mas, para alguém se abalar a esse ponto é necessário ter algum tipo de consciência e eu não acredito que aquela mulher tivesse uma.

- Acha que devemos procurar Christian Argent? Ele não é de todo mau.

- Não até sabermos o que está realmente acontecendo. Os Argent aqui e Derek Hale ainda vivo são coisas que não batem.

- Ah! Antes que eu esqueça. Você errou o meu nome na delegacia. É. Me chamou de Jay. É Jake. Não sei como o xerife não percebeu. Aqui somos os agentes Clay Miller e Jacob Gray. Menos mal que não deixou escapar meu verdadeiro nome. Sabe que isso não pode acontecer em nenhuma hipótese. Oficialmente, morremos em Iowa. Por segurança, sugiro nos mantermos nos personagens mesmo quando estivermos sozinhos, como estamos agora. Certo, Clay?

- Certo, Jake. Ah! Péssima escolha de nomes. O mesmo som muito repetido: Jake, Gray, Clay.

- É o que temos. Todos se foram. Voltamos a trabalhar sem ninguém nos dando apoio. Não vamos mais poder adotar uma identidade diferente a cada investigação. Temos que nos virar com as credenciais falsas que já temos. Isso aumenta o risco de sermos rastreados. Quando foi a última vez que usou a identidade de Clay Miller?

- Acho que foi .. Wyoming. É, isso mesmo. Meu primeiro caso de lobisomem. O mesmo que mencionei na delegacia. Três betas e um alfa.

- Seu período máquina de matar.

- Não me orgulho disto.

- Tenho que reconhecer que você foi de uma eficiência invejável.

- Estou melhor agora.

- Sem dúvida.

.

- Já estamos instalados. A minicam já está ativada. O que fazemos agora?

- Se a recepcionista fosse um pouquinho mais atraente, eu mostrava para ela o quanto ela está errada.

- A recepcionista? A que nos entregou a chave do quarto? Está brincando? Passou realmente pela sua cabeça a possibilidade de fazer SEXO com ela? SÓBRIO?

- Viu a cara dela quando pedimos um quarto? A forma como ela perguntou se queríamos um quarto com cama de casal? O sorrisinho? Pensei que não fôssemos passar por isso na Califórnia.

- Justamente por estarmos na Califórnia ela fez essa pergunta. Pensei que já estivesse acostumado.

- Acho que nunca vou me acostumar. Não respeitam mais nem quando nos apresentamos como agentes do FBI.

- Verdadeiros agentes do FBI não costumam dividir o quarto. Recebem uma diária que cobre a diária do hotel.

- Você tem razão numa coisa. Sóbrio, ia ser difícil. Mas, vendem bebida aqui, não vendem?

.

- Um bip. A minicam registrou algo. Alguém passou pela estrada.

- Não foi um carro. É só um garoto de bicicleta. Estranho. Parou do outro lado da estrada e escondeu a bicicleta. Está olhando para cá. Meu Deus, os olhos dele. O garoto é um deles. Um lobisomem.

- Grave a imagem da câmera. Precisamos de uma boa imagem do rosto. Provavelmente ele tenta passar por um adolescente normal na maior parte do tempo. Talvez estude no high school local. Não vai ser difícil levantar a ficha dele.

- Lobisomens são um tipo de shapeshifters. O reflexo nos olhos os denuncia mesmo na forma humana, como acontece com os metamorfos.

- Vamos testar com a câmera do tablet, mas sem que ele perceba. Funciona?

- Veja você mesmo.

- Tecnologia é tudo. Um tablet não chama tanta atenção quanto uma máquina fotográfica. Com ele vamos poder identificar com segurança a alcatéia toda.

- E depois a pior parte. Esperava não precisar matar adolescentes.

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ALGUMAS HORAS ANTES


- Calma. Foca nos meus olhos. Está tudo bem. Inspira. Segura. Expira. Relaxando. Repete. Inspira. Segura. Exp ..

- Eu .. Está .. passan .. do

- Ótimo, mas não pára. Continua com o exercício de respiração. Relaxa. Inspira. Segura. Expira. Fica calmo. Eu estou aqui .

- Chega. .. Já estou .. bem.

- Não levanta. Relaxa.

- Sério, ... Scott. Estou bem.

- O que aconteceu? A gente tava conversando normalmente num minuto e, do nada, você tem um ataque de pânico.

- Eu olhei para aquele carro e ..

- E o quê? O que tem o carro?

- Nada. Besteira. É assim mesmo. Esses ataques surgem do nada. Uma palavra, uma imagem. O cérebro faz uma associação de idéias maluca e dá nisto.

- Sabe de quem é o carro?

- Meu pai comentou que chegariam dois federais. O carro deve ser deles.

- Ele contou o que eles vieram fazer aqui?

- Ele falou alguma coisa sobre o FBI pedindo que colaborasse com os agentes, mas lembro dele ter dito que não sabia o que estavam investigando.

- Isso é mau.

Scott cheira o ar e, esquecendo-se de Stiles, atravessa a rua e pára em frente ao porta-malas do antigo sedan preto.

- O quê que é mau?

- O cheiro é fraco, mas inconfundível. Se esse carro é dos federais, estamos encrencados. Eles trouxeram wolfsbane.

- A gente precisa descobrir o que eles pretendem.

- Eu vou seguir o carro e tentar descobrir alguma coisa.

- NÃO! E se eles descobrem que você os seguiu? Vão suspeitar de você.

- Não vão descobrir. Eu vou ser discreto.


14.03.2013