CAPÍTULO #16
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LOCAL: CEMITÉRIO DE BEACON HILLS
INÍCIO DA TARDE DAQUELE DIA
Isaac estava voltando para casa quando viu o Camaro preto próximo à entrada do cemitério. Nem precisaria ter usado o olfato para localizar o alfa. Como intuíra, Derek estava em frente à lápide do túmulo da irmã. Laura não fora enterrada no mausoléu da família, a pedido de Derek. Havia, no entanto, instruções para que ela fosse transferida para lá após a morte do próprio Derek.
Derek também deixara na administração do cemitério um envelope fechado com as instruções para seu próprio funeral. Isaac, quando soube disso pelo pai, achou aquilo mórbido e incompreensível. Derek era apenas poucos anos mais velho que ele próprio e Isaac ainda pensava em si mesmo como um garoto. Não conseguia entender alguém tão jovem já preocupado com a própria morte.
Naquela época, Isaac não sabia que Derek era um lobisomem. Não sabia que lobisomens existiam de verdade. Não podia saber que tantos acreditassem que ele e seres como ele não deveriam ter sequer o direito de existir. E que agissem para tornar isso realidade. Mas, isso não deveria ser motivo de espanto. Num passado não muito distante muitos defenderam o extermínio completo dos lobos. Como se a potencial ameaça que representavam para as ovelhas justificasse a extinção da espécie.
Agora ele próprio era um lobisomem. Derek o transformara. Se soubesse na ocasião o que sabia hoje talvez tivesse recusado a oferta. Talvez. Gostava do que se tornara. Ser um lobisomem tinha seus inconvenientes, mas não era de todo ruim. Ter os sentidos ampliados era maravilhoso. O fator de cura era um milagre. O dom de remover as dores de outros o fazia sentir-se abençoado. O que a maioria via como uma maldição, ele via como um presente.
Ele era agradecido a Derek pelo presente que recebera.
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Era até estranho saber que a maioria dos transformados não conseguia controlar a fera interior que a Lua Cheia trazia para a superfície da mente. Manter o controle, mesmo banhado pela luz intensa da lua cheia, não era assim tão difícil para Isaac. Talvez porque antes mesmo da transformação ele já lutasse contra o monstro assassino que sabia existir dentro dele. Um monstro que arranhava as paredes de sua alma clamando por sangue.
Pensara um milhão de vezes em um milhão de formas de matar o pai e fazer desaparecer o corpo. Às vezes, se imaginava matando-o de forma dolorosa e cruel; outras, de forma rápida e indolor. Imaginava também as coisas que diria ao pai enquanto este agonizava. Despejaria sobre ele tudo que estava preso na sua garganta, impedindo-o de respirar. Exporia suas dores, choraria suas mágoas, gritaria sua incompreensão pelo desprezo que recebia, declararia seu amor traído pelo pai de suas lembranças de infância e até imploraria seu perdão por não ser o filho de quem ele se orgulharia.
Um milhão de vezes pensara em matar o pai e um milhão de vezes conseguira se controlar e escutar calado os impropérios gritados por ele. Afinal, ele era seu pai e aprendera que devia a ele respeito e obediência. Um milhão de vezes pensara em se rebelar contra as injustiças de que era vítima e um milhão de vezes forçou-se a pensar que também o pai sofria e se sentia injustiçado pelo que a vida lhe tirara. Um milhão de vezes quis devolver a violência que lhe era infringida e um milhão de vezes se forçara a lembrar que causar dor aos outros não diminui a nossa própria dor.
Mas, a cada batalha, a fúria da fera crescia e ele sabia que era uma questão de tempo para a fera sair vitoriosa.
Ao ver o pai morto, seu corpo destroçado, culpou-se por ter desejado sua morte e culpou-se mais ainda por sentir-se aliviado por ele finalmente ter saído de sua vida para sempre. Sentiu-se um monstro ao constatar que seu pai estava morto e que isso o fazia feliz. Muito feliz. Mesmo que todos ainda o vissem como um pobre menino que sofrera abuso, ele sabia que não era mais uma vítima indefesa. Sabia que a fera que mantivera presa por tantos anos finalmente se libertara.
Quanto Derek propôs transformá-lo em monstro viu a chance de tornar-se por fora o que já era por dentro. Finalmente seria forte o suficiente para devolver ao mundo todo o mal que o mundo lhe ofertara.
Isaac até tentou. Mas, aquele vândalo insensível e inconsequente não era o seu verdadeiro eu.
Enquanto foi um homem via a si próprio como um monstro. Somente depois de transformado em monstro, pode enxergar que era, que fora e que nunca deixaria de ser um homem. E, agora que sabia, não deixaria que ninguém arrancasse sua humanidade tão duramente reconquistada. Não deixaria o mundo transformá-lo no que ele não era. Ele não era como o pai. Não deixaria que seu pai, depois de morto, fosse o grande vencedor.
O homem e a fera estavam reconciliados e, finalmente, estavam em paz.
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O cemitério era o negócio de família da família Lahey. Era de seu pai, Daniel, que, enquanto vivo, o gerenciara, e, agora, com a morte deste, era dele e de seu irmão. Não sabia se Camden voltaria um dia para reclamar sua parte da herança. Achava que não. Camden nunca se identificara com aquele lugar. Camden só voltaria a entrar num cemitério o dia que não tivesse a escolha de sair.
Isaac não. Sentia-se bem quando estava ali. Gostava da paz que aquele lugar transmitia. Toda aquela amplidão, aquele verde e aquele silêncio. Aquele lugar o acalmava. Era lá que se refugiava das explosões de fúria do pai. Era lá que exorcizava a sensação claustrofóbica que persistia depois que era libertado do velho freezer horizontal. Sabia que os mortos não podiam machucá-lo. Os vivos, sim.
Um cemitério é um lugar de reflexão. Lá as pessoas buscam respostas para perguntas que transcendem as pequenas questões do dia a dia. As pessoas que temem as respostas às grandes perguntas não costumam gostar de cemitérios. O cemitério nos lembra que não temos controle total de nossas vidas, que o final será sempre solitário e que um dia ninguém mais lembrará quem fomos.
Um cemitério é também um lugar de encontros. De encontro com o passado. De encontro com quem faz falta no nosso presente. Um encontro em que um fala e o outro não responde. Mas, talvez escute. Talvez entenda. Talvez perdoe. Quem pode saber? A única certeza é a de falar e não ser interrompido, criticado ou ignorado.
Isaac agora entende os motivos de Derek para pedir uma sepultura separada para a irmã. Ele queria poder ficar sozinho com ela, longe dos demais parentes. Queria poder conversar com a irmã sem que eles escutassem. Embora ele amasse seus outros parentes mortos não tinha com eles o mesmo grau de intimidade. Tinha coisas que ele somente podia compartilhar com Laura.
Entendia também o motivo para Derek estar ali naquele momento. Estavam novamente ameaçados. Novos caçadores chegaram à cidade. Scott o havia prevenido sobre eles. Os caçadores sabiam de Derek e de Scott, mas ainda não sabiam sobre ele. Se fugisse naquele momento era quase certo que escapasse. Mas, o que seria de Derek? E de Scott? Sentia-se muito mais ligado a eles do que um dia fora ligado a Camden. Já perdera uma família. Quantas mais suportaria perder?
A idéia de fugir não o agradava. Não era um rato para fugir do navio ao ouvir o primeiro trovão da tempestade.
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Era difícil estar num cemitério e não pensar em morte. Mas, o medo da morte não pode guiar nossas vidas. Ninguém sabe o dia da própria morte. É perda de tempo ficar especulando a respeito. Mesmo que acabasse morto, não culparia Derek. Derek o tirara do fundo de uma sepultura e lhe dera esperança. Queria devolver a ele um pouco desta esperança.
Parou ao lado de Derek e ficou ali esperando que o outro terminasse suas preces ou o que quer que tivesse vindo fazer ali. Seus olhos se fixaram na lápide do túmulo de Laura. Era uma lápide simples. Apenas o nome e as datas de nascimento e morte. Derek sempre fora econômico nas demonstrações de afeto.
Depois de alguns minutos, Derek se voltou para Isaac sem encará-lo. Apenas pousou a mão em seu ombro.
- Desculpe por tudo. Não era para ser assim.
- Não há nada a ser desculpado. Você pode contar comigo.
Derek olhou Isaac nos olhos, sorriu agradecido, e se afastou sem pressa. Era, no entanto, um sorriso triste.
Isaac ficou ali por mais um tempo, pensativo. Como era possível que alguém pudesse conhecer Derek Hale e continuar pensando nele como um monstro? Derek cometera muitos erros. Muitos. Mas, isso não o tornava um monstro. Isso fazia dele .. humano.
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Isaac conhecia a localização de cada túmulo aberto naquele cemitério nos últimos três anos. Essa tarefa era sua desde que completara 16 anos. Lembrava perfeitamente da noite que escavou o túmulo de Laura Hale. Tinha combinado ir ao cinema com uma colega de turma e teve que desmarcar no último momento, com o pai berrando em seu ouvido o quanto ele era inútil e imprestável. Escavara a sepultura com má vontade. Xingara a garota, como se ela tivesse morrido somente para estragar seu programa. Não tinha como saber que aquela morte mudaria completamente o rumo da sua vida.
- Desculpe, Laura. Você merecia que eu tivesse me esforçado mais. Me perdoe.
Nesse momento, o vento muda de direção e uma rajada súbita sacode os ramos das árvores sobre a sua cabeça.
- Esse cheiro ..
Isaac tinha o faro muito desenvolvido. Percebia cheiros muito melhor que Scott, Erica ou Boyd. Não estava sozinho ali. Isaac sabia quem era o intruso. O cheiro o denunciara. Só não entendia o que ele pretendia vindo ali. O porquê dele estar se escondendo. Sim, porque percebia que a fonte do cheiro estava em movimento, buscando fugir da direção que o vento levaria seu cheiro até ele. Aquilo não podia ser algo bom.
As feições de Isaac mudam. Seus sentidos eram mais aguçados quando estava transformado. O intruso estava na seção judaica do cemitério. Evitava aquele setor desde que seu pai fora enterrado ali. Se dependesse de Isaac, o capim cresceria e o túmulo do pai ficaria esquecido até que se desfizesse sob a ação implacável do tempo.
O melhor era descobrir logo o que o outro pretendia. Isaac se aproxima cauteloso, mas sem se intimidar. Mais e mais próximo. Então, o intruso se revela com um sorriso no rosto e um rifle nas mãos. A surpresa paralisa Isaac por um segundo. Um segundo que faz toda a diferença.
- Porque .. ?
O tiro certeiro atingiu Isaac no peito. Ele sentiu o impacto, mas não chegou a sentir dor. Ainda deu alguns passos para trás antes de cair de joelhos. A sensação era estranha. Sua visão perdia o foco e os sons chegavam a seus ouvidos distorcidos.
Não! Não ali. Não era justo que seu pai testemunhasse seu derradeiro fracasso. O barulho do vento nos galhos das árvores chegava aos seus ouvidos como o riso debochado de seu pai. O riso que costumava acompanhar sua frase favorita: 'O que eu fiz para merecer um filho tão incompetente.'
O último pensamento coerente de Isaac foi que talvez seu pai sempre tivesse estado certo a seu respeito. Como pudera deixar-se abater tão facilmente? Só mesmo sendo muito incompetente.
No instante seguinte, Isaac sentiu-se sendo envolvido pela escuridão. E depois, nada.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: O QUE O XERIFE SABE ?
26.07.2013
