CAPÍTULO #19
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LOCAL: PARTE ALTA DO RIO BEAVER CREEK
UMA HORA DEPOIS DE TERMINADO O TIROTEIO NO BEACON HILLS FASHION MALL
Uma forma sinuosa se move próximo ao fundo lodoso do rio no trecho entre a reserva e a cidade. Naquele trecho há abundância de peixes e a água que flui é cristalina e sem contaminação.
Uns poucos quilômetros abaixo, a situação muda. A presença humana se faz sentir muito antes do rio chegar aos limites da cidade.
Primeiro, aparece lixo. Principalmente latas vazias de cerveja e refrigerantes e embalagens de alimentos industrializados.
Depois, aparece esgoto, material orgânico triturado nas pias domésticas e resíduos de detergente. Beacon Hills não é uma cidade industrial, mas mesmo assim um grande volume de resíduos oleosos acaba no rio.
O rio não está morto, mas, no trecho que passa pela cidade e nos cinco quilômetros rio abaixo, vivem somente as espécies de peixe mais resistentes à poluição.
'Malditos humanos! Contaminam tudo o que tocam. Contaminam as águas, a terra e o ar. Se pudesse, purificaria o mundo e eliminaria qualquer sinal da passagem dessa espécie maldita sobre a face da Terra. Faria desaparecer os homens, suas cidades, suas máquinas e suas guerras'.
Não entendia os humanos fazerem tanto alvoroço quando uma delas devorava um deles. Eram os primeiros a matarem-se uns aos outros. Eram cruéis com os de sua própria espécie. Destruíam o meio ambiente por ganância. Eram ELES os verdadeiros monstros. Verdadeiras aberrações da natureza. Natureza que nunca respeitaram. Estavam sempre em guerra e cada guerra trazia mais devastação.
'Se não forem exterminados, acabarão por destruir o planeta ou cobri-lo com uma grossa camada de lixo'.
A cada ano, os malditos tornavam a sobrevivência de sua espécie mais difícil. Não é só a poluição que trazem. São eles próprios. Humanos estão em toda a parte. Já não existem lugares onde possam considerar-se a salvo deles. Têm olhos até no espaço. Seus satélites podem esquadrinhar cada centímetro da floresta mais remota. No passado, se fossem descobertas, eliminavam o intruso e seguiam com suas vidas até o próximo intruso aparecer. Agora não. Havia humanos que se ocupavam exclusivamente de investigar cada desaparecimento suspeito. Ao matarem um, arriscavam-se a atrair dez.
Humanos reproduzem-se sem controle. Já são mais de sete bilhões. Eliminaram seus predadores ou os forçaram a viver escondidos. Como fizeram com sua espécie, hoje quase extinta. Sua espécie foi uma das muitas que foi vítima da intolerância humana. Humanos não dividem nada. Pegam tudo para si. Podem conviver com cães, vacas e ovelhas, mas não com outras espécies pensantes. Não aceitam nada que lhes faça concorrência.
O território ancestral de sua espécie encolhia. Habitavam originalmente rios e lagos das florestas frias que um dia ocuparam todo o norte e o centro da Europa e mais a parte européia da antiga União Soviética. Mas, essas florestas foram encolhendo e hoje estavam reduzidas a ilhas cercadas de cidades e plantações. Mesmo assim, o mar aberto nunca lhes pareceu uma opção. Sua espécie não é marinha. O mar é grande e assustador. Embora tenha quem as chame de sereias, são muito diferentes das sereias do mito grego. As sereias do mito não são uma espécie. São apenas três e, quando morrerem, não haverá outras.
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Ela veio para o Novo Mundo na esperança de encontrar grandes áreas ainda intocadas pelo homem e livres de poluição. Veio em busca de um lugar que desse uma nova esperança de sobrevivência à sua espécie. E não é agora que encontrou o companheiro certo que vai desistir.
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LOCAL: SHAMROCK IRISH PUB
MEIA HORA APÓS CLAY DEIXAR O BEACON HILLS FASHION MALL
- Então, você é professora de francês e psicóloga?
- Sou formada em psicologia, mas trabalho como orientadora educacional no BH High. Os alunos tiram os professores do sério na sala de aula e os professores os mandam para mim. Assim, o diretor não é incomodado e os corredores permanecem vazios.
Clay abre um belo sorriso. Hesitara a princípio, mas agora estava contente de ter aceitado o convite e a recomendação do lugar. Marin era uma companhia agradável, o pub era simpático e ele estava precisando relaxar um pouco. Mas, um caçador é um caçador mesmo nos momentos de folga e Clay não consegue evitar de perguntar sobre o lobisomem teen.
- Algum estudante problemático?
- Existe adolescente que não seja problemático? Se existe, é caso para estudo.
- Foi professora de Scott McCall, o rapaz baleado e talvez morto no shopping?
- Fui. Horrível imaginar que ele possa estar morto. Acho que não é só você que está precisando de uma dose dupla de whisky.
- E como ele era?
- Um amor de pessoa.
- Sério? Assisti ontem um treino de lacrosse em que ele fez uma falta feia e foi expulso.
- Não julgue Scott por esse episódio. Garanto que ele é .. ou era .. um ser humano excepcional. Um ótimo garoto. Era impossível conhecê-lo e não gostar dele.
Clay ficou um tempo olhando para Marin Morrell e absorvendo aquela informação. Já estava na sua segunda dose dupla e os efeitos do álcool começavam a se fazer sentir. Respira fundo e afasta o copo quase vazio. Não pretendia engrenar uma terceira dose. Não depois da ameaça explícita do lobisomem. Vira o quanto ele podia ser rápido. Para enfrentá-lo e sobreviver, ia precisar de todos os seus reflexos. E, no seu ramo, uma batalha não tinha hora para acontecer. Podia começar quando pusesse os pés fora do pub. Ou mesmo antes. Deixaria para encher a cara quando tudo terminasse.
Mas, o álcool também tinha seu lado bom. Permitia que ele esquecesse por um minuto o lobisomem. Que olhasse para Marin e notasse a mulher atraente que ela era. Já reparara que ela era inteligente e intuitiva, qualidades que apreciava numa mulher. Não era como Jake, que olhava primeiro para o tamanho dos seios. Se bem que ela também não fazia feio neste quesito.
- Agora sim. Posso ver que está num astral melhor. Você saiu arrasado do shopping. Viu algo tão terrível assim na cena do crime?
- Não foi algo que vi. Foi algo que me disseram.
- Se incomodou, é porque é uma questão mal-resolvida na sua cabeça. Quando acontece algo assim, vale a pena trabalhar essa questão para que não volte a assombrá-lo no futuro. Coisas que ficam enterradas no peito acabam apodrecendo e contaminando outros aspectos da vida da pessoa.
- Então, é assim quando saímos com uma psicóloga pela primeira vez? Ela fica analisando cada palavra que dizemos para tentar descobrir se existe algo de sinistro no nosso passado.
- Vício profissional. Eu busco indícios de problemas para ajudar a pessoa. É o lado bom daquilo que faço. Ajudar as pessoas. Acho que às vezes uma palavra pode ajudar muito. Talvez você ache uma visão muito simplista.
- Não. Acho legal. O que eu faço também é para ajudar as pessoas. Só que de uma maneira diferente.
- Confesso que essa história de agente do FBI ao mesmo tempo em que excita, também assusta um pouco. Tem todo um contexto de glamour e de violência associados. É como se fosse um mundo paralelo, envolto em segredos, onde pessoas usam armas e matam pessoas. Você deve achar ridícula essa minha visão. Mas, sabe como é, eu sou apenas uma professora de cidade do interior.
- Tem um pouco – ou muito – disso sim. Mas, veja o outro lado. O mundo esconde ameaças que a maioria das pessoas nem toma conhecimento que existe. Essa ignorância traz uma sensação ilusória de segurança. Permite que as pessoas toquem suas vidas despreocupadas. Mas, as ameaças estão lá e volta e meia alguém descobre isso da pior maneira possível. E essa ilusão de segurança só se mantém porque tem gente que age nos bastidores protegendo as pessoas das ameaças e do conhecimento de que existem ameaças.
- Você é uma destas pessoas? Essas que combatem ameaças invisíveis para proteger pessoas como eu?
Clay percebe que aquilo está parecendo papo de conquistador barato que tenta vender uma imagem de herói para impressionar a garota e levá-la para a cama. Fazia o que era necessário. Não se via como um herói imaculado, mas como alguém que aceita sujar as mãos e fazer o serviço desagradável.
- Estou mais para o grupo que descobriu da pior maneira que essas ameaças existem. Tudo que faço é para evitar que aconteça com mais alguém.
- Não quero ser invasiva, mas vai se sentir melhor se desabafar com alguém. Às vezes, fica mais fácil falar coisas muito íntimas para um completo estranho. Ou para uma total desconhecida para quem se pediu uma carona.
- Obrigado. Eu logo vou estar bem. Eu sobrevivi ao Inferno. Vou sobreviver a algumas verdades desagradáveis, como as que despejaram na minha cara há pouco.
- Sobreviver, tenho certeza que vai. Estou falando de extrair algo bom de uma experiência ruim.
- Não se preocupe comigo. Não foi nada demais. E só que às vezes .. Você dá tudo de si e ninguém nunca vai saber o quanto aquilo lhe custou.
- Sei que é um agente do governo e que não pode comentar detalhes dos casos em que trabalha, mas pode omitir tudo aquilo que considere comprometedor. Não pretendo ameaçar a segurança nacional. Quero apenas que você se sinta melhor.
Clay não era de fazer confidências. Fazemos confidências a amigos. E Clay não se lembrava de ter tido um dia um amigo que pudesse chamar de seu. Alguém da sua idade, que estivesse vivendo os mesmos conflitos e fazendo as mesmas descobertas. Um segundo irmão. Aqueles que chamava de amigos, haviam sido amigos de seu pai. E agiam um pouco como se fossem seus pais. Aliás, um pouco não. Muito. Tinha o Jake, é claro. Mas, Jake não era seu amigo. Jake era seu irmão. Não era a mesma coisa.
- Não escolhi essa vida. Ela me foi imposta. Sabe esse lance de 'negócio da família'? Por duas vezes eu tentei seguir outros caminhos. E, no entanto, aqui estou eu de volta. Mais uma vez.
Clay não saberia explicar o porquê de começar a falar coisas tão enterradas no seu peito. Talvez porque estivesse se sentindo sufocado por guardar aquilo por tanto tempo. Talvez porque Marin parecesse confiável. Talvez porque estivesse se sentindo fragilizado.
- Se não gosta, se está te fazendo mal, o que te obriga a continuar? Mude! Todo mundo merece ser feliz. Não deu certo uma vez? Duas vezes? Insista. Tantas vezes quantas forem necessárias. É a sua felicidade que está em jogo.
- Há algo mais importante em jogo. Vidas. As vidas de gente inocente.
- Imagino que há muitos outros que podem continuar o seu trabalho. O FBI emprega milhares de gatões sarados, de terno preto e óculos escuros.
- Não é simplesmente um trabalho que eu estaria deixando. É toda uma vida. Eu sei que não dá para salvar todo mundo. Mas, também não posso fingir que não é comigo. Um dos motivos para eu estar me sentindo desconfortável, é que foi exatamente isso que eu acabei de fazer. Fingi que não tinha nada com isso e tentei viver um amor. Mas, saber que neste tempo alguém passou o diabo e teve perdas inaceitáveis porque eu me omiti está sendo devastador.
- Mas, é como você mesmo disse. Não dá para salvar todo mundo. Você não pode puxar essa responsabilidade somente para você.
- Eu tenho um irmão. Ele é muito determinado. Ele sempre soube fazer uma distinção muito clara entre o que é certo e o que é errado. É como um dom que ele tem. Ele sempre soube escolher o caminho certo. Já eu me perdi diversas vezes no caminho.
- E você acha que ele está novamente certo e você novamente errado?
- Ele sacrificou muito por mim. Mais do que qualquer um possa imaginar ou suportar. E eu mais de uma vez o desapontei. E mesmo assim eu tenho certeza que ele seria capaz de sacrifícios ainda maiores por mim.
- Se é realmente assim, ele vai ficar feliz de ver que você está feliz.
- Uma parte dele eu sei que vai. A outra vai achar que eu estou simplesmente sendo egoísta.
- Buscar a própria felicidade não é ser egoísta.
- Mas, ele vai continuar. Mesmo sozinho. E, neste ramo, é preciso alguém que proteja a nossa retaguarda. Ele precisa de mim. Sempre vai precisar. Eu não posso falhar com ele mais uma vez.
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Do lado de fora do pub, ouvidos sensíveis escutaram cada palavra sussurrada do diálogo entre Clay e Marin. A expressão invariável do rosto do lobisomem não permite prever seus próximos passos.
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: LOBO SOLITÁRIO É LOBO INFELIZ
NOTAS:
1) Um pouquinho da história da Irina e, pode não parecer, mas o diálogo entre Clay e Marin é de fundamental importância para a conclusão (ainda distante) da fic.
2) As identidades falsas começaram a ruir e em breve os agentes Clay e Jake passarão a ser chamados pelos seus verdadeiros nomes.
19.08.2013
