CAPÍTULO #8
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LOCAL : RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA ARGENT
Allison abre a porta do quarto, acende a luz e, ao virar-se, dá de cara com o rosto de feições animalescas e olhos vermelhos do lobisomem alfa.
- DEREK? O QUE ESTÁ FAZENDO NO MEU QUARTO?
Na mente de Allison, um único objetivo. Alcançar a arma carregada com balas de prata.
- Desculpe invadir seu quarto sem ser convidado, Allison. Mas, é uma emergência.
- Como entrou na casa?
- Quando você entrou, eu me esgueirei para não ser detectado pelos sensores e pelas câmeras e entrei junto.
- O que quer?
- Conversar. Pode pegar a arma, se isso a deixa mais tranqüila. Mas, asseguro que não é necessário.
Allison olha Derek com desconfiança. Sem movimentos bruscos, mas também sem hesitação, pega a arma no criado-mudo e a aponta para a cabeça do lobisomem.
- VOCÊ MATOU MINHA MÃE!
- Não literalmente. Mas, não digo que esteja errada em pensar assim. Acredite que não era minha intenção mordê-la. Sua mãe não me deu muitas escolhas, Allison. Gostaria que levasse isso em consideração.
- Você sabia que transformá-la era o mesmo que matá-la.
- Não é verdade. Talvez fosse a forma de apresentar à sua família o outro lado da moeda. Ser um lobisomem não é algo intrinsecamente ruim. É algo que pode ser mantido sob controle. Podemos conviver com pessoas. Sabe disso. Com sua ajuda e a de seu pai, sua mãe poderia ter descoberto isso também.
- Tudo que eu sei é que você matou minha mãe e que seu tio Peter matou minha tia Kate.
- Sua família massacrou a minha. Acha que meu sofrimento foi menor que o seu? Peter não era esse monstro que ele se tornou. Lembro do homem que ele era antes do incêndio. Ele era uma boa pessoa. Talvez por isso eu não o tenha matado uma segunda vez. Ele também sofreu muito. Não fomos nós que começamos essa guerra, Allison. Se dependesse de mim, ela nem teria começado.
- Veio aqui fazer o quê, Derek?
- Vim pedir a sua ajuda, Allison.
- Minha ajuda? Isso é uma piada, não é?
- Não. Eu realmente preciso de você.
- E porque, então, a forma de lobisomem?
- Para que não esqueça o quê realmente eu sou e quem realmente está pedindo sua ajuda. Vai me escutar?
Allison respira fundo e baixa lentamente o revólver.
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LOCAL : JUNGLE DANCE CLUB
- Ei. Não era você hoje mais cedo no jogo de lacrosse? O atacante do time de camiseta branca?
- Eu mesmo.
- Eu não disse, Jake, que era ele?
- Vocês dois estavam no colégio? Viram a gente jogar?
- A gente? Seu amigo aqui também estava jogando?
- No time adversário. Ele era o goaler [goalkeeper]. Mas, isso não significa que ele tenha facilitado as coisas pro meu lado. Os melhores amigos às vezes são nossos maiores adversários.
- Eu não entendo muito das regras do lacrosse, mas gostei do que vi. Um grande espetáculo. Uma excelente partida. Você esteve ótimo.
- O Clay é suspeito para dizer. Acredita que ele não tirou os olhos de você um minuto. Eu cheguei até a ficar com ciúmes.
Clay se volta para Jake com um grande sorriso de dentes cerrados no rosto. Um sorriso que diz 'Eu mato você'. Jake retribui com um sorriso sacana cuja melhor tradução seria: 'Está reclamando do quê? Eu só estou fazendo o que você mesmo sugeriu.'
- Obrigado. Sou obrigado a concordar. Eu estava mesmo inspirado. E - Clay, não é? - , vou encarar seu entusiasmo como um elogio ao meu desempenho em campo. Eu me ofereceria para tirar suas dúvidas sobre o jogo, mas não quero problemas com o seu namorado.
- Não leve o Jake a sério. Ele está só zoando. Jake e eu somos apenas colegas de trabalho. Vamos ficar a semana em Beacon Hills e tiramos essa primeira noite para relaxar. Portanto, o problema não é o MEU namorado, mas o SEU.
- Danny e eu também somos apenas bons amigos. Na verdade, eu vim aqui mais para dar uma força para ele. Se o seu amigo também é desimpedido, porque não deixamos Danny e ele a sós para que se conheçam melhor. A boate tem um ambiente onde é possível sentar e conversar. Aqui, a gente tem que falar quase gritando. O que me diz de continuarmos nossa conversa lá?
Clay suou frio ao escutar a menção a um 'ambiente onde é possível sentar e conversar'. Nunca estivera antes em uma boate gay e sua imaginação corria solta. Já ouvira falar de quartos escuros e glory holes. Deu um sorriso nervoso. Era fácil ser politicamente correto na teoria. A perspectiva que ter um homem passando a mão na sua perna - e não só na sua perna - estava fazendo que reconsiderasse seus conceitos. No fundo, não era tão diferente de Jake. Jake apenas expressava seus preconceitos às claras.
Precisou de alguns segundos para tomar coragem e responder com naturalidade fingida:
- Vamos! O barulho aqui já estava mesmo me incomodando.
Estava dando certo. Tinham feito contato. A situação podia até ser embaraçosa, mas ele não precisava ter medo. Até onde sabia, ninguém era agarrado e forçado a fazer o que não queria em uma boate gay. Era como em qualquer outro lugar. Tinha suas regras, mesmo que fossem regras diferentes. Depois, sabia muito bem se defender.
- Jake? Jackson vai me explicar as regras do lacrosse. Você faz companhia para o Danny.
- ESPERA! Aonde vocês estão indo?
O tom de pânico na voz de Jake não passou despercebido de Danny, apesar da música muito alta.
Clay não responde. Apenas faz um gesto para indicar que não queria que Jake o seguisse.
A perspectiva de deixar Clay a mercê de um pervertido apavorava Jake mais do que se estivesse acontecendo com ele próprio. Aliás, ele também não estava a salvo. Olhou desconfiado para Danny e deu um sorriso forçado, mal disfarçando seu medo. Desejou que Danny fosse secretamente um demônio ou algum tipo de monstro. Assim, pelo menos, continuaria com a consciência limpa depois de cravar uma faca em seu peito caso o outro se atrevesse a passar a mão aonde não devia. Disfarçadamente, tocou no cabo da lâmina da faca que mantinha escondida sob a roupa, como forma de se tranqüilizar.
- Então você se chama Danny?
- Daniel Mahealani. Prazer.
- Muh-hay-uh-lah-nee?
- Acertou a pronúncia. É um nome havaiano. Eu sou havaiano. Significa algo como Intenso Luar ou, numa versão mais poética, Luz Celestial que a Lua Cheia derrama sobre o Mundo.
Jake ainda estava tenso e não pode evitar uma gargalhada. Mas, o constrangimento começou antes mesmo do riso cessar.
- Desculpe por achar graça. Não quis ofender.
- Não ofendeu. Soa mesmo engraçado. Mais ainda por ser um nome feminino.
Jake se sentiu um pouco mais relaxado. Danny era só um garoto que não tivera a sorte de encontrar uma garota que o colocasse no caminho certo. Olhou-o um pouco penalizado. Ele parecia um bom garoto. Não merecia esse triste destino.
- Sua família veio com você do Hawaii?
- Sou de uma família tradicional de Oahu. Quando ficaram sabendo das minhas preferências, acharam que a California combinava mais comigo do que o Hawaii.
- Sinto muito. Não estou sendo muito feliz nas minhas tentativas de puxar conversa.
- Não, tudo bem. Eles estavam certos, afinal. Foi melhor assim. E eu gosto daqui.
Danny ficou um minuto pensativo, lembrando de tudo que passara desde que seu segredo deixara de ser um segredo. Mas, aquele não era o momento para pensamentos depressivos. Não quando estava tão perto de um homem tão interessante. Um homem interessante que parecia que ia sair correndo para longe a qualquer momento. Não podia deixar que isso acontecesse. Precisava tomar a iniciativa. Se queria que seu sonho se tornasse realidade, tinha que ganhar a atenção dele.
- Já disse meu nome e você sabe que estudo no Beacon Hills High School. Falta VOCÊ se apresentar.
- Jacob Gray. Jake.
- Está em missão? É por isso que está fingindo ser gay?
- Fingindo? Eu não estou FINGINDO ser gay!
- É claro que está. Quando me olhou há minutos atrás, vi como ficou penalizado da minha triste condição de gay.
- Você lê pensamentos?
Foi a vez de Danny dar uma gargalhada. A cara que Jake fez ao fazer a pergunta mostrava o quanto essa possibilidade lhe parecia real.
- Para a sua sorte, e talvez a minha, NÃO. Eu não leio pensamentos. Sou apenas uma pessoa observadora. Notei que você está preocupado de verdade por seu amigo ter subido com o Jackson. Mais do que seria esperado se ele fosse um simples amigo para você. Mesmo assim, não me pareceu que exista algo sexual entre vocês. Você ficou temeroso, não enciumado. Vocês .. vocês são irmãos?
- NÃO, NÃO SOMOS. Nós .. Cara, você é realmente um sujeito perigoso.
- Não precisa me contar se não quiser. Também não precisa me dizer se são realmente agentes do FBI ou apenas estão se passando por agentes.
Jake arregala ainda mais os olhos. Ainda não completamente recuperado do choque, observa atentamente o rosto de Danny tentando descobrir que tipo de criatura ele poderia ser. Danny era hawaiiano. Essa era a primeira pista. Assim que tivesse uma oportunidade, pesquisaria sobre seres sobrenaturais do folclore hawaiiano até descobrir um que leia pensamentos.
- Não precisa fazer essa cara. Como eu disse, eu sou uma pessoa observadora. E conheço bem a forma como agentes do FBI se comportam.
- Como assim? Você é muito novo para ser um agente.
- Eu fui hacker quando era um adolescente. Fui pego e passei um bom tempo convivendo com agentes.
- Pensei que ainda fosse adolescente.
- Tecnicamente, sou. Mas, agora tenho dezenove. Na época, tinha quinze.
- Quando digo que você é perigoso. Quinze anos e já na lista de procurados do FBI.
- Entrei na lista com treze. Me pegaram com quinze. Tem uma relação imensa de coisas que não posso fazer e sites que não posso acessar na internet.
- Uma coisa é achar que somos agentes. Mas, porque acha que podemos estar NOS PASSANDO por agentes?
- Não sei dizer exatamente. A primeira impressão que tive foi a de que eram agentes, mas tem alguma coisa que não bate.
- Tirou essas conclusões todas nestes cinco minutos de conversa?
Danny sorri satisfeito. Conseguira a atenção - mais que isso, a admiração - de Jake. Dificilmente agora ele o deixaria para correr atrás do 'irmão'.
- Você é realmente surpreendente.
- Vou considerar isso como um elogio. Jake. Jake e Clay. Esses não são seus verdadeiros nomes. Estou errado?
- Não. Importa-se de eu não revelar meu verdadeiro nome?
- Jake está bom para mim. A maioria dos caras daqui também não revela o nome verdadeiro num primeiro encontro. Deixam para revelar num segundo, quando há um segundo.
- A verdade é que entramos aqui sem saber que era uma boate gay e sim estou preocupado pelo Clay estar com seu amigo aí pelos cantos.
- Não se preocupe. O Jackson não é gay. Ou, melhor dizendo: ele nunca foi para a cama com um homem. Depois, a namorada dele está aqui com ele.
- A namorada?
- É. Porque o espanto? Muitos heteros vêm aqui para curtir a música. As pessoas costumam ter uma idéia errada do que acontece em lugares como este. Uma boate gay é lugar como qualquer outro. Não acontece nada que você não queira. Mas, também acontece de alguém de repente descobrir que está interessado em algo que pensou que nunca se interessaria. Não seria esse o seu caso, Jake?
Jake arregala os olhos e sente a garganta ressecada quando sente sobre si o olhar intenso de Danny Luz da Lua.
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LOCAL : RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA ARGENT
- Sacrificaria o Scott para ter a sua vingança, Allison?
- Porque está dizendo isso?
- Os caçadores. Sabia deles e não avisou Scott. Agora, é tarde demais. Eles já sabem que ele é um lobisomem. Scott já está na mira deles.
- Eu ia avisá-lo. Eu subi para pegar meu celular e eu ia ligar para o Scott para avisá-lo quando dei de cara com você aqui no quarto.
- Scott já sabe da ameaça. Você estava no jogo. Viu quando Scott derrubou o Isaac? Ele fez isso para que não descobrissem também sobre o Isaac. Sabe como é o Scott. Sempre disposto a se sacrificar pelos outros.
Allison senta na cama e baixa a cabeça, tentando segurar as lágrimas. Derek estava certo. Ficara cega pela dor de ter perdido a mãe e a tia e agora podia acabar tendo que chorar também a morte de Scott. E ai choraria não só pela perda, mas também pela culpa.
- Sua família já matou inúmeros ômegas nestes últimos dez anos, mas poucos betas e apenas 1 alfa. Eles, há poucos meses, mataram um alfa em Michigan. Antes disso, toda uma alcatéia em Montana, inclusive o alfa. Há três anos, o mais novo matou sozinho 1 alfa e 4 betas no Wyoming. E, agora, eles estão aqui. E sabem do Scott.
- Se veio aqui me pedir ajuda contra eles, esqueça. Vou fazer o que puder pelo Scott. Mas, somente por ele. Scott não escolheu ser transformado. Ele foi vítima do psicótico do seu tio. Já sua alcatéia é responsabilidade sua. Você os transformou, você responde pelas mortes que causarem, você será o único culpado se eles acabarem mortos por caçadores. Mas, eles tem sua parcela de responsabilidade. Eles concordaram em ser transformados.
- Não foi contra os caçadores que vim pedir ajuda. Você está certa quando diz que eles são problema meu. Quanto à minha alcatéia, este é um dos assuntos de que vim tratar com você. Quero apenas que respeite o código de sua própria família. Prometa não persegui-los enquanto não tiverem matado alguém. Isso é pedir muito?
- Não. Esse é o código dos Argent. Tia Kate errou ao quebrá-lo. Minha mãe agiu como agiu pensando estar me protegendo do Scott. Ela temia as conseqüências de um envolvimento nosso. Ela também errou. Mas, isso não significa que perdoei você. Você e seu tio estão fora deste nosso acordo.
- É justo. Eu não vim esperando algo diferente. Temos, então, um acordo?
- Derek, essa sua preocupação com a alcatéia é porque teme ser morto pelos caçadores?
- Minha preocupação é porque, como você mesmo lembrou, eles são minha responsabilidade.
- Não se iluda, Derek. Vou torcer para que matem você e seu tio. Talvez até os ajude a matá-lo.
- Só não decepcione o Scott, Allison. Ele não merece que você faça com ele, o que a sua tia fez comigo.
- Terminamos?
- Não. Temos mais um assunto. Soube de um corpo encontrado pela polícia no rio? Próximo da velha ponte.
- Meu pai suspeita de um ômega.
- Não. Não foi nenhum lobisomem. Esse o verdadeiro motivo pelo qual preciso de sua ajuda. Mas, gostaria que guardasse segredo. Não em relação a seu pai. É até bom que ele saiba. Só peço que não conte nada do que vou revelar para nossos amigos em comum: Lydia, Jackson, ...
- Desde quando você é amigo do Jackson?
- Maneira de falar. Posso continuar? Lydia, Jackson, Scott e Stiles. O Stiles, principalmente, não pode saber de nada.
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LOCAL : JUNGLE DANCE CLUB
- Sabe que detesto ser deixada sozinha. Já ia descer atrás de você. Quem é esse seu amigo bonitão?
- Ele me viu jogando. É de fora da cidade. Lydia, este é o Clay. Clay, essa é Lydia Martin, minha namorada.
Jackson puxa Lydia para um beijo. Mas, não um beijo protocolar. Um beijo de verdade, daqueles de quando se está louco de saudades da pessoa amada. Clay olha para a cena surpreso e, por que não dizer, aliviado.
- Sinto desapontá-lo, amigo. Mas, meu coração já tem dona.
- Então, o morenaço aqui tinha segundas intenções para com o meu namorado? Bem, não posso culpá-lo. O Jackson é realmente muito gostoso. Parabéns pelo seu bom gosto.
- Isso foi algo inesperado, Lydia. Vou indo. Não quero atrapalhar a noite de vocês dois.
- Não. Fique pelo menos um pouco. Não vou prender você aqui a noite toda porque sei como é esse lance de não querer dormir sozinho. Mas, queria dar ao Danny uns minutinhos a sós com seu amigo.
- Você me trouxe aqui para deixar seu amigo Danny uns minutinhos a sós com o Jake?
- Sabe o que é? O Danny é um bom amigo. Um cara realmente legal. Ele ainda está triste pelo último rolo dele não ter acabado bem. E ele disse que sonhou que encontrara finalmente o cara certo. E que esse cara do sonho tinha olhos verdes, assim como seu amigo. Não que eu acredite em sonhos, mas pensei: porque não dar a eles essa chance?
Clay estava surpreso por Jackson ser pessoalmente uma pessoa muito mais agradável que seu perfil fazia supor. Ele parecia mesmo estar querendo ajudar o amigo a encontrar alguém que o fizesse feliz. Infelizmente, não podia ter feito escolha pior. Jake não era o tipo de pessoa que se preocupava com os sentimentos dos outros. Se Danny criasse alguma expectativa com Jake, ia acabar com o coração muito mais quebrado do que já estava.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: Stiles sonha com Derek
27.04.2013
