CAPÍTULO #4

LOCAL: BEACON HILLS HIGH SCHOOL, QUADRA DE LACROSSE


- O xerife estava certo. Parece que todos os adolescentes da cidade estão aqui.

- Já conhecia o jogo?

- Sabia que vinha se popularizando em todo o país, principalmente nas escolas de elite; e que é muito popular no Canadá. Mas, nunca tinha assistido a uma partida. Nem mesmo pela televisão. O interessante é que o jogo é de origem nativa, existe há séculos e, na versão original, participavam centenas de jogadores de cada lado.

- Centenas?

- Incrível, não acha? Uma partida durava um dia inteiro do nascer ao pôr do sol. Claro que os acessórios eram diferentes. Na versão moderna, são somente dez jogadores de cada lado e as partidas são divididas em quatro tempos de 15 minutos cada.

- E como eram esses acessórios? Os índios também usavam capacetes?

- Não faço idéia de como eram, mas, com certeza, eles não usavam capacetes.

- Só descobriu isso? Você já foi melhor nestas pesquisas.

- Não era exatamente isso o que eu estava procurando. Descobri o suficiente do que REALMENTE nos interessa.

- Esse é o meu bro .. Aai! Doeu. O quê que tem eu te chamar de bro? Também significa parceiro.

- Entrei no registro de alunos daqui do colégio e descobri o que estávamos procurando. O lobisomem teen chama-se Scott McCall. Vemos algo interessante quando acompanhamos a trajetória dele como jogador de lacrosse. Ele era um jogador medíocre, que ficava quase sempre no banco de reservas e, do nada, tornou-se o melhor jogador do colegial. A participação dele teria sido fundamental para o time classificar-se para o campeonato estadual.

- Então temos como estabelecer com segurança a data em que ele foi mordido. E isso deve nos levar a quem o mordeu. O que mais?

- Ele ganhou massa muscular, capacidade aeróbica e um histórico de recuperações quase milagrosas de lesões esportivas. Sem falar numa surpreendente habilidade acrobática. Está tudo muito bem documentado na ficha médica do rapaz daqui do colégio e em vídeos feitos em jogos como esse aqui agora. Olha! Esse é o mais revelador dos muitos que eu vi.

- Uau! Um salto impressionante. Comprova o que já sabíamos. Mas, mostra também que estamos lidando com alguém muito burro. Ou ele acha que ninguém ia perceber que essas habilidades não são naturais?

- Ele não parece nem um pouco preocupado em esconder essas habilidades. A forma como dribla os adversários e escapa das marcações. Essas mudanças súbitas de direção. Os saltos. É evidente que ele usa velocidade e força ampliadas nas partidas.

- Queria ver uma exibição dessas ao vivo. Pena que ainda não estamos na lua cheia.

- Não por isso. O jogo mostrado nesse vídeo aconteceu numa noite de quarto crescente. Seis dias antes do primeiro dia de lua cheia. O comum é que lobisomens tenham suas habilidades ampliadas somente no período de lua cheia, mas parece que Scott McCall é lobisomem em tempo integral.

- O que o torna ainda mais perigoso.

- Consta também dos registros que nosso amiguinho já mandou muita gente para a enfermaria em entradas violentas em jogos e até mesmo em treinos. Desde que ele tornou-se titular, houve um aumento de 23% no número de atendimentos médicos associados a jogos de lacrosse.

- Então, ele é do tipo que joga sujo. Junte-se isso a comportamento antiesportivo por utilizar habilidades sobrenaturais em campo.

- Essa melhora de desempenho no lacrosse coincidiu com a cura milagrosa de uma asma crônica. Eu acessei os registros de compra de medicamentos da família McCall. Há meses que não compram o refil do inalador. Antes, eram pelo menos dois por mês. Asma seria a causa provável de Scott ter tido por tanto tempo um desempenho medíocre como jogador. É provável que a licantropia o tenha curado desta doença humana.

- Muito provável. O que mais?

- Um longo histórico de notas baixas, diversas passagens pela diretoria e algumas advertências. Ah! Achei algo ainda mais interessante: um mandato para que mantenha distância do estudante Jackson Whittemore.

- Bullying? Nosso teen wolf está cada vez mais parecido com um little big bad wolf.

- Mas, esse Jackson não é nenhuma pobre Chapeuzinho Vermelho indefesa. O perfil de Jackson Whittemore no Facebook mostra claramente que é o tipo de sujeito que só porque tem um carrão importado do ano se acha melhor que todo mundo. Rico, esnobe, vaidoso, arrogante e egocêntrico. Parece que treina bastante, de forma quase obsessiva. Faz parte do grupo dos populares do colégio. Existe até fã-clube dele na cidade e ele parece gostar desta paparicação toda.

- Ouvindo você falar, percebe-se que não simpatizou com o sujeito. Ou, como dizem no Face, não curtiu. Entre ele e lobisomem teen, parece que você se identificou mais o freak.

- Conhecemos vários Jacksons no nosso período de escola, e olha que foram muitas escolas, e nunca fomos amigos de nenhum.

- Tampouco somos amigos de monstros.

- Não? E como classificaria seu mais novo grande amigo?

- Na mesma categoria da sua amiguinha devoradora de cérebros. Ou esqueceu?

- Não esqueci. Mas, também não quero polemizar com você sobre esses assuntos. Não hoje. Desculpe. Eu não devia ter levantado o assunto.

- Só não esqueça que também tem telhado de vidro. Lembre-se que estamos aqui tentando retomar nossa antiga rotina e a nossa velha intimidade. E também para fazer o que precisa ser feito. Que, no caso, é livrar essa cidade desses malditos lobisomens.

- Certo. Você tem razão. Retomando: o lacrosse, como o football, é um jogo violento. Jackson Whittemore era o capitão e o melhor jogador do time principal de lacrosse do colégio antes de Scott McCall despontar como o mais novo ídolo de Beacon Hills. Os dois foram por um tempo co-capitães do time.

- Pois é. Significa que Jackson deveria estar mais do acostumado a um jogo bruto. E mesmo assim sentiu-se intimidado por McCall. E não só dentro de campo. Deve haver uma forte razão para isso. Uma razão com presas e garras, talvez. Qual a alegação para o pedido do mandato de interdição?

- Seqüestro e cárcere privado.

- Isso é muito sério. Não é um ato de um lobisomem descontrolado pela lua. Scott McCall parece alguém disposto a tudo para manter seu lugar no time. Isso de intimidar concorrentes é coisa de mafioso. Como ele conseguiu se safar?

- Alegou que foi uma brincadeira inconseqüente, retratou-se e Jackson acabou retirando as acusações algumas semanas depois.

- Talvez porque McCall tenha aumentado o nível das ameaças. Estou me convencendo que McCall talvez seja uma ameaça tão grande quanto o próprio Hale. Ele parece estar descontrolado.

- O perfil de Whittemore também é o de alguém obsessivamente competitivo. Alguém que não ia aceitar numa boa perder o posto de melhor jogador ou de o mais popular. Deve ter aprontado também.

- Está justificando os atos do lobisomem?

- Não. Mas é difícil encontrar um capitão de time que não seja um grande babaca. Não importa se de lacrosse, basquete ou football. E, falando de babacas e de football, lembro que você era um bom jogador. Você costumava atuar como quaterback. Não fosse essa nossa vida, você podia ter sido um capitão ainda mais babaca que esse Jackson.

- Desconsiderando a ironia, podia mesmo. Mas, tínhamos outras prioridades. Ainda temos. E eu não seria como ele. Mesmo que virasse capitão, eu jamais teria um carrão importado do ano. Tudo que tínhamos é o mesmo velho sedan que temos hoje. Meu bebê.

- Ser capitão do time no colegial sempre foi a melhor isca para garotas. E não para qualquer garota. As mais bonitas e desejadas. Todos esperam que o capitão namore a líder de torcida e que os dois sejam o rei a rainha do baile. Não é a toa que tantos se matam por isso.

- Porque você sempre diz 'as mais bonitas' e não 'as mais gostosas'? Nem parece que é meu .. parceiro. E você sabe muito bem que eu nunca precisei ser o capitão do time nem ter o carro do ano para ganhar a garota que eu quisesse. Quem tem esses olhos e essa boca não precisa de mais nada.

- Se esse Jackson tiver a metade da sua modéstia, eu vou entender o porquê do Scott querer matá-lo.

- Vai ser interessante ouvir o que Jackson tem a dizer sobre o rival. Talvez faça alguma revelação bombástica. Talvez ele saiba algo que comprometa Hale. Mais alguma coisa sobre McCall?

- Os pais de Scott McCall se divorciaram poucos anos atrás e o pai deixou a cidade logo depois. Não há na ficha do rapaz nenhuma informação sobre a profissão do pai, mas já chequei e o pai não tem ficha criminal. Não dá para saber se o Scott puxou a índole do pai, mas o exemplo da mãe ele parece não estar seguindo. A mãe, Melissa McCall, é enfermeira no Beacon Hills Hospital. Tem uma carga de trabalho pesada. Pelo jeito, a coitada se mata de trabalhar para sustentar o filho marginal.

- Beacon Hills Hospital? O pessoal aqui da cidade não é nada criativo na escolha de nomes. Mas, me diga uma coisa. Não foi neste hospital que a garota grávida foi morta?

- Ela e também uma das primeiras vítimas da atual onda de ataques de animais. Um motorista de ônibus escolar, que, ironicamente, foi atacado dentro de um ônibus escolar parado num estacionamento. Adivinha. O motorista do ônibus era da linha que transportava o menino Scott.

- Uma vingança tardia por um dia que não esperou o garoto?

- Talvez.

- Precisamos descobrir se a enfermeira McCall estava de plantão quando aconteceram essas mortes.

- Acha que a mãe sabe que o filho é um lobisomem e o está acobertando?

- Não seria a primeira mãe a matar para eliminar testemunhas que possam incriminar o filho.

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- Parece que o jogo vai começar. Já identifiquei o McCall. É o de número #11. Qual deles é o Jackson?

- Naquele outro grupo. O louro alto de cabelo bem curto e um pequeno topete.

- Não tem uma outra maneira de descrever o sujeito? Precisa dizer que é alto, ou que é forte, ou que tem pernas bem torneadas e que deve ter o bumbum durinho. Não pode dizer simplesmente que é o de número #37.

- Aaaargh! Você sabe mesmo me tirar do sério. Se você não fosse meu .. parceiro, .. eu juro que te dava um murro agora mesmo. Detesto quando você faz essas brincadeiras. Babaca [Jerk]!

- Vadia [Bitch]! E quem disse que eu estou brincando?

- Olha! McCall parece estar procurando alguém nas arquibancadas.

- Parece que já encontrou.

- A garota de boné vermelho na terceira fila.

- A garota de boné vermelho da terceira fila? É isso que te chama a atenção nela? O boné? Porque será que quando trata-se de uma garota você não a descreve usando termos como BELA garota, a de pele muito branca, aquela de adoráveis lábios finos, de suaves olhos negros ou de longos e sedosos cabelos negros adoravelmente encaracolados?

- Realmente, são maneiras melhores de descrever a garota de boné vermelho. Que se chama ... vejamos .. um pouco mais de paciência .. Achei! Allison .. ARGENT? A garota é uma Argent! O que o lobisomem quer com ela?

- Deste ângulo e ele de capacete não dá para ver a expressão do rosto. Mas, não podemos deixar que faça algo contra a garota. Trouxe as balas de prata? O melhor é deixarmos o revólver carregado.

- Espera. Se não percebeu, estamos num estádio e tem uma multidão em volta. Não podemos fazer nada precipitado. Sabemos que são colegas de turma. Talvez sejam amigos. Talvez sejam .. namorados?

- Namorados? Um lobisomem e uma Argent? De onde você tirou essa idéia estapafúrdia?

- Do sorriso que ela abriu quando ele olhou para ela. Presta atenção na linguagem corporal dos dois. Nada que indique que ele a está ameaçando.

- Um lobisomem e uma Argent? Pensei já ter visto de tudo. Será que eles sabem um do outro? Será que a família dela sabe?

- Romeuwolf e Julietargent, os amantes de Beacon Hills.

- Isso pode muito bem acabar em tragédia. Um lobisomem será um sempre lobisomem. Ela nunca estará segura ao lado dele. Mesmo que seja verdade que estejam apaixonados, ele continua uma ameaça em potencial e não só para ela. Estar apaixonado talvez faça dele uma ameaça ainda maior. O que será que ele faria se ela se interessasse por outro ou um outro se aproximasse dela mostrando interesse?

- Um outro?

- É. Um outro. Por exemplo, eu.

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LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON


- Quando foi que encontraram?

- Recebemos a chamada há cerca de duas horas. Estava exatamente onde disseram que estaria. Perto da velha ponte de madeira. Deve ter sido arrastado pelo rio.

- E onde está agora?

- No necrotério. Foi o vigia que assinou o protocolo de entrada. O legista já tinha ido embora. Ele deve começar a examinar amanhã assim que chegar. Deve poder dizer alguma coisa lá pelo meio dia.

- Pelo estado do braço, você diria que foi quando?

- Eu diria que deve ter acontecido há dois ou três dias. O braço parece ter sido arrancado do corpo. Foi seccionado na articulação. Não parece um corte feito com faca ou com serra. Está bastante mordiscado por peixes e isso sempre deixa uma aparência péssima. O pior que a aparência só o cheiro.

- Nem me fale. Sei como é. Amanhã cedo iniciamos as buscas para localizar o resto do corpo. Há mais de uma semana que não chove. E foi chuva fina. Como o volume do rio está baixo, é pouco provável que tenha acontecido dentro da reserva florestal. Deve ter acontecido no trecho que passa pela cidade. Isso aumenta as chances de haver testemunhas.

- Xerife, sabe que faço rondas por toda essa região há anos e que conheço todo mundo.

- E?

- Tem algo que eu estava mesmo para comentar com o senhor. Venho dando por falta de algumas pessoas que costumava encontrar sempre. Coincidentemente, freqüentavam a região do rio. É claro que elas podem simplesmente ter saído da cidade. Afinal, são livres para fazerem o que quiserem. Mas, não acho que tenha sido assim. E agora que temos essa morte comprovada ...

- E quem são essas pessoas que sumiram?

- Não sei se lembra do velho Nicholas. Ele morava num velho trailer que ficava estacionado na parte alta do rio, cerca de três quilômetros do ponto que o rio deixa a reserva florestal. O rio alarga naquele trecho e forma um lago. Muita gente vai até o lago para nadar. Tem maluco que nada até mesmo à noite.

- Conheço o lugar e conheço o velho Nicholas.

- Ele se oferecia para tomar conta dos carros e vendia cerveja gelada para quem ia ao lago. Está desaparecido há seis semanas.

- Isso que ele faz ou fazia é ilegal. Ninguém pode cercar uma área e cobrar estacionamento e ele não tem alvará para vender bebida alcoólica. Sabe se ele vendia bebida alcoólica para menores?

- Sei que era um pobre-coitado tentando sobreviver com uma porcaria de aposentaria.

- Mesmo assim, é ilegal. Quem mais?

- Mike Maluco. Faz um mês que ninguém o vê.

- Ah, não! Coitado do Mike. Não regulava bem, bebia, mas era uma pessoa boa. Incapaz de fazer mal a quem quer que fosse. Ele costumava vagar perto do rio, sempre na dele. Prendi o Mike diversas vezes. Inventava alguma coisa para mantê-lo aqui por alguns dias quando o inverno era muito rigoroso. Na cadeia, pelo menos ele se alimentava direito e ficava aquecido. Muitas vezes o levei para o hospital. Lá, a Melissa cuidava dele.

- Estes são os que eu conhecia e por quem andei perguntando. Simplesmente desapareceram. Ninguém sabe deles. Eles não tinham família nem ninguém que se preocupasse com eles. Ninguém para dar queixa ou fazer registro do desaparecimento.

- É nossa obrigação não deixar por isso mesmo. Amanhã mesmo iniciamos as investigações destes dois casos.

- Vou indo para casa. Bom plantão, xerife.

- Bom descanso, Chad.

O xerife Stilinski se recosta na cadeira, sentindo o peso do mundo em suas costas.

- Dois desaparecidos, uma morte confirmada e dois federais que vão me encher de perguntas sobre os lobisomens que eles suspeitam que existam na cidade. Amanhã vai ser um dia daqueles.


ESCLARECIMENTO: Os (falsos) federais souberam do mandato de interdição através da ficha escolar do Scott. Eles não sabem que o mandato incluia também o Stiles, nem dos fortes laços de amizade entre o Scott e o Stiles.


31.03.2013