CAPÍTULO #9
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LOCAL : BEACON HILLS PRESERVE LODGE, QUARTO 232
NAQUELA MADRUGADA
A porta abre quase sem fazer barulho e Clay, que fingia dormir, empunha a arma escondida embaixo do travesseiro. Relaxa com a certeza que é Jake e que ele está bem. Uma vida inteira de convivência e Clay era capaz de reconhecer Jake até pela forma de andar.
- Pode me explicar o porquê de chegar a essa hora?
- O que há de tão estranho nisto? Já aconteceu mil vezes antes.
- Você saiu da boate ainda não era 1:00 da manhã e você chega às 4:30 de banho tomado.
- Como sabe que estou de banho tomado?
- Não sabia até você confirmar.
- Ainda assim. Qual é o problema? Também já aconteceu mil vezes.
- A diferença é que todas as outras vezes você saiu acompanhado de uma GAROTA.
- Não está pensando .. ? Está insinuando que eu passei a noite com o Danny?
- Você saiu da boate com ele.
- Não. Nós saímos da boate na mesma hora. É muito diferente.
- E isso de estar de banho tomado?
- Depois de deixar o Danny em casa, eu saí para procurar uma companhia FE-MI-NI-NA. Eu não tinha dito que ia arranjar uma companhia para a noite?
- E qual o nome dela?
- Jenny .. ou Janet. Algo assim.
- E onde você encontrou essa tal de Jenny? .. ou Janet?
- Foi .. deixe-me ver .. Ei .. Eu não tenho que dar satisfações sobre a minha vida sexual nem a você nem a ninguém. Vamos dormir que amanhã, ou seja, daqui a poucas horas, temos que estar bem dispostos no escritório do xerife para dar início oficial às investigações.
- Só mais uma coisa. Eu escutei você dizer que DEIXOU O DANNY EM CASA?
- Ele pediu uma carona. Qual o problema de ser cavalheiro?
- O problema é você sendo cavalheiro com quem não é uma dama.
- É muito tarde e eu não quero discutir. Estou morrendo de sono. Boa noite.
- Boa noite.
Clay ainda demoraria a dormir. Tudo bem que Jake tenha voltado mudado. Mas, era impossível que tivesse mudado tanto.
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LOCAL : BEACON HILLS HIGH SCHOOL, LABORATÓRIO DE QUÍMICA
ALGUMAS HORAS DEPOIS
- Conta. Eu tenho direito de saber. Afinal, eu fui um pouco cupido para vocês dois. Sem falar que tive que agüentar por quase uma hora o tal do Clay. Ele sendo gay, é mais que natural que estivesse interessado em mim. Você sabe como eu faço sucesso sempre que apareço na Jungle. Mas, acredita que volta e meia eu pegava o cara dando umas sacadas na Lydia? Vai ver que o cara é bi.
- E como foi a conversa?
- Acho que esse tal de Clay se amarra no tipo esportista. Depois que soube que eu não jogo no mesmo time que ele, ele passou a fazer perguntas sobre alguns dos outros rapazes. Acredita que ele se mostrou interessado no McCall? Fez um batalhão de perguntas sobre ele. Perguntou até sobre o Isaac. O cara atira em todas as direções.
- Ele sabe do incidente com você? Ele sabe que você chegou a ser declarado morto pelos paramédicos?
- Acho que não. Como ele ia ficar sabendo? Ele disse que tinha chegado ontem na cidade.
- Jackson, acho que quanto menos se falar a respeito melhor. Vamos deixar esse assunto morrer.
- Claro! Eu não saio por aí contando que caí morto na quadra. Se começarem a achar que eu tenho um problema cardíaco ou um aneurisma no cérebro, acabou a chance de me profissionalizar como jogador. Felizmente, a história não se espalhou muito. As pessoas acham que foi um simples desmaio.
Danny fica pensativo por um minuto. As pessoas pensam que foi um simples desmaio, porque Lydia e Styles fizeram uma verdadeira campanha de desinformação, com a cumplicidade do xerife e de uma das enfermeiras do hospital. A que, por coincidência, é mãe do Scott McCall. Como o estádio ficou às escuras e as pessoas se dispersaram com o pânico que se instalou em seguida, mesmo quem estava no campo não ficou sabendo exatamente o que aconteceu.
Danny sabe por que permaneceu ao lado de Jackson e o acompanhou na ambulância quando levaram o corpo para o hospital. Viu os paramédicos realizando os procedimentos de reanimação e escutou quando um dele disse que não tinha mais jeito. Que Jackson estava morto. E é o que parecia mesmo. Ele estava gelado.
No hospital, Jackson foi despido e a camiseta que ele estava usando ficou largada num canto, com o restante das roupas dele. Danny ainda insistiu para acompanhar o corpo do amigo, mas foi impedido pela enfermeira McCall. Achou que ia desabar quando ela pronunciou a palavra 'necrotério'.
Danny estava se dirigindo para a saída, ainda atordoado, quando se lembrou da camiseta abandonada. Voltou lá, apanhou a camiseta e levou-a até o rosto. Sentiu-se por um momento reconfortado por encontrar nela o cheiro bom do corpo de Jackson. Queria guardar aquela lembrança para sempre.
Foi quando reparou que o tecido estava cortado na altura do peito. Como se tivesse sido retalhado por garras. Ao tocar o tecido no ponto onde fora feito o rasgo, sentiu a sensação de formigamento e enrijecimento que lhe eram bem conhecidas. A toxina paralisante. Forçou a memória. Estava olhando para Jackson quando ele simplesmente caiu morto. Lembrou de Jackson levando a mão ao peito e depois caindo.
- Terra para Danny! O que foi? Lembrando dos bons momentos de ontem? E, então? Ele é grande?
- Jackson, isso não é coisa que um hetero pergunte para um gay.
- Eu tenho certeza que a Lydia espalhou para todas as amigas que eu sou grande. Eu percebo como elas olham para mim. E é verdade, não é, Danny? Eu sou grande, não sou?
- É, Jackson. Você é grande. Você adora que eu repita isso, não é? Não conheço ninguém que se importe tanto com a questão do tamanho quanto você. É por isso que você quis ter um amigo gay? Para fazer esse tipo de pergunta?
- Claro. Você, por exemplo, tem muito mais base de comparação que a Lydia. Que cara é essa? Vai negar? E, então? Ele é maior que eu?
- Jackson, põe uma coisa na cabeça. As mulheres espalham essas coisas. Os gays, não. Se um gay contar para os amigos que o namorado é GRANDE, no dia seguinte todos eles vão querer tirar a prova. Essas coisas, a gente esconde dos amigos e esconde mais ainda dos inimigos.
- Pode contar para mim. Sabe que eu não vou querer tirar a prova. Mas, se eu fosse apostar, apostaria no Clay. Ele parece ser todo maior. E sabe que ele também tem os olhos esverdeados. Não tão verdes quanto os do amigo, mas, mesmo assim, esverdeados. Quem sabe você não pega os dois?
- Pára com isso, Jackson. O Sr. Harris está entrando e eu não quero que ele me mande sair da sala.
- O Stilinski ainda não chegou. Essa vai ser mais uma aula do Sr. Harris que ele chega atrasado. Parece até que ele faz de propósito.
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LOCAL : RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA STILINSKI
UMA HORA ANTES
Stiles acorda ligado. A mente a mil. Apesar de ter adormecido chorando, sentindo-se um lixo, dormira como uma pedra a maior parte da noite. Ao dormir, Stiles passava rapidamente para o estágio de sono profundo. Próximo do amanhecer, costumava sonhar. Era comum o despertador tocar quando estava na melhor parte do sonho. Isso significava que era difícil acordá-lo durante a noite e fácil de acordá-lo de manhã. Já acordava desperto.
Tinha sonhado.
Nos últimos meses, eram normalmente sonhos molhados. Era frustrante não chegar ao fim do sonho, mas era bom trazer as sensações do sonho para o mundo real. Nada é tão bom quanto um orgasmo logo após acordar. Os cenários criados pelo subconsciente são muito mais excitantes que os criados pela imaginação.
Felizmente, era ele mesmo quem trocava a própria roupa de cama. Não precisava passar pelo constrangimento de saber que o pai encontrara manchas esbranquiçadas ressecadas nos lençóis e nos seus shorts de pijama.
Stiles sonhara com Derek e Irina.
Stiles sonhara inúmeras vezes com Derek desde que Scott fora transformado. Nos primeiros meses, Derek era apenas uma presença ameaçadora que o espreitava e perseguia. Sonhar com Derek significava acordar gritando no meio da noite. Significava trazer para o mundo acordado a lembrança de presas, garras e olhos vermelhos. Significava ter medo de voltar a dormir para não correr o risco de retornar para aquele clima de pesadelo.
Com o tempo, esses sonhos foram escasseando até desaparecerem de vez.
Não sabia precisar exatamente quando Derek reaparecera em seus sonhos, agora em forma humana, usando invariavelmente óculos escuros, camiseta branca e casaco de couro preto. No rosto a expressão fechada, que lhe valera o apelido de sourwolf.
Nos sonhos, Derek ainda o espreitava, mas não era mais uma presença assustadora. Simplesmente alguém que aparecia nos momentos mais inesperados, nos mais diferentes cenários, observando-o à distância, como se o vigiasse. Nunca se aproximava ou trocava qualquer palavra. Nos seus sonhos, Derek era uma figura distante e enigmática. Mas, cuja presença lhe trazia segurança.
O sonho daquela noite fora diferente.
No sonho, ele caminhava pela floresta e quem o espreitava era Irina. Ela aparecia de relance e desaparecia tão rápido, que ele não tinha certeza de tê-la realmente visto. Mas, escutava sua risada. Uma risada alegre, que o instigava a procurá-la. Ela o atraía cada vez mais para dentro da floresta. Uma parte da floresta que ele não conhecia. Não a conhecida floresta de bétulas, com árvores espaçadas e de tronco fino, praticamente sem folhas nos meses de inverno. Árvores frondosas, o chão recoberto de musgo de imensa cor verde, arbustos com flores e sons de água corrente e de canto de pássaros.
Havia encantamento e inocência. Um sonho de menino.
Então, ele vê a jaqueta de brim caída no chão. Mais na frente um tênis vermelho. Ele os recolhe do chão com o coração batendo acelerado e com expectativa crescente. Uma nova risada o leva na direção onde encontra o segundo tênis. Novas risadas e ele chega à margem de um rio largo com forte correnteza. A camiseta rosa de algodão estava do outro lado, presa num ramo de um salgueiro cuja copa tocava a correnteza do rio.
Ele não era mais um menino e tinha consciência disso. E também muitas expectativas sobre o que viria depois.
Seguir Irina o obrigaria a atravessar o rio equilibrando-se sobre o grosso tronco de uma árvore tombada. O tronco não alcançava a outra margem, mas um ponto com pedras lisas e escorregadias bem próximo da outra margem. Ele está na metade do percurso quando escuta atrás de si o rosnado do lobo. Não, não era um lobo. Era um lobisomem completamente transformado. A forma que vira Peter assumir um ano antes.
Um psicólogo diria que esse sonho revelava sua visão do sexo como algo que o estimulava a seguir em frente, mas também algo cercado de dificuldades e perigos. Nada de preocupante, típico medo de adolescente.
Em seu quarto, Stiles se agita na cama, à medida que o sonho começa a ganhar contornos de pesadelo.
O lobisomem sobe no tronco obrigando Stiles a esquecer o cuidado e apressar o passo. Cair no rio e ser arrastado para longe deixara de ser a pior coisa que podia lhe acontecer. Num momento de puro terror, ele vê o lobisomem correr sobre o tronco, pegar impulso e saltar por cima da sua cabeça, caindo sobre o tronco num ponto mais à frente. Vê também Irina, do outro lado do rio, inteiramente nua. No seu sonho, os cabelos de Irina são mais cheios e mais longos, além bem mais vermelhos. Volumosos e longos o bastante para tampar parcialmente a visão de seus seios e de seu sexo.
Os cabelos ruivos eram uma associação de sua mente que mesclava a verdadeira Irina, a figura da protagonista da animação 'Valente' - que ele assistira meses antes e adorara, e de Lydia, sua eterna obsessão adolescente.
O lobisomem se ergue sobre duas pernas e começa a se transformar. A criatura vai assumindo uma forma cada vez mais semelhante à de um homem, com as feições de Derek Hale se tornando reconhecíveis. As feições não do homem mas do lobisomem Derek, com seus olhos vermelhos, nariz achatado e orelhas pontiagudas. O corpo do lobisomem perde grande parte de sua cobertura de pelos, mas ainda não a ponto de tornar seu sexo visível. Stiles sabe que olhar para aquele ponto não era a coisa certa a fazer quando se está tão perto da morte. Mas, é algo que ele não consegue evitar de fazer.
Se Stiles estivesse relatando essa parte do sonho para um psiquiatra, este diria que o subconsciente do garoto talvez estivesse lhe enviando uma mensagem sobre sua identidade sexual. Mas, é claro que Stiles não contaria essa parte com tantos detalhes.
O lobisomem rosna e Stiles podia jurar que aquele rosnado significa em lobisomês algo como 'É agora que vou rasgar sua garganta com meus dentes e, acredite, vou adorar fazê-lo.'
Stiles recua, mas, a cada passo, a distância entre ele e lobisomem vai sendo reduzida. Ele sabe que deveria simplesmente virar-se e correr o mais rápido possível para salvar a própria vida, mas por algum motivo não o fazia. A cada passo, mais e mais humano o lobisomem se tornava. Seu corpo já quase não apresentava pelos e seu sexo já se fazia visível.
O lobisomem o agarra pelo colarinho e Stiles, se baixasse o olhar, poderia constatar que, à exceção do rosto, Derek voltara a ter uma aparência completamente humana. E ele está embaraçosamente próximo do lobisomem nu.
Stiles acorda erguendo o tronco num tranco e suando frio. Ao olhar para o despertador digital, a constatação de que se esquecera de ajustar o despertador para que o acordasse na hora certa. Ia chegar atrasado mais uma vez na aula do Sr. Harris. Estava ferrado.
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Um banho rápido, cujo último minuto foi gelado, um copo de leite e o sanduíche preparado na véspera pelo pai na mão, Stiles sai batendo a porta.
Ao olhar para o jeep azul estacionado em frente à casa, uma surpresa de casaco de couro e óculos escuros o esperava.
- Derek? O que faz aqui?
- Porque o espanto? Já estive aqui antes. Esqueceu que já estive até mesmo no seu quarto. Vim para conversarmos. Conversarmos como amigos, Stiles.
- Amigos? Agora voltamos a ser amigos? Não, Derek. Você estava certo quando disse ontem que a idéia de existir entre nós algo parecido com uma amizade só podia ser uma piada. Só que eu acordei atrasado, meu humor está péssimo e a idéia que ficar aqui rindo da piada não me entusiasma nem um pouco.
- Eu me lembro do que disse ontem. Mas, apesar do que eu disse, saiba que eu me considero um bom amigo seu. Eu não matei você, matei? Nem mordi. Nem o retalhei com as minhas garras. Nem o machuquei .. muito. Isso prova que sou seu amigo. Um amigo tão bom que vim dar um aviso.
- Um aviso?
- Eu vim avisá-lo para ficar BEM LONGE da Irina. Ou posso deixar de considerá-lo meu amigo. E coisas ruins podem acontecer com você. Estou sendo claro, Stiles? Ou será que eu vou precisar desenhar? Se quiser que desenhe, arranje também uma caneta vermelha. Sabe, meus olhos.
Stiles olhava Derek nos olhos e podia jurar que os olhos do lobisomem não repetiam as ameaças que saiam de sua boca.
- Vocês .. ficaram juntos ontem à noite?
- Stiles .. eu não estaria sendo um cavalheiro se comentasse o que aconteceu entre as quatro paredes do quarto da Irina ontem à noite.
Derek tinha agarrado Stiles pelo colarinho e o empurrado com força contra a porta. Stiles faz uma expressão que exagerava a dor que ele de fato tinha sentido. Já Derek tinha uma expressão divertida no rosto. Ele parecia divertir-se com a oportunidade de, mais uma vez, causar dor física a Stiles. Humilhá-lo, jogando em sua cara que dormira com Irina, não era suficiente para ele. Bastardo.
Como se não bastasse isso, a lembrança do Derek nu do sonho se misturava de forma embaraçosa na mente de Stiles com a figura real do homem a sua frente. Gostaria de pensar que o odiava. Mas, sabia que isso não era verdade. Que nunca seria.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: Jake invade o quarto de Stiles.
05.05.2013
