CAPÍTULO #18
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LOCAL: BEACON HILLS FASHION MALL
FINAL DA TARDE DAQUELE DIA
Clay observava à distância a movimentação de Derek no shopping. O lobisomem havia parado em cada ponto onde se via destruição e feito perguntas, provavelmente investigando o que de fato acontecera. O mesmo que ele próprio estaria fazendo se o lobisomem não estivesse ali.
Clay apontara o tablet para Derek e confirmara pelo brilho dos olhos o que já sabia.
Havia poucos clientes e a maioria se concentrava em torno das lojas que tiveram as vitrines quebradas. Todos queriam ver de perto o ponto onde o rapaz tombara abatido por tiros. A área com marcas de sangue tinha sido demarcada por faixas de isolamento amarelas com os dizeres 'crime scene do not cross'. Muitos tiravam fotos. Alguém deixara uma flor com um laço branco amarrado. Muitas outras se juntariam a ela no dia seguinte.
Diversas lojas já tinham fechado as portas ou estavam se preparando para fechar. Aquele dia estava perdido para os lojistas. O tiroteio assustara as pessoas. O shopping se esvaziara e dificilmente atrairia mais algum cliente naquele dia. No máximo, curiosos.
Nas lojas com vitrines quebradas, o gerente e os vendedores improvisavam tapamentos e guardavam as mercadorias no depósito. Todos queriam apagar aquele dia cheio de sobressaltos da memória e voltar o quanto antes para a ilusão de mundo perfeito que os shoppings do mundo inteiro vendem.
Clay estava no modo caçador, completamente concentrado na sua presa, vendo e analisando cada pequeno gesto do lobisomem. Buscava interpretar os pensamentos de Derek a partir de seus atos e expressões faciais. Como nas diversas vezes que o vira farejando o ar. Ele o fazia de forma discreta. As pessoas ou não notavam ou não chegavam a achar estranho. Clay gostaria de saber de tipo de informações adicionais o olfato fornecia ao lobisomem.
Derek parecia também estar procurando por marcas de bala nas paredes, piso e forro do teto. Viu-o olhando com interesse para três pontos em especial. Queria crer que o xerife já tivesse recolhido todos os projéteis e cápsulas deflagradas. Isso era essencial para comprovar na justiça a identidade do atirador, desde que a arma fosse encontrada. Mas, por melhor que tenha sido a varredura do xerife, podia apostar que os sentidos aguçados davam ao lobisomem vantagem na busca. Examinaria depois aqueles pontos.
O que mais surpreendera Clay, no entanto, era a forma como o lobisomem tratava as pessoas que interrogava. Ele se mostrava respeitoso e cordial. Depois de vê-lo ameaçando o filho do xerife, imaginava-o arrogante e violento. No entanto, estava tendo uma prova que o lobisomem podia esconder sua verdadeira natureza quando era do seu interesse. Era mais dissimulado e ardiloso que imaginara.
A reação das pessoas indicava que sabiam de quem se tratava, mas não o que ele era. Ninguém agia como se soubesse que ele era um lobisomem. Não havia o olhar atravessado de quem procura uma diferença que deveria existir, mas que estava oculta. Não parecia haver nem mesmo o receio que as pessoas normalmente mostram quando estão a frente de um conhecido arruaceiro. Derek Hale não era temido como imaginou que fosse. Lembrou-se do xerife dizendo que não tinha conhecimento de nenhum ato agressivo por parte de Hale. Não acreditara antes e não acreditava agora. Mas, fazia todo o sentido que o monstro se esforçasse para criar uma imagem favorável para exibir de dia e só mostrasse quem ele verdadeiramente era protegido pelas sombras.
Beacon Hills era uma cidade pequena e os Hale tinham sido uma família importante. Os mais velhos deviam lembrar-se dele garoto e talvez ainda pensassem nele como a vítima inocente da tragédia que se abateu sobre sua família. Derek passara anos fora e retornara já adulto. O xerife pintara o quadro de alguém que se mantinha recluso. Provavelmente interpretavam isso como marcas da tragédia do passado. O monstro parecia estar usando isso para angariar simpatia e apoio da população.
Além disso, Derek Hale era um homem atraente. Alguém que seduzia mesmo quando não tinha essa intenção. Podia ver isso pela forma com que as jovens vendedoras o cercavam e competiam por um sorriso dele. O xerife dissera que ele não tinha uma namorada oficial e que não se envolvera com nenhuma garota da cidade durante todo aquele ano. O que isso podia significar?
Ao mesmo tempo em que vigiava Derek, Clay acompanhava as postagens #TEENWOLF em busca de algum detalhe relevante. Ficou surpreso com a reação das pessoas. Era natural que ficassem chocadas, surpresas ou mesmo incrédulas com a possibilidade de McCall ser um lobisomem. Era natural que ficassem indignadas com o vandalismo e a violência no shopping ou que alguém matasse um adolescente porque estava fazendo baderna num shopping. O que o surpreendeu Clay foi a comoção na cidade pela morte de Scott McCall.
Scott era uma celebridade na cidade, mas as pessoas não estavam chorando o atleta ou o ídolo. Estavam chorando o amigo ou o colega. Logo surgiram os tags #ILOVESCOTT e #SCOTT4VER, cheios de demonstrações de carinho. Aquele caso estava tomando dimensões que nenhum outro caso que trabalharam tinha assumido. E, a rigor, eles ainda não tinham feito absolutamente nada. Ainda estavam apenas coletando informações.
Clay precisava discutir urgentemente essas questões com Jake. Ele tenta mais uma vez contatar Jake pelo celular. Não conseguindo, resolve enviar uma mensagem de texto e isso o distrai por segundos. Quando ergue os olhos está cara a cara com o lobisomem. Os olhos de Derek cintilam em vermelho antes de retornarem ao verde.
- Pergunte!
- Hale?
- Pergunte! O que deseja saber? Deve estar curioso a meu respeito. Está aqui há quase uma hora me observando atentamente. Ou simplesmente me acha um homem atraente?
Clay fora pego de surpresa. O lobisomem era mais rápido do que imaginara. Distraíra-se teclando uma mensagem de texto e, nestes poucos segundo de distração, deixara-se apanhar. Podia estar morto naquele momento. Clay busca a arma no coldre sob o paletó, mas tem sua mão segura pela do lobisomem. Um aperto que, apesar de firme, não usa força excessiva.
Clay percebe que poderia libertar a mão e alcançar a arma. A pressão sobre seu braço fora reduzida. Mas, havia uma mensagem ali. O lobisomem queria deixar claro que aquele não era um gesto agressivo. Que assim como não aproveitara seu momento de distração para atacá-lo, estava dizendo que não o faria em seguida se não fosse forçado a isso.
- Vai sacar a arma? Pretende me matar aqui, na frente de todos? É assim que vocês agem?
Clay não responde. Homem e lobisomem ficam mais de um minuto se encarando. O olhar desafiador de Derek versus o olhar gelado do caçador. Derek permite que Clay veja seus olhos mudando para vermelho e retornando ao verde. Clay cerra um pouco mais os olhos e seu rosto mostra determinação e raiva contida.
- Vou soltá-lo. Não se preocupe que não farei nada de irresponsável aqui. Podemos resolver nossas diferenças em outro momento e outro lugar. Ok?
Sem esperar a resposta, Derek solta o braço de Clay, que suaviza o olhar, disposto a escutar o que o outro tinha a dizer. Porque era óbvio que, mais que oferecer respostas, havia algo que o lobisomem queria saber. Num gesto de paz, achou importante esclarecer que não tinham nenhuma responsabilidade pelo que havia acontecido naquele shopping.
- Não atirei no garoto.
- Eu sei. Ou não estaríamos aqui conversando.
- Jake, o meu parceiro, também não.
- Tem certeza?
Clay começou a abrir a boca, mas se calou. Ia dizer que tinha, mas a pergunta soara como uma afirmação em contrário e, de repente, ele já não tinha mais tanta certeza assim.
- Então não sabe realmente? Mas, não. Não foi ele. Foram os Argent.
- Sabe o porquê de agiram assim num lugar como esse?
- Tenho um palpite.
- O rapaz baleado é mesmo Scott McCall?
- O sangue no local é dele.
- Diga o que veio dizer? Ou acha que vindo até mim vai conseguir me intimidar?
- O que quero? Viver em paz. Mas, sei que não vão deixar. E, não vim aqui intimidá-lo. Mas, quero que saiba que também não fico intimidado pela reputação de vocês.
- Reputação? O que quer dizer com isso? Eu e meu parceiro fomos designados pelo FBI para investigar mortes suspeitas na cidade. Se não deve, não devia temer.
- Está mentindo. Não veio somente investigar. Sei quem você é. Sei o que faz. Vai negar ter executado a sangue-frio a alcatéia de Cody três anos atrás, agente Clay Miller?
- Houve duas mortes em Cody. Era preciso pará-los.
- Ao final de tudo, foram sete os mortos. Mesmo que vocês, CAÇADORES, não incluam seres como eu em sua contabilidade.
- Humanos estavam sendo mortos.
- TRÊS humanos acabaram mortos ao final de tudo. Melhor assim? Um deles MORTO POR VOCÊ. Ou já esqueceu que matou um SER HUMANO em Cody? INOCENTE ainda por cima. Uma garota cujo único crime foi gostar de um rapaz que ela não sabia que era um lobisomem. A namorada de um dos três rapazes que você abateu sem se importar em saber quem eram ou se eram importantes para alguém.
Clay estava se sentindo cada vez mais desconfortável com aquela conversa. Fora colocado na defensiva pelas acusações do lobisomem. Sabia que o homem sem alma que agira em Cody, embora seguisse a linha mestra de salvar pessoas de ameaças sobrenaturais, não se importava nem um pouco com os efeitos colaterais de sua ação. Aquela não era a forma como ele normalmente agia e ele sente necessidade de se explicar.
- Eu .. não estava no comando dos meus atos na ocasião.
- Mas, achou-se no direito de matar um adolescente que também não estava no comando dos seus atos.
- Ele tinha matado e continuaria matando.
- Ele tinha matado, mas poderia aprender a controlar-se. É possível, acredite. Mas, posso entender a lógica que usa para justificar para si mesmo tê-lo EXECUTADO. Concordo que as mortes não podiam ter acontecido. Eles deviam ter tomado providências para que não acontecesse. Soube que era a segunda lua cheia do rapaz. O alfa falhou com o rapaz e a cidade. Mas, os outros dois betas não eram responsáveis por essas mortes.
- Eles interferiram. Tentaram proteger o assassino. Ele matou e voltaria a matar. Eu sei.
- Acredito que fale com conhecimento de causa. Você também continuou matando, não é verdade? Quantos foram? Quando foi que recuperou o controle sobre seus próprios atos? Se é que já recuperou.
- Eu recuperei.
- Mas, continuou a matar. Aposentou o agente Clay Miller por um tempo e passou a matar com seu verdadeiro nome.
- O que quer dizer com meu VERDADEIRO NOME?
- Ankeny, Iowa. Eu vi o vídeo e sei do que você e seu irmão são capazes. O que fizeram foi monstruoso. Alguém precisa detê-los antes que voltem a – como é que você disse? - PERDER O CONTROLE. Eu vim avisá-lo que vou matá-los. Vou matar vocês dois. E que vou fazer isso não por ser o monstro assassino que acham que sou. Vou fazer porque agora sei os monstros assassinos que vocês são. E não vou deixar que continuem matando inocentes impunemente.
Dizendo isso, o lobisomem se afasta. Clay observa Derek se afastando e sente como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo.
Aquela era uma situação surreal. Algo que nunca imaginou viver. Ser acusado por um monstro de ser um monstro ainda pior do que ele. E o pior era não ter como se defender da acusação. A primeira parte do que o lobisomem dissera era a mais pura verdade. Matara inocentes. Não apenas a garota. Muitos outros. Algum dia voltaria a queimar no Inferno por todas aquelas mortes.
Eram, no entanto, inocentes das mortes em Ankeny. Mas, jamais poderiam provar. Os monstros transmorfos que os personificaram não existiam mais. Não havia provas que um dia existiram. E ninguém que os viu viveu para contar. A menos que o vampiro alfa ou o rei do Inferno aceitassem testemunhar a seu favor, era a palavra deles contra a evidência de 14 mortos e um vídeo revoltante que mostrava a forma fria e os comentários debochados que faziam a cada assassinato cometido.
Clay nunca buscara reconhecimento e nunca esperara recompensas, mas aquilo era muito injusto. Tanto sacrifício e seriam para sempre lembrados como assassinos desumanos. Gostaria de gritar para o mundo que aqueles não eram eles, que eles jamais fariam algo parecido. Mas, quem acreditaria nele? Como negar que aqueles rostos eram os deles. Que aquelas vozes soavam como as deles. Que aqueles gestos e maneirismos eram em tudo iguais aos deles. Mas, o pior era escutar a acusação saindo da boca de um lobisomem.
Nas semanas seguintes à série de massacres, Frank apagou os vídeos dos massacres da lanchonete de Ankeny e da agência bancária de Jericho de uma infinidade de sites. Mas, é impossível fazer desaparecer completamente algo da internet. Só podiam contar com a memória curta das pessoas e o excesso de informações a que eram submetidas diariamente. Teriam para sempre essa espada pendendo sobre suas cabeças.
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Clay deixou o shopping ainda abalado pelas palavras de Derek. Era como se os poucos que sua versão sem alma matara pesassem mais na balança que os muitos que salvara ao longo de tantos anos de sacrifício de sua vida pessoal, se é que um dia ele teve direito a ter uma vida pessoal. Estava se sentindo exausto. Esgotado. Injustiçado. Tudo que queria naquele momento era uma dose de whisky. Ou duas.
Foi grande a surpresa ao encontrar na frente do shopping a Srta. Morrell aguardando por ele.
- Achei que estivesse precisando de uma carona. Mas, vejo que está precisando mesmo é uma dose dupla de whisky. Se me permitir acompanhá-lo ...
NOTAS EXPLICATIVAS:
1) Quem acompanha Supernatural percebe a importância nesta fic dos acontecimentos do episódio 6 da 7ª temporada ('Slash Fiction'). Ao final do episódio, os irmãos foram considerados oficialmente mortos. Mas, os vídeos do massacre na agência bancária de Jericho e na lanchonete de Arkeny tiveram repercussão nacional e seus rostos tornaram-se conhecidos. Por isso, os cuidados quanto às suas verdadeiras identidades. Se um dia forem presos, serão condenados à morte por massacres em cinco cidades.
2) O vídeo a que o Derek se refere é esse:
http-:-/-/-www-.-youtube-.-com-/-watch?v=J48gZLs4Nsk
[retire os traços (-) e assista]
3) Claro que quem mostrou o vídeo para o Derek foi o Peter. Mostrou para o Derek, mas não comentou com o xerife.
4) A referência a não ter uma alma situa os acontecimentos de Cody no período entre o final da 5ª e o início da 6ª temporada de Supernatural.
5) Tentei colocar no texto deste capítulo da fic todas as informações necessárias para quem não acompanha Supernatural se situar, mas sem me estender sobre o que são as criaturas e o que pretendiam (além de ferrar os irmãos, é claro).
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: CLIMA DE ROMANCE E SESSÃO DE ANÁLISE NUM PUB
11.08.2013
