CAPÍTULO #7

LOCAL: JUNGLE DANCE CLUB


- Jake, você tem mesmo certeza que quer entrar aí?

- Está vendo a animação das pessoas. Está vendo o tamanho da fila? Se não fosse bom, não tinha tanta gente querendo entrar.

- Gente até demais. Você nunca gostou de lugares cheios. Esse não é o tipo de lugar que você senta no bar e bebe sua cerveja sossegado. Não é tipo de barzinho que costumamos freqüentar.

- E quem disse que eu quero beber uma cerveja sossegado? Isso é um dance club. Como o nome diz, um lugar para dançar. Hoje, eu quero dançar.

- Você nunca foi de dançar. O quê que está acontecendo? Estou achando você mudado desde que voltou.

- Eu não mudei. Eu voltei querendo as mesmas coisas que antes. Não sou eu que estou atrás de uma vida nova. Não sou eu quem está querendo deixar tudo para trás. Você não imagina o quanto eu queria voltar e queria porque achava que você também quisesse me ter de volta. Imaginei que estaria preocupado, sem dormir direito, procurando um jeito de me resgatar. No entanto, ...

- Sei que está desapontado. Você não consegue mesmo ver as coisas do meu ponto de vista. Mas, não pense por um instante que não estou feliz por ter você de novo aqui comigo.

Clay puxa Jake para um abraço. Um abraço de verdade. Apertado. Demorado. Cheio de sentimento. Sem se preocupar com os personagens que estão representando ou com o que as pessoas em volta possam estar pensando. O primeiro verdadeiro abraço que eles se deram desde que Jake voltou. O que eles não esperavam é que todos ao redor começassem a bater palmas.

Os dois interrompem o abraço e se afastam, com sorrisos constrangidos.

- Entendeu o que aconteceu aqui?

- Não. Mas, se vamos mesmo entrar, é melhor irmos para a fila. Se bem que .. não é só entrar na fila, pagar e entrar. Está vendo ali .. É uma hostess.

- Uma o quê?

- Uma hostess. Ela decide quem pode ou não entrar. Ela só deixa entrar quem, na opinião dela, combina com o perfil da casa.

- Quer dizer que ela julga a pessoa pela forma como está vestida?

- Entre outras coisas.

- Então ela vai nos barrar. Nós viemos com nossas roupas avacalhadas de sempre e parece que a garotada costuma exagerar na produção.

- Como você bem notou, é mesmo uma garotada. Acho que somos os mais velhos aqui. Mas, não é só isso, notou que ..

- Deixa comigo. Nós não vamos ser barrados. Nem que eu precise gastar todo o meu charme com a tal hostess.

- Uau. Considerando o beijo de língua que ela está dando na outra garota, talvez todo o seu charme não seja o suficiente.

- Depois de me conhecer, ela nunca mais vai querer beijar uma garota.

- Jake, você parou para prestar atenção nos ..

- Fica quieto. Deixa que eu falo com ela.

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- Boa noooite, rapazes.

- Realmente muito linda. .. E a noite também está linda.

- Já vi que vieram animados.

- Muito. E todos aqui parecem também bastante animados. É nossa primeira vez aqui. Na verdade, estamos de passagem pela cidade. Você não vai nos deixar de fora só porque viemos assim, vai?

Jake faz com as mãos o gesto de apresentar como ele próprio está vestido e, com o rosto, a expressão de quem pede desculpas pelo vacilo. Ao mesmo tempo em que capricha no sorriso, não descuida do olhar predador. O tipo de olhar que faz parecer que ele está enxergando por baixo das roupas da garota e, principalmente, que está gostando do que está vendo.

- Uau! Você parece realmente .. quente. Alguém aqui é um cara de muita sorte.

A hostess terminou a frase olhando maliciosamente pra Clay, que, ao contrário de Jake, entendeu perfeitamente a insinuação e quase engasgou.

- Respondendo a sua pergunta, é claro que NÃO VOU barrar os dois homens mais lindos que apareceram aqui essa noite. Vocês vieram ao lugar certo. Eu vi quando vocês se abraçaram. Cheguei a ficar arrepiada. Eu própria tive vontade de aplaudir.

- Aquilo. Acho que exageramos um pouco. Nos deixamos levar pela emoção. Nós ficamos um ano separados e ...

- Não precisam explicar nada. Já entendi. Fico feliz por vocês. E acredite: aqui é o lugar certo para vocês se reconciliarem.

A hostess faz um sinal com a cabeça e o segurança os deixa passar. Na verdade, ele praticamente os empurrou para dentro.

- O que ela quis dizer com isso?

- É o que eu estou tentando contar para você desde o início. Presta atenção na pista de dança. Prestou. Agora, olha em volta. Reparou que praticamente só existem homens aqui.

- Não pode ser verdade. Não é o que eu estou pensando.

- É exatamente o que você está pensando. Sinto informá-lo que estamos numa boate gay. ... Claro, que idiota que eu sou! Como foi que eu não me lembrei? Jungle Dance Club. Um dos incidentes que viemos investigar aconteceu justamente aqui. Diversas pessoas foram internadas por exposição a uma fortíssima toxina paralisante que absorveram pela pele.

- Se isso é uma boate gay, já estamos aqui por mais tempo que eu gostaria. Vamos. Amanhã a gente volta e toma os depoimentos. Por hoje, a gente procura um lugar onde possamos tomar uma cerveja sossegados, como você mesmo sugeriu. Com certas coisas, o melhor é nunca arriscar.

- Não. Amanhã só vão estar aqui os empregados. No máximo, o gerente. Os depoimentos deles já estão nos autos. Pelo que eles contaram, foi tudo muito rápido e ninguém viu nada. Na verdade, parece que ninguém viu nada de nada apesar da pista de dança estar cheia. As vítimas simplesmente caíram no chão, paralisadas. Elas próprias dizem não saber o quê ou como aconteceu. Mas, pode ser que pelo menos uma tenha visto algo tão fora do comum que teve medo de contar e parecer louca. Ou simplesmente não quis expor-se mais ainda.

- Isso de não querer se expor, não faz sentido. A essa altura, as famílias dos que foram atacados já sabem de tudo. Saiu nos jornais. Saiu na internet. Não foi assim que descobrimos?

- Nem todos devem moram com os pais. Muitos destes rapazes podem ter assumido sua condição para suas famílias, mas deve ter também aqueles que vão negar até a morte que freqüentam boates gays. Depois, a única morte foi a da hostess anterior à nossa amiguinha que curte garotas e o assunto não ganhou repercussão nacional. Mas, se um cara começa a dizer que viu um monstro .. vai chamar para si uma atenção que ele não deseja. Depor na polícia por si só já é causa de muito constrangimento. Sabe como são muitos policiais.

- Faz sentido. Mas, não é motivo para ficarmos. Se a polícia não descobre é porque não sabe o que está procurando. Não é o nosso caso. Nós sabemos fazer as perguntas certas. Portanto, é só irmos atrás das vítimas amanhã e darmos uma prensa. Eu sei como fazer um sujeito falar. Aposto que muitos vão adorar levar uma prensa de um federal.

- Jake! Essas pessoas foram vítimas inocentes. Não podemos interrogá-las como se fossem suspeitos.

- Que foram vítimas, foram. Mas, quanto a serem inocentes ...

- Parece que quanto mais o tempo passa, mais preconceituoso você fica.

- Eu? Eu não sou preconceituoso. Eu só acho antinatural homem com homem.

- Isso é homofobia, sabia?

- Chame como quiser. Eu não saio por aí matando ou batendo em gays. .. A menos que algum resolva tomar certas intimidades.

- Eu estava errado: você não mudou nada.

- Nem você. Fico feliz por isso.

Os dois não conseguem evitar um sorriso cúmplice. Clay sabia perfeitamente que Jake, não importa que idéias expressasse, morreria, se fosse necessário, para proteger a vida qualquer daqueles rapazes alegres que ele fingia menosprezar.

- Nós vamos interrogar as vítimas. Mas, havia muito mais gente no local. Olha só como isso aqui fica cheio. Não é possível que ninguém tenha visto nada. O que precisamos é descobrir essas testemunhas que ainda não foram ouvidas. O problema é que ninguém aqui vai se abrir para dois agentes do FBI. ... Por outro lado, talvez comentem entre eles.

- Você está querendo o quê? Que a gente chegue para cada um destes rapazes alegres, finja interesse pelo que eles têm no meio das pernas e lá pelo terceiro drink a gente pergunte se monstros também freqüentam o lugar? Já viu quantos rapazes alegres estão aqui hoje? E se algum deles se empolgar e resolver passar a mão onde não deve? Eu já estive no Inferno e nem lá me vi diante de uma perspectiva tão assustadora.

- É, não ia mesmo dar certo. Foi uma idéia estúpida. Vir aqui foi uma idéia mais estúpida ainda. Não temos nada a ver com esse lugar. Vamos comemorar sua volta com uma cerveja em outro lugar.

- Demorou. Vamos.

- ESPERA. Olha só quem está ali. Jackson Whittemore.

- Você não disse nada sobre ele ser gay?

- O perfil dele não passa essa idéia.

- É obvio que ele é. Se não fosse, o quê que ele estaria fazendo aqui?

- Ele deve pensar o mesmo de você. O que foi que a hostess disse mesmo? Ah! Que esse era o lugar CERTO para nós.

- Mais essa agora. E a culpa é toda sua. Você e seu maldito abraço.

- Vamos lá. Talvez seja mais fácil arrancarmos dele algo sobre McCall e lobisomens num lugar como esse.

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Próximo à pista de dança, Danny Mahealani observa os casais se formando. Olhares, toques, amassos, dança em ritmo frenético. As etapas preliminares para algumas horas de sexo. Vivera aquilo tantas vezes. Era como uma droga. Bom enquanto durava. Depois, vinha a frustração. Era como estava se sentindo naquele momento, ao ver Percy, seu ex, beijando um garoto ruivo. Estava se afastando da pista quando Jackson lhe entrega um drinque a base de tequila.

- Para você relaxar.

- Obrigado por vir, Jackson. Confesso que ainda estou um pouco apreensivo. É a primeira vez que eu volto aqui desde que aconteceu aquilo comigo. Uma das piores experiências da minha vida.

- Danny, o que quer que tenha sido aquilo, acabou. Não vai voltar a acontecer, acredite nisto.

- Eu sei. É por isso que eu estou aqui hoje. Para virar essa página e seguir em frente.

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Jackson adoraria poder contar toda a verdade a Danny e pedir desculpas. Mas, que sentido teria isso agora? Não era mais o kanima. Três meses se passaram e ele não voltara a transformar-se em lobisomem. Era melhor deixar as coisas como estavam. Era tudo era tão absurdo que, se contasse, era bem capaz de Danny não acreditar. Depois, teria que contar também sobre McCall, sobre Derek Hale, sobre os Argent e saber sobre eles só serviria para colocar a vida de Danny em risco. Era melhor deixar as coisas como estavam.

Tudo aconteceu tão diferente do que ele pretendia no início. Surtara quando Scott lhe roubara o posto de melhor jogador que ele lutara tanto para conquistar. Sentia necessidade de ser reconhecido por todos como O MELHOR em pelo menos uma coisa. Era uma forma de esfregar na cara de seus pais biológicos que ele era alguém por quem teria valido a pena eles brigarem. Era humilhante saber que tinha sido entregue para adoção. Descartado como algo indesejado. Se, ao menos, isso tivesse ficado em família. Mas, não. Seus pais adotivos fizeram questão que a cidade inteira soubesse de sua boa ação, acolhendo e dando do bom e do melhor para o garotinho enjeitado.

Era errado querer ter seu esforço reconhecido? Dedicara-se de corpo e alma para tornar-se o melhor jogador de lacrosse. Queria escutar a torcida gritando seu nome. Queria saber que havia garotas loucas por uma noite de amor com ele. Queria que gostassem dele. Que o amassem, mesmo sabendo que não merecia ser amado. Não merecia porque era uma pessoa egoísta e má.

Sabia o que fizera. Matara pessoas. Existiam evidências. Existiam testemunhas. Talvez existissem até mesmo provas. Mas, ele não tinha qualquer lembrança destes atos. E, isso talvez fosse uma coisa boa. Não lembrar. Permitia que se iludisse quanto à sua verdadeira responsabilidade nestas mortes. Mesmo que a lembrança de estar sob o chuveiro lavando o sangue que cobria seu corpo retornasse todas as noites e perturbasse seu sono.

Jackson podia não encarar desta forma, mas a verdade é que essa lembrança, mesmo que perturbadora, não deixava de ser uma coisa boa. Uma prova que Jackson ainda tinha uma consciência. Que ele não era como Matt Daehler ou Gerard Argent. Gerard queria uma carnificina na quadra de lacrosse. Gerard queria que gritassem o nome de Jackson Whittemore com pavor e ódio. Sua mente se rebelou contra isso. Em qualquer outro lugar, menos naquele. Na quadra de lacrosse, o nome de Jackson Whittemore só deveria ser gritado com adoração.

Ao recuperar um mínimo de controle, Jackson preferiu morrer a matar inocentes. Se alguém lhe perguntasse um dia se seria capaz de tal sacrifício, riria e diria que nunca. Talvez Jackson Whittemore fosse, afinal, alguém muito melhor que ele próprio acreditava ser.

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- Isso mesmo, Danny. Agora é bola pra frente. Eu estou aqui para ajudar você. Vamos voltar ao plano inicial: fazer você encontrar o homem dos seus sonhos. Aliás, estou lembrando que você falou alguma coisa sobre ter sonhado com um homem de olhos verdes. E estou vendo ali na frente um que é bem o seu número.

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA ARGENT


- Filha, assim que eu sair ative os sensores de perímetro e mantenha uma arma ao alcance da mão.

- Pai, é a terceira vez que o senhor repete essa recomendação. A terceira vez, HOJE.

- Antes, sua mãe estava aqui para proteger você e isso me deixava tranqüilo, porque ela tinha reflexos rápidos e era uma excelente atiradora.

- Pai, eu também tenho reflexos rápidos e sou uma excelente atiradora.

-Eu sei. Mas, eu me preocupo assim mesmo. Acho que ficaria mais tranqüilo se Scott estivesse aqui para protegê-la.

- Pai, você se dá conta do absurdo de dizer uma coisa dessas. Você está saindo justamente para matar um lobisomem.

- Um ômega que em dois dias estará fora de controle e que acabaria matando alguém. Scott já provou que seria capaz de morrer para protegê-la.

- Sou uma Argent e não preciso de um lobisomem me protegendo. Vai tranqüilo, pai. Eu vou ficar bem.

- Estou indo. Assim que eu sair ative os sensores de perímetro e mantenha uma arma ao alcance da mão.

- PAI!

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'Eu não tinha nada que ter ido assistir o jogo. Bastou o Scott dar um sorriso, que eu perdi toda a minha determinação. Melhor ligar para ele e alertar sobre os caçadores. Mesmo que Scott avise a alcatéia toda e Derek acabe se safando.'

Allison acabara de ativar os sensores de perímetro como o pai tanto insistira. Era quase meia-noite. Devia ter avisado Scott assim que soube dos caçadores, mas o desejo de vingar-se dos Hale falara mais alto. Se os caçadores fossem a metade do que se dizia deles, eles não iam parar até que exterminassem a alcatéia toda. Inclusive, Scott.

Deixara o celular na bolsa e a bolsa no quarto. Apressou os passos ao subir a escada. Não ia se perdoar nunca se permitisse que matassem Scott.

Allison abre a porta, acende a luz, joga o boné vermelho sobre a cama e, ao virar-se, dá de cara com o rosto de feições animalescas e olhos vermelhos do lobisomem alfa.

- DEREK? O QUE ESTÁ FAZENDO NO MEU QUARTO?

Na mente de Allison, um único objetivo. Alcançar a arma carregada com balas de prata.


NO PRÓXIMO CAPÍTULO: Jake conhece Danny Mahealani


21.04.2013


Espero que as referências que aparecem nos diálogos dos falsos federais estejam sendo reconhecidas pelos leitores. Grande parte da graça é reconhecer essas referências.

Não consegui confirmar o nome do ex boyfriend do Danny. De qualquer forma, esse é um universo alternativo.