CAPÍTULO #20
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LOCAL: BEACON HILLS HOSPITAL
INÍCIO DA NOITE
- Já disse que nada disso é necessário. Mais uns minutos e eu vou estar bem.
- Xerife, o policial fez muito bem em trazer o senhor. Sua pressão subiu muito. Precisa ser medicado. E essa dor no peito? Precisa passar por exames. O senhor vai passar a noite AQUI em observação.
- Fora de questão! Eu não posso ficar aqui repousando enquanto a cidade pega fogo.
- Xerife, o senhor manda daquela porta para fora. Aqui dentro, mando eu e os outros médicos. Estamos entendidos?
- Xerife, pense que o mais importante é a sua saúde. Lembre-se que tem um filho e que ele precisa do senhor. Sei o que estou falando. Conheço o Stiles. Mas, não se preocupe. Eu cuido dos problemas da delegacia. Conheço os procedimentos. Vou ficar de olho nos resultados da perícia e preparo as intimações para começarmos a tomar os depoimentos dos funcionários do shopping a partir de amanhã à tarde.
- Chad! Eu preciso conseguir com o juiz um mandato de busca para entrar na casa de Christian Argent. É preciso também intimar Vernon Boyd a prestar depoimento na delegacia.
- O juiz não está na cidade. Ele saiu de férias e só volta na semana que vem. Saindo daqui, eu posso ir atrás deste tal de Boyd e entregar a intimação. Aviso também o Stiles.
- Essa do juiz estar fora .. Eu PRECISO deste mandato. É muito importante. Isso não pode esperar.
- O senhor sabe como é o juiz Murray. Conhece o gênio horrível que ele tem. Ele detesta ser incomodado nas férias. Mas, se é tão importante assim, EU falo com ele. Eu consigo que ele expeça um mandato.
- Ele não vai escutar você, Chad.
- Xerife, esqueceu sou NETO dele? O neto predileto.
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- Acabaram os exames?
- Por ora sim. Agora é esperar os resultados. Alguns são feitos fora daqui. Os resultados mais importantes só estarão disponíveis amanhã.
- A enfermeira McCall ..
- Coitada. Ela estava atendendo um paciente quando o idiota do servente entrou dizendo que o filho dela era um lobisomem e que tinham matado ele a tiros no shopping. Só matando alguém que dá uma notícia dessas desta maneira para uma mãe. Mas, convenhamos: um lobisomem? Vê lá se isso existe. Esse pessoal acredita em qualquer coisa.
- Como ela está?
- Ela ficou desesperada. Largou tudo o que estava fazendo. Queria ir de qualquer maneira para o shopping. Saiu como estava. Ela foi para o meio da rua tentando parar um carro que a levasse lá. Quase foi atropelada.
- Pobre Melissa ..
- Não podíamos deixá-la sair por aí naquele estado. Trouxemos a Melissa de volta para o hospital e um enfermeiro aplicou nela uma injeção com sedativo. No momento, ela está bem. Está dormindo. Só vai acordar amanhã.
- Eu quero vê-la.
- Ela está na outra ala do hospital. Xerife? Volte a deitar, por favor. O senhor precisa descansar. Não pode ir até lá.
- É uma velha amiga. Eu quero vê-la. Por favor, apenas me diga onde ela está.
- Xerife, volte para a cama!
- Pode deixar que eu mesmo descubro onde ela está. Ei! Que diabo .. O que é isso?
- Um sedativo. Isso vai acalmá-lo. O senhor não está em condições de sair por aí, xerife.
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LOCAL: CEMITÉRIO DE BEACON HILLS
INÍCIO DA NOITE
Derek já tinha tentado diversas vezes fazer contato com cada membro de sua alcateia e nada. Nem Peter, nem Boyd, nem Erica, nem Isaac. Ninguém atendia o celular. Estava ficando angustiado. Queria reunir o grupo. Era importante reafirmar que eles formavam um grupo. Mais que um grupo, uma alcateia. Principalmente agora que estavam ameaçados. Juntos, eram fortes. Divididos, não teriam qualquer chance de vitória. Pior, acabariam mortos.
Era importante que discutissem os acontecimentos do shopping e o que poderia ter acontecido com Scott. O porquê daquele ataque inesperado. Porque o Scott? Qual a verdadeira intenção dos Argent? Precisavam chegar juntos a uma conclusão e discutir uma linha de ação conjunta. Se os Argent se aliassem aos caçadores e partissem com tudo para cima deles, seriam massacrados.
Os caçadores já sabiam sobre ele e sua família antes mesmo de chegarem à cidade. Acabaram descobrindo sobre Scott. Mas, sozinhos, talvez não chegassem aos outros. Já os Argent conheciam a todos. Quem eram, onde moravam, aonde podiam ser encontrados. Podiam inclusive ter colocado seus homens para vigiá-los e saber onde estavam todos naquele exato momento. Se os Argent resolvessem partir para um acerto de contas, estavam perdidos.
Allison fora cruel jogando na sua cara que ele responsável pelas vidas e pelos atos dos garotos que transformara. Mas, o que ela disse era verdade. Tornara-se responsável pelo destino deles. Eles tinham seus problemas antes, mas todos reconheciam seus direitos fundamentais. Seu direito à vida. Agora não. Podiam ser caçados como animais e mortos por não serem humanos. Eram monstros. Não tinham direitos civis reconhecidos.
Talvez não tivesse o direito de transformá-los. Nem mesmo se implorassem como Jackson tantas vezes fez. Ao menos Jackson voltara a ser humano e deixara de ser sua responsabilidade. Se pudesse voltar no tempo, não cometeria o mesmo erro. Não transformaria ninguém.
Fora egoísta. Sentia-se sozinho e queria a companhia de iguais. Faz parte de sua natureza buscar segurança emocional e apoio num grupo. É assim com os lobos. Lobos solitários são emocionalmente instáveis e tornam-se violentos. Queria ter de volta uma família. Na impossibilidade de trazer de volta a sua, quis criar algo que fosse parecido com uma. Se ao menos Scott o tivesse aceitado como parceiro .. Se tivessem criado laços fortes de amizade .. talvez não tivesse transformado os outros.
Na ocasião, estava fragilizado. Laura estava morta. Ver a Mansão Hale em ruínas o deprimia. Kate voltara e reabrira as feridas mal cicatrizadas de seu amor traído. Ela nunca se arrependera do que fizera. Nunca o amara. Zombara do amor que ele um dia lhe dedicara. Fora capaz de torturá-lo só pelo prazer de causar-lhe dor. Sobrevivera, mas saíra quebrado desta nova decepção.
Sentia-se sozinho e excluído. Suas tentativas de aproximação eram mal interpretadas. Scott o rejeitava. Stiles o hostilizava. O que lhe restava? Acreditou que poderia ajudar outros desajustados. Alguém que precisasse dele tanto quanto ele precisava de alguém. Quis restaurar a auto-estima daqueles garotos. Transformou-os. Mas, não foi como pensou que seria. Não foi bom para ninguém. Ainda se sentia sozinho.
Nascera um lobisomem. Tinha tantas habilidades. Tanto potencial. E tinha que esconder o que era. Como se fosse motivo de vergonha. Não era humano, mas também tinha sentimentos. Queria o mesmo que todo mundo. Viver em paz. Ter uma família. Amar. Ser amado. No quê ele era diferente dos outros? Porque não podia viver integrado à sociedade humana como um bom cidadão?
Não era um assassino. Não conseguiria matar Kate apesar de tudo que ela fez e continuou fazendo. Apesar da dor, não saíra em busca de vingança pela morte de Laura. Dera um crédito à justiça dos homens. Deixara que a morte de Laura fosse investigada e esperou que a polícia chegasse aos culpados. E, no final, o culpado era Peter. Foram traídos, Laura e ele, por alguém da própria família.
Sempre que visitava Peter no hospital, revoltava-se de vê-lo catatônico, com cicatrizes horríveis em metade do corpo, e sentia-se culpado por sua condição. Peter fora vítima de Kate. Ela usara informações que extraíra dele, Derek, para destruir a família Hale. Se ao menos Kate tivesse completado o serviço e o matado junto com os seus .. Como saber que eles morreram de forma tão cruel e não se considerar culpado simplesmente por ainda estar vivo?
Somente Peter sobrevivera. Peter era toda a família que lhe restara. Queria de alguma maneira ajudar o tio. Livrá-lo da dor. E, no final .. quanto desperdício de sentimento. Se soubesse na ocasião de toda a verdade .. que Peter tinha sido capaz de matar Laura para tornar-se um alfa e assim acelerar seu processo de cura ..
Matar Peter não fez que se sentisse vingado. Não lhe trouxe qualquer tipo de satisfação. Somente fez aumentar o seu sentimento de culpa. Peter fizera algo monstruoso e não merecia seu perdão. Mas, o que Kate fizera a Peter também foi monstruoso e ele, Derek, tivera parte nisso. Quando Peter voltou dos mortos, preferiu deixar o passado no passado e aceitar suas desculpas pela morte de Laura. Mesmo sabendo não serem sinceras.
Precisava de companhia, mesmo que fosse a de um inimigo.
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Derek estaciona pela segunda vez naquele dia em frente ao portão do cemitério. Fora o vento na copa das árvores, o silêncio era completo. Ainda não escurecera completamente, mas um humano teria dificuldade de enxergar o caminho nas sombras. Tecla o número de Isaac. Escuta ao longe o aparelho tocando. No terceiro toque, entra a mensagem automática. Ele liga novamente. Liga uma terceira vez.
Achara.
Derek se agacha e pega o celular deixado em frente à lápide do túmulo do pai de Isaac. Junto ao celular, um ramo de wolfsbane com duas flores violetas.
Aquilo era ao mesmo tempo uma mensagem e um aviso.
Isaac fora levado. Se o celular tivesse sido levado junto, o GPS do aparelho permitiria rastreá-lo. Sabia que isso era possível, embora não soubesse como fazer para ter a informação. Peter talvez soubesse. Mas, deixar o celular justamente ali para que fosse encontrado? Alguém queria que soubessem que algo acontecera a Isaac. Mas, quem? Os Argent? Ou o outro caçador? O que se chamava Dean.
Não dava para saber se Isaac estava vivo ou morto. Não farejava sangue nem encontrara cartuchos de bala. Dificilmente haveria testemunhas. Era muito raro alguém vir ao cemitério perto do anoitecer. O ataque contra Isaac fora muito diferente da ação contra Scott na forma. Mas, não no resultado. Perdera mais uma beta. Talvez esse fosse o objetivo. Deixá-lo sem aliados.
O cheiro intenso de wolfsbane disfarçava o cheiro da pessoa que estivera ali. O cheiro não vinha do pequeno ramo da flor. O óleo responsável pelo perfume, extraído da flor, fora aspergido por toda a região. Fosse quem fosse sabia disfarçar bem o próprio cheiro pessoal.
Era por isso que ninguém atendia os celulares? Foram todos capturados? Estavam todos mortos?
Estava sozinho?
Estava numa encruzilhada. Se cruzasse a linha, não haveria volta. Depois que matasse o primeiro, teria que continuar matando. E aí os Argent teriam a desculpa que precisavam para investir contra todos eles. A guerra estaria declarada. Mas, não era o que já estava acontecendo? A frágil trégua com os Argent se quebrara. Scott e Isaac podiam já estar mortos.
Os caçadores eram assassinos frios. Vira nos olhos de Clay que ele não hesitaria em matar. Mais do que isso, que acreditava que matar era a coisa certa a fazer. Seus sentidos de lobo confirmaram que ele não estava mentindo quando disse que não estava no controle de seus atos em Cody. Mas, o que isso significava? Vira o vídeo do massacre de Ankeny. Era outro exemplo de perda de controle? Era sempre assim? Eles perdiam o controle e saíam matando? Um massacre, mesmo que as vítimas fossem humanas, era sempre motivo de brincadeiras? Até onde sabia, eles matavam sorrindo.
E havia Irina. A sereia continuaria matando cidadãos indefesos de Beacon Hills. A começar por Stiles. Era o único que podia salvá-lo. Se acabasse morto, Stiles estava condenado.
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Derek solta um uivo de desespero e frustração que pode ser ouvido da cidade.
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LOCAL: BEACON HILLS PRESERVE LODGE
INÍCIO DA NOITE
- Obrigado pela carona. Não é o fim de noite que eu queria proporcionar, mas é que estou realmente preocupado com o meu parceiro. Não consigo contato com ele desde o meio dia e o dia foi cheio de acontecimentos. É IMPOSSÍVEL que ele não saiba de nada. É por isso que não entendo O PORQUÊ dele não ter feito contato até agora.
- Você disse que ainda fica uns dias na cidade. Portanto, esse não precisa ser um adeus.
- E não será, Marin. Mas, eu recebi ameaças e, até que eu afaste a ameaça, acho irresponsável marcar um novo encontro. Eu estaria colocando em risco a sua vida. Aceitar que me trouxesse até aqui já foi muita irresponsabilidade minha.
- Mais um motivo para eu te trazer. Essa estrada quase não tem movimento nesta época do ano. Não tem iluminação. Sem falar que seria uma caminhada de mais de uma hora. Quanto a um novo encontro, você tem o número do meu celular. Ficarei contente se ligar.
Clay sorri e aproxima seu rosto do rosto de Marin. Poderia ter surgido um beijo, mas Clay não tinha certeza se voltaria a encontrar Marin e não lhe pareceu certo criar expectativas. Então, ele apenas deixou suas testas se tocarem, numa despedida muda.
O rosto de Amelia passou por sua mente só para quebrar o encanto daquele momento.
Clay esperou o carro desaparecer de vista para olhar em direção à janela do quarto 232. As cortinas não estavam completamente fechadas e, pela fresta, via-se que as luzes estavam acesas.
Esperava que Jake aparecesse na janela, afinal o sensor da câmera devia ter bipado quando o carro se aproximou.
Depois de passar pela portaria e pela desagradável e desinteressada recepcionista, Clay retira a arma do coldre, destrava e sobe os degraus silenciosamente segurando a arma com as duas mãos. O lobisomem podia muito bem ter vindo atrás de Jake. Fora irresponsável. Devia ter voltado direto e alertado o irmão da ameaça do monstro. Se algo de mal tivesse acontecido a Jake, jamais se perdoaria.
Encosta o ouvido na porta. Havia música, mas num volume muito mais baixo do que o que Jake costumava escutar os rocks que gostava. A música que tocava era agradável, mas não imaginava o irmão escutando aquilo e gostando. Aliás, não imaginava o irmão escutando Beyoncé em qualquer contexto.
Não estava com a chave. Testou a maçaneta. Destrancada. Mau sinal. Jake não costumava ser tão displicente com a segurança. Havia algo de muito errado. Girou a maçaneta o mais silenciosamente possível e deixou a porta entreaberta. Feito isto, afastou-se, meteu o pé escancarando a porta e entrou com a arma empunhada preparado para tudo.
Não. Não estava preparado para tudo. Não estava preparado para AQUILO.
- VOCÊ? O QUE ESTÁ FAZENDO AQUI?
NO PRÓXIMO CAPÍTULO: DO LADO DE FORA DO ARMÁRIO DO CAÇADOR
25.08.2013
