CAPÍTULO #17
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LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON, BEACON HILLS
FINAL DA TARDE DAQUELE DIA
- Acalme-se, Sra. Reyes. Tem certeza que foram essas as palavras da sua filha. Ela disse 'Se eu ficar, ELES vão me matar. Vão me matar como mataram .. o SCOTT?'?.
-Tenho, xerife. Essas palavras ficaram martelando na minha cabeça. Quando ela saiu de casa levando uma mala pequena, eu me vesti rápido e fui atrás dela. Fui até a rodoviária, mas ninguém a viu por lá. Ela estava com pouco dinheiro. O que ela tinha não dava para ir muito longe.
- A senhora conhecia esse Scott? Seria algum namorado dela?
- Não. Ela nunca tinha falado antes de nenhum Scott. Ela estava namorando um negro. Contra a minha vontade, fique isso claro. O sobrenome dele é Boyd. Ou o apelido, sei lá. Não sei o nome completo, mas não acho que seja Scott.
- Eu faço uma idéia de quem seja esse Boyd. Um rapaz que completou a última série do Beacon Hills High School semestre passado. A senhora disse que ela tinha saído mais cedo dizendo que ia ao shopping e que voltara abalada?
- É por isso que acho que esse Scott pode ser o rapaz que foi morto no shopping. O senhor acha isso possível, xerife?
O xerife sentiu um nó se formando na sua garganta. Sentiu os olhos arderem. Olhou de esgueira para a mochila que recolhera no shopping e que disseram ser do garoto lobisomem que fora morto. Estava cansado de saber a quem pertencia. Conhecia bem demais o chaveirinho com o escudo do Cyclones, o time de lacrosse do Beacon Hills High School, que pendia do feixo éclair da mochila.
Aquele dia estava parecendo um pesadelo que não tinha fim. O morto, os desaparecidos, os federais que talvez não fossem federais, Peter Hale, Gen e, agora, Scott. Sentia-se sem forças. Estava no seu limite. Mas, sabia que a pior parte viria mais tarde. Quando tivesse que encarar Stiles e confirmar que Scott podia estar morto. Quando tivesse que confortar Melissa.
- O senhor está bem, xerife?
'Não, minha senhora. Eu não estou bem. Como eu poderia? Pelo amor de Deus, eu preciso ficar só. Eu preciso ficar só para pôr para fora essa dor que está me rasgando por dentro.'
- Guarda! Guarda! O xerife está passando mal.
O xerife Stilinski senta em sua cadeira e joga a cabeça para trás. Esforça-se para controlar a respiração. Queria poder relaxar, mas sabia que as lembranças das últimas horas não lhe dariam trégua. Queria ir para casa e se jogar na cama, mas não podia. Era o xerife e havia ainda muita coisa a ser feita.
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Estava chegando à delegacia, ainda nem terminara de estacionar o carro, quando fora abordado pela Sra. Reyes. A mulher estava transtornada. Sugeriu que falasse com a policial de plantão, mas a mulher insistia que queria falar com o xerife e ninguém mais que o xerife. Na hora, encarou aquilo com uma das chatices inerentes ao cargo. Mães desesperadas que, no final, descobrem que a filha dormira na casa do namorado. Depois de escutá-la, via que tinha mesmo algo preocupante por trás daquilo tudo.
As garotas envolvidas na confusão do shopping eram Lydia Martin, Allison Argent e uma garota com um forte sotaque que as vendedoras que interrogara não identificaram com segurança. Falaram em sotaque alemão, polonês, russo e grego, mas claramente nenhuma falava com conhecimento de causa. Quanto a serem Lydia e Allison, não havia dúvidas. As vendedoras as citaram espontaneamente pelos nomes. Acrescentando o comentário de que eram clientes assíduas da loja.
Soubera que Scott fora transformado em lobisomem na noite em que Matt Daehler invadira a delegacia armado e atirara em Scott. Um tiro à queima-roupa e poucas horas depois não havia nem mesmo uma cicatriz? Sabia bem demais o que aquilo significava. Ficara também muito claro que Stiles sabia de tudo e que estava acobertando Scott.
Quem era ele para culpar o filho? Stiles fizera exatamente o mesmo que ele próprio fizera no passado. Era uma ironia que ele e o filho chorassem a morte de seus melhores amigos exatamente no mesmo dia.
O que teria causado o estranho comportamento de Scott? As pessoas no shopping descreveram o comportamento dele usando termos como 'drogado', 'alucinado', 'maluco', 'doidão', 'enlouquecido'. Disseram também que pouco antes ele estava 'normal', 'alegre', 'sorridente' e até que tinha beijado 'uma garota morena'. Allison, sem dúvida. Ela, com certeza, tinha algo a ver com aquilo tudo. Allison era uma Argent e daquela família era possível esperar qualquer coisa.
Não tinha como um romance entre Scott e uma Argent acabar bem. Sentia-se culpado por não ter chamado Scott para uma conversa franca. Contar a ele o quanto aquela gente era perigosa. Scott era um garoto ingênuo. Não tinha um pai que olhasse por ele. Beacon Hills tinha um lado escuro, habitado por monstros. Alguns destes monstros se consideravam homens. Não eram. Gerard Argent, que Deus queira que esteja queimando no Inferno, não conservava nenhum resquício de humanidade.
Ficara aliviado quando Stiles lhe contara que Scott e Allison tinham rompido o namoro, mas logo ficou claro que os dois continuavam a se encontrar às escondidas. Scott era muito transparente, não sabia mentir. Scott só passou a agir como se o rompimento fosse para valer depois da morte de Victoria Argent. E, isso, por si só, já dizia muita coisa para quem conhecia aquela família.
A morte de Victoria Argent estava muito mal contada. O promotor aceitara muito rápido a versão de 'suicídio em conseqüência de um quadro depressivo recorrente'. É assim que estava nos autos. O promotor não achou necessário convocar o médico que prescrevia a medicação que ela, como depressiva crônica, teria que tomar. Tinha certeza que esse promotor era mais um de uma longa lista de homens plantados por Gerard Argent em cargos chave do distrito.
O uso de um punhal até combinava com a personalidade de Victoria, mas não com a forma como uma mulher deprimida age. A forma como a lâmina transpassou seu coração. Mesmo que não tenha sido assassinato, uma coisa é certa. Ela não executou o ato sozinha.
Some-se a isso, a saída de cena de Gerard Argent um pouco depois. Nada tirava de sua cabeça que o espancamento de Stiles após o jogo de lacrosse não fosse coisa daquele velho dos Infernos. E o motivo só podia ser um: Scott, que agora era um lobisomem.
Talvez fosse a hora de pressionar Stiles para que ele conte tudo o que sabe sobre esse episódio. Se Stiles não quiser contar ao pai, terá que depor para o delegado. Seu instinto de policial lhe dizia que o rompimento do namoro de Scott e Allison estava relacionado à morte de Victoria Argent. E que isso estava, de alguma forma, ligado com os acontecimentos no shopping.
Ao que parecia, houve uma ação orquestrada no shopping. O atirador não estava sozinho. Havia outros. Muitos outros. Homens misteriosos que surgiram do nada e retiraram as pessoas de perto da zona de tumulto, em alguns casos com truculência. Ou que se punham na frente das pessoas bloqueando seu campo de visão e impedindo que fizessem vídeos. A sala de monitoração do shopping fora arrombada e os aparelhos com os registros das gravações das câmeras de segurança foram destruídos. Os discos rígidos foram roubados. Os tiros não foram uma resposta desesperada ao descontrole de Scott. Foi o resultado de um ataque planejado com muita antecedência.
Acreditou inicialmente que o misterioso atirador fosse o agente Jake. Mais ainda depois de saber que fora o agente Clay quem matara seu antigo parceiro Yevgenyi Wiśniewski. Ainda não sabia como reagiria quando voltasse a encontrar aqueles dois. Se o que Peter Hale dissera sobre os dois estarem se passando por federais fosse verdade, teria um enorme prazer em colocá-los atrás das grades. Mas, agora tinha certeza que o atirador misterioso fora Christian Argent.
A questão é: porque uma ação tão chamativa em um lugar público? Se a intenção fosse simplesmente matar Scott podiam tê-lo emboscado num lugar ermo. Se aquilo era um recado, a pergunta a ser feita era: 'Para quem?'
Tinha também a questão do sumiço do corpo. Se Scott estava morto, o que pretendiam fazer com o corpo? Se ainda estava vivo, era vital que fosse encontrado o quanto antes e levado a um hospital. Tinham o testemunho de um vendedor que afirmou ter visto o atirador carregando a vítima sobre o ombro direito, a cabeça e os braços pendentes.
Não podia ficar ali parado. Precisava de um mandato de busca e apreensão para vasculhar a casa dos Argent. Desta vez, eles tinham ido longe demais. O difícil era convencer o juiz a expedir o mandato.
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LOCAL: DELEGACIA DO CONDADO DE BEACON, BEACON HILLS
MEIO DA TARDE DAQUELE DIA
Difícil imaginar que um acontecimento como aquele não fosse rapidamente dominar as redes sociais de Beacon Hills, um lugar onde todo mundo conhece todo mundo.
Shoppings estão sempre cheios de adolescentes e adolescentes não saem de casa sem um smartphone ou um tablet. Estranho seria se fotos e vídeos das cenas de vandalismo, pânico e tiroteio no Beacon Hills Fashion Mall não estivessem na rede antes mesmo da chegada da polícia ao local.
Mas, estranhamente não estavam.
Existiam fotos, mas feitas a distância e que não revelavam muita coisa. A qualidade dos poucos vídeos era pior ainda. Comentários havia. Muitos. Indignados. Não só com a violência do episódio e com a possível morte de um adolescente. Inúmeros comentários falavam de pessoas empurradas, desconhecidos gritando para que as pessoas abandonassem o shopping, celulares arrancados das mãos de seus proprietários e arremessados longe ou mesmo pisoteados e de tablets roubados no shopping e fora dele.
Mais numerosos ainda eram comentários de quem jurava ter visto ou escutado de pessoas que viram o tumulto que o rapaz morto tinha feições animais, dentes proeminentes e garras afiadas. Logo surgiu o tag #TEENWOLF. Muitos juravam que o rapaz lobisomem era o estudante do 'BH High' Scott McCall. A discussão sobre McCall ser ou não o lobisomem logo se tornou o assunto dominante. Afinal, Beacon Hills era pequena o suficiente para todos saberem de quem se tratava.
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O laptop do agente Clay monitorava permanentemente qualquer menção na rede a assuntos relacionados ao sobrenatural. Outra inestimável contribuição de Frank.
Claro que com vampiros, lobisomens e zumbis em alta na cultura pop o número de postagens diárias com alguma referência a essas criaturas era astronômico. Mesmo considerando apenas o território continental americano.
Para funcionar, o programa de rastreamento precisava desconsiderar as menções aos monstros de ficção mais conhecidos e isso já reduzia o total em mais de 99%. O 1% restante passava por filtros mais sofisticados e eram classificados pela sua probabilidade de tratar-se de um relato real.
Uma das formas de saber se se trata ou não de um evento real é que um evento real tem uma origem bem definida. Um lugar específico, rastreável, de onde tudo aconteceu. O evento repercute primeiro próximo onde aconteceu e depois é difundido por quem é receptivo àquela informação. A partir daí, passa a haver uma replicação da informação que não mais se preocupa em fazer distinção entre realidade e ficção. Esse é o padrão. O que o programa faz é buscar o ponto zero para validar a informação. Para um caçador não basta saber que aconteceu. É preciso saber ONDE aconteceu.
Claro que o programa criado por Frank não é perfeito. Nenhum programa é. Se um vampiro real for identificado como Edward terá grandes chances de ser deixado em paz. Se for identificado como Cullen, é certo que terá passe livre para matar. O mesmo para um lobisomem Jacob.
Já um lobisomem Scott merecia atenção.
No caso, o programa localizou as palavras 'lobisomem' e 'Beacon Hills' associadas e um padrão de difusão que fez o programa considerar 73% de possibilidade de tratar-se de um evento real. Sabendo o que sabia de Beacon Hills, Clay não deixaria de investigar mesmo que o programa tivesse indicado 0,1% de probabilidade. Principalmente quando o programa acusou que o nome McCall aparecia em 13% do total de mensagens e que esse percentual só aumentava.
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Clay buscou pelo xerife e soube das chamadas para a delegacia sobre tumulto no shopping. O xerife seguira para o shopping com o policial Chad e esquecera-se dele. Maldição. Estava a pé. Tentou mais uma vez contatar Jake pelo celular e novamente nada. Onde diabos Jake se metera? Que hora para desaparecer! Bem no meio de uma investigação. O pior é que estava sem carro e Beacon Hills não tinha algo que pudesse ser classificado como serviço de transporte público.
Informou-se e soube que da delegacia até o shopping era uma caminhada de trinta minutos. Ou uma corrida de quinze. Nada mais ridículo que correr de terno e gravata carregando um laptop. Se ao menos, ..
- FBI. Perdoe o incômodo, senhorita, mas preciso MUITO de uma carona até o shopping.
- Entre. Até imagino do que se trata. Acabei de receber uma mensagem de texto sobre um tumulto com tiros no BH Fashion Mall. Vamos.
- Obrigado. Deixe que me apresente. Agente Clay Miller.
- Prazer. Eu sou a professora Marin Morrell.
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Ao chegarem, Clay volta a agradecer a Marin e sai do carro apressado, sem olhar para trás. A Srta. Morrell observa o agente se afastar e sorri. O agente Clay era um homem extremamente atraente. Isso tornava a missão dela muito mais .. prazeirosa.
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Clay seguia em direção à entrada principal do shopping quando vê o Camaro preto entrando no estacionamento numa velocidade maior que a recomendada e Derek Hale saindo apressado do carro mal estacionado e correndo em direção ao shopping. Ele recua para não ser visto e segue com os olhos o lobisomem até ele desaparecer no interior do prédio. Segue, então, com um sorriso confiante, até o Camaro e, tomando cuidado para não ser visto, instala sob a calota do pneu traseiro direito um dispositivo eletrônico de rastreamento.
- Agora, Sr. Hale, vamos ser capazes de acompanhar todos os seus passos. Muito em breve essa cidade vai poder dormir tranqüila, sem monstros como você a solta nas ruas. Seus dias estão contados, monstro.
ESCLARECIMENTO:
Acredito que todos saibam que Stiles não é o nome do personagem. É um apelido e significa um tipo de 'escada' para travessia de cercas (a step or set of steps for passing over a fence or wall).
Os nomes dos Stilinski, pai e filho, ainda não foram revelados no seriado (e espero que não sejam até eu ter terminado a fic). Num dos episódios, no entanto, o técnico Finstock questiona o xerife sobre o estranho nome de Stiles e fica visível que o nome termina em -ienim. Ninguém encontrou um nome real que encaixasse adequadamente essa informação. Portanto, fica Yevgenyi (forma russa de Eugênio). O xerife chamava o parceiro de 'Gen' ("O morto, os desaparecidos, os federais que talvez não fossem federais, Peter Hale, Gen e, agora, Scott")
Como foi dito no CAPÍTULO #1 desta fic, Stiles foi batizado com o nome do parceiro policial do hoje xerife. É assim neste universo alternativo.
Yevgenyi é um nome russo, mas Wiśniewski é polonês. Fica estabelecido que o lobisomem morto tinha pai polonês e mãe russa.
Gostaram de Yevgenyi / Eugênio? Ou acham que Stiles está mais que certo de esconder o nome?
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: DEREK x CLAY
04.08.2013
