CAPÍTULO #10
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LOCAL : RUA EM FRENTE À RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA STILINSKI
MINUTOS ANTES
O Chevrolet preto seguia para a delegacia de polícia de Beacon Hills com seus ocupantes perdidos em seus próprios pensamentos. Jake e Clay tinham trocado poucas palavras desde que foram acordados pelo despertador, depois de menos horas de sono que gostariam.
Clay ainda estava irritado com Jake, embora tivesse consciência de que não havia um bom motivo para isso. Jake era daquele jeito e não ia mudar nunca. Ele já devia estar acostumado. Bem, acostumado a que Jake saísse com a primeira vadia que encontrasse ele estava. Essa dele sair da boate acompanhado de um adolescente gay ... Não. Bobagem. Estava preocupando-se à toa. Jake fizera exatamente o que ele disse que fizera. Dera uma carona para o rapaz e depois fora atrás da vadia com quem passara a noite. Simples assim. Olhou para Jake sentindo-se até ridículo por ter imaginado algo tão estapafúrdio. Jake e um homem. Absurdo.
Jake estava desapontado. O simples fato de Clay imaginar que ele podia se envolver com um homem já era ultrajante. Clay o conhecia da vida toda. Como podia sequer cogitar ...
Um sorriso sacana surge nos lábios de Jake. Clay não vivia chamando-o de homofóbico? Talvez fosse uma boa hora para testar se Clay era realmente tão LIBERAL quanto dizia ser. Com um nome tão diferente, não ia ser difícil obter o telefone do Danny. Se ele topasse ..
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O caminho mais curto para a delegacia não passava pela rua onde o xerife morava, mas Jake gostava de sentir o clima das cidades por onde passava. Afinal, não tinha uma cidade para chamar de sua. Da cidade onde nascera, só trazia péssimas lembranças. Os gritos horríveis de sua mãe ao morrer. Sua casa queimando. Ele assistindo impotente seus dois irmãos despencando no abismo. Não, esperava jamais voltar àquele lugar amaldiçoado.
Não tinha um lugar para chamar de seu. Talvez por isso - inconscientemente - procurasse o tempo todo por um.
E havia também uma razão prática para que estivesse sempre explorando o ambiente. Para um caçador, podia ser a diferença entre continuar vivo e ter uma morte feia. Conhecer o terreno era essencial tanto numa perseguição quanto numa fuga. Tanto para emboscar quanto para não ser pego numa armadilha.
Jake dirigia pensativo, mas não a ponto de abstrair-se do que acontecia a seu redor. Caçador distraído já nasce morto. A imagem do lobisomem da fotografia já estava gravada em sua mente. Naquela cidade, qualquer um que vestisse jaqueta de couro preto ou usasse óculos escuros chamaria sua atenção.
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Jake não acreditava em anjos da guarda quando era criança. Passara a acreditar somente depois de adulto. Não sabia se a decisão de passar por ali naquele momento fora obra do seu ou do anjo da guarda do garoto que acabara de ser jogado contra a porta da casa em frente. O do garoto, provavelmente. O seu, há muito que deixara de ser confiável.
- Clay, aquele não é Derek Hale?
- Ele mesmo. E parece que Hale está agindo como um típico valentão de colégio com um adolescente magrelo com pinta de nerd. No meio da cidade e em plena luz do dia. Não era bem isso que eu esperava de um lobisomem assassino.
- Quem será o garoto?
Jake acelera somente para poder frear ruidosamente o carro em frente à casa dos Stilinski. Ao abrir a porta do carro, já incorporara o papel de tira mau.
- Algum problema aqui?
Derek conhecia a rotina daquela vizinhança. Não foram poucas as vezes que observou à distância a casa do xerife. Aquela era uma rua tranqüila, muito arborizada, com casas bem afastadas umas das outras. A casa do xerife ficava depois de uma curva, não podendo ser vista de longe. A rua costumava estar deserta àquela hora. Os vizinhos ou ainda não tinham acordado ou já tinham saído para trabalhar ou para levar os filhos ao colégio. A última coisa que esperava era dar de cara logo com os caçadores e justamente ali, em frente à casa de Stiles.
- Nenhum. O Stiles teve um problema com o carro ontem e eu estava dando umas dicas de como evitar esse tipo de problema.
Jake capricha na cara de mau ao encarar Derek enquanto fala para Stiles.
- Garoto, esse indivíduo estava ameaçando você?
- Não. Derek veio me dar um CONSELHO e JÁ ESTAVA DE SAÍDA. Não é mesmo, Derek?
Derek fecha a cara e uma leitura superficial de sua linguagem corporal mostrava que ele estava se controlando para não reagir à provocação. A atitude imperturbável do agente o desconcertou e ele acabou se afastando de má vontade, olhando seguidas vezes para trás. Ainda deu uma última olhada antes entrar no Camaro e sair cantando pneus em direção à Mansão Hale.
- Se ele estava ameaçando você, não tenha medo de falar. Nós estamos aqui para protegê-lo.
- Não. Nada sério. Derek é do tipo que uiva, mas não morde.
Jake e Clay se entreolharam de forma sugestiva. UIVA? Um ato falho que talvez indicasse que o garoto sabia o quê Derek Hale realmente era. A tentativa de intimidação por parte do lobisomem, por sua vez, reforçava a hipótese de que Hale sabia que o garoto sabia.
Stiles percebeu que falara o que não devia no exato momento que as palavras deixaram sua boca. Porque diabos ele tinha de sair falando tudo que lhe vinha à cabeça? Maldição! Agora era tarde. Os agentes perceberam um certo grau de intimidade entre eles, afinal se trataram pelos seus primeiros nomes. Tentar desmentir, além de inútil, só levantaria novas suspeitas.
Clay coloca a mão no ombro de Stiles e tenha ganhar sua confiança com um sorriso cúmplice.
- Eu já tive sua idade e já passei por muitos apertos com valentões. Só não foram muitas surras porque eu tinha um irmão mais velho para me proteger. Eu lembro o quanto eu ficava injuriado com as atitudes superprotetoras desse meu irmão. Eu dizia que preferia ter levado uma surra a escutar depois que só não apanhara porque me escondera atrás das calças do meu irmão. Hoje eu vejo as coisas de outra maneira. A verdade é que a intervenção do meu irmão dava a chance de todos saírem ganhando. Eu não apanhava, meu irmão ficava contente por ter cumprido o seu papel e o valentão era lembrado que sempre existe alguém mais forte. Se o valentão fosse inteligente, ia repensar suas atitudes e agir diferente no futuro.
Stiles tinha se preparado para encarar os agentes do FBI como inimigos. Afinal, o inimigo do meu amigo é meu inimigo. Stiles sabia que os agentes eram uma ameaça a Scott e a toda alcateia de Derek. Mesmo Derek sendo um bastardo insensível, não gostava da ideia de vê-lo morto. Mas, a verdade é que, agora, vendo os agentes de perto e escutando-os falar, a hostilidade inicial estava se dissipando. Talvez eles fossem, afinal, sujeitos legais. Talvez fosse possível convencê-los a deixar os lobisomens em paz.
- Ele já foi embora. Acho que não vai voltar tão cedo.
- Não que algo justifique uma atitude como a dele, mas você deu motivos para que ele perdesse a cabeça e o empurrasse contra a porta?
- Ele não precisa de um motivo. Às vezes, eu acho que ele me odeia e que nada que eu faça irá mudar isso.
'Droga. Não era para dizer isso. Porque eu não consigo manter a minha boca grande fechada? Vou acabar estragando tudo. '
- Vi que você não se deixou intimidar. Mas, tenha em mente que não tem que provar nada para ninguém. Principalmente não tem que provar nada para quem abusa da força. Quem se vale da força e do tamanho para intimidar alguém mais fraco só demonstra a própria insegurança e imaturidade. Ok.
Stiles concorda com a cabeça. Era isso mesmo. Não tinha porque sentir-se inferiorizado por ser um simples humano. O agente estava certo. Se Derek se dera ao trabalho de vir procurá-lo com ameaças é porque o considerava um adversário a altura. É porque ainda tinha chances com Irina.
- Então, são vocês são os agentes do FBI que chegaram ontem à cidade?
- Somos. E você é Stiles, o filho do xerife Stilinski. Stiles, estamos aqui para afastar qualquer ameaça às pessoas de bem de Beacons Hills. Acabar de vez com essas mortes e com gente sendo mutilada. Queremos garantir que todos aqui vão poder voltar a dormir tranqüilos. Não é isso que todos querem?
Sim, tudo que Stiles queria era ter certeza que todos voltariam a dormir tranquilos em Beacons Hills. Ele, Stiles, não dormia tranquilo desde que Peter Hale transformara Scott em um lobisomem. Numa visão simplista, a solução definitiva era exterminar de vez com todos os lobisomens.
Tinha que haver outra solução.
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LOCAL : NÃO IDENTIFICADO
- Já apresentei meus argumentos e o porquê de estar disposto a fazê-lo. Vai me ajudar ou não?
- Não pode me culpar por desconfiar de suas boas intenções. Tudo que você faz tem segundas e até terceiras intenções. Geralmente, egoístas.
- Sabe que não estou exagerando. Sabe que o perigo é real. Ou acha que eles têm alguma chance? Eu só não sei se o caminho mais rápido para o túmulo é fugindo ou lutando.
- VOCÊ será o maior beneficiário da morte de Derek. Derek morto e você volta a ser o alfa. E, o que é melhor, sem sujar as mãos.
- As pessoas sempre esperam o pior de mim. Derek é meu sobrinho. Meu único parente vivo. Não quero me tornar o alfa a esse preço.
- Qual seria o problema? Laura era sua sobrinha. Você tinha DOIS parentes vivos. E matou a Laura para voltar a ser o alfa. Qual a diferença agora? Porque com o Derek seria diferente? O que mudou, Peter?
- Eu fiquei quase um ano em coma. Depois, anos em estado vegetativo. Minha mente foi seriamente danificada. Quando ataquei Laura, eu ainda não estava mentalmente recuperado. Eu jamais mataria Laura em meu juízo perfeito.
- Peter, eu não sou tão ingênuo quanto o seu sobrinho. Laura foi atraída a Beacon Hills e emboscada. Você armou um plano sofisticado e o executou de forma cruel. Não é a forma como alguém com a mente danificada costuma agir.
- O passado não pode ser mudado. O futuro, sim. Tudo o que eu quero agora é evitar um futuro em que meu sobrinho Derek e toda a sua patética alcateia de adolescentes desajustados acabe morta pelos caçadores. E é exatamente isso o que vai acontecer se você não me ajudar a salvá-los.
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LOCAL : RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA STILINSKI, QUARTO DE STILES
Jake e Clay não eram agentes do FBI. Não seguiam regras. Sabiam improvisar e aproveitar as oportunidades no momento em que elas se apresentavam. Depois de tantos anos juntos, nem mesmo precisavam discutir um plano de ação. Uma troca de olhares e um já sabia o que o outro pretendia fazer.
Jake aproveitou que Clay estava distraindo o filho do xerife e entrou na casa pela porta dos fundos. Se já desconfiavam que o xerife sabia mais do que dizia, em relação ao filho isso agora era uma certeza. O lobisomem não agira como um valentão de colégio à toa. Havia algo que o garoto sabia e o lobisomem não queria que fosse revelado. Pela própria segurança do garoto, eles precisavam saber o que era.
O xerife não tinha cara de quem usava computador em casa. Já o filho era de uma geração que nascera conectada. E isso era muito conveniente para quem precisava levantar informações pessoais. Se Stiles sabia ou desconfiava da existência de lobisomens na cidade, devia ter feito pesquisas. Com sorte, essas pesquisas estavam salvas no computador. Junto a muita pornografia, com toda certeza. Só esperava que o garoto não fosse mais um cliente potencial da Jungle. Muitas cidades grandes não tinham boates gays tão bem montadas. Mas, estavam na California.
Ficara um ano isolado de qualquer espécie de tecnologia e nunca fora o expert em informática da dupla, mas sabia ligar um computador, plugar um pen drive e instalar um programa espião. O programa permitiria que Clay assumisse o controle remoto da máquina e tivesse acesso ao conteúdo da memória. Era por essas e por outras que ele não tinha nem queria ter um computador.
A minicam do computador não dava uma visão ampla do quarto. Jake instala uma segunda minicam wireless com lentes infravermelhas. Só esperava não ser obrigado a ver cenas constrangedoras de masturbação e de nudez masculina. Se ao menos o xerife tivesse uma filha .. Bem, se tivesse uma filha, ele não instalaria a câmera. Afinal, ainda conservava alguns escrúpulos.
Ele e Clay tinham ficado com tudo o que restara intacto das tralhas eletrônicas de Frank. O sonho de qualquer hacker. Como Frank era paranóico a um nível quase patológico, o que ele mais tinha eram dispositivos de escuta e rastreamento.
'Pobre Frank. Nem toda a sua 'saudável' paranoia foi suficiente para salvá-lo. Descanse em paz, amigo. O mundo deve muito a você. Resta o consolo de que os malditos que te mataram foram varridos para sempre da face da Terra.'
'E, com a ajuda de suas tralhas, Frank, breve será a vez dos lobisomens. A próxima providência será instalarmos um rastreador no Camaro do monstro. Um rastreador GPS e talvez uma bomba incendiária de ignição remota. E outras na Mansão Hale. Para o caso das balas de prata não serem em número suficiente. Não vamos parar antes de acabarmos com o último maldito lobisomem desta cidade.'
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Jake e Clay não tinham um código. Não seguiam regras. E não costumavam ser condescendentes com monstros. Quando um fraquejava, o outro completava o serviço. Era uma questão de honra. Afinal, para eles, aquele era o negócio da família.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: Allison oferece ajuda a Irina para conquistar Stiles
19.05.2013
