CAPÍTULO #15

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LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON, BEACON HILLS

INÍCIO DA TARDE DAQUELE DIA


- Jake, aonde você se meteu, cara?

Clay olha desanimado para o celular em suas mãos. Estava em dúvida sobre os próximos passos da investigação. Ainda não absorvera completamente as últimas descobertas que fizera.

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Passara o dia enfurnado na sala de interrogatórios da delegacia estudando os arquivos da polícia. Isolado do mundo. O xerife e os policiais pareciam ter esquecido que ele estava lá. Ninguém apareceu nem para oferecer um café. Ele bem que gostaria de tomar um café.

A última notícia que tivera de Jake fora através do xerife quando este voltara da investigação na região do rio. Jake teria ido ao high school investigar a morte do vigia. Porque dele manter o celular desligado? Sabia que o irm .. o parceiro sabia se cuidar, mas mesmo assim ficava preocupado.

O isolamento acústico da sala parecia perfeito. Ele não escutara um som sequer vindo de fora. Quando sentiu fome, já bem depois do meio-dia, saiu e foi até a sala do xerife, mas, desta vez, encontrou-a vazia. Também não avistou o policial Chad. Tinha uns pontos do inquérito policial que queria esclarecer, mas isso podia esperar. Lembrava-se de uma lanchonete a duas quadras da delegacia. Pegou o laptop e seguiu para lá. Revisaria as anotações enquanto almoçava.

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Tinha focado a investigação nas mortes do ano anterior. As mortes estavam interligadas, mas o maior número de registros e depoimentos estava relacionado às mortes da garota grávida e da hostess da Jungle Dance Club.

Sua ida à boate na véspera aguçara sua curiosidade sobre as circunstâncias da morte da antiga hostess da Jungle. A garota tivera a garganta cortada. Garras, mas num padrão de corte muito diferente do de lobos ou lobisomens. É o que estava no inquérito e era o que sua experiência confirmava.

Descobrira também que o Danny amigo de Jackson Whittemore era Daniel Mahealani, uma das vítimas da toxina. Sorriu, satisfeito. Tinha agora um bom motivo para interrogar o rapaz. Sabia que seu interesse não estava relacionado com o esclarecimento da morte da hostess. Era algo mais pessoal. Queria entender o que levara Jake a dar tanta atenção a um adolescente gay.

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Muitos fatos importantes não tinham ganhado destaque na cobertura jornalística do caso, o que por si só era estranho. Principalmente a participação do estudante Matthew Daehler como mentor da série de crimes. Só agora, lendo o inquérito, descobrira que todas as vítimas eram membros de uma mesma equipe de natação do high school local. Havia provas consistentes que Matthew Daehler era o assassino da garota grávida. O motivo era vingança e o principal alvo era o treinador da equipe, Daniel Lahey. Lahey. Escutara recentemente esse nome.

Na gravação feita pela câmera de segurança do hospital, o assassino olhava de relance para a câmera. A imagem não mostrava claramente o rosto, mas os olhos estavam visíveis. A real importância daquela imagem, no entanto, não era o que ela mostrava e sim o que ela não mostrava. A imagem não mostrava os olhos do rapaz iluminados. Matthew Daehler não era um lobisomem.

Também não saíra na imprensa que Matthew Daehler invadira armado a delegacia e ameaçara as vidas do xerife e do filho. Uma policial fora morta com o abdômen rasgado. As mesmas marcas de garras do ataque à hostess.

Existia um monstro assassino e tudo indicava que era o corpo do monstro que segregava a tal toxina paralisante. A análise química atestara que a toxina não era um produto sintetizado em laboratório. Tinha origem biológica e similaridade química com a peçonha de uma classe de lagartos do deserto australiano. Aquela substância nunca tinha sido identificada antes em solo americano. Reforçava uma série de indícios que a criatura responsável pelas mortes tinha aparência réptil.

Matthew Daehler, de alguma forma, controlara a criatura e a usara em sua vingança. Isso parecia bem fundamentado no inquérito, mesmo que o inquérito não fizesse em nenhum momento menção a uma criatura sobrenatural. Novamente, o que chamava atenção não era que o que era dito, mas como era dito e, principalmente, o que era omitido. Clay estava admirado com a habilidade do xerife de usar os fatos para esconder a verdade. O inquérito permitia leituras muito diferentes para quem era e quem não era iniciado no sobrenatural.

Que tipo de criatura seria aquela? Nenhuma que já tivesse lidado no passado. Que falta fazia ter alguém para pesquisar literatura especializada no sobrenatural. Isso lembrava que tinham que voltar a Dakota do Norte. A questão era onde guardariam tantos livros. O porta-malas do carro não era lugar para um material tão valioso.

Existiam lobisomens na cidade, mas não foram eles os responsáveis pela série de mortes do ano anterior. Isso explicava em parte a aparente passividade dos Argent. Os Argent seguiam um código de conduta. Bem, pelo menos a família tinha um código de conduta. Quanto a segui-lo .. Se conhecia bem as pessoas, Gerard Argent jamais se frearia por palavras escritas por um antepassado longínquo.

Matthew Daehler morrera afogado em circunstâncias não esclarecidas. Claramente fora assassinado. Após a morte de Daehler, o monstro desaparecera. Nenhuma nova vítima, o que podia indicar que a criatura também fora morta. A questão era: por quem? Pelos Argent ou pelos lobisomens?

Precisava repassar o que descobrira para Jake antes que ele saísse por aí matando os lobisomens. Jake estava determinado a vingar a morte da garota grávida e voltara suas suspeitas para Scott McCall quando descobrira que o garoto era um lobisomem. E parecia que o garoto era inocente pelo menos desta morte.

O mundo não era tão preto e branco quanto parecia quando iniciaram sua cruzada. Havia toda uma maldita zona de cinza. Quem era de fato homem e quem era verdadeiramente monstro? Era uma questão cada vez mais difícil de responder.

Droga! Ter uma consciência só tornava tudo mais complicado. Era tudo tão mais fácil quando ele não tinha uma alma para atrapalhar.

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA MARTIN

FINAL DA TARDE DAQUELE DIA


- Danny, aonde você se meteu, cara?

Jackson olha desanimado para o celular em suas mãos. Não sabia o que fazer ou o que pensar. Naquele momento, o que mais precisava era escutar uma palavra amiga. Ainda não absorvera completamente os últimos acontecimentos.

Primeiro, recebera uma ligação de Lydia pedindo que ele fosse buscá-la no shopping. Estranhara o tom da voz dela ao telefone e dela ter desligado logo após ter feito o pedido, não dando tempo para que ele respondesse.

Tivera a impressão que ela estava assustada, mas a ligação o deixara mais irritado do que realmente preocupado. Os pedidos de Lydia sempre soavam como ordens. Era irritante essa mania que ela tinha de achar que ele tinha que parar o que quer que estivesse fazendo para atender a todo e qualquer pedido dela. Era nestes momentos que invejava Danny. Mulheres.

Ao aproximar-se da entrada do estacionamento do shopping, estranhou o comportamento dos motoristas. Parecia um estouro da boiada. Todo mundo parecia estar com os nervos à flor da pele. Todos com pressa de sair do estacionamento. Buzinas. Freadas bruscas. Ninguém querendo dar passagem. Isso o irritou mais ainda. O que estava acontecendo afinal?

Foi desarmado pela visão de Lydia sentada na escada da entrada principal do shopping. Nunca a vira naquele estado antes. Nervosa, ar desamparado, olhando para os lados como que procurando alguém. A maquiagem borrada e os olhos vermelhos denunciavam que ela havia chorado.

Chorado? Lydia Martin chorando em público? Lydia deixando-se ver de maquiagem borrada? Lydia sem uma montanha de pacotes de compras? Definitivamente, havia algo de muito errado acontecendo.

Ao vê-lo chegando, ela correu até ele e o abraçou. Na verdade, ela agarrou-se a ele como um náufrago se agarra a uma bóia. Sentia as unhas dela cravadas em suas costas, mesmo estando de jaqueta.

Ficaram ali, abraçados, sem trocarem nenhuma palavra, por muitos minutos. Até que Jackson sentiu que Lydia finalmente afrouxava a pressão e ganhava a distância que permitia olhá-lo nos olhos. Pode constatar então o quanto ela estava devastada.

- Mataram o Scott, Jackson. O pai da Allison matou o Scott.

- O quê?

- Mataram o Scott. Foi horrível. Por favor, me leva para casa. Me tira daqui. Por favor.

Jackson ainda tentou arrancar algum detalhe, mas Lydia começou a chorar e ele achou melhor não insistir. Mas, ele próprio precisava de um tempo para digerir o que escutara. Saber que Scott estava morto causara em Jackson uma espécie de atordoamento.

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Ao chegarem à residência dos Martin, Jackson teve que se desdobrar para acalmar a mãe de Lydia. A mulher ficara histérica ao ver o estado da filha e cobrava explicitações de Jackson, como se tivesse sido ele o responsável pelo estado dela.

E Lydia nem mesmo para esclarecer que ele, Jackson, não tinha culpa de nada.

Lydia só abriu a boca para pedir à mãe que lhe trouxesse um calmante e a Jackson para que não fizesse mais nenhuma pergunta e ficasse com ela até que ela dormisse.

Sem alternativas, ele fez o que ela pediu. Lydia parecia tão fragilizada que quebraria se ouvisse um não.

Eles se deitaram e ele a envolveu em seus braços. Ela se aconchegou junto ao corpo dele e cinco minutos depois já tinha caído em um sono profundo. É fato que ela havia tomado quatro comprimidos para dormir. Mas, não fora só por conta disso. A experiência que vivera a esgotara física e mentalmente. Ela dormiria mesmo sem os comprimidos.

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Abraçado à Lydia, Jackson se esforçava para por as próprias idéias no lugar. Sua mente parecia dar voltas sem chegar a lugar nenhum. Scott morto? Há poucos meses, ficaria imensamente feliz com a notícia. Ou talvez não. Podia se fazer de indiferente e superior, mas isso era apenas parte da sua armadura. No fundo, não era o tipo de pessoa que se alegrava com a desgraça alheia.

Por muito tempo, simplesmente ignorara a existência de Scott McCall. Ele não era ninguém. Sua família não tinha dinheiro nem status social. Ele não se destacava nos estudos nem nos esportes. Era asmático e não tinha fôlego para encarar toda uma partida de lacrosse.

Então, tudo mudara. Scott mudara. Tornara-se um super-jogador. E existia uma razão sobrenatural para aquela mudança. Scott tornara-se um lobisomem. Ser um lobisomem era como ser um super-homem. Invencível. Imortal. Passou a querer aquilo para si mais do que tudo. Chegara a ficar obcecado.

Soubera dos Argent quase ao mesmo tempo em que soubera dos lobisomens. Mas, contra todas as evidências, recusava-se a acreditar que a ameaça que os Argent representavam era real. Mesmo depois de ter sido usado por Matt Daehler e de conhecer Gerard Argent continuara a ver apenas as vantagens de se tornar um lobisomem.

Era como se somente agora, ao escutar Lydia falando que Scott morrera, que a ficha tivesse realmente caído. A realidade, como um trem desgovernado, atingira-o com toda a sua crueza. Scott fora morto por ter se tornado um lobisomem. Esse podia ter sido também o seu destino. Talvez viesse a ser.

Não. Scott morrera porque era burro. Burro como uma porta. Um babaca idiota metido a herói. Bem feito para ele.

Uma lembrança inconveniente rompeu naquele momento a barreira mental que Jackson se esforçava para erguer como forma de se proteger do medo que ameaçava sufocá-lo. Uma lembrança da época em que era o kamina. Tornara-se uma ameaça. Um assassino. Todos achavam que a única solução era matá-lo. Se não a única, a mais fácil. A definitiva. Apenas Scott ainda o via como uma pessoa e insistia que deviam fazer de tudo para salvá-lo. Scott era mesmo um completo idiota. E agora estava morto.

Jackson não percebeu quando uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

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LOCAL: RESIDÊNCIA DA FAMÍLIA REYES

FINAL DA TARDE DAQUELE DIA


- Filha, me conta o que está acontecendo. Porque você está fazendo essa mala?

- Mãe, eu preciso ficar fora uns tempos. Mas, não se preocupe. Quando eu estiver a salvo, eu dou notícias.

- Quando estiver A SALVO? Pelo amor de Deus, Erica, no que foi que você se meteu?

- Mãe, eu juro que eu não fiz nada de errado. Mas, eu preciso desaparecer por uns tempos.

- É aquele NEGRO, não é? Eu avisei você tantas vezes, filha, que ele não prestava.

- Não é nada disso, mãe. O Boyd não tem culpa de nada.

- É por causa do que houve no shopping? Eles interromperam a programação para noticiar um tumulto em que um rapaz acabou morrendo. É isso, filha? Me diz - pelo amor de Deus - que você não está envolvida na morte deste rapaz.

- Claro que não, mãe. Imagina.

- Então, porque você está fugindo?

- Se eu ficar, ELES vão me matar. Vão me matar como mataram o Scott.

- Filha, não vá embora! A gente vai à polícia, você conta que está sendo ameaçada e pede proteção.

- Mãe, a senhora não entende.

- Então, me explica. Me explica para que eu possa entender. Só assim eu vou poder proteger você.

Erica abraça a mãe com desespero. Estava com medo. Medo de ser morta. Medo que ser novamente presa e torturada. Boyd estava certo sobre os Argent. Eles não precisavam de motivos. Eram todos assassinos. Allison traíra Scott. Vaca traiçoeira. Scott tinha que ser muito burro para achar que algo bom podia vir daquela família.

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Desde que se transformara em loba e deixara aflorar seu lado sensual, ia com freqüência ao shopping. Só ia menos que Lydia Martin, pois essa era imbatível. Sempre comprava uma coisinha ou outra, geralmente pequenos acessórios. Sua família não era rica. Ela tinha que fazer render o pouco dinheiro que recebia dos pais. Via as vitrines, via as pessoas, se fazia ver pelas pessoas.

Estranhou ao ver Allison e Lydia com Irina. Nenhuma das duas era amiga de Irina. Até onde sabia, Irina não tinha amigas mulheres. Vagabunda com cara de santa. Foi a curiosidade quanto à presença de Irina que fez que Erica seguisse o trio à distância. Aí, apareceu o Scott. Ele, aparentemente, estava procurando Allison.

Viu quando Allison se afastou de Scott e fez uma chamada pelo celular. E viu-a voltando para perto dele e ele a puxando para um beijo. Eles dando um beijo demorado, meloso. A cara de bobo alegre que ele fez depois. A cena lhe embrulhou o estômago. Scott era mesmo muito bobo. Sentiu uma pontinha de inveja. Scott era um homem como poucos. Allison não merecia ter Scott aos seus pés.

Voltou a olhar as vitrines, entrou numa loja e experimentou um cinto. Ao sair da loja, viu algo que a surpreendeu. Não teria visto se não fosse sua visão ampliada de lobiswoman. Com a mão livre, Allison tirara disfarçadamente uma seringa da bolsa. Seu outro braço envolvia o pescoço de Scott, que sorria.

Então, Allison injeta com a seringa um produto no pescoço de Scott. Logo em seguida, Scott se descontrola e começa a quebrar coisas. Quase ao mesmo tempo, Chris Argent surge e Allison corre na direção dele. Ele não viera sozinho. Erica reconhece pelo menos quatro homens que participaram de sua sessão de tortura.

Erica não precisava que lhe dissessem mais nada. Se queria viver tinha que fugir. Imediatamente. Depois, daria um jeito de avisar Boyd e pedir que fosse ao seu encontro.

Boyd estava certo. No fundo, a culpa de tudo aquilo era de Derek Hale.

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Erica não chegou à rodoviária como planejava.

Num trecho deserto, a duas quadras da casa da família que estava abandonando, um tiro certeiro na nuca a derrubou.

Ninguém viu quando ela caiu.

Ninguém escutou o tiro.

O carro afastou-se sem chamar a atenção.

Ninguém saberia nos próximos dias o destino de Erica Reyes.


Não foi apresentado no seriado o primeiro nome do pai do Isaac. Ficou sendo apenas Mr. Lahey. Segui então a sugestão de Brightest Moonlight na fic 'it should tear a kid apart (it does)' e ficou Daniel. Falta escolher um nome para o xerife Stilinski e o próprio Stiles. Não sei se lembram, mas, nesta fic, o nome de batismo de Stiles é o mesmo do parceiro policial do pai xerife.


NO PRÓXIMO CAPÍTULO: FALANDO DE MORTE NO CEMITÉRIO


20.07.2013